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  • há 4 minutos
Transcrição
00:07Olá pessoal, saudações astronômicas. Existem cientistas que ampliam as fronteiras do conhecimento
00:14com importantes descobertas. Outros dedicam a vida a construir instituições científicas.
00:19Alguns possuem o dom de ensinar, transformando informações complexas em algo compreensível
00:24aos alunos. E há casos raros de pessoas que fazem isso tudo ao mesmo tempo, ajudando não apenas a
00:31produzir ciência, mas também a criar uma cultura científica em um país inteiro. No Brasil, um dos
00:36nomes mais importantes da astronomia e um raro exemplo de cientista capaz de reunir todas essas
00:42qualidades foi Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Para muita gente, ele foi a primeira voz da astronomia
00:48brasileira, explicando o que ocorre no cosmos de maneira clara e apaixonada. E talvez justamente por
00:54isso, o 25 de maio, data do seu aniversário, acabou se tornando o dia do Mourão, dedicado à observação
01:01do céu e à popularização da astronomia no país. Mourão nasceu em 1935, no Rio de Janeiro, e o seu
01:07interesse pela ciência começou muito cedo. Sua mãe costumava falar com muito entusiasmo sobre ter visto
01:12o cometa Halley em 1910. Isso o deixou tão fascinado que ele ligava frequentemente para o Observatório
01:19Internacional em busca de notícias astronômicas. Foi assim que, aos sete anos, ele vivenciou
01:24experiências semelhantes ao observar o cometa Wipofet-Ketevatsi. O impacto dessa observação
01:29consolidou seu fascínio pelo cosmos. Aos 12, o pequeno Mourão construiu sua própria luneta
01:35para observar o eclipse de Bocaiúva. Seus pais o apoiavam até o dia em que ele disse que queria
01:40ser astrônomo. Meu filho, o astrônomo não ganha dinheiro, diziam eles. Para agradá-los,
01:46Mourão chegou a prestar vestibular para outra área, mas sua verdadeira vocação acabou prevalecendo
01:51quando ingressou na física e na astronomia. Antes mesmo de entrar para a faculdade, Mourão
01:56começou a trabalhar como auxiliar de astrônomo no Observatório Nacional do Rio de Janeiro.
02:01A falta de livros especializados em português levou Mourão a aprender francês e inglês e o
02:06tornaria um dos maiores autores da área da astronomia, com centenas de artigos em revistas
02:11e jornais, atlas astronômicos, anuários e quase 100 livros publicados. Nos anos 60, ele partiu
02:19para a Europa para aprofundar nos seus estudos. Por lá, estudou estrelas duplas e corpos distantes
02:24do sistema solar, trabalhando no Observatório de Paris e no Pique do Mide, na França. Em 1967,
02:31ele retorna ao Brasil com o título de doutor pela Universidade de Paris e, de volta ao Observatório
02:37Nacional, se torna chefe da divisão de equatoriais. Na Europa, Mourão percebeu o imenso valor dado
02:44aos instrumentos antigos e, ao retornar ao Brasil vendo arquivos científicos importantes sendo
02:49descartados em cebos, ele lutou ativamente para preservar o patrimônio histórico do Observatório
02:54Nacional. Essa militância culminou na fundação do MAST, o Museu de Astronomia e Ciências Afins,
03:00dedicada ao estudo e à divulgação da história da ciência e da tecnologia no país. Sua formação
03:06acabou misturando observação astronômica, pesquisa e uma enorme capacidade de comunicação,
03:12o que fez de Mourão um dos primeiros grandes divulgadores da astronomia no Brasil, muito
03:17antes da internet e das redes sociais. Ele chegava ao público através de seus artigos em revistas
03:23e jornais, através da TV e também do rádio. Era uma espécie de sacane analógico, capaz de
03:29transformar estudos avançados, cálculos complexos e dados técnicos em uma linguagem simples e
03:35acessível à população. Isso não foi apenas uma coincidência do destino. Ele buscou esse protagonismo
03:41porque percebeu algo fundamental. Um país não constrói ciência apenas formando pesquisadores, mas também
03:48informando o interesse público pela ciência. Ele decidiu que não esperaria mais pelas ligações das
03:54crianças interessadas nos astros. Levaria a astronomia diretamente para dentro da casa das pessoas.
04:00Durante décadas, explicou ao público praticamente todo o grande acontecimento astronômico que chegasse
04:06ao noticiário. No final da década de 1970, Mourão produziu o programa O Céu do Brasil, uma série
04:13pioneira de divulgação da astronomia, transmitida pelo rádio em 30 episódios. Seu jeito quase
04:19poético de falar sobre astronomia aproximou o Mourão de grandes nomes da literatura brasileira,
04:24como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. Ele conhecia o céu como ninguém. Bem antes dos
04:31sistemas automatizados, ele tinha uma habilidade incrível de localizar manualmente os alvos de um
04:35telescópio. Descobriu estrelas duplas, novos asteroides e desenvolveu métodos de cálculo orbital
04:41utilizados em seus estudos. Em 1985, a União Astronômica Internacional deu o nome de Mourão
04:48a um asteroide em sua homenagem. Recebeu várias outras honrarias, entre prêmios, medalhas e títulos,
04:55como de suprema honra ao mérito, oferecido por uma universidade do Japão, em reconhecimento
05:01aos notáveis empreendimentos realizados em prol da ciência, educação e do bem-estar da humanidade,
05:07do verdadeiro testemunho de uma vida exemplar dedicada às causas públicas e humanitárias.
05:14E foi justamente desse reconhecimento coletivo que nasceu em 2013 o chamado Dia do Mourão. A proposta
05:21surgiu entre astrônomos amadores como uma forma simples e poderosa de homenageá-lo, fazendo exatamente
05:27aquilo ao qual ele dedicou a vida inteira. 25 de maio tornou-se um dia para se levar telescópios
05:34para as praças, organizar observações públicas, falar sobre o céu no rádio, na televisão, nas escolas
05:40ou na internet. Quando Ronaldo Mourão morreu em 2014, seu legado já havia ultrapassado livros,
05:47pesquisas e instituições. Ele ajudou a criar no Brasil algo muito mais difícil de construir,
05:53uma cultura de fascínio pelo universo. Inspirou gerações de astrônomos amadores, professores,
05:59estudantes e divulgadores científicos que continuam repetindo, de diferentes maneiras,
06:04o mesmo gesto iniciado por ele décadas atrás. Apontar para o céu e convidar outras pessoas a olhar também.
06:12Existem cientistas lembrados por uma equação, uma descoberta ou um experimento.
06:17Mourão acabou sendo lembrado por algo ainda mais raro, por ter ajudado um país inteiro a desenvolver
06:22intimidade com o cosmos. E talvez esse seja o verdadeiro significado do dia do Mourão.
06:28Não apenas homenagear um astrônomo brasileiro, mas celebrar a ideia de que o conhecimento científico
06:33só alcança plenamente o seu propósito quando deixa os laboratórios, alcança as ruas e passa a fazer
06:39parte da vida das pessoas. Afinal, compreender o universo nunca foi apenas aprender nomes de estrelas
06:45ou planetas. É perceber que em algum momento da história, uma espécie surgida num pequeno planeta
06:51aprendeu a erguer os olhos para o céu, fazer perguntas e compartilhar respostas.
06:56E poucas pessoas ajudaram tanto o Brasil a participar dessa grande conversa cósmica
07:00quanto o Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.
07:04Bons céus a todos e até a próxima!
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