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This captivating video brings to life a conversation brimming with personal updates, social commentary, and a touch of dramatic flair from "A Cidade no Brasil." From discussing health woes and personal choices to the intricacies of finding a hatmaker and the return of a cousin from Brazil, the dialogue offers a glimpse into everyday life and relationships.

The narrative unfolds with a discussion about personal relationships, including the end of a romance and the complexities of marital dynamics. A significant plot point emerges with the impending arrival of a cousin, Basílio, who once had a connection with one of the characters, sparking memories of past aspirations and the allure of life in Brazil.

Further deepening the plot, the characters touch upon societal perceptions and personal reputations, with a mention of the banker Castro and conversations about infidelity and desire. The setting shifts to talk about the arduous realities of domestic and manual labor, highlighting the struggles faced by many.

The latter part of the video delves into artistic endeavors, specifically the staging of a play. The intricate details of a dramatic scene involving a precipice and the clash between artistic vision and commercial demands are explored, showcasing the creative process and the challenges faced by playwrights and producers.

#ACidadeNoBrasil #ConversaBrasileira #TeatroEFicção #VidaNoBrasil

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Transcript
00:27A CIDADE NO BRASIL
00:31Bom dia!
00:33Ai, filha, tenho estado muito doentada.
00:37Com tonturas, sabes lá, este calor mata-me.
00:41E tu, o que tens feito?
00:44Estás mais gorda.
00:45A felicidade dá tudo, até boas cores.
00:49O que me traz cá é saber a morada da francesa que te faz os chapéus.
00:53E há tanto tempo também que te não via.
00:55Já tinha saudades.
00:57Ai, mas não imaginas que calor!
01:01Venho morto!
01:03Sabes quem é a Madame François?
01:05Na Rua do Ouro, mesmo por cima do Ftanco.
01:07É muito beirateira e tem bom gosto.
01:09E teu marido?
01:10Como sempre, pouco divertido.
01:14Viu Jorge quando vinha a entrar.
01:15Não o chamei, porque tu me disseste que ele não gosta que eu venha cá.
01:21Sabes que acabei com o Mendoza?
01:23Ah, sim.
01:25Desta vez é que posso dizer bem que me enganei.
01:27Tu enganas-te quase sempre.
01:29É verdade.
01:30Sou muito infeliz.
01:32Mas que queres tu?
01:33De cada vez imagino que é uma paixão e de cada vez me sai uma moçada.
01:37Mas se um dia acerte...
01:39A ver se acertas.
01:41Já é tempo.
01:42Então, teu primo Basílio chega?
01:44Assim li hoje no Diário de Notícias.
01:46Fiquei pasmada.
01:48Tu não estiveste para casar com ele?
01:50Estive.
01:51A mamãe levava muito em gosto.
01:53Mas depois ele ficou sem nada, teve de ir para o Brasil.
01:56Não passou de uma criancice e ainda bem.
01:59Talcula tu.
02:00Eu entre coqueiros, deitada numa rede, rodeada de moleques a ver boato apagai.
02:04Ai, filha.
02:06Que horror.
02:10Outra coisa antes que me esqueça.
02:12Sabes quem me falou ontem de ti?
02:14Quem?
02:14O Castro.
02:16Que Castro?
02:18O dos óculos.
02:20O banqueiro.
02:22Ah, muito apaixonado por ti.
02:25E tu, hã?
02:26Sempre muito apaixonada pelo teu marido?
02:28Fazes bem, filha.
02:30Tu é que fazes bem.
02:31Mas vá lá uma pessoa a prender-se a um homem como o meu.
02:34Nem ciúmes tem, bruto.
02:37A senhora sempre quer que igual musculites todos?
02:39Todos.
02:40Já lhe disse.
02:40Onde ficar à noite na mala antes de se ir deitar.
02:47Mala?
02:48Quem parte?
02:50O Jorge.
02:51Vai às minas ao Alentejo.
02:52Então ficas só.
02:53Posso vir ver-te.
02:55Ai, ainda bem.
02:56Tenho tanto para te contar.
02:58Por que querermos culetes?
02:59Para o sujar lá nas minas?
03:01Também vou-me ser.
03:02Não deixo passar nada.
03:03Se lhe parece.
03:05Há vinte anos que amo nesta vida.
03:07A dormir em cassiços.
03:08A levantar de madrugada.
03:09A comer dos restos.
03:10A fazer suspejos.
03:11A aturar as patroas e a folga das crianças.
03:14De tamanhos.
03:16Eu tenho dias em que só de ver o balde das águas sujas
03:19e o ferro de engomar, se me envelhe o meu estômago.
03:22Então que eu vou-me ser?
03:23Cada um neste mundo é para o que nasce.
03:26Eu bem queria ter um negocicente.
03:29Mas estava caída, uma capelista.
03:32Mas o mais que consegui juntar foram sete moedas.
03:35E essas derreteram-se com a lente.
03:38Que lá no hospital é que não me apanham.
03:42Ai, filha, tenho de ir já que se faz tarde.
03:44Se não o outro, põe-se logo à mesa.
03:46Adeus até breve.
03:48Agora que o Jorge vai para fora, a exibir muito.
03:51Então a Francesa é na Rua do Ouro por cima do estampo.
03:54A porta à direita, madame Françoise.
03:55Adeus, Luísa.
04:00E aí?
04:10E aí?
04:22E aí?
04:24E aí?
04:27Personela
04:27Boa tarde, Sr. Jorge.
04:28Boa tarde, a senhora, onde está?
04:29A senhora saiu a senhora Dona Leopoldina.
04:32A senhora Dona Leopoldina esteve cá?
04:34Foi-se agora e mesmo.
04:35Passou cá a tarde toda depois que o senhor saiu.
04:37Está bem. Pode ir à sua vida.
04:57Já sei que tiveste cá hoje uma vizinha.
05:01Tio? A Leopoldina. Quem te disse?
05:04Foi a Juliana. Que a senhora dona Leopoldina tinha estado toda a tarde.
05:10Toda a tarde? Que tolice.
05:14Esteve dez minutos, se tanto.
05:18O calor tem-lhes feito mal.
05:22Ouve lá. É necessário que deixes por uma vez de receber essa criatura.
05:28Por ti, por mim, pelos vizinhos, pela decência.
05:31Mas foi a Juliana.
05:33Mandá-se-la sair outra vez.
05:35Que estavas fora. Que estavas doente. Que estavas na China.
05:40Oh, minha querida filha. É que todo o mundo a conhece.
05:43É a quebrais. É a pão e queijo. É uma vergonha.
05:47Vocês foram cair às juntas, etc, etc. Tudo isto é muito bom.
05:50Mas há-as-te desculpar. Se a encontro aqui, corra-la.
05:57Agora vamos, Luísa. Confessa-te. Eu tenho ou não tenho razão?
06:02Quem?
06:03Ah, bem.
06:18Para que foi você dizer quem esteve ou deixou de estar?
06:20Pensei que não era segredo, minha senhora.
06:23Está claro que não, tola. Quem lhe diz que era segredo?
06:26E para que mandou entrar?
06:27Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a senhora Dona Leopoldina?
06:31A senhora nunca me disse nada.
06:34Mente. Calce. E agora venha ajudar-me a pôr espartilho.
06:43A senhora Dona Leopoldina.
06:44Boa noite, Jorge.
06:45Como está, senhora Dona Leopoldina?
06:47Muito bom, com certeza, com um tempo destes.
06:50Como o passa, senhora Ernesto?
06:53Olha, a nossa doutora da Castalvo hoje.
06:57Então, e os seus patecimentos, senhora Dona Leopoldina?
07:00Ele vem.
07:01O conselheiro? Deve vir.
07:03Quer despedir-se do Jorge que parta amanhã para o Alentejo?
07:06Para as minas.
07:07Para as minas?
07:09O que vai ele lá fazer com este calor?
07:12Para o Alentejo?
07:15Eu nunca fui ao Alentejo.
07:17Já ouvi falar num templo, em ruínas.
07:20Na Capela dos Ossos.
07:22Mas não conheço bem.
07:24Viva conselheiro!
07:26Estavam-nos lutando a sua falta.
07:29Precisamente, falávamos de um assunto em que seria útil
07:31ouvir a sua abalizada filiana.
07:34Sério?
07:35Pois terei muito gosto em escutar.
07:37Mas, primeiro, tenho um indeclinado a dever a cumprir.
07:41Minha boa senhora Dona Luísa, de perfeita saúde, não?
07:45O nosso Jorge tinha mudido.
07:47Ainda bem.
07:50Senhora Dona Felicidade, os meus respeitos.
07:54Já esteve no Alentejo, conselheiro?
07:55Nunca, minha senhora, nunca.
07:58E tenho pena.
07:59Sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são da primeira ordem.
08:05De resto, país de grande riqueza suína.
08:12E tudo isto que é um pelinte, é um parque.
08:14E quer que se passe numa sala, um ato que se passava num abismo.
08:17Um quê?
08:18Num abismo, Dona Felicidade.
08:21Num despenhadeio.
08:23É-me dado-vos saber qual é o lance em questão?
08:27Por causa da peça que o Ernesto escreveu, o empresário não está de acordo com o abismo.
08:32Depois da cena em que o marido se sente atraiçoado, atrai a mulher para a beira de um precipício e
08:37atira para lá.
08:38O condeveio corre e atira-se também.
08:40O marido cruza os braços e lança uma gargalhada infernalda.
08:45Foi assim que eu imaginei a cena.
08:47É uma obra de fundo.
08:49Embatem-se grandes paixões.
08:51Os meus parabéns, senhor Batesma.
08:54Mas o que quer o empresário?
08:56Quer o abismo num primeiro andar?
08:58Não, senhor Julião. Quero o desfecho numa sala.
09:01De modo que eu, a gente tem de condescender.
09:04Tive que escrever outro final.
09:06Eu tenho aqui...
09:09É uma amassada para quem ouvia.
09:12Desculpem, é um rascunho.
09:15A coisa ainda não está bem com todos os S e R's.
09:20Agatha, é mulher. Isto aqui é a cena com o marido. Ele já sabe tudo.
09:25Mas mata-me, mata-me por piedade.
09:28Antes a morte caber com esse desprezo, o coração rasgado fibra a fibra.
09:32Julio, e não me rasgaste tu também o coração?
09:34Tiveste tudo piedade? Não! Retalhaste-me.
09:38Meu Deus, eu que a julgava dura, nessas horas encarbatados...
09:42Que pena, depois do chá. Lê-se depois do chá.
09:46Não vale a pena, prima Luísa.
09:48Por que não? É lindo!
09:52Mas o que quer é ver o empresário.
09:54Já tem a sala em vez do abismo.
09:56O que o empresário quer é que o marido lhe perdoe.
09:59Olha aí!
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