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  • há 59 minutos

Categoria

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Diversão
Transcrição
00:00Ideias do Canário de Machado de Assis
00:03Um homem dado a estudo de ornitologia por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém
00:12lhe deu crédito.
00:13Alguns chegam a supor que Macedo virou juízo. Eis aqui o resumo da narração.
00:17No princípio do mês passado, disse ele, indo por uma rua, sucedeu que um tilbre, a disparada, quase me atirou
00:24ao chão.
00:25Escapei saltando para dentro de uma loja de Belchior.
00:28Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava
00:34ao fundo, sentado numa cadeira de abrir.
00:36Era um frangalho de homem, barba cor de palha, suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não
00:43achara comprador.
00:45Não se adivinhava nele nenhuma história, como podia ter alguns objetos que vendia.
00:50Nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
00:55A loja era escura, atulhada das coisas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas, que de ordinário se acham em tais casas.
01:04Tudo naquela meia desordem própria do negócio.
01:07Essa mistura, posto que banal, era interessante.
01:09Panela sem tampa, tampa sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pelo, caixilos, binóculos,
01:18meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinela, luvas, vasos sem nome,
01:24dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado sissão,
01:32um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não
01:37vi e não me ficou de memória.
01:39Enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado, exposto em caixas de vidro igualmente velhas.
01:45Lá para dentro havia outras coisas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas,
01:53uns por cima dos outros, perdido na escuridão.
01:56Ia sair quando viu uma gaiola pendurada da porta.
01:59Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava ali estar vazia.
02:04Não estava vazia. Dentro pulava um canário.
02:07A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroço uma nota de vida e de
02:13mocidade.
02:14Era o último passageiro de algum naufrágio que ali foi parar íntegro e alegre como dantes.
02:19Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro,
02:25como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol.
02:28Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica.
02:33Em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois.
02:38Eu, de em volta com o prazer que me trouxe àquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro,
02:43e murmurei baixinho palavras de azedume.
02:45Quem seria o dono execrável desse bichinho que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis?
02:51O que, mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto,
02:56o deu de graça a algum pequeno que o vendeu para ir jogar uma quiniela?
03:00E o canário, que, dando-se em cima do poleiro, trilou isto?
03:04Quem quer que sejas tu, certamente não está em teu juízo.
03:07Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse.
03:11São imaginações de pessoas doentes. Vai te curar, amigo?
03:14Como interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado?
03:17Então o teu dono não te vendeu a esta casa?
03:20Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?
03:25Não sei que seja sol nem cemitério.
03:27Se os canários que têm visto usam do primeiro desses nomes,
03:31tanto melhor, porque é bonito.
03:32Mas estou que confundes.
03:34Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém,
03:37salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.
03:41Que dono?
03:42Esse homem que aí está é meu criado.
03:44Dá-me água e comida todos os dias,
03:46com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços?
03:50Não seria com pouco.
03:51Mas os canários não pagam criados.
03:53Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários,
03:56seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
03:59Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar.
04:02Se a linguagem, se as ideias.
04:04A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente,
04:07saía do bicho em trilhos engraçados.
04:10Olhei em volta de mim para verificar se estava acordado.
04:13A rua era a mesma.
04:14A loja era a mesma loja escura, triste e úmida.
04:17O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse.
04:21Perguntei-lhe então se tinha saudade do espaço azul infinito.
04:25Mas, caro homem, trilou o canário,
04:27o que quer dizer espaço azul infinito?
04:30Mas, perdão, o que pensas desse mundo?
04:32O que coisa é o mundo?
04:33O mundo, redarguiu o canário com certo ar de professor,
04:37o mundo é uma loja de Belchior,
04:38com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego.
04:43O canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca.
04:47Fora daí, tudo é ilusão e mentira.
04:49Nisto, acordou o velho e veio a mim arrastando os pés.
04:52Perguntou-me se queria comprar o canário.
04:54Indaguei-se o adquirida com o resto dos objetos que vendia.
04:58E soube que sim, que eu comprara um barbeiro,
05:00acompanhado de uma coleção de navalhas.
05:03As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
05:06Quero só o canário.
05:08Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame,
05:12pintada de branco, e ordenei que a pusesse na varanda da minha casa,
05:16donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.
05:21Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno,
05:24sem dizer nada a ninguém,
05:25até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta.
05:29Comecei por alfabetar a língua do canário,
05:32por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música,
05:35os sentimentos estéticos do bicho,
05:37às suas ideias e reminiscências.
05:39Feita essa análise filológica e psicológica,
05:42entrei propriamente na história dos canários,
05:44na origem deles, primeiros séculos,
05:47geologia e flora das ilhas canárias,
05:49se ele tinha conhecimento da navegação, etc.
05:52Conversávamos longas horas,
05:54eu escrevendo as notas,
05:55eles esperando, saltando, trilando.
05:57Não tendo mais família que dois criados,
05:59ordenava-lhes que não me interrompesse,
06:01ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente,
06:04ou visita de importância.
06:06Sabendo ambos das minhas ocupações científicas,
06:08acharam natural a ordem,
06:10não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.
06:13Não é mistério dizer que dormia pouco,
06:15acordava duas ou três vezes por noite,
06:17passeava à toa,
06:18sentia-me com febre.
06:20Afinal, tornava o trabalho para reler,
06:22acrescentar e emendar.
06:23Retifiquei mais de uma observação,
06:25ou por havê-la entendido mal,
06:26ou porque ele não a tivesse expresso claramente.
06:30A definição do mundo foi uma delas.
06:32Três semanas depois da entrada do canário em minha casa,
06:34pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.
06:37O mundo, respondeu ele,
06:38é um jardim assaz largo com repuxo no meio,
06:41flores e arbustos,
06:42alguma grama,
06:43a clara e um pouco de azul por cima.
06:46O canário, o dono do mundo,
06:47habita uma gaiola vasta,
06:49branca e circular,
06:50donde mira o resto.
06:51Tudo mais é ilusão e mentira.
06:53Também a linguagem sofreu algumas retificações
06:56e certas conclusões,
06:57que me tinham parecido simples,
06:59vi que eram temerárias.
07:00Não podia escrever a memória que havia de mandar
07:03ao Museu Nacional,
07:04ao Instituto Histórico e às universidades alemãs,
07:06não porque faltasse matéria,
07:08mas para acumular primeiro todas as observações
07:11e ratificá-las.
07:12Nos últimos dias, não saía de casa,
07:14não respondia a carta,
07:15não quis saber de amigos nem parentes.
07:17Todo eu era canário.
07:19De manhã, um dos criados tinha seu cargo
07:21limpar a gaiola e pôr-lhe água e comida.
07:24O passarinho não lhe dizia nada,
07:25como se soubesse que a esse homem
07:27faltava qualquer preparo científico.
07:29Também o serviço era o mais fumário do mundo.
07:31O criado não era amador de pássaros.
07:34Um sábado, amanhecia enfermo,
07:35a cabeça e a espinha doíam-me.
07:37O médico ordenou absoluto repouso,
07:39era excesso de estudo,
07:40não devia ler nem pensar,
07:41não devia saber sequer o que se passava
07:44na cidade e no mundo.
07:45Assim, fiquei cinco dias.
07:46No sexto, levantei-me
07:48e só então soube que o canário,
07:49estando criado a tratar dele,
07:51fugira da gaiola.
07:52O meu primeiro gesto foi para esganar o criado.
07:55A indignação sufocou-me.
07:56Caí na cadeira sem voz, tonto.
07:58O culpado defendeu-se,
07:59jurou que tivera cuidado,
08:01o passarinho é que fugira por astuto.
08:03Mas não o procuraram?
08:04Procuramos sim, senhor.
08:05A princípio trepou ao telhado,
08:07trepei também,
08:08ele fugiu,
08:09foi para uma árvore,
08:10depois escondeu-se e não sei onde.
08:11Tenho indagado desde ontem,
08:13perguntei aos vizinhos,
08:14aos chacareiros,
08:15ninguém sabe nada.
08:16Padeci muito,
08:17felizmente a fadiga estava passada
08:19e com algumas horas
08:20pude sair à varanda e ao jardim.
08:22Nem sombra de canário.
08:23Indaguei, corri,
08:24anunciei, nada.
08:25Tinha já recolhido as notas
08:27para compor a memória,
08:28ainda que truncada e incompleta,
08:30quando me sucedeu visitar um amigo
08:31que ocupa uma das mais belas
08:33e grandes chacras dos arrebaldes.
08:35Passeávamos nela antes de jantar,
08:37quando ouvi-lhe lá esta pergunta.
08:39Viva, senhor Macedo,
08:40por onde tem andado que desapareceu?
08:42Era o canário,
08:43estava no galho de uma árvore.
08:45Imagine como fiquei,
08:46o que lhe disse?
08:47O meu amigo cuidou que eu estivesse doido,
08:49mas quem me importava o cuidado de amigos?
08:52Falei ao canário com ternura,
08:53pedi-lhe que viesse continuar a conversação,
08:56naquele nosso mundo composto de um jardim,
08:58um repuxo, varanda e gaiola branca e circular.
09:01Que jardim?
09:02Que repuxo?
09:03O mundo, meu querido.
09:04Que mundo?
09:05Tu não perdes os maus costumes de professor.
09:07O mundo, concluiu solenemente,
09:09é um espaço infinito e azul com o sol por cima.
09:12Indignado, retorquei-lhe que,
09:14se eu lhe desse crédito,
09:15o mundo era tudo.
09:16Até já for uma loja de Belchior.
09:18De Belchior?
09:19Trilou ele as bandeiras despregadas.
09:22Mas há mesmo lojas de Belchior?
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