00:27A CIDADE NO BRASIL
00:31Bom dia!
00:33Ai, filha, tenho estado muito doentada.
00:37Com tonturas, sabes lá, este calor mata-me.
00:41E tu, o que tens feito?
00:44Estás mais gorda.
00:45A felicidade dá tudo, até boas cores.
00:49O que me traz cá é saber a morada da francesa que te faz os chapéus.
00:53E há tanto tempo também que te não via.
00:55Já tinha saudades.
00:57Ai, mas não imaginas que calor!
01:01Venho morto!
01:03Sabes quem é a Madame François?
01:05Na Rua do Ouro, mesmo por cima do Ftanco.
01:07É muito beirateira e tem bom gosto.
01:09E teu marido?
01:10Como sempre, pouco divertido.
01:14Viu Jorge quando vinha a entrar.
01:15Não o chamei, porque tu me disseste que ele não gosta que eu venha cá.
01:21Sabes que acabei com o Mendoza?
01:23Ah, sim.
01:25Desta vez é que posso dizer bem que me enganei.
01:27Tu enganas-te quase sempre.
01:29É verdade.
01:30Sou muito infeliz.
01:32Mas que queres tu?
01:33De cada vez imagino que é uma paixão e de cada vez me sai uma moçada.
01:37Mas se um dia acerte...
01:39A ver se acertas.
01:41Já é tempo.
01:42Então, teu primo Basílio chega?
01:44Assim li hoje no Diário de Notícias.
01:46Fiquei pasmada.
01:48Tu não estiveste para casar com ele?
01:50Estive.
01:51A mamãe levava muito em gosto.
01:53Mas depois ele ficou sem nada, teve de ir para o Brasil.
01:56Não passou de uma criancice e ainda bem.
01:59Talcula tu.
02:00Eu entre coqueiros, deitada numa rede, rodeada de moleques a ver boato apagai.
02:04Ai, filha.
02:06Que horror.
02:10Outra coisa antes que me esqueça.
02:12Sabes quem me falou ontem de ti?
02:14Quem?
02:14O Castro.
02:16Que Castro?
02:18O dos óculos.
02:20O banqueiro.
02:22Ah, muito apaixonado por ti.
02:25E tu, hã?
02:26Sempre muito apaixonada pelo teu marido?
02:28Fazes bem, filha.
02:30Tu é que fazes bem.
02:31Mas vá lá uma pessoa a prender-se a um homem como o meu.
02:34Nem ciúmes tem, bruto.
02:37A senhora sempre quer que igual musculites todos?
02:39Todos.
02:40Já lhe disse.
02:40Onde ficar à noite na mala antes de se ir deitar.
02:47Mala?
02:48Quem parte?
02:50O Jorge.
02:51Vai às minas ao Alentejo.
02:52Então ficas só.
02:53Posso vir ver-te.
02:55Ai, ainda bem.
02:56Tenho tanto para te contar.
02:58Por que querermos culetes?
02:59Para o sujar lá nas minas?
03:01Também vou-me ser.
03:02Não deixo passar nada.
03:03Se lhe parece.
03:05Há vinte anos que amo nesta vida.
03:07A dormir em cassiços.
03:08A levantar de madrugada.
03:09A comer dos restos.
03:10A fazer suspejos.
03:11A aturar as patroas e a folga das crianças.
03:14De tamanhos.
03:16Eu tenho dias em que só de ver o balde das águas sujas
03:19e o ferro de engomar, se me envelhe o meu estômago.
03:22Então que eu vou-me ser?
03:23Cada um neste mundo é para o que nasce.
03:26Eu bem queria ter um negocicente.
03:29Mas estava caída, uma capelista.
03:32Mas o mais que consegui juntar foram sete moedas.
03:35E essas derreteram-se com a lente.
03:38Que lá no hospital é que não me apanham.
03:42Ai, filha, tenho de ir já que se faz tarde.
03:44Se não o outro, põe-se logo à mesa.
03:46Adeus até breve.
03:48Agora que o Jorge vai para fora, a exibir muito.
03:51Então a Francesa é na Rua do Ouro por cima do estampo.
03:54A porta à direita, madame Françoise.
03:55Adeus, Luísa.
04:00E aí?
04:10E aí?
04:22E aí?
04:24E aí?
04:27E aí?
04:27Boa tarde, Sra. Jósis.
04:28Boa tarde.
04:28A Sra, onde está?
04:29Subiu para o quarto, as que saiu a Sra Dona Liopoldina.
04:32A Sra... Dona Liopoldina esteve cá?
04:34Foi-se agora?
04:34E mesmo.
04:35Passou cá a tarde toda após que o senhor saiu.
04:37Está bem. Pode ir à sua vida.
04:57Já sei que tiveste cá hoje uma vizinha.
05:01Tio? A Leopoldina. Quem te disse?
05:04Foi a Juliana. Que a senhora dona Leopoldina tinha estado toda a tarde.
05:10Toda a tarde? Que tolice.
05:14Esteve dez minutos, se tanto.
05:18O calor tem-lhes feito mal.
05:22Ouve lá. É necessário que deixes por uma vez de receber essa criatura.
05:28Por ti, por mim, pelos vizinhos, pela decência.
05:31Mas foi a Juliana.
05:33Mandá-se-la sair outra vez.
05:35Que estavas fora. Que estavas doente. Que estavas na China.
05:40Oh, minha querida filha. É que todo o mundo a conhece.
05:43É a quebrais. É a pão e queijo. É uma vergonha.
05:47Vocês foram cair às juntas, etc, etc. Tudo isto é muito bom.
05:50Mas há-as-te desculpar. Se a encontro aqui, corra-la.
05:57Agora vamos, Luísa. Confessa-te. Eu tenho ou não tenho razão?
06:02Quem?
06:03Ah, bem.
06:18Para que foi você dizer quem esteve ou deixou de estar?
06:20Pensei que não era segredo, minha senhora.
06:23Está claro que não, tola. Quem lhe diz que era segredo?
06:26E para que mandou entrar?
06:27Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a senhora Dona Leopoldina?
06:31A senhora nunca me disse nada.
06:34Mente. Calce. E agora venha ajudar-me a pôr espartilho.
06:43A senhora Dona Leopoldina.
06:44Boa noite, Jorge.
06:45Como está, senhora Dona Leopoldina?
06:47Muito bom, com certeza, com um tempo destes.
06:50Como o passa, senhora Ernesto?
06:53Olha, a nossa doutora da Castalvo hoje.
06:57Então, e os seus patecimentos, senhora Dona Leopoldina?
07:00Ele vem.
07:01O conselheiro? Deve vir.
07:03Quer despedir-se do Jorge que parta amanhã para o Alentejo?
07:06Para as minas.
07:07Para as minas?
07:09O que vai ele lá fazer com este calor?
07:12Para o Alentejo?
07:15Eu nunca fui ao Alentejo.
07:17Já ouvi falar num templo, em ruínas.
07:20Na Capela dos Ossos.
07:22Mas não conheço bem.
07:24Viva conselheiro!
07:26Estavam-nos lutando a sua falta.
07:29Precisamente, falávamos de um assunto em que seria útil
07:31ouvir a sua abalizada filiana.
07:34Sério?
07:35Pois terei muito gosto em escutar.
07:37Mas, primeiro, tenho um indeclinado a dever a cumprir.
07:41Minha boa senhora Dona Luísa, de perfeita saúde, não?
07:45O nosso Jorge tinha mudido.
07:47Ainda bem.
07:50Senhora Dona Felicidade, os meus respeitos.
07:54Já esteve no Alentejo, conselheiro?
07:55Nunca, minha senhora, nunca.
07:58E tenho pena.
07:59Sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são da primeira ordem.
08:05De resto, país de grande riqueza suína.
08:12E tudo isto que é um pelinte, é um parque.
08:14E quer que se passe numa sala, um ato que se passava num abismo.
08:17Um quê?
08:18Num abismo, Dona Felicidade.
08:21Num despenhadeio.
08:23É-me dado-vos saber qual é o lance em questão?
08:27Por causa da peça que o Ernesto escreveu, o empresário não está de acordo com o abismo.
08:32Depois da cena em que o marido se sente atraiçoado, atrai a mulher para a beira de um precipício e
08:37atira para lá.
08:38O condeveio corre e atira-se também.
08:40O marido cruza os braços e lança uma gargalhada infernalda.
08:45Foi assim que eu imaginei a cena.
08:47É uma obra de fundo.
08:49Embatem-se grandes paixões.
08:51Os meus parabéns, senhor Batesma.
08:54Mas o que quer o empresário?
08:56Quer o abismo num primeiro andar?
08:58Não, senhor Julião. Quero o desfecho numa sala.
09:01De modo que eu, a gente tem de condescender.
09:04Tive que escrever outro final.
09:06Eu tenho aqui...
09:09É uma amassada para quem ouvia.
09:12Desculpem, é um rascunho.
09:15A coisa ainda não está bem com todos os S e R's.
09:20Agatha, é mulher. Isto aqui é a cena com o marido. Ele já sabe tudo.
09:25Mas mata-me, mata-me por piedade.
09:28Antes a morte caber com esse desprezo, o coração rasgado fibra a fibra.
09:32Julio, e não me rasgaste tu também o coração?
09:34Tiveste tudo piedade? Não! Retalhaste-me.
09:38Meu Deus, eu que a julgava dura, nessas horas encarbatados...
09:42Que pena, depois do chá. Lê-se depois do chá.
09:46Não vale a pena, prima Luísa.
09:48Por que não? É lindo!
09:52Mas o que quer é ver o empresário.
09:54Já tem a sala em vez do abismo.
09:56O que o empresário quer é que o marido lhe perdoe.
09:59Olha aí!
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