00:00Quando a gente pensa nas mulheres no carimbó, logo vem para a gente uma mulher tocando,
00:05uma mulher no instrumento, no tambor.
00:07Só que, historicamente, nesse registro, a gente não tem tantas mulheres.
00:13Entretanto, elas sempre estiveram lá, se você observar, na organização ou na dança.
00:18Por exemplo, nos primeiros escritos sobre carimbó do Vicente Salles,
00:21ele cita uma senhora que se chama Tia Pê, que é lá de vigia.
00:25Ele diz que ela era uma das grandes responsáveis por essa manifestação ocorrer.
00:30Em Algodual, nós temos a Dona Magá.
00:33Quem trouxe os primeiros curimbós para a ilha foi a Dona Magá.
00:37Ou seja, foi uma mulher que trouxe, hoje, uma ilha reconhecida por carimbó.
00:41Foi uma mulher que trouxe esse tambor.
00:43Então, elas sempre estiveram ali como organizadoras,
00:46até porque o carimbó está muito ligado a muitas expressões religiosas.
00:50Então, é muito comum as mulheres estarem ali na organização da reza,
00:54na organização do Dia das Mães.
00:56E eram nesses dias que aconteciam o carimbó.
00:59Eu acho genial o que as mulheres fazem na atualidade.
01:04Primeiro porque a gente acaba realizando espaços seguros.
01:08São espaços onde mulheres e corpos diversos se sentem seguros
01:11para tocar e fazer o seu carimbó.
01:13Isso é muito importante.
01:14A gente traz outras discussões.
01:15Não é só estar em cima do tambor.
01:17A gente também quer ter segurança para fazer a nossa expressão cultural.
01:21Eu acho que isso é uma marca da geração atual.
01:24Obviamente, a gente teve muitas mulheres que nos trouxeram até aqui,
01:28como a Dona Ângela, do Coisa de Negro,
01:31a Neire, do Carimbó Sancari,
01:33Dona Mimi, do Sereia do Mar.
01:36Mas a gente teve muitas mulheres que nos trouxeram
01:39e hoje muitas mulheres e mulheridades
01:41que estão fazendo carimbó e salvaguardando
01:44o que é tão importante para a gente que é paraense.
01:47Eu queria dizer que as mulheres não fazem carimbó
01:49somente no dia 8 de março.
01:51Nós fazemos carimbó o ano inteiro.
01:53Nós salvaguardamos esse movimento o ano inteiro.
01:56O marco histórico que eu posso te dizer
01:58é que o primeiro grupo protagonizado por mulheres
02:01é o grupo Sereia do Mar, no ano de 94.
02:04A primeira mulher a vender vinil com carimbó internacionalmente
02:09é a Nazaré Pereira.
02:11E a primeira mulher a ser produtora de um vinil
02:13é a Nazaré do Ó.
02:15Entretanto, vão ter várias mulheres que não estão contadas
02:18na história oficial, que foram tão importantes.
02:21Por exemplo, as mulheres organizadoras.
02:24As organizadoras das festas, como a Tia Pê em Vigia,
02:27a Dona Magá em Algo Dual,
02:29a própria Dona Ângela aqui no Coisa de Negro.
02:32Então, as mulheres estão em várias facetas do carimbó.
02:35E todas de suma importância.
02:37Seja fazendo a comida, fazendo a gente birra,
02:39estando na dança ou tocando os instrumentos,
02:42as mulheres foram essenciais para a gente chegar hoje
02:45e o nosso carimbó ser patrimônio cultural e material brasileiro.
02:49Batuque da Lua Crescente, a gente canta músicas de nossa autoria.
02:54Também a gente canta a música de mestres,
02:56dos mestres que foram muito significativos
02:59e representativos para a gente na nossa formação.
03:04Dentre eles tem o mestre Louis Valgarapé,
03:07que é daqui do nosso território.
03:09Aqui de Quaraci.
03:10O mestre que a gente acompanhou enquanto ele estava vivo.
03:15Também a gente tem mestres com o mestre Nego Rai,
03:19que é a pessoa que zela por essa casa, por esse espaço.
03:24Também tem a mestre Nazaré Duó,
03:26a mestre Nazaré Pereira.
03:30E é isso.
03:31A gente também tem música instrumental,
03:33que eu vejo como algo inédito dentro dos grupos de carimbó,
03:41principalmente femininos.
03:43A gente tem um repertório autoral e instrumental.
03:46Tem essas referências de músicas da região do Salgado, do Marajó,
03:50daqui também do Coisas de Negro.
03:51É um preconceito velado, né?
03:54Mas a gente percebe que, por exemplo,
03:58numa roda de carimbó,
04:00a gente tem pouco espaço para subir no tambor,
04:04para assumir o microfone,
04:07para fazer uma sequência com o nosso repertório.
04:11Então, de alguma das nossas instrumentistas chegar,
04:15ter espaço para tocar.
04:20Mas, assim, é um tipo de preconceito
04:26que, aos poucos, tem sido mais diluído.
04:29Muito por conta de várias discussões que já houveram
04:33dentro da comunidade do carimbó
04:36e também da nova geração de carimbozeiros que vêm vindo, sabe?
04:41Que também têm uma outra consciência
04:44sobre questões sociais.
04:47Então, a gente já observa uma mudança no cenário.
04:51Pertence a essa nova geração do carimbó.
04:56Para mim, eu vejo como um movimento de salvaguarda, sabe?
05:01É como se a gente olhasse para trás,
05:05pegasse as referências dos nossos mais velhos,
05:09dos nossos mestres,
05:11e criassem a partir dele,
05:13e fizessem coisas novas,
05:15a partir da nossa perspectiva,
05:18do nosso olhar,
05:19de tudo o que a gente acumula,
05:21vendo as coisas da internet.
05:24Enfim,
05:26é uma transformação que acontece.
05:29E eu gosto muito de fazer parte desse movimento,
05:32ser uma pessoa que esteja fazendo parte de tudo isso.
05:38não, eu tinha, eu não fui a primeira, né?
05:43As mulheres no passado marcaram muito,
05:46nós tivemos a Elis Regina,
05:48nós tivemos tanta gente maravilhosa que fez pela música.
05:53Agora, na Europa, eu tive a chance de ser uma das primeiras a fazer grandes cenas e sair discos,
06:04inclusive fazer o Olimpia de Paris.
06:07eu tivesse a chance,
06:09quando eu comecei a fazer música da Amazônia,
06:12porque antes eu cantava como todo mundo,
06:14As Mossa Nova, aquelas coisas,
06:15e todo mundo dizia,
06:16hum, chato,
06:18a voz dela é chata,
06:19não é dizer que seja chato,
06:21as músicas são maravilhosas.
06:22Mas tem vários cantores franceses que traduziram músicas brasileiras,
06:30e traduziram Chico Buarque,
06:33traduziram vários, vários.
06:36E aí a música ficou mais conhecida, a música.
06:39Agora, os cantores brasileiros eram mais o lado bossa nova.
06:44E eu, quando eu entrei,
06:47eu cantava bossa nova também nos barzinhos,
06:49aí o pessoal ia ou não ia,
06:50não dava muita bola, não.
06:52Aí, quando eu comecei a cantar uma música do Nordeste,
06:56manda, pelo amor de Deus,
06:57foi quando eu comecei a cantar Cheiro da Carolina,
07:00por acaso,
07:01porque eu estava numa festa de casamento
07:03e ninguém se mexia.
07:05Eu cantava, cantava.
07:07Aí eu virei para o meu guitarrista,
07:08que é cearense também,
07:10e falei assim,
07:11ô, mano, você tem vontade de cantar aquelas músicas
07:12que a mamãe cantava para eu dormir lá no Acre.
07:15Porque naquela época as mães cantavam para os filhos dormirem.
07:19Aí ele disse,
07:20lembra de uma?
07:21Ele disse,
07:21ah, ela cantava Carolina.
07:23Aí, tu sabe,
07:24eu digo, você é metade.
07:25Ele disse, vamos cantar.
07:27Aí nós começamos,
07:29Carolina,
07:30menina,
07:31ainda não tinha nem dito a palavra samba,
07:33já estava todo mundo em pé dançando.
07:35Entendeu?
07:36E aí, no dia seguinte,
07:38no barzinho onde eu cantava,
07:40estava lotado de gente,
07:41fazia fila para eu escutar Carolina,
07:44para eu escutar o estilo,
07:44entendeu?
07:45Tinha sido até um músico francês
07:49que era baterista
07:51e que veio fazer uns rabumba para mim,
07:52porque os brasileiros não queriam, não,
07:54os músicos brasileiros da época.
07:55Ah, Nazareth,
07:56isso aqui na França é muito cafona cantar essas músicas,
07:58ah, do norte, do nordeste, essas coisas.
08:01Aí, na realidade, não era isso,
08:03porque, quando eu comecei a cantar,
08:05os jornais começaram a dizer,
08:08um outro Brasil,
08:10essa moça representa um outro Brasil,
08:13um Brasil diferente que a gente não conhecia.
08:15e foi por isso que eu comecei a fazer a minha carreira,
08:19que, graças a Deus, foi muito longa.
08:22É ainda, porque eu ainda faço bastante show,
08:25menos, porque eu sou considerada
08:29uma estrela dos anos 80 e 90.
08:32Tem isso também.
08:34E eu sou dessa geração.
08:37E agora nós estamos numa geração mais moderna,
08:41mas que precisam escutar
08:42certas músicas de compositores
08:46antigos,
08:47porque tem coisas maravilhosas.
08:49Não, na Europa eu não senti nenhum preconceito.
08:52Nenhum, nenhum, nenhum.
08:53Nenhum mesmo.
08:54Tanto que a primeira vez que eu fui,
08:56eu cantava nos barzinhos,
08:57nos botecos, nas praças,
08:58cantava no metrô,
09:00quando eu não tinha gravado o disco.
09:03Eu cantava em todo canto,
09:04nas praças públicas,
09:05eu ganhei o dinheirinho para pagar meu hotel.
09:07Porque eu venho de uma família simples
09:13e fui para a Europa na garra
09:17sem possibilidade quase de ir.
09:19Fui ajudada pelo Java Passarinho,
09:21que na época era meu professor de inglês
09:23aqui no Colégio Herbert.
09:25E ele a criando também.
09:26Então, ele achava que eu era brigona,
09:28valente,
09:29que eu tinha objetivos,
09:32e ele me ajudou.
09:35E foi nessa época que eu fui,
09:38que comecei a cantar as nossas músicas,
09:42e que o pessoal adorava.
09:44Não tive problema de preconceito da mulher
09:48ou da mulher morena,
09:50escurinha,
09:51como eu tive uma vez.
09:52eu fui uma vez fazer no Rio,
09:53em São Paulo,
09:54eu fui fazer teste
09:55para a peça do teatro Réa.
10:00Não passei porque eu não era negra.
10:03Aí eu vim para o Rio de Janeiro,
10:04três dias depois eu fiz um teste
10:06para uma peça também.
10:09Não passei porque não era branca.
10:11Aí eu disse,
10:11gente, o que vocês querem da vida?
10:14Eu sou amazônica,
10:16eu sou do norte,
10:19essa é a minha cor maravilhosa.
10:22Bom, demorou, demorou muito.
10:25Agora não,
10:25agora já melhorou muito.
10:28Mas eu tive muito mais
10:29esse preconceito no Brasil
10:32do que lá.
10:33Na Europa não tive, não.
10:38Recebendo o público,
10:43conversando também com eles,
10:45são todos,
10:47eles são todos bem-vindos.
10:49Eu digo assim,
10:49minhas cria,
10:51depois que sobe nesse palco aí,
10:53são minhas cria,
10:55porque aqui
10:55é onde a vivência do Carimbó,
10:58a vivência deles,
11:00a vivência deles.
11:02Então,
11:03é um espaço que acolhe,
11:05é um espaço acolhedor.
11:07Eu não sei,
11:08não sei tocar nada.
11:10Aí eu chego,
11:12tem o primeiro grupo que toca,
11:14depois a roda de Carimbó,
11:15é livre.
11:16É livre,
11:17você chega,
11:19você pode subir para tocar.
11:21Não interessa se você sabe,
11:23se não sabe.
11:23A gente está para aprender.
11:26Tudo tem que aprender,
11:28tudo tem que ter a prática.
11:31Então, daqui com a prática,
11:34os jovens que chegam aqui,
11:37eles já saem,
11:39já tocando,
11:41já vão para Belém,
11:42já vão para a Feira do Açaí,
11:43então isso para mim
11:44é uma gratidão,
11:47eu me sinto feliz.
11:49É difícil de eu ir,
11:51mas quando eu vejo
11:53toda a galera lá,
11:54a galera do Carimbó
11:55está toda aqui,
11:56tocando aqui,
11:56tocando ali,
11:57tocando na praça,
11:58tocando no Centu,
11:59tocando onde der,
12:01a mulherada.
12:03A mulherada.
12:04Então,
12:06assim,
12:06eu fico assim,
12:07tão orgulhosa,
12:08é difícil de ir,
12:08mas de vez em quando
12:09dou uma fugida daqui e vou.
12:11e quando eu chego,
12:12eu me deparo com todas elas,
12:15todas as mulheres,
12:18tocando mesmo,
12:18tocando a sua maraca,
12:19tocando o seu curimbó,
12:20já sei que passou aqui,
12:22no Coisa de Negro,
12:22nesse palco,
12:24eu sei que elas ficaram nervosas,
12:27tudo mais,
12:27mas conseguem aprender
12:29a tocar todos os instrumentos.
12:32e elas já saem daqui
12:34tocando e cantando,
12:37compondo,
12:38né?
12:39Então,
12:39isso aqui,
12:40para mim mesmo,
12:41é uma gratidão,
12:43assim,
12:43dos jovens,
12:45falo mais dos jovens.
12:47Está certo que tem
12:48as martriacas,
12:50né?
12:51Mas,
12:52os jovens chegam aqui
12:54e aprendem,
12:55não tem,
12:55ah,
12:55você não vai subir
12:56porque você não sabe tocar.
12:58Não,
12:59você vai,
12:59sobe e vai tocar.
13:00Então,
13:02esse espaço aqui,
13:03como a galera chega,
13:04né?
13:04Para tocar,
13:05mulherada,
13:07tem vários grupos de carimbó
13:08que já saíram daqui,
13:10Volta o Mundo,
13:11né?
13:12Que já estão aí,
13:14tem a...
13:16Outros grupos também
13:17de carimbó
13:18formados por mulher.
13:19Dia 15 agora
13:20vem a...
13:21Vem a Mestra Cristina,
13:23né?
13:23Que é lá de...
13:27Marapani.
13:28Mestra Cristina de Marapani
13:30vai estar dia 15
13:31aqui no Espaço Cultural
13:32Coisa de Negro.
13:33Também é um grupo,
13:33uma comunidade formada
13:34por mulheres,
13:36né?
13:37Quando ela chega aqui,
13:38bora, bora,
13:38sobe aqui e toca,
13:40mas eu...
13:41Até então,
13:42não posso.
13:43Não posso assim,
13:44eu dou apoio
13:45para o Rai,
13:46né?
13:46Eu tenho que dar
13:47esse apoio para ele.
13:48Então,
13:48é eu e ele.
13:49E aí
13:50E aí
13:52E aí
13:54E aí
13:56E aí
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