00:00E na semana passada, aqui no Hora H do Agro, nós tivemos entrevistas distintas
00:05que acabaram falando de movimentações interessantes sobre o setor de açúcar e etanol.
00:11E a gente foi então atrás de mais informações, porque nós ouvimos que a China está cada vez mais interessada
00:19na cana brasileira, muito por conta do açúcar, em um movimento de garantir segurança alimentar dos chineses.
00:26E os Estados Unidos estão ampliando o uso do etanol na mistura com a gasolina, o que também mexe com os mercados.
00:34Então, para entendermos como estes cenários reverberam aqui no Brasil, entre oportunidades e desafios,
00:41nós vamos conversar agora com Henrique Berbert de Amorim Neto.
00:45Ele é presidente do APLA, o Arranjo Produtivo Local do Álcool, e também membro do Brasil Sugar Cane,
00:51que é um movimento em parceria com a Apex Brasil.
00:55Muito obrigada aqui por nos receber Henrique, gostaria que você falasse então um pouquinho
01:01o que você tem visto dessa movimentação internacional, tanto Estados Unidos quanto China, interessados, né?
01:10Mas eu queria que você trouxesse então, primeiro, essa avaliação crescente da China.
01:15Você tem acompanhado isso?
01:16Queria entender um pouco se de fato eles estão querendo plantar cana de açúcar lá,
01:21e o Brasil está disposto, interessado também em apoiar isso.
01:25E obrigada de novo aqui pela participação.
01:28Olá, eu que agradeço a participação.
01:30Muito obrigado aí pelo convite de estar aqui, é uma honra estar aqui com vocês.
01:35Bom, sobre a redução das importações da China,
01:39tem muito mais a ver com ajuste de curto prazo do que com mudança estrutural, né?
01:43A gente viu aí que desde 2020 a demanda pelo açúcar brasileiro aumentou demais pra China, né?
01:51O principal comprador de açúcar.
01:55Mas a China, ela vem de alguns anos importando então, né?
01:59Muito, né?
02:00Aproveitou momentos de preços mais favoráveis,
02:03e hoje está com estoques internos aí relativamente confortáveis.
02:07Com isso, não existe urgência em comprar mais agora.
02:10Ou seja, ela tem realmente, agora em janeiro, ela reduziu um pouco essa demanda aí,
02:16mas nada que chegue aos pés o que aconteceu lá em 2019, né?
02:21Então, desde 2020 que a gente vê uma alavancagem muito grande.
02:25Além disso, a safra doméstica deles teve alguma recuperação boa nessa safra passada aí.
02:32Tanto de cana quanto de beterrada.
02:34E o consumo interno está crescendo um pouco, está mais estável, né?
02:37Então, isso naturalmente reduz um pouco aí essa necessidade de importação a curto prazo.
02:44Mas eu acho que o ponto mais importante de risco, né?
02:47Em relação a essa demanda alta que o Brasil tem, né?
02:50Como principal cliente de exportar o açúcar, está referente às tarifas chinesas, né?
02:57Antes de 2020, as exportações eram limitadas por altas tarifas.
03:01A mudança na política comercial da China em 2020 provocou um salto imediato.
03:06E a exportação de açúcar brasileiro para a China, ou seja, qualquer mudança nessa tarifa
03:12pode sim impactar nova venda aí, né?
03:16De curto prazo.
03:19Interessante.
03:20Ainda só falando ainda em China, então, e aí vou pedir para você complementar, é claro,
03:24mas lembrando que agora em janeiro está fazendo três anos que o Ministério da Agricultura da China
03:32aprovou duas variedades de cana transgênica desenvolvidas pelo CTC, pelo Centro de Tecnologia Canavieira, né?
03:39Tecnologia brasileira, nossa, que...
03:41E essa exportação dessas cultivares, queria entender se vocês também olham isso
03:46por essa parceria com a Apex, né, esse projeto aí do Brasil Sugar Cane, se...
03:52Também se olha, então, como você está falando, né?
03:54Não só a demanda do produto em si, mas a parte genética, essa parte de ciência
04:00que o Brasil tão, tão bem desempenha.
04:05É verdade.
04:06A gente tem uma tecnologia de ponta, né?
04:08O CTC agora também está tendo uma mudança grande aí,
04:14uma tecnologia nova de fazer uma semente que reduz bastante o custo de plantio
04:21e aumenta essa produtividade, né?
04:23E a gente precisa exportar essa tecnologia para outros países, né?
04:28E falando sobre o APLA, o Arranjo Produtivo Local do Álcool,
04:33nós temos aí mais de 110 empresas associadas
04:39que têm tecnologia para a produção de açúcar, etanol e energia.
04:43Então, essa mudança que tem acontecido no setor, não só na China,
04:49mas como no mundo inteiro, né?
04:50Todo mundo hoje tem mais de 60 países com alguma mistura
04:55que vai de 5% a 30% de etanol na gasolina.
04:59E isso que é para a gente descarbonizar, reduzir a pegada de carbono.
05:06Agora, falando um pouquinho ainda do mercado brasileiro,
05:11pensando em relação ao Brasil, das exportações ainda de açúcar para a China,
05:17tirando essa parte de tarifa, eu não vejo isso como um problema.
05:22Se a China compra um pouco menos,
05:25o Brasil vende açúcar para outros mercados asiáticos,
05:28como a Indonésia e o Sudeste Asiático também.
05:30E não podemos esquecer também que a própria China importa
05:33de outros países da região, como Tailândia e Austrália,
05:37que acabam ocupando parte desse espaço de alguma forma.
05:40Mas eu não vejo nenhuma preocupação aí a curto espaço de tempo.
05:47Agora, pensando mais para frente,
05:50eu também não vejo um risco da China melhorar as suas condições
05:55na produção agrícola,
05:58aprendendo com o Brasil, que é o que está acontecendo hoje,
06:02principalmente por causa do clima
06:04e por causa também do modelo de produto,
06:10o modelo produtivo chinês,
06:12que é muito diferente do Brasil.
06:15Se a gente for pegar o clima,
06:16a China não tem uma grande faixa tropical igual ao Brasil.
06:20Então, a produção de cana fica concentrada em poucas regiões do Sul,
06:23com menos incidência solar e que reduz bastante a produtividade.
06:30E essa questão geográfica, como você traz,
06:34faz toda a diferença,
06:35porque independente deles quererem plantar mais ou não,
06:39é isso, eles ficam limitados, como você bem disse,
06:42é no Sul do país, não tem muito mais para onde ir.
06:47Exatamente.
06:47E é por isso até que a matéria-prima da produção de açúcar deles
06:55não se limita só à cana.
06:57Uma parte relevante vem da própria beterraba,
06:59e até adoçante à base de milho
07:02para complementar esse consumo aí também.
07:04Perfeito.
07:05E agora que você trouxe, então, o fator milho,
07:08vamos falar de Estados Unidos,
07:09porque em relação aos Estados Unidos,
07:11essa semana a consultoria Kizernikov apontou
07:14que esse mês, a mistura de etanol,
07:17apontou neste mês, mas em relação a outubro,
07:21que a mistura do etanol por lá bateu recorde,
07:24ultrapassando 11%.
07:26Então, o que a gente faz aqui no Brasil
07:28de misturar etanol na gasolina,
07:30lá eles também fazem,
07:31e houve esse acréscimo aí, ultrapassou 11%.
07:35A gente sabe que nos Estados Unidos,
07:37quando se fala em etanol,
07:38estamos falando majoritariamente do milho.
07:40Mas existem consequências para o mercado de etanol como um todo,
07:45independente de ser etanol de milho, etanol de cana.
07:48Queria entender um pouco também
07:50se você tem acompanhado essa ampliação do blend
07:53nos Estados Unidos, dessa mistura,
07:55e como que isso também pode reverberar aqui no Brasil,
07:58como que a gente pode ler essa movimentação aqui,
08:02tanto do ponto de vista de mercado externo mesmo,
08:05mas como que as usinas, os setores,
08:07podem também entender essa movimentação,
08:09acompanhar preço?
08:13É um ponto super importante esse que você está falando,
08:16porque se nós pegarmos de novo o mundo,
08:20os Estados Unidos é o principal produtor de etanol,
08:23e é o principal exportador também.
08:26E o Brasil, ele é o segundo maior produtor de etanol,
08:30só que o consumo interno nosso é muito maior.
08:33É por isso que a nossa matriz energética é tão limpa.
08:38E os Estados Unidos, não só os Estados Unidos,
08:41mas como outros países, como eu disse,
08:43mais de 60 países têm aumentado essa mistura de etanol na gasolina,
08:48para a gente reduzir realmente essa pegada de carbono.
08:53Então, isso aí é um ponto muito positivo.
08:58A gente acabou de ver também o Vietnã aumentando essa porcentagem
09:02de 5% para 10% de etanol na gasolina.
09:07Isso aí está acontecendo em diversos países.
09:12E como os Estados Unidos é o principal produtor de etanol,
09:17isso aí pode se movimentar e ser uma oportunidade muito boa para o Brasil também.
09:23Porque para que o etanol se perdure por mais 40, 50 anos,
09:28o Proálcool acabou de fazer 50 anos para frente,
09:31é importante que cada vez mais países produzam o seu etanol
09:36e façam essa mistura.
09:38Então, uma das coisas que o APA tem feito também
09:41é trabalhado junto com o governo, junto com a Apex,
09:45para promover essa política.
09:48Como que o Brasil fez?
09:50O Brasil está há 50 anos.
09:51Por que aqui no Brasil deu certo essa política do etanol?
09:56E como que os outros países precisam fazer?
09:58Não só em tecnologia agrícola e industrial,
10:03mas também na parte de políticas públicas,
10:09que é necessária para que isso aí aconteça.
10:13Então, eu ia te perguntar exatamente isso.
10:15Quais que são aí no horizonte do APA, essas prioridades?
10:19Então, eu estou entendendo que, junto aí, falando dessa parceria com a Apex,
10:23não é necessariamente somente exportar o etanol, exportar o açúcar,
10:29mas é exportar, às vezes, a ideia, o conceito da política pública
10:32e fomentar demanda.
10:34Porque é isso, né?
10:35Importante que vários países produzam, como você colocou,
10:38mas não adianta produzir se não tiver demanda.
10:40Então, é também fomentar essa demanda.
10:42Inclusive, porque a gente fala de etanol, às vezes,
10:44só pensando em carro,
10:46e o uso pode ser para outras sinalidades também, né?
10:49Exatamente.
10:52E aqui no Brasil, a gente está um pouco à frente,
10:55que a diversificação hoje de matéria-prima, né?
10:58A gente, desde 75, a gente faz etanol com cana,
11:03o milho já está abocanhando aí mais de 20% da produção total de etanol.
11:12E a gente está vendo aí produção de etanol através de melácio de soja,
11:18de trigo, lá no Rio Grande do Sul.
11:20Então, existe uma demanda, uma diversificação muito grande,
11:24e não só para a produção de etanol hidratado,
11:28como você mesmo falou,
11:30mas também para produzir álcool neutro,
11:32que serve para cosméticos e outros produtos.
11:36E olha só que interessante, né?
11:39Voltando só um pouquinho sobre o mercado chinês,
11:45eles têm trazido muitos técnicos para aprender como que a gente produz,
11:53como que a gente planta a cana, como que a produtividade aqui,
11:57o processo produtivo da cana.
12:00Mas lembrando também que a própria China já tem um grupo que se chama Cófico,
12:08que é uma grande produtora de cana de açúcar aqui no Brasil,
12:10e é de capital chinês, né?
12:13Ou seja, eles têm muito conhecimento de como é produzido a cana de açúcar
12:18e açúcar aqui no Brasil através da Cófico.
12:22Ou seja, eles já estão aprendendo,
12:26investindo dentro do próprio sistema brasileiro
12:29e não substituindo o Brasil como fornecedor global.
12:33É, a Cófico é uma das maiores tradings do mundo, né?
12:36A cana de açúcar é uma das bandeiras dela ali,
12:39mas a gente sabe que atua em muita coisa também.
12:41Agora, queria que você, então, encerrasse, Henrique,
12:45falando um pouquinho do que tem sido prioridade do Apple.
12:48Então, a gente está falando bastante desses mercados internacionais,
12:52falou de China, falou dos Estados Unidos,
12:54mas você trouxe, por exemplo, a questão do Vietnã, muito interessante,
12:57Sudeste e Asiático, de uma maneira geral,
13:00despertando mais também para essa bioenergia.
13:04Então, eu queria saber isso, sim.
13:05A prioridade de vocês, quando olha-se para esse mercado externo,
13:09é levar a bandeira da bioenergia, da transição energética,
13:13que tanto se fala, né?
13:15Que o Brasil é esse país que pode fomentar a transição energética
13:18no mundo inteiro.
13:20É mais ou menos por aí?
13:21Ou vocês têm olhado alguma outra prioridade?
13:24Não, é exatamente isso.
13:26O Brasil é referência, só que a gente não faz nada sozinho.
13:29Se outros países não entenderem que isso aí é a maneira mais barata
13:37de a gente descarbonizar, a gente não vai para frente.
13:42Só que isso aí está acontecendo.
13:44Cada vez mais os países asiáticos, principalmente,
13:49estão aumentando essa mistura de etanol na gasolina.
13:53A Índia tem uma explosão lá de destilarias.
13:57Hoje, eles são grandes produtores de açúcar e agora estão usando bastante
14:01o resíduo da produção de açúcar para produzir etanol.
14:04Então, a Ásia e a África também.
14:09Se a gente for pegar todos os países que compreendem os trópicos,
14:14de câncer e capricórnio ali, onde a incidência solar é muito grande,
14:18a oportunidade de câncer é muito grande.
14:22Então, a conversa que a gente está tendo com o governo, com a PECS,
14:26e também com todos os associados, que tem vários que exportam já para vários países do mundo,
14:34existe uma reunião e um consenso de que a gente precisa continuar tendo esse apoio
14:42e aumentar essa venda na América Central e América do Sul,
14:50mas também priorizar a Ásia e também a África,
14:55que é um potencial muito grande para a produção de etanol.
14:59É um grande aumento na produção de etanol.
15:03Se a gente for pegar todo o consumo que a gente vai precisar para a descarbonização,
15:09para a produção de SAF, que é combustível de aviação,
15:13para bunker marítimo e também para bioplástico e outros produtos,
15:18a gente vai ter que produzir quatro vezes mais etanol no mundo do que a gente produz hoje.
15:25Então, realmente, a gente precisa de um apoio não só do Brasil com essa tecnologia de ponta,
15:31mas também de outros países.
15:34Então, a gente tem ido para vários países da Ásia e da África
15:38levando políticas públicas e tecnologia.
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