00:00Os mais conservadores apostam na manutenção da taxa em 15%,
00:04enquanto os mais otimistas acreditam em uma pequena redução na casa do 0,25 ponto percentual.
00:12Para avaliar o cenário econômico brasileiro e as expectativas para a política monetária,
00:16o Jornal da Manhã conversa agora com o economista, ex-ministro da Fazenda
00:20e ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
00:23Bom dia, ministro. Seja muito bem-vindo.
00:26Obrigado. É uma satisfação estar aqui e conversar com você, conversar com os ouvintes aí da Jornal da Manhã.
00:33Prazer é todo nosso.
00:34Ministro, esse conflito internacional, Estados Unidos e Ira, pode mudar o rumo dos juros no Brasil?
00:42Olha, existe sim essa possibilidade, porque na medida em que sobe e aumenta o preço do petróleo,
00:52isso tem um impacto no custo da gasolina e do diesel.
00:57O mais importante aqui é no diesel.
01:00Porque o diesel, evidentemente, ele entra em quase todas as cadeiras de produção.
01:06Por quê? Por causa do transporte.
01:11Os bens e serviços que estão sendo produzidos, etc., são transportados para os seus locais de venda
01:17e os insumos também são transportados, etc.
01:20E tudo isso é impactado pelo preço do diesel.
01:25Então, na medida em que aumenta o diesel, isso pode sim ter um certo efeito na inflação.
01:35Então, isso altera os pressupostos, altera basicamente os dados que entram como hipótese de trabalho
01:48nos modelos econométricos do Banco Central.
01:52Portanto, tem que se ver aí qual é o impacto disso.
01:57Isso nós vamos ficar sabendo através da decisão do Copom,
02:01na medida em que esses estudos macroeconométricos, esses modelos desenvolvidos pelo Copom,
02:07através de muitos anos, inclusive na época que eu estive lá, desenvolvemos muito isso,
02:12exatamente para ter medidas de maior acerto entre as hipóteses colocadas,
02:21como essa subida de preço do transporte, etc., e o efeito disso na inflação
02:28e, em consequência, efeito na decisão do Copom.
02:34Então, a expectativa que era de um corte de 0,5% antes da guerra,
02:40agora ela de fato caiu, está a maioria a essa altura achando que não vai haver nenhum aumento,
02:52o Banco Central vai ser conservador e vai esperar próximas evoluções dos preços dessa guerra
03:03e do custo do aumento do petróleo, ou outros, como vocês mesmos já mencionaram,
03:11um pouquinho mais otimistas achando que pode haver aí uma subida de 0,25%.
03:17Eu acredito que uma hipótese mais conservadora, etc.,
03:24talvez fosse a mais adequada nesse momento, aguardar, ver o que vai acontecer
03:30e depois tomar as providências acessórias.
03:33Agora, ministro, a gente está acompanhando esse conflito todo na região do Oriente Médio,
03:37afetando, como o senhor destacou aí, o petróleo, consequentemente o diesel.
03:42Produção de alumínio também é importante, cerca de 10% são prejudicados por esse conflito ali,
03:48principalmente pela interrupção do Estreito de Hormuz, ou seja, abala a economia mundial como um todo.
03:53Por outro lado, a gente tem algumas mensagens meio que contraditórias até do governo Donald Trump.
03:59Uma hora diz que o conflito vai acabar, outra hora, não, a gente precisa terminar o serviço
04:02e por aí vai, e a gente acaba tendo uma não certeza em torno do assunto.
04:08Isso acaba, ministro, partindo para a economia global e, consequentemente, também nos afetando,
04:14à medida em que investidores, de um modo geral, não gostam de imprevisibilidade, ministro?
04:21Olha, não há dúvida de que essa é uma característica do Donald Trump.
04:29Quando a vida dele, seja no setor privado, seja no setor público, ele tem essa característica
04:35de dar mensagens contraditórias, etc., não necessariamente deixar uma clara centralização
04:43sobre o que ele vai fazer, principalmente numa guerra, tá?
04:46Em que aí o fator surpresa, muitas vezes, tem também um efeito.
04:51O problema é que ele, olhando a questão da guerra lá e as questões táticas e estratégicas da guerra,
05:01ele tem também, a fala dele tem também esse efeito que estamos discutindo aqui.
05:08Quer dizer, o que vai acontecer? Quanto tempo vai durar?
05:13E, em resumo, quanto tempo mais nós teremos restrições de passagem de petróleo e de outros produtos ali no estreito
05:24de Ormuz?
05:25Então, esse é o ponto fundamental, porque aí é onde reside o problema.
05:31Quer dizer, cerca de 20%, no caso do petróleo, cerca de 30%, por exemplo, de outras coisas, outros produtos como
05:41a harmônia, a ureia, etc.,
05:43que passam por ali, 30% da produção mundial.
05:49Então, na medida em que há uma interrupção ou um problema ali mais sério,
05:53Realmente, isso tem que ser levado em conta agora com hipótese.
06:02O problema é esse, né?
06:03Que estamos aqui falando.
06:05No fundo, é o seguinte, a guerra vai durar mais alguns dias, vai durar algumas semanas,
06:11e o Donald Trump, certamente, é uma pessoa que dá informações conforme o seu estilo,
06:21muitas vezes conflitantes, diz uma coisa, depois diz outra, etc.
06:25Então, na verdade, nós não sabemos exatamente qual será a duração.
06:29Inclusive, porque ele próprio tem sido muito surpreendido pela reação do Irã
06:34e pela capacidade de defesa do Irã, que não estava previsto.
06:40Ministro, o senhor observando o cenário econômico do Brasil neste momento,
06:44o senhor acredita que o Brasil está preparado para uma instabilidade econômica
06:49caso essa guerra, esse conflito, se estenda mais, uma escalada nesse conflito?
06:55Sim, eu acredito que sim.
06:57A economia brasileira, nos anos recentes,
07:03ela se beneficiou bastante daquelas reformas que foram feitas lá atrás,
07:08reforma trabalhista, reforma dos meios de pagamento, etc.
07:12Então, a economia brasileira, hoje, tem uma produtividade maior do que tinha no passado,
07:20ela está mais bem, digamos assim, preparada para enfrentar essa situação de estabilidade.
07:31Além do que o Brasil, ele depende, está integrado na economia mundial,
07:37basicamente por importações e as exportações são muito concentradas e comodidades,
07:44que estão afetadas em uma escala menor pelos problemas lá no Oriente Médio.
07:52E em relação à instabilidade da economia, sim, pode haver uma certa instabilidade na demanda,
07:59mas não é algo que afete diretamente a produção do país,
08:04na medida que o Brasil não é um grande exportador de industrializados, etc.,
08:10e de produtos que estão dentro dessa cadeia de produção.
08:17Quer dizer, o Brasil, portanto, pode ser afetado, é mais uma questão de demanda por commodities,
08:26o que não é uma coisa que a curto prazo tem impactos tão grandes,
08:32ou efeitos tão grandes assim na economia, como seria o caso, ou é o caso,
08:36daqueles países que estão incluídos nas cadeias de produção dos produtos industrializados.
08:43Nós conversamos com Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central
08:48sobre os possíveis impactos econômicos aqui no Brasil em relação à guerra no Oriente Médio e ao conflito.
08:53Obrigada, ministro, pela sua participação aqui sempre no Jornal da Manhã.
08:57Obrigado, bom trabalho e vamos em frente.
09:01Obrigado, bom trabalho e vamos em frente.
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