- há 2 dias
Por trás da voz marcante, dos versos emocionados e da defesa apaixonada da cultura popular nordestina, existe um menino de Juazeiro do Norte que cresceu sonhando com o Recife sem sequer saber "para que lado ficava”. Décadas depois, esse mesmo menino se transformou em Santanna, o Cantador — um dos nomes mais respeitados do forró tradicional e um artista que carrega no peito o orgulho de ser nordestino.
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CriatividadeTranscrição
00:00No coração do Recife, o São João já começa a tomar conta da cidade.
00:04E foi no sítio da Trindade, palco histórico de grandes celebrações juninas,
00:08que o sócio IA1 encontrou Santano Cantador
00:11para o primeiro episódio da série especial Acordes Juninos.
00:15Nascido em Juazeiro do Norte, no Ceará,
00:17o artista de 66 anos carrega mais de três décadas de carreira,
00:22poesia e tradição, mantendo viva a essência do autêntico forró nordestino.
00:28Santano Cantador, menino de Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero,
00:32que sonhava com o Recife quando era pequeno.
00:34Não sabia nem para que lado ficava, mas já sentia aquela vontade enorme de ser do Recife.
00:40E fui adotado por Recife, sou cidadão do Recife, graças a Deus.
00:44Feliz por isso.
00:45Torcedor do Esporte Clube do Recife, do ICASA, de Juazeiro do Norte.
00:48São dois times que eu torço no Brasil.
00:50E qualquer um desses jogando com a seleção brasileira, você já sabe por quem eu vou torcer.
00:54Eu torcer por eles.
00:55Pelos meus.
00:58E acredita.
00:59Acredita no sonho de ver essa preconização imensa da nossa cultura popular nordestina.
01:05Ela ainda vai ter a alta e vez que merece.
01:07Eu não sei.
01:08Eu não sei mensurar qual é a minha importância, não.
01:10Mas eu sou muito verdadeiro no que eu faço.
01:13Quem tem que dizer se eu tenho importância ou não é o povo.
01:15Gostasse da resposta.
01:18Veja bem, eu sou nordestino e gosto de ser nordestino.
01:22Respeito muito a minha nação nordestina, meu povo, minha gente.
01:25Porque são inteligentes demais.
01:27A inteligência emocional enorme tem que ser medida pela NASA.
01:31A inteligência emocional é o que a gente chama de presença de espírito.
01:34E eu, como tu falei, eu sou muito verdadeiro.
01:37Eu amo aquilo que eu faço.
01:39Porque uma coisa é gostar do que faz e outra coisa é fazer o que gosta.
01:43Então eu continuo acreditando nesse sonho e vou até onde Deus me permitir.
01:47É engraçado que essa música, eu conheci essa música, Ana Maria, de Janduí Finisola.
01:52Onde eu tinha 12 anos de idade.
01:54O primeiro disco dos três do Nordeste, 1972.
01:58Eu ouvi a música e me arrebatou.
02:00Eu era uma criança, 12 anos, né?
02:02Aí me arrebatou.
02:03Mas eu jamais imaginaria que aquela música ia ser a música da minha vida.
02:06Conheci o personagem pra quem foi feita a canção.
02:09Lá de Caruaru.
02:10Pessoa magnífica, maravilhosa.
02:13Depois disso eu descobri que a música é quem escolhe o intérprete.
02:17Porque essa música esperou por mim 30 anos pra poder estourar.
02:20Ninguém regravou essa música.
02:22Então é um mistério.
02:23É um mistério.
02:24Mas eu acho que a música é quem escolhe o intérprete.
02:27E ela me escolheu.
02:28Loura, dos Olhos Verdes.
02:30Teve um romance com o autor da música.
02:32E aí terminou não dando certo.
02:34E assim pode ir.
02:36Teve uma certa vez que eu fui visitar meu cunhado no hospital lá em Caruaru.
02:40Aí quando eu cheguei lá, eu tava nos corredores do hospital.
02:43Uma pessoa me abordou e disse assim.
02:45Flávio José.
02:46Aí eu disse.
02:47Eu acho que o senhor tá enganado.
02:49Eu não sou Flávio José.
02:50Ele falou, tu quer saber mais do que eu?
02:52É coisa engraçada, né?
02:54Quando eu fui barrado lá em Arlindo também.
02:56Arlindo dos Oito Bastos fazia um forró lá em Dois Unidos.
02:59E eu ia fazer um show lá.
03:01Inclusive um show beneficente.
03:03Aí meu cartaz na parede.
03:04Naquele tempo ainda se usava, né?
03:06O cartaz.
03:06Aí lá vou eu e minha mulher.
03:08A gente foi entrar.
03:08Aí o bilheteiro disse.
03:10Tem que comprar o ingresso.
03:11Mas eu não tava caracterizado, entendeu?
03:13Eu tava sem a minha indumentária.
03:15Aí eu olhei pra ele.
03:16Disse.
03:16Você tem certeza disso?
03:17Eu disse.
03:18Tem.
03:18Absoluta.
03:19É tanto.
03:19Aí diz o valor.
03:20Aí eu fui na bilheteria.
03:21Comprei os dois ingressos.
03:22Meu irmão.
03:23Entrei.
03:23Fui fazer o show.
03:24Aí depois quiser devolver o dinheiro.
03:26Eu digo.
03:26De jeito nenhum.
03:27Vou perder uma história dessa por causa de dois ingressos.
03:29De jeito nenhum.
03:31O que eu acho bonito também é eles serem sinceros e dizer que eu, Santana Cantador,
03:36Petrúcio Amorim, Maciel Melo, nós servimos pra eles de inspiração.
03:41Então eu acho bonita essa honestidade, sabe?
03:43E o João Gomes é um fenômeno.
03:46É uma dádiva do céu.
03:47Esse menino, ele tem que ter muitos anos de vida porque ele tá fazendo a nação forrozeira
03:52acreditar mais ainda no trabalho, no forró.
03:55Ele furou a bolha.
03:56E vive furando bolha por tudo que é lugar.
03:58É maravilhoso o João Gomes.
04:01Aí você vê.
04:02Quando eu digo que a música escolhe o intérprete, esse tambureto forró é um exemplo.
04:06Ela foi gravada por Luiz Gonzaga, que era o maior artista do país.
04:09Não fez sucesso.
04:10Não aconteceu.
04:111976, na época eu tinha 16 anos.
04:14Também não foi regravada por ninguém.
04:17Seu Luiz gravou e ela ficou, ninguém regravou.
04:20Aí vem comigo e acontece Explode da maneira como explodiu.
04:24Eu gravei em 2002 também, saiu junto com a Ana Maria.
04:27Então é aquela história.
04:29É um mistério mesmo.
04:30Que o homem não consegue ainda dominar.
04:32É sempre uma emoção diferente.
04:35Saudade, torrente de paixão.
04:38Emoção diferente.
04:39É diferente demais.
04:41Você canta a mesma música, mas é outro sentimento.
04:44É outra emoção.
04:45Sempre uma emoção.
04:46É como o pôr do sol.
04:47Não tem um igual.
04:48Pode olhar.
04:49Todo dia o sol se põe, mas nenhum pôr do sol é igual ao outro.
04:52Então eu acho que quando a gente ama o que faz, a emoção vem à tona.
04:56Porque é impressionante.
04:58É diferente demais.
05:00Mas eu sou filho de pernambucano.
05:01Meu pai é lá do Exu, seu Otávio.
05:03A gente é daquelas famílias famosas de lá.
05:05Alencar, Sampaio, Saraiva, Rodovalho.
05:09Feitosa.
05:09E eu, minha região onde eu nasci, no Juazeiro do Norte.
05:13A nossa capital sempre foi Recife.
05:14Nós não temos uma, digamos assim, uma sintonia com Fortaleza.
05:20Já faz isso desde criança que eu sei disso.
05:22Houve uma guerra também.
05:23Juazeiro ganhou a guerra contra Fortaleza.
05:25Morreu muita gente.
05:26Meu avô materno, seu Vicente, lutou nessa guerra com 14 anos
05:30para defender Juazeiro e defender o Padre Cícero.
05:33Mas a gente, Juazeiro, foi fundada por pernambucanos.
05:36E o nosso sotaque é de Pernambuco.
05:39A cultura popular é de Pernambuco.
05:41É ciranda, é maracatu, é lapinha, é reisado, é banda de pífanos.
05:47É muito impressionante.
05:49A gente é muito diferente de Fortaleza, sabe?
05:51Agora, é aquela história.
05:53A gente sempre tinha a frente voltada para o Recife.
05:55Apesar do Recife, geograficamente, ser mais longe do que Fortaleza.
05:59Mas a gente, quando começava a ficar taludinho,
06:02que já começava a pensar em vestibular e essas coisas,
06:05já vinha para o Recife.
06:06Meu coração é recifiense, com certeza.
06:08Me emociono demais com o Recife.
06:10Recife é tão abençoado que o São João do Recife,
06:13essa selva de pedra que tem aí,
06:15o São João do Recife é dentro de um sítio.
06:17Tem coisa mais homogênea do que isso.
06:20É impressionante.
06:21Recife é tão abençoado que o próprio São João do Recife
06:23é dentro de um sítio.
06:25O prefeito era João Paulo.
06:26Encontrei com ele no aeroporto.
06:27Ele disse, eu quero você no dia 23 lá, no sítio.
06:29Eu disse, eu vou.
06:30Aí pronto.
06:31E virou uma coisa quase institucional,
06:33porque o pessoal já fala Santana no sítio Trindade.
06:36Santana no sítio Trindade.
06:38E eu, no ano passado, quando o meu prefeito ligou,
06:40eu já estava, já não tinha mais data.
06:44Muita, muita diferença.
06:45Por quê?
06:46Você vai praticando.
06:48A prática é amiga, né?
06:49Da perfeição.
06:50Você praticando, praticando.
06:51Então, o que é que eu penso?
06:52Como diz o poeta Oswaldo Montenegro,
06:55se uma canção consola alguém,
06:58valeu cantar.
06:59É você ver nos olhos das pessoas,
07:01a lágrima, o sorriso,
07:02e elas cantando junto com você.
07:04Isso não tem preço.
07:06E hoje, ontem mesmo,
07:07eu tive a experiência também do recitar,
07:09porque eu gosto muito de recitar versos durante as músicas.
07:12E ontem, tinha gente recitando no meio do povo,
07:14gente recitando os versos.
07:15Porque você cantar o refrão de uma música,
07:17é normal.
07:18Mas recitar os versos,
07:19tanto que eu tive que dar o microfone para a pessoa recitar.
07:22Eu achei lindo isso.
07:23A poesia não envelhece.
07:24Se você olhar direitinho,
07:26tem uma música de Renato Russo,
07:28só provando que a poesia não envelhece.
07:29Ela diz assim,
07:41Sabe de quem é essa letra?
07:42De São Paulo.
07:43Carta aos Coríntios.
07:45Renato Russo, muito genialmente,
07:47musicou belíssimamente essa canção.
07:50Aquela outra parte que diz,
07:51o amor é fogo que arde sem queimar,
07:53é ferida que dói e não se sente.
07:55Aquilo tem 500 anos.
07:57É de Camões.
07:58Poeta português.
07:59Então, a poesia não envelhece, não.
08:01Aprendi a cantar sem professor.
08:03Com a graça de Deus, eu sou completo.
08:05Você vem me chamar de analfabeto,
08:07exibindo o diploma de doutor.
08:08No congresso que eu for competidor,
08:10vou ganhar de você de 10 a 0.
08:12Meu amigo, eu vou ser muito sincero.
08:13Se eu deixar de cantar, não sou feliz.
08:15Ser poeta, eu sou porque Deus quis.
08:17Ser doutor, eu não sou porque não quero.
08:19Aí...
08:19Eu perdi o vestibular de medicina.
08:24Minha mãe ficou zangada, eu nem um pouco.
08:26Eu não sei, mas talvez seja muito.
08:29Sou louco, aprender a receitar penicilina.
08:33Sou nervoso e tenho medo de ver sangue.
08:37E a família quer me ver na cirurgia.
08:41Costurando quem vem lá do bang bang,
08:44que aparece na TV, pois acontece todo dia.
08:48Pra ter anel no dedo, DR no nome.
08:53Ser um grande homem, feliz e famoso.
08:56Mudar de repente, meu comportamento tão escandaloso.
09:03Casar com a virgem, que nem minha tia.
09:07Não me envolver com essa má companhia.
09:09Que não se penteia, frequenta a cadeia.
09:14Que lugar perigoso.
09:18Seja bem, essa questão de inovar,
09:20eu acho o óbvio é o inovar.
09:23O óbvio.
09:24Porque o que é que a gente fez?
09:26A gente fez o óbvio e ficou diferente de todo mundo.
09:30A minha proposta, né?
09:31Agora, eu tô com um trabalho chamado
09:33Santana o Cantador canta Petrúcio Amorim.
09:35Treze músicas de Petrúcio.
09:37E outros autores, né?
09:39Junto com ele.
09:39E esse trabalho concorre a...
09:42Tá indicado no prêmio BTG Pactual da Música Brasileira.
09:46Que é o antigo prêmio chave.
09:48E desse trabalho, eu vou mostrar algumas canções
09:50que são muito queridas do público.
09:52Uma delas é essa aqui, ó.
09:55Vim você pra mim, meu brinquedo, meu anjo querubim.
09:59Meu segredo guardado só pra mim, meu amor mais louco.
10:04Até de tanto amar, fiz também algo pra gente ninar.
10:08Uma criança pra gente adorar, tudo num sufoco.
10:14E você não gosta mais de mim.
10:19Vem dizer que eu não soube dar amor.
10:24E acha que a vida é mesmo assim.
10:29Cada um leva um barco sofredor.
10:33Meu baião, coração.
10:38Arranque essa dor do meu peito pra eu não chorar.
10:42Meu baião, coração.
10:48Arranque essa dor do meu peito pra eu não chorar.
10:53Eu comprei sururu, camarão, fiz batida de caju.
10:57Dancei rumbi até maracatu pra te fazer feliz.
11:03Fui até Natal, Salvador, Paraíba, Bacabal.
11:07Em Belém você quase passou mal.
11:10E eu te fiz feliz.
11:13Você que tá me vendo agora, eu sou um simples cantor popular, fazedor de cultura popular, brincante de cultura popular.
11:21E meu seguimento é o forró de Luiz Gonzaga.
11:25Sou aluno, seguidor dele e me sinto muito feliz por isso.
11:28Agora eu queria dizer pra você que tá me vendo.
11:30Nós, nordestinos, temos que ser protagonistas da nossa história.
11:36Ou seja, o ator principal da nossa história.
11:39Nós temos uma cultura que em lugar nenhum do mundo tem.
11:43Só tem aqui.
11:45Então é preciso também que os gestores prestem atenção nisso que a gente tá dizendo.
11:49É como eu disse antes, a gente não é melhor do que ninguém.
11:51Mas a gente é diferente.
11:53E quando você é diferente, facilmente você é notado.
11:56A nossa festa junina se tornou desse tamanho, essa imensidão.
12:01Por quê?
12:02Porque é diferente.
12:04Só tem aqui.
12:06Vamos guardar esse nosso tesouro e vamos cuidar desse nosso tesouro.
12:10Porque nós somos diferentes do resto.
12:13Com todo respeito ao restante, mas nós somos diferentes.
12:16Então pense nisso com carinho.
12:18Ana Maria.
12:19Quem conhece a Ana Maria?
12:22Eu dei um beijo, eu dei um beijo.
12:26Eu beijei Ana Maria.
12:27Por causa disso, eu quase entrava numa fria.
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