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  • há 6 horas
Transcrição
00:00E na coluna Olhar Espacial de hoje, Marcelo Zurita nos conta como o avanço tecnológico
00:08tem dificultado a observação do céu.
00:12Então, vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:24Olá pessoal, saudações astronômicas.
00:28Há muito tempo atrás, as noites na Terra eram muito diferentes das que conhecemos hoje.
00:33Quando o Sol desaparecia no horizonte e as brasas de uma fogueira reuniam e aqueciam nossos ancestrais,
00:39bastava erguer os olhos para encontrar um céu completamente tomado por estrelas.
00:43A necessidade de compreendê-las transformou o céu noturno em um imenso palco onde se desenvolviam nossas mitologias.
00:49Ligávamos os pontos cintilantes e surgiam monstros, heróis e deuses em enredos épicos transmitidos entre gerações.
00:57E antes mesmo dos telescópios, os astros nos ensinaram a medir o tempo, a planejar nossa agricultura e navegar pelo
01:04globo.
01:04Foi olhando para cima que formamos as bases para aquilo que hoje chamamos de ciência.
01:10Paradoxalmente, tudo o que o universo nos ensinou vem sendo usado para desenvolvermos tecnologias
01:15que aos poucos estão nos privando justamente daquilo que despertou nossa curiosidade, as estrelas.
01:21Durante quase toda a história da astronomia, o grande desafio foi enxergar mais longe.
01:25A olho nu, podíamos ver planetas, as estrelas mais brilhantes e a mancha leitosa da Via Láctea.
01:31Depois vieram as lunetas de Galileu, os telescópios refletores, os grandes observatórios e, finalmente, os telescópios espaciais.
01:38Cada nova tecnologia ampliou nossa visão do universo.
01:42Até então, o desafio era enxergar mais longe, mas agora a história parece ter nos levado a um ponto onde
01:48o grande desafio da astronomia moderna será simplesmente enxergar.
01:52As luzes artificiais aos poucos empurraram os observatórios para longe das cidades.
01:57A iluminação refletida na atmosfera clareia o céu e ofusca as estrelas, impedindo a observação dos objetos mais tênues e
02:04distantes.
02:05Isso é um dos motivos para os principais observatórios do mundo terem sido instalados em desertos.
02:10Só que o tipo de poluição luminosa que estamos enfrentando agora afeta todo o planeta e ameaça inviabilizar a prática
02:17da astronomia na superfície da Terra.
02:20Nos últimos anos, milhares de satélites passaram a ocupar a órbita baixa terrestre.
02:25Grande parte deles pertence às chamadas megaconstelações, redes destinadas principalmente à oferta de internet global,
02:32ampliando a conectividade, levando comunicação a regiões remotas e oferecendo benefícios reais para a sociedade.
02:38Mas enquanto geramos soluções aqui embaixo, estamos criando problemas lá em cima.
02:43Hoje já existem mais de 10 mil satélites ativos orbitando a Terra.
02:47E os projetos atualmente licenciados ou em planejamento apontam para um futuro com centenas de milhares deles passando continuamente sobre
02:55nossas cabeças.
02:56Já tem até empresário trilionário querendo colocar mais de um milhão de satélites em órbita.
03:01Cada um desses objetos reflete a luz do Sol durante parte da noite.
03:06Isso significa um número cada vez maior de pontos luminosos cruzando lentamente o céu e que muita gente vai chamar
03:13de OVNIs.
03:14Agora, para um observatório astronômico, significa algo ainda mais sério.
03:18As imagens obtidas pelos grandes observatórios começam a ser cortadas por rastros brilhantes deixados pelos satélites durante as exposições.
03:26Por enquanto, a maioria desses riscos podem ser removidos por software.
03:30Mas existe um limite para essa correção.
03:33Hoje já ocorrem casos em que parte dos dados científicos é simplesmente perdida.
03:38Só que a tendência é piorar.
03:40E quando o número de satélites aumenta demais, deixa de ser um inconveniente e passa a comprometer a própria eficiência
03:46dos observatórios.
03:47Pesquisadores alertam que alguns levantamentos astronômicos poderão sofrer perdas significativas de dados caso o número de satélites continue crescendo no
03:56ritmo atual.
03:57Observatórios projetados para detectar objetos extremamente tênues, como asteroides potencialmente perigosos, galáxias distantes ou explosões cósmicas de curta duração, tornam
04:07-se particularmente vulneráveis.
04:09Em alguns cenários estudados, determinadas observações poderão ficar praticamente inviáveis durante parte da noite.
04:16E esse não é o único problema.
04:18Além da luz refletida, os satélites também emitem sinais de rádio.
04:22A radioastronomia, que observa o universo utilizando as ondas de rádio extremamente fracas, vindas de estrelas, galáxias e nuvens de
04:29gás interestelar, passa a enfrentar um ambiente cada vez mais ruidoso.
04:34É como tentar ouvir um áudio do Zap em um estádio lotado, comemorando o gol do Vini Jr. na final
04:39da Copa.
04:40Algo aí parece impossível.
04:42É claro que engenheiros e empresas têm buscado soluções. Alguns satélites receberam revestimentos menos reflexivos, outros alteraram sua orientação para
04:51reduzir o brilho observado na Terra.
04:53Esses esforços são importantes e mostram que o problema é reconhecido.
04:57Mas muitos astrônomos alertam que essas medidas talvez sejam insuficientes diante do crescimento previsto para as próximas décadas.
05:05E o prejuízo não é apenas para a astronomia. O céu noturno faz parte do patrimônio cultural da humanidade.
05:11Todas as civilizações olharam para essas mesmas estrelas e nelas nasceram calendários, mitologias, mapas celestes, poemas, músicas e perguntas que
05:20deram origem à filosofia e à ciência.
05:23O céu é um só e sempre foi compartilhado por todos, independente de fronteiras, idiomas ou crenças.
05:30E nem estamos falando nos riscos que as constantes reentradas desses objetos e possíveis colisões orbitais oferecem às pessoas em
05:37solo e às outras missões espaciais.
05:39A ocupação da órbita terrestre vem crescendo em uma velocidade muito maior do que a nossa capacidade de regular.
05:46Existem acordos para evitar colisões e coordenar frequências de comunicação, além de projetos para redução de lixo espacial.
05:52Mas na prática, as ações concretas inexistem ou são insuficientes.
05:57E não há governança global sobre o impacto cumulativo dessa ocupação na astronomia e na preservação do céu noturno.
06:04O progresso tecnológico não precisa ser inimigo da ciência, muito pelo contrário.
06:09Foi ele que nos permitiu chegar à Lua, enviar sondas para outros mundos e construir telescópios capazes de observar galáxias
06:15em formação no início do universo.
06:17Mas talvez esse seja um daqueles momentos em que precisamos refletir sobre quais tecnologias nós realmente precisamos e o que
06:24estamos dispostos a abrir mão por elas.
06:27Afinal, nossos ancestrais descobriram o universo olhando para um céu escuro e repleto de estrelas.
06:32Nós construímos instrumentos extraordinários para enxergar ainda mais longe.
06:36Seria uma enorme contradição permitir que a tecnologia nos apague as estrelas.
06:42Justamente as estrelas que inspiraram nossos ancestrais e por onde iniciamos a nossa jornada científica sobre a Terra.
06:49Bons céus a todos e até a próxima!
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