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  • há 7 meses
Em 1980, quando a televisão completou três décadas no Brasil, a TV Cultura exibiu uma série de programas sobre a história das emissoras. A Record, fundada em 1953, marcou época com programas marcantes, como Jovem Guarda, Família Trapo, Fino da Música e os Festivais da Canção. Assista aos depoimentos de Paulo Machado de Carvalho, fundador da emissora, de Paulo Machado de Carvalho Filho, e de Nílton Travesso, um dos maiores diretores de televisão do país.

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TV
Transcrição
00:00Paulo, já existindo a Rádio Record, como é que o senhor teve a ideia de iniciar uma televisão, a Televisão
00:05Record?
00:11As coisas foram mais ou menos assim.
00:19O grande jornalista assiste a Tobriand com aquelas loucuras
00:30e com aquele jeito de viver dele
00:35fez uma viagem, entre as inúmeras que ele fazia a cada 15 dias,
00:41fez uma viagem aos Estados Unidos.
00:45Veio dos Estados Unidos, imbuído com esse assunto televisão, que estava começando também lá.
00:56E, então, o Assis, um dia, depois de receber algumas máquinas, digamos assim,
01:08algum aparelhamento, nos chamou no escritório dele, me chamou,
01:15porque eu ligava muito com ele e outros amigos,
01:19e resolveu mostrar um pouquinho, uma coisa nova, que era uma novidade absoluta no Brasil.
01:28A gente está sentado numa cadeira e numa outra sala a ser visto, sentado nessa cadeira.
01:34E o Assis tinha um jeitão muito desprendido.
01:40E o Assis, então, desde o momento que eu vi a primeira,
01:46a primeira,
01:50não era uma filmagem, era talvez um videotepe permitível, era alguma coisa,
01:58ele me induz as mãos, você não pode deixar,
02:01você é um lutador, você precisa entrar nesse negócio de televisão,
02:06você precisa entrar nesse negócio de televisão.
02:07e tanto fez e tanto falou que eu resolvi entrar.
02:15E devo dizer que os ensinamentos e os homens que ele trouxe
02:21na montagem da TV Tupi de São Paulo,
02:26nos prestaram um grande serviço.
02:33nos auxiliando, nos prestando esclarecimento sobre o que era um negócio que se chamava televisão.
02:42que eu não tinha absolutamente ideia, sabia, por revista, por aquilo,
02:49por isso ou por aquilo que o Chateau, que existia,
02:54o negócio que se chamava televisão.
02:58Aí, reuni o meu cunhado, que já era sócio da Rádio Record,
03:07senhor João Batista do Amaral, e resolvi ver o que era esse assunto televisão.
03:16Quando eu vi que eu já estava com cinquenta e tantos anos e que os encargos estavam ficando muito grandes,
03:24eu tive a aventura e a bondade de Deus para que os meus filhos, todos eles,
03:32se engrenassem e gostassem, porque engrenar não adianta.
03:39Se a gente não faz as coisas com carinho e com vontade, não adianta.
03:42Eles todos engrenaram no assunto televisão e no assunto rádio.
03:48Então, eu tenho três filhos, e os três filhos trabalham em assunto televisão e rádio.
03:57De modo que isso me deu muita força para eu aguentar muita coisa.
04:05Que eu brinco sempre com todo mundo, que eu sou o recordista de incêndios no mundo,
04:10todo mundo acha graça.
04:12E eu digo o que sou, porque só na televisão Record nós tivemos sete incêndios.
04:20Mas o que eu chamo de incêndio é destruição total.
04:26Por exemplo, no Teatro da Rua da Consolação, não foi nada.
04:32No Cine, para a mão que nós usamos como estúdio de televisão, não foi nada.
04:41A nossa torre, tivemos que quase que renová-la, lá na Avenida Paulista, para que ela funcionasse.
04:51Aqui mesmo, nos nossos estúdios, tivemos incêndios.
04:58Dois.
04:58No nosso caso específico, nós temos uma estrutura evidentemente familiar,
05:05e que no nosso ponto de vista foi muito proveitosa para a empresa,
05:09porque o doutor Paulo Machado Carvalho se constitui até hoje numa bandeira,
05:17não só no terreno da radiofusão, como também no terreno dos esportes.
05:21E todos aqueles que fazem parte daquilo que nós chamamos do clã Paulo Machado Carvalho,
05:27acreditam muito nesta imagem dele, nesta verdadeira mística que há em torno da figura dele.
05:34E é inegável que o transporte desta figura para a empresa foi benéfico.
05:41A década de 50 foi praticamente a década de inauguração, dos anos de inauguração da Record.
05:46Naquela ocasião, nós estávamos também procurando caminhos.
05:50A Record procurou se firmar.
05:52Quer dizer, ela fazia transmissões externas, ela fazia muitas promoções.
05:57Foi uma década em que nós fizemos várias promoções.
06:00Nós fizemos o mês da música popular brasileira, que hoje todo mundo faz, mas que nós já fizemos.
06:05Fizemos Noite dos Choristas, com Jacó do Bandolim,
06:08quando nós colocamos uns 500 tocadores de bandolim aí tocando aqui nos estúdios.
06:13Enfim, nós fizemos um monte, agora não me ocorrem todas as promoções,
06:17mas nós estávamos tentando impor a imagem da emissora.
06:21Depois, nós tivemos duas grandes fases de trazer artistas internacionais.
06:26A última, a mais recente, foi aquela do Teatro Record,
06:31onde todos os grandes nomes, com exceção talvez de Frank Sinatra,
06:35que tivemos a felicidade de ver ultimamente aqui no Brasil,
06:38mas todos eles passaram pelo nosso palco.
06:40Nós criamos, de uma certa forma, uma nova concepção para o artista brasileiro.
06:44O artista brasileiro era conhecido antigamente só um malandro de camisa listada,
06:50a cantora tinha que ter chapéu de Carmen Miranda,
06:53e esse negócio é que nós acabamos e demos dignidade ao artista brasileiro.
06:57O que nós fazíamos era usar com inteligência sempre os mesmos nomes.
07:02Nós usávamos os mesmos em programas diferentes.
07:04Aí nós surgimos com o show do dia 7, e quando nós queríamos fazer um Família Trapo especial,
07:10nós colocávamos alguém de grande prestígio no programa.
07:13Copiar o festival da Record é difícil. Por quê?
07:15Porque o clima inerente aos festivais da Record era próprio da Record,
07:20do teatro da Record, das paredes da Record, das lâmpadas, das câmeras, de todo mundo.
07:24Essas coisas não se criam, essas coisas simplesmente existem e deixam de existir.
07:28Não há possibilidade de se copiar isso.
07:30A emissora tinha na ocasião a possibilidade de criar ídolos ou de criar grandes figuras muito rapidamente.
07:39Então, se você voltar um pouco ao passado, você vai se lembrar que Carlos Imperial
07:45foi um grande nome aqui em São Paulo no tempo desta noite de Improvisa.
07:49Ele conta sempre isso, ele não pagava táxi, não pagava jantar, não pagava coisa nenhuma.
07:53Foi criado dentro dos nossos estudos e nós criamos uma figura para ele,
07:57que era aquele corintiano revoltado, enfim, aquela coisa toda, mas que entendia a beça de música.
08:03E assim, vários tipos foram criados, mas é que a emissora tinha força para isso.
08:08Agora, independentemente disso, nós temos que pensar naquela geração que surgiu.
08:13Nós podemos comparar aquela geração de cantores e geração de artistas
08:17à própria geração de futebolistas do Brasil.
08:19Hoje, nós temos grande dificuldade, vamos dizer, em armar uma seleção brasileira,
08:25porque nós não temos mais seis ou sete gênios.
08:28Quer dizer, nós temos que aguardar mais uma época para que novos gênios surjam.
08:32A última seleção que nós tivemos foi a seleção de 1970, era uma seleção genial.
08:37Como geniais, eram eles Regina, era Roberto Carlos, era Jair Rodrigues, enfim,
08:42toda aquela turma que apareceu, que foi lançada, Roberto, Erasmo, enfim,
08:46todos que foram lançados junto com a Record, ou lançados pela Record.
08:50Havia a força da emissora, havia a criação da emissora,
08:55mas não se pode negar que havia também o poder e a força deles próprios.
09:00Eles realmente tinham uma grande força íntima de comunicação.
09:05A primeira transmissão de Campinas foi com as maiores dificuldades,
09:12porque não havia nenhuma condição, não havia micro-ondas, não havia nada.
09:16Depois, houve um jogo Brasil e Itália, e esse jogo nós resolvemos transmitir do Rio para cá.
09:23Nosso técnico, na ocasião, é técnico até hoje, nós temos um carinho, um respeito especial por ele,
09:29Reinaldo Paim, é o nome dele.
09:31E o Reinaldo, então, improvisou em Ilha Bela e eu acho que no Itapeva.
09:40Nós improvisamos antenas com tela de galinheiro e conseguimos trazer a imagem do Rio de Janeiro até São Paulo
09:49e transmitimos esse jogo.
09:51Bom, essa transmissão, daí a pouco nós recebemos técnicos aqui, ingleses e americanos,
09:56e que nos diziam que não era possível que essa transmissão, com aquelas condições, pudesse ter sido realizada.
10:03E eles chamaram até essa transmissão de voo do Besorro.
10:07Você sabe que o Besorro, pelos princípios da aerodinâmica, ele não pode voar, ele não tem nenhuma condição de voar.
10:14E voa.
10:14Nós não tínhamos nenhuma condição de fazer essa transmissão externa do Maracanã.
10:19Certo? E fizemos.
10:20Não era um pessoal profissional e que tinha muito a aprender.
10:23Então nós fizemos um curso de seis meses com um engenheiro americano
10:28e ele foi nos ensinando tudo o que era importante na televisão,
10:33que eu acho que hoje em dia quase não acontece mais.
10:36Naquele tempo você aprendia a alinhar uma câmera, você aprendia a fazer a câmera,
10:42a lidar com o boom, com o microfone e ao mesmo tempo fazer áudio,
10:46switch o que era uma mesa de corte, a sequência, a linguagem.
10:49Enquanto a TV de Manguada estava aqui, as grandes sequências teatrais que a Tupi ia colocando no ar,
10:58por outro lado nós estávamos fazendo o teatro Cassilda Berker, quatro anos nós fizemos.
11:02Nós tínhamos um Silveira Sampaio que nunca mais apareceu ninguém no lugar dele.
11:07Naquele tempo estava começando Valbochagas, Fred Klima, e tinha um elenco incrível,
11:12além da Cassilda, Cleide, Zimbisque, que foi um professor para todos nós,
11:18tanto em matéria de fotografia para a televisão, iluminação, ensinou muito,
11:22como as poucas vezes que eu me atrevia a dirigir e fazer alguma coisa dentro da televisão com referência a
11:30Shakespeare,
11:31foi ele que chegou para mim e ensinou a respirar Shakespeare,
11:34e a entender o script para poder passar para os atores.
11:37Nós fomos para o teatro Record Consolação, começar a programação, uma nova programação,
11:44e tinha que pensar em alguma coisa, tanto que o incêndio foi às seis e meia da manhã,
11:49ao meio dia nós já estávamos no ar, de uma saleta, fazendo jornal e cuidando da programação.
11:56Mas nesse íntimo, esse álcio vinha muito bem com novela e estava embalada, e liderando.
12:02Então nós achamos que nós não podíamos brigar com a mesma arma.
12:07Primeiro que não tinha nem recurso de estúdio para continuar a fazer as novelas,
12:10e aquele mesmo esquema de programação.
12:13E você tinha um palco, que naquele palco tinha um elevador para descer e subir alguma coisa,
12:18se quiser, de cenografia, e tinha uma pequena piscina de 1,80m por 2,50m, um negócio assim.
12:25Aí nós partimos para os musicais, e investimos em cima de uma geração que estava aí cantando nos botecos,
12:35junto ao barzinho do Marquenze.
12:39Na época, o que representava o Roquete Pinto como premiação?
12:43Não é pretencioso dizer que seria um Oscar.
12:47Levavam a sério, o negócio era muito bem feito, e nunca faltou ninguém para receber o prêmio.
12:54que era muito importante.
12:56E nunca teve esse problema de ser de uma estação ou de outra, de uma rádio ou de outra.
13:01Era uma premiação feita para os jornalistas, a Record também participava,
13:06e tinha um prestígio muito grande.
13:08Não só a entrega, como a festa, que a gente fazia loucuras, né?
13:13Dentro daquele teatro, com um ordimento pequeno,
13:17mas a gente fazia o sujeito atravessar num cabo de aço, nadando,
13:24botava piscina, araras, fazia aqueles shows aí, que era um negócio incrível.
13:31E a Record, na época, sofreu mais um incêndio no Teatro Consolação,
13:36mais um incêndio no Paramon, perdendo equipamento.
13:40Chegou uma hora que ela não tinha mais fôlego para continuar com essa programação.
13:44E cada um foi pegando o seu rumo.
13:46A Elis foi para lá, a Roberto para cá, a Erasmo, a Vandeleia, a Lisete,
13:51e cada um foi cuidar da sua vida.
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