00:00Chegou a hora da coluna Olhar Espacial de hoje, e Marcelo Zurita nos conta a história
00:07de um dos registros mais fascinantes da astronomia brasileira.
00:12Então, vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:24Olá, pessoal! Saudações astronômicas!
00:28Na noite de 31 de janeiro de 1991, o Ceará se tornou palco para um espetáculo celeste
00:35assustador e de rara beleza. O relógio marcava 10 da noite, quando uma grande bola de fogo
00:41silenciosamente entrou sem pedir licença em nossa atmosfera. Por instantes, a noite virou
00:46dia, e logo depois vieram estrondos ensurdecedores. Para quem dormia, e para quem estava acordado
00:52também, aquilo parecia uma alucinação. Bombagar? Foguete? No mínimo, algo muito
00:58fora do normal tinha acontecido, e tinha mesmo. Uma rocha vinda do espaço acabava
01:03de cair nas proximidades do município de Campos Salles. Não era avião, não era foguete,
01:09tampouco algum sinal que vem antes do fim. Era um meteorito, rasgando o céu, iluminando
01:14a noite e marcando um dos episódios mais emblemáticos da meteorítica brasileira.
01:19Antes que uma explicação da ciência acalmasse a população, o clima era de absoluto
01:24terror. E o motivo era fácil de entender. Naquele janeiro de 91, havia estourado a Guerra
01:30do Golfo, quando uma colisão de potências ocidentais reagiu à invasão do Kuwait pelo
01:35Iraque. Por várias semanas, as imagens do conflito ocuparam os noticiários. Os intensos
01:41bombardeios às cidades iraquianas eram transmitidos ao vivo, e havia o temor de que aquilo fosse apenas
01:47o princípio de uma Terceira Guerra Mundial. E como o medo costuma andar junto com a imaginação,
01:53havia muita gente pensando que a bola de fogo e as explosões ouvidas naquela noite seriam
01:58bombas enviadas pelo Saddam Hussein para espalhar o mal pelo mundo.
02:01A verdade é que essas rochas espaciais orbitam o Sol se movendo a algumas dezenas de quilômetros
02:07por segundo. E quando a Terra encontra uma delas, essa rocha entra em nossa atmosfera em
02:13altíssima velocidade, comprimindo e aquecendo os gases à sua frente, criando uma bolha de luz
02:19que chamamos de meteoro. Mas muitas vezes ele se parece mesmo com um
02:24míssel prestes a explodir, e eles explodem. Ao chegar nas camadas mais baixas e densas da
02:30atmosfera, a resistência do ar é tão grande que a rocha se parte em vários pedaços, criando
02:35uma chuva de fragmentos incandescentes. E como ela atravessa a atmosfera numa velocidade
02:40bem superior à do som, gera um estampido sônico, que é percebido como um estrondo de explosão.
02:47Naquela noite, o agricultor Aldemar Antônio da Silva viu uma bola de fogo se partindo no céu,
02:53pouco depois ouviu as explosões, e então duas pedras caíram perto de sua casa, uma delas com cerca
03:00de três quilos. Esse sim é um sujeito de sorte. Recebeu um presente dos céus com entrega em domicílio.
03:05E aqueles foram apenas os primeiros dos quase 24 quilos de fragmentos recuperados na região.
03:14Um número expressivo, especialmente considerando que a maioria dos meteoritos se perde sem jamais
03:20serem identificados. E aqui é importante lembrar que meteoro é um fenômeno luminoso,
03:25e meteorito é a rocha espacial que resiste à passagem atmosférica e chega ao solo.
03:30No espaço, essa rocha é o que chamamos de asteroide, e no caso do Campo Sales, provavelmente um pequeno
03:36asteroide com cerca de um metro, que orbitava o Sol há bilhões de anos. Portanto, o que foi observado
03:43na noite daquela quinta-feira não era o prenúncio do fim dos tempos, não tinha nada de sobrenatural,
03:49nem era o Saddam Hussein invadindo o Ceará. Apenas um fenômeno raro, mas natural, que ocorre
03:55quando a Terra encontra um asteroide. Mas foi uma coisa mais profunda que um encontro
03:59casual. Do ponto de vista científico, o meteorito Campo Sales é classificado como um condrito
04:05ordinário com baixo teor de ferro. Condritos são os meteoritos mais comuns encontrados
04:10na Terra e, paradoxalmente, alguns dos mais importantes para a ciência.
04:15São rochas primitivas onde podemos observar os côndrolos, pequenas esferas minerais formadas
04:21há cerca de 4,56 bilhões de anos. Quando o Sol se formou, processos rápidos de aquecimento
04:28derreteram parte do material do disco de poeira que girava ao seu redor. Esses côndrolos
04:33se solidificaram rapidamente a partir de gotículas de material derretido, preservando informações
04:39precisas sobre temperatura, composição química e processos físicos daquele ambiente primordial.
04:46Em termos simples, um condrito é um material que passou por poucas alterações desde
04:51o nascimento do Sistema Solar. Ele não derreteu completamente, não se diferenciou em camadas
04:56como os planetas e não sofreu processos geológicos complexos. É literalmente um fóssil cósmico.
05:04Em laboratório, análises isotópicas e mineralógicas permitem reconstruir eventos que ocorreram
05:10muito antes da formação da Terra como um planeta habitável. Cada fragmento carrega uma história
05:15específica, registrada em sua estrutura interna como se fosse uma autobiografia escrita em minerais.
05:23Deixando a profundidade de lado, meteoritos não são pedras espaciais aleatórias.
05:28Eles são testemunhos diretos de processos fundamentais da formação dos planetas e luas
05:33do nosso Sistema Solar. Estudá-los é uma forma eficiente e relativamente barata de acessar informações
05:39que, de outra maneira, exigiriam missões espaciais complexas e caríssimas.
05:45Quando um meteorito cai, o espaço profundo entrega uma amostra em domicílio.
05:50Trinta e cinco anos depois, o meteorito de Campos Salles continua cumprindo seu papel silencioso
05:56tanto nos acervos científicos quanto na memória coletiva da região.
06:00Ele nos lembra que a Terra não está isolada, que o espaço não é apenas um plano de fundo distante,
06:06mas um ambiente dinâmico em constante interação com o nosso planeta.
06:11Um evento tão brilhante, intenso e poético quanto a obra do cearense Belchior.
06:16É hora do almoço, Gui!
06:22Ao iluminar o céu do sertão naquela noite, o meteorito Campos Salles conectou o interior do Ceará
06:28ao passado distante do Sistema Solar.
06:32Bons céus a todos e até a próxima!
06:36Tchau!
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