00:00Eu gostaria de ter informações sobre o inquérito do acidente que matou o Jatacá.
00:04Quando eu descobri que o Carlos Lacerda tinha morrido da maneira que morreu
00:07e que os três caras tinham morrido em nove meses,
00:10eu fiquei espantado que as pessoas não se dessem conta disso.
00:13Porque o Juscelino ter morrido no acidente de carro, ponto,
00:15poderia ter sido um azar.
00:16O João Goulart ter morrido num infarto estranho, podia ser um azar.
00:19O Carlos Lacerda morreu do jeito que morreu.
00:21Agora, nove meses de distância não podia ser uma coisa.
00:24Coincidências não existem.
00:25E aí eu falei, tem uma história, tem uma trama,
00:28eu vou poder falar do Brasil, eu vou poder falar de fatos
00:31que as pessoas, por incrível que pareça, não conheçam.
00:33E, ao mesmo tempo, eu posso fazer um filme divertido,
00:36tem uma trama, tem reviravolta.
00:37Então foi isso que motivou.
00:39Eu acho muito importante a gente trazer a memória, trazer...
00:42É isso, é muito embasado, fatos históricos.
00:44Claro que existe uma história fictícia ali, a própria Silvana é uma personagem fictícia.
00:50Mas a gente poder olhar pra nós mesmos, olhar pra nossa história,
00:55olhar o que nos formou, o que nos trouxe até aqui.
00:57E as consequências de tudo isso, eu acho muito importante retratar esse período,
01:02retratar isso que aconteceu, levantar questionamentos,
01:06fazer com que as pessoas eventualmente pesquisem, vão lá, se interessem pelo assunto.
01:11Isso também é papel do artista, né?
01:13De provocar.
01:15Eu acho que isso é muito importante.
01:17Eu me sinto muito privilegiada por ter feito esse filme,
01:20por ter sido convidada pra fazer a Silvana.
01:24Mesmo, é um privilégio.
01:25Um dos temas do filme é de que não existe uma pessoa má
01:28e de que existem forças que estão muito além do que a gente possa imaginar.
01:31Se eu coloco um torturador, um general,
01:34eu personalizo como se aquela pessoa tivesse uma responsabilidade tão grande assim.
01:39Eu queria justamente ter uma personagem que, de uma hora pra outra,
01:42por motivos que ela se indigna, resolve ir atrás da verdade.
01:49E de quantos elementos existem que tornam essa verdade inalcançável
01:54ou muito difícil de chegar nela.
01:55Por isso que eu não queria personalizar.
01:58Porque se eu falo de tortura, tem que ter um torturador.
02:00Se eu falo de ditadura, tem que ter um general.
02:01Então, a ideia era que esse esquema de poder está muito além de uma pessoa ou outra.
02:08As pessoas mais jovens que falam de ditadura,
02:11elas acham que a ditadura no Brasil era uma coisa assim,
02:14que as pessoas andavam com medo na rua.
02:16E eu era jovem na segunda metade dos anos 70.
02:19Se você não fosse um professor de história ou uma pessoa muito envolvida,
02:23você não sabia que tinha uma ditadura no Brasil.
02:24Então, eu queria mostrar isso também.
02:26Então, por isso, uma jornalista de celebridades, uma jornalista de fofoca,
02:29pra ela, ela não era nem a favor nem contra.
02:32Ela era desinteressada.
02:34Esse era o problema.
02:34A ditadura fazia com que as pessoas ficassem apolíticas.
02:38Então, eu queria mostrar uma pessoa apolítica
02:40que achava que não era com ela,
02:42que não tinha nada a ver com ela,
02:43mas que na hora que ela percebe que estava sendo nada idiota,
02:46ela fala, como assim?
02:47Você sempre disseram que tudo era certo, que tudo era bom,
02:49e agora, não, eu vou apurar a verdade.
02:51Eu acho que é o momento de...
02:53A história, ela pode se repetir se a gente não revir
02:56o passado, e eu acho que a arte é uma forma
02:58da gente entender esse passado, né?
02:59Quase como um demônio ali que a gente vai exorcizar.
03:03E eu acho que isso é importante
03:04pras pessoas que esquecem
03:05ou pras pessoas que não tiveram contato com isso antes.
03:08Eu sou millennial.
03:09Eu nasci com a ditadura e já tinha acabado.
03:11E eu cresci com essa ideia
03:14do mundo global que era lindo.
03:15Que eu tinha estudado isso na escola,
03:17mas eu não tinha visto isso acontecer na minha frente.
03:19Eu acho que você colocar isso numa tela de cinema,
03:21num livro, e você ter acesso a isso,
03:23e, mais do que tudo, você ter acesso
03:25à vida das pessoas naquela época.
03:27Então, é o drama do
03:28Ainda Estou Aqui,
03:30é essa correria de fugir do agente secreto.
03:33E, no caso da Silvana,
03:35é essa coisa de você perceber
03:36que você está sendo enganado o tempo todo.
03:38Quando você se coloca nesses lugares,
03:40que são tão humanos, tão empáticos,
03:43você entende o que é a ditadura militar.
03:45Eu acho que você trazer isso de volta
03:47e contar essa história com esse olhar
03:48é muito importante nesse momento.
03:50E aí
03:50Obrigado.
Comentários