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  • há 2 horas
Após mais de um mês da forte chuva que atingiu Belém no último dia 19 de abril, considerada a maior dos últimos dez anos na capital paraense, famílias afetadas pelas enchentes continuam sem receber o auxílio financeiro prometido pela Prefeitura de Belém por meio do Programa Emergencial de Transferência de Renda do Município de Belém (Petrem).

Reportagem: Ana Laura Carvalho

Imagens: Wagner Santana

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Notícias
Transcrição
00:00O desespero, aí eu fiquei chorando, sabe?
00:02Eu tinha tido um sonho, eu até contei pra ela,
00:06eu tive um sonho, que vinha uma tempestade
00:10e entrava aquela água, eu via a parda.
00:13Eu tava aqui, né, tinha terminado de almoçar, né,
00:17aí começou a chuva desde sábado, uma chuva e tudo,
00:21aí engrossou, mesmo foi no domingo mesmo.
00:26Aí eu tinha acabado de almoçar e quando eu vi, olha,
00:29a enxurrada, veio a chuva, engrossou, né,
00:33e veio daí da rua mesmo que passa aqui.
00:36Minha casa é aqui, a beira do Garapé, a dela também.
00:39Então, a maré veio por aqui, pela frente.
00:43Aí entrou na casa, foi levando tudo,
00:46aí a casa da vizinha era mais que...
00:49Estava, quer dizer, andando com um barquinho de avoadeiras
00:56pra ajudar as pessoas, né, pra erguer as coisas,
01:00aí os vizinhos viram e ergueram aqui pra mim.
01:03Aí minha cama, eu fiquei em cima da cama,
01:06porque as minhas pernas já estavam frias da água, né,
01:09tava dando aqui.
01:11Aí eu fiquei em cima da cama,
01:13aí só meu esposo que tava aí fazendo esforço, né,
01:18e eu tava lá, que eu não queria mais pisar na água,
01:22que tava uma correnteza, sabe?
01:24Foi um desespero, sabe?
01:25Foi um desespero, aí eu fiquei chorando, sabe?
01:28Eu tinha tido um sono,
01:30eu até contei pra ela,
01:32eu tive um sonho que vinha uma tempestade
01:36e entrava aquela água,
01:38eu via parrué, aquela água muito forte.
01:41Aí entrava aqui na casa,
01:43aí eu ficava assim mesmo em cima da minha cama,
01:47a cama flutuando, né?
01:49Ela molhou também a minha cama,
01:52molhou, porque era aquela cama boxe, né,
01:54e aí molhou tudo aquele prato,
01:56e eu em cima lá da cama.
01:59E assim, no total,
02:01quais foram as perdas que vocês tiveram dentro da sua casa?
02:04Eu perdi uma geladeira,
02:06até que meu filho levou pra ver se dava um jeito de ajeitar.
02:11Perdi a geladeira e o meu armário.
02:13Só não perdi outras coisas,
02:15porque os vizinhos chegaram e ajudaram, né?
02:19Esse sofá da mulher ainda,
02:21eles botando em cima das cadeiras,
02:25viu?
02:25E foi isso.
02:27E hoje em dia, como é que a senhora vive?
02:30Com cachorvinha na cama?
02:31Ah, eu já fico com medo,
02:32aí dá no celular alerta,
02:35eu já fico com medo.
02:36Eu digo, ah, Jesus, eu me pergunto,
02:38ah, Jesus, não deixa acontecer mais.
02:41Não deixa.
02:42E com aquele trauma?
02:43Fiquei com...
02:44Logo eu que sou idosa,
02:45a pressão subiu,
02:47e eu falo aquela coisa.
02:49Não, até agora não.
02:52Desde o dia...
02:53Desde o dia da enxerga.
02:54Até aqui nada?
02:55Nada, nada, nada.
02:56Só a cesta básica?
02:58Só, que eu recebi.
03:00Aí teve uma vez que eu fui
03:03ali na Imperador,
03:04que estava dando negócio de cesta,
03:07as pessoas aí com a identidade, né?
03:10Cheguei lá, fiquei na fila lá
03:12e não consegui.
03:14Não consegui.
03:14Aí eu tinha uma amiga do Maranhão
03:16que ela trabalha nesse negócio.
03:18Aí ela disse assim,
03:19mana, fica aí que eu vou ver,
03:21se eu dou um jeito pra ti
03:23na cesta de alimento.
03:25Aí eu fiquei,
03:26fiquei por último.
03:27Aí ela arranjou uma cesta,
03:30aí teve até uma vizinha
03:31da outra rua que trouxe pra mim.
03:34Quando chegou lá na casa dela,
03:36aí ela arrumou o filho dela
03:38trazer a cesta aqui pra mim.
03:40Aí botou ali em cima
03:41do balcão na cozinha.
03:45Eu até agradeço assim um pouco
03:47porque eu estava em casa
03:49nesse dia que foi um domingo,
03:51porque eu trabalho a semana toda.
03:53Então, geralmente,
03:54os meus filhos ficam só em casa
03:56enquanto eu vou trabalhar.
03:58E essa chuva caiu no...
04:00Foi no domingo
04:01e a gente pôde conseguir levantar, né?
04:05As geladeiras, os móveis.
04:08E foi bem, bem assustador mesmo
04:11porque a casa, em casa,
04:14apesar de que a gente mora
04:15bem na beira do Guarapé,
04:15mas nunca encheu.
04:17E nesse dia a gente viu
04:18o nível da água aumentando, né?
04:21E a chuva,
04:22quando a gente viu,
04:22a casa já estava toda inundada,
04:24já estava cheia de água.
04:26Que altura, mais ou menos, assim?
04:29É, ficou...
04:31Meio, assim...
04:32Tipo, coisa da casa.
04:35Na altura do joelho?
04:36É, mais ou menos do joelho, sim.
04:39Nunca tinha acontecido isso?
04:41Não.
04:42A enchente sempre ocorreu, né?
04:45Aqui.
04:45Há mais de 20 anos
04:47a gente sofre com essa enchente.
04:48Há mais de 20 anos,
04:50todas as vezes,
04:50quando chove,
04:52período do inverno,
04:54aqui fica toda lagada,
04:55a gente fica...
04:56Enche a casa, né?
04:59Então a gente já sofre isso
05:00há bastante tempo, isso aqui.
05:02Mas essa realmente foi a pior de todas?
05:04Essa realmente foi a pior de todas
05:06que ocorreu.
05:08Até agora, nada.
05:09A gente fomos no CRAS,
05:11fomos orientados
05:12a nós ir no CRAS,
05:14fazer o cadastramento.
05:15E a gente fomos no CRAS,
05:17fizemos o cadastramento.
05:19E eles falaram que era
05:20para nós aguardar
05:21nas nossas casas,
05:22que a Defesa Civil,
05:23ela viria na nossa casa
05:24averiguar, né?
05:26A situação,
05:26as perdas e tudo.
05:28E...
05:29Só que, até agora,
05:31nada.
05:31vieram em casa
05:33de pouquíssimas pessoas,
05:36tá?
05:36Muito poucas pessoas mesmo.
05:38Semana passada,
05:39eles estavam aqui na rua,
05:41mas não falando...
05:43Fiscalizando do auxílio emergencial,
05:46mas sim dando cestas básicas.
05:48Mas, até agora,
05:50ninguém ainda não foi beneficiado
05:52com auxílio,
05:53e a gente não sabe de nada,
05:54e a gente não tem
05:55nenhuma informação.
05:58A Defesa Civil foi na sua casa?
06:00Não.
06:01Não?
06:02Não fez nenhum tipo de vistoria?
06:03Não, nenhum tipo de vistoria,
06:05nada.
06:06Mesmo você tendo sido
06:08atingida, né?
06:09Sim.
06:10Mesmo a gente tendo
06:11sido atingida,
06:13eles foram em pouquíssimas
06:14casas aqui.
06:15Bem poucas mesmo.
06:18A gente ainda não...
06:20É...
06:21A gente, na verdade,
06:22a gente nem sabe
06:22porque eles falam para a gente
06:23que era para nós aguardar
06:25a Defesa Civil, né?
06:27Então,
06:28a gente não tem
06:29outra orientação.
06:31Estou sem aguardar.
06:32Ah, sem aguardar.
06:33Isso,
06:34há mais de um mês já.
06:35Há mais de um mês.
06:37É,
06:38a gente se sente
06:40frustradamente, né?
06:41Porque
06:41são várias pessoas
06:42que também
06:44foram prejudicadas,
06:46né?
06:46Porque é um auxílio
06:47que
06:48não vai reparar
06:49os danos
06:50que mariam
06:51de pessoas que perderam,
06:52né?
06:52Porque teve pessoas
06:53que perderam
06:54muitas coisas mesmo.
06:56Perderam
06:57geladeira,
06:58sofá,
06:59foram danos
07:00mesmo
07:00bem precários,
07:01mas
07:02ia ser um auxílio
07:03que ia nos ajudar, né?
07:05Sim,
07:07a gente
07:07estamos aqui
07:08na espera
07:09do canal
07:10do Mata Fome
07:10há mais de 20 anos.
07:12Então,
07:13a gente sempre
07:13foi desprezado.
07:15Eles nunca
07:16olharam para nós
07:17aqui.
07:18Essa enchente,
07:19ela só vem
07:19se agravar
07:20cada dia a mais,
07:21mas nós já
07:22passamos por isso
07:23há muito tempo.
07:24e eles
07:25só falam
07:25e prometem
07:26que eles vão
07:27nos
07:28selecionar
07:29esse problema,
07:29mas nunca
07:30isso foi
07:31selecionado.
07:32O prefeito
07:33veio e falou
07:34que ia iniciar
07:35os projetos
07:36do Mata Fome,
07:37só que
07:38o Mata Fome
07:39ele é grande,
07:40né?
07:41Então,
07:41teve algumas obras
07:42que parece que foram
07:43iniciadas,
07:44mas lá para
07:45John Jaliard,
07:46e realmente
07:47para nós aqui
07:48que moramos
07:49na beira do Guarapé,
07:50não tivemos
07:52apoio nenhum
07:52da Defesa Civil.
07:54Eles vêm,
07:55mas é uma cesta básica
07:57e a gente
07:58não queremos
07:58cesta básica,
07:59nós queremos
08:00realmente
08:00que eles venham
08:01fazer,
08:02eles venham
08:03tomar uma atitude
08:04de eles melhorarem
08:05a nossa situação,
08:06porque aqui
08:07nós temos
08:07vários problemas,
08:09não é só o alagamento
08:10que nós temos aqui,
08:11aqui nós não temos
08:14água,
08:16tá?
08:16Aqui nós pagamos
08:1770 reais,
08:20para nós temos
08:20uma hora de água,
08:22uma vez ao dia,
08:25então isso é uma vergonha,
08:26isso daí a gente passa,
08:27até isso nós estamos
08:28enfrentando aqui,
08:30então a gente pede,
08:32né,
08:32que a prefeitura,
08:34ele venha olhar
08:35para o bairro
08:36da Pratinha 2,
08:37sabe?
08:37Porque a gente
08:38estamos precisando
08:40e a gente
08:41e a gente
08:43estamos precisando
08:43realmente muito mesmo,
08:45aqui nós não temos
08:47praticamente nada,
08:48nós somos esquecidos
08:49mesmo pelo poder público
08:50aqui,
08:51nós somos esquecidos,
08:53esquecidos.
08:54e aí
08:58o
08:59o
08:59Legenda por Sônia Ruberti
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