00:00Vai lá, Cássio.
00:01Marcos, boa noite.
00:03Nós vivemos nos últimos anos, especialmente nos anos mais próximos,
00:08algumas proxy wars.
00:10No caso da Ucrânia e da Rússia,
00:13no caso de Israel e da faixa de Gaza,
00:17e olhando especificamente para a situação da Venezuela,
00:20me parece que China e Rússia
00:22se mantiveram distante dessa confusão, pelo menos por enquanto.
00:27A Rússia emitiu uma nota, a China também emitiu uma nota,
00:31mas não passaram disso.
00:33É uma estratégia ou eles de fato não têm condições
00:37ou não têm necessidade de fazer em frente
00:39aos interesses norte-americanos neste tema Venezuela especificamente?
00:44E o que tem a ver, por exemplo, a situação da Rússia com a Ucrânia
00:48e da China com o Taiwan em qualquer manifestação sobre a Venezuela?
00:53Assim, no primeiro momento, eu queria só comentar
00:58se esses dois exemplos citados, que é a Rússia e a Ucrânia
01:01e Israel e Hezbollah, Israel e Hamas, Israel e Irã,
01:04são proxy wars.
01:05Na minha opinião, elas não são.
01:07Os russos gostam de dizer que são,
01:09particularmente a Rússia e a Ucrânia.
01:11Por exemplo, se você conversa com um russo de mais linha dura,
01:14ele vai te dizer que a Rússia está em guerra com o Ocidente,
01:17na Ucrânia.
01:19Não é uma guerra Rússia e Ucrânia,
01:21é uma guerra entre Rússia e Ocidente na Ucrânia.
01:24Você concorda com isso?
01:25Eu não concordo.
01:26Eu acho que os ucranianos podem ter apoio de potências ocidentais.
01:31É uma pena que cada vez menos a gente está falando em potências ocidentais,
01:34mas em países da Europa e dos Estados Unidos.
01:36Mas eu não acho que é uma proxy war.
01:37Eu acho que é uma guerra.
01:39Como eu também acho que é uma guerra em si, Israel,
01:42contra esses três antagonistas que eu acabei de dimensionar.
01:47Olha, se eu tivesse que fazer uma aposta,
01:49aí está muito ruim fazer aposta,
01:51porque a gente está todos sendo desmoralizados.
01:53Mas eu acho que você...
01:57Enfim, pelo menos daquilo que eu conheço dos chineses.
02:00Eu morei na China durante alguns anos.
02:02Eu fui à China todos os anos da minha vida,
02:04de 2004 até agora.
02:05Hoje, 22 anos, eu vou todos os anos.
02:08A noção de tempo na China é diferente.
02:10Quando a gente fala médio prazo, longo prazo, curto prazo,
02:14para os chineses quer dizer alguma coisa diferente.
02:17Aliás, isso é muito bem exemplificado numa frase,
02:19que eu não sei se eu já contei aqui na Jovem Pan,
02:22daquele momento em que o Henry Kissinger,
02:24secretário de Estado americano,
02:26e o Shuen Lai, que era o premier chinês,
02:28estavam renegociando relações diplomáticas,
02:32no início dos anos 70.
02:34E os dois amantes de história,
02:36trabalharam duro ao longo do dia,
02:38mas no final do dia foram jantar,
02:39estavam tomando um drink.
02:40E aí, supostamente, o Henry Kissinger perguntou para o Shuen Lai
02:46o que ele achava da Revolução Francesa.
02:49E aí o Shuen Lai respondeu o seguinte,
02:51olha, é uma coisa muito recente,
02:52pra gente já poder emitir qualquer tipo de opinião.
02:55Então, a noção de história lá é diferente.
02:57E isso também é verdade em relação ao futuro.
03:00Por exemplo, eu acho que os chineses estão muito voltados
03:02para 2049,
03:04que é o centenário da Revolução Maoísta,
03:05em que eles querem se entender
03:07como um país plenamente desenvolvido.
03:10Então, se você disser o seguinte,
03:12olha, aquilo que aconteceu na Venezuela,
03:15pavimenta um caminho, no curto prazo,
03:17para os chineses exercerem
03:19aquilo que eles entendem que é o direito deles,
03:21a tal da One China Policy,
03:23na política de uma única China.
03:25Eu diria que não é o caso.
03:26Eles acham, os chineses,
03:27que eles têm o tempo ao lado deles.
03:30Então, talvez não seria o momento
03:31que eles terem outras prioridades.
03:32É um pouco.
03:34No entanto,
03:35se a situação fosse diferente,
03:38ou seja, se você tivesse qualquer tipo de assertividade
03:41por parte de Taiwan,
03:43ou por parte de uma potência ocidental,
03:46em nome de Taiwan,
03:47aí eu acho que os chineses iriam com tudo.
03:48Mas eu acho que eles não dariam o primeiro passo.
03:50Minha impressão.
03:51Posso ter errado.
03:53E em relação aos russos,
03:55entre aspas,
03:56a Venezuela deles já aconteceu.
03:59A não ser que você
04:00ache que
04:02o que Crimea,
04:03Crimeia,
04:04ou seja,
04:06que Crimeia em 2014
04:08e que Ucrânia em 2022,
04:11na realidade,
04:12são episódios de uma série.
04:15Está certo?
04:15E que vem aí,
04:17vai vir o quê mais?
04:17Vai vir,
04:18vai vir,
04:18vai vir,
04:18vai vir,
04:19Moldova,
04:21vai vir Finlândia,
04:21vai vir...
04:23Esses dias eu estava vendo
04:24uma entrevista
04:25do chefe de governo
04:27da Finlândia,
04:28eles têm muito medo
04:29em relação a isso.
04:30Eles ficaram durante muito tempo
04:31sob o julgo dos suecos,
04:33durante algum tempo
04:33ficaram sob o julgo
04:35do Império Russo.
04:37Há esse temor.
04:39Mas eu diria que
04:40a conexão,
04:42a correia de transmissão
04:44não é imediata
04:44entre aquilo que aconteceu
04:46entre Estados Unidos
04:47e Venezuela
04:48com a projeção geopolítica
04:49desses outros dois grandes atores.
04:51Obrigado.
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