00:00Vamos falar um pouco mais sobre o Salão do Automóvel e principalmente a presença das marcas chinesas no evento?
00:07Eu chamei aqui para bater um papo conosco Celina Ramalho, que é economista da Fundação Getúlio Vargas.
00:14Professora Celina, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite, sexta-feira, emenda de feriado.
00:19Que bom que a senhora compartilha conosco esse compromisso com a notícia, até porque estamos, talvez eu esteja exagerando um pouco ou não,
00:27estamos vendo uma viragem de páginas importantes quando a gente fala da economia, olhando para a indústria automotiva, a invasão das marcas chinesas.
00:38Algumas já pertencem ao inconsciente coletivo do brasileiro, já reconhecem as marcas e outras muitas que virão.
00:46Bom, olhando essa perspectiva, vamos começar pelo macro, depois pelo micro.
00:52Os chineses se consolidaram na tecnologia de carros elétricos.
00:57O que isso deve impactar em uma economia global, em um padrão de consumo daqui para frente?
01:04Que é cada vez mais comum essa frase, calma, é apenas uma questão de tempo você, consumidor, ter um carro chinês.
01:13Quem fica atrás, diz, ah, não, vou comprar um carro chinês.
01:16Só para dar um exemplo, a Dili, que é uma das montadoras, comprou a Volvo.
01:20Então, quem adquiriu um Volvo, indiretamente está consumindo um produto, entre aspas, chinês.
01:25É nesse sentido que a chance de muita gente comprar um carro chinês cai nesse juízo de valor.
01:34Mas passo-lhe a palavra, professora Celina, para explicarmos como é que os chineses estão repaginando a economia global
01:41por meio da indústria automobilística devido ao carro elétrico.
01:45Boa noite mais uma vez.
01:47Boa noite, Marcelo.
01:48É um prazer enorme sempre estar com vocês.
01:52E a minha tese é de que informação nunca é demais.
01:57Informação boa, é vital nós estarmos bem informados.
02:03É um prazer muito grande participar aqui.
02:06Sim, aquele futuro que nós comentávamos da economia internacional chegou.
02:13No tempo em que eu fiz um trabalho grande com o Paul Krugman aqui no Brasil, eu traduzi o livro de economia internacional.
02:24E ao final ele falava sobre as tendências da economia mundial colocando os países asiáticos numa posição previsível.
02:35Por conta já do que estava acontecendo na industrialização chinesa entre os anos 80, 90.
02:42Em meados dos anos 2000, eu tive a oportunidade de estar com o Rajun Shang, o sul-coreano economista, depois erradicado em Cambridge.
02:52Que me ensinou muito sobre o sul da Ásia há 10 anos.
02:58E o futuro está aqui.
02:59Nós chegamos a esse futuro.
03:01Bem importante nós observarmos que as oportunidades de negócios da China, para falarmos do economia internacional e do macro,
03:13as oportunidades da China e dos países sul da Ásia, obviamente em destaque a China,
03:21mas são as fusões e aquisições com a indústria automobilística tradicional.
03:31Então é o caso típico, esse exemplo que você acaba de dar da fusão, da compra da gele da planta da Volvo.
03:41Então o que acaba acontecendo, especialmente nesse salão do automóvel, é que é a grande vitrine dessa pujança muito acelerada,
03:54que vem sendo o chão de fábrica da China com essas novas tecnologias.
04:02E eu não vou dizer nem para um futuro mais, é para um presente, né?
04:06Automóvel com hélice, com autonomia de uma hora de deslocamento, para não falar dos carros elétricos, né?
04:16Então assim, nós já estamos a um ponto de tecnologia em que a relativização das distâncias muda mais uma vez
04:29na perspectiva da indústria automobilística e os resultados dos automóveis disponíveis para a população.
04:37E sim, essas novas marcas, além de configurarem essa nova concorrência,
04:48agora vamos voltar um pouco para o micro, né?
04:51Eu gostei do exercício colocado aí.
04:54Então, é bastante oportuno observar a concorrência entre as marcas que leva a essa questão das fusões e aquisições,
05:10mas a grande lição de casa que nós brasileiros temos de reposicionar a estrutura fabril automobilística,
05:22uma vez que é uma proporção muito grande da nossa indústria nacional.
05:28E que a América Latina tem sim uma vocação para essa indústria, né?
05:33A exemplo das relações que nós temos com os outros países, né?
05:38Em especial México, Argentina,
05:41para essa plataforma produtiva, né?
05:46Na América do Sul, da indústria automobilística.
05:49E lembrando ainda, a plataforma industrial da indústria automobilística americana
05:55já havia mudado de configuração nos meados dos anos 2000,
06:02quando, nos idos de 2010,
06:06a característica da cidade de Detroit muda completamente de configuração.
06:12Era uma cidade iminentemente de produção automobilística,
06:18mas aí a crise imobiliária acabou levando junto esse valor agregado, né?
06:26De demanda dos automóveis.
06:29E a indústria americana para os automóveis,
06:32os automóveis sucumbiram bastante para essa época
06:37e, ao mesmo tempo, os carros asiáticos se colocaram nos Estados Unidos, né?
06:43Então, é um movimento bastante grande,
06:45é uma manobra muito significativa
06:48se nós marcamos historicamente o que vem acontecendo
06:54para a indústria automobilística.
06:56Professora Celina, é uma pena, é um assunto muito complexo
07:01e, particularmente, ele me encanta muito,
07:03eu sou entusiasta do assunto
07:05e, principalmente, né, falando de salão de automóvel,
07:08muita gente já está pensando em trocar um carro
07:11com essas novas tecnologias,
07:12mas, olhando para a gente encerrar,
07:14a gente tem mais um minutinho de conversa,
07:15eu vou ser breve aqui.
07:16Um dado que me chamou muita atenção
07:19e eu preparei esse gráfico aqui,
07:22que hoje existem, na China,
07:24130 marcas olhando para carros elétricos ou híbridos.
07:28A BYD é a maior delas,
07:30tanto internamente como a maior exportadora,
07:33a maior, hoje, vendedora de carros elétricos do mundo,
07:36passou a Tesla,
07:37mas existe uma previsão dos seus colegas analistas,
07:41economistas,
07:42é que em 2030,
07:43num arco de tempo curto, em cinco anos,
07:45essas 130 marcas se reduzam para 15.
07:50Não é que elas venham a desaparecer,
07:52mas acaba o movimento de aglutinação.
07:56Elas vão se unindo para abrir o leque, né,
08:00umas produzem só caminhonetes,
08:01outras caminhões,
08:02outras carros de passeio com tipo de perfil
08:04e elas se juntam para atender todo um leque de consumo.
08:09Isso é um movimento comum
08:10quando a gente pensa numa industrialização rápida,
08:14vamos colocar a China nesses termos, né?
08:16A China produz, aí tem uma linha de montagem já há um certo tempo,
08:20mas com produção própria de produtos de alto valor agregado,
08:24de tecnologia própria,
08:25patente própria,
08:26é uma coisa relativamente nova.
08:28Faz sentido, na teoria da economia,
08:31esses números aqui,
08:32professora Celina,
08:33130, depois cair tanto,
08:36porque elas vão se juntar?
08:39Sim,
08:39é um prognóstico aí que viabiliza
08:43a existência dessas marcas, né?
08:49Então, elas acabam se tornando uma concentração de mercado
08:58e isso diminui os custos, né?
09:00Os custos operacionais,
09:02os custos de desenvolvimento de tecnologias.
09:06Então, essas fusões e aquisições são previsíveis
09:09para a gestão das próprias empresas,
09:13para a concorrência entre as empresas, né?
09:16E seria como um processo, assim,
09:19de verticalizar os modelos de automóveis
09:23dentro de uma mesma marca, né?
09:25Então, é previsível.
09:26Esse é um caminho, é uma estratégia, né?
09:30Para a preservação aí da saúde, né?
09:37Das empresas, né?
09:40Das marcas, aliás.
09:42E também, assim, para encerrar,
09:44eu gostaria de recomendar, né?
09:48Que as pessoas diretamente ligadas
09:50ao setor automobilístico,
09:52sejam os produtores de autopeças,
09:55sejam os concessionários,
09:57sejam os próprios consumidores, né?
09:59É muito importante, é...
10:01uma informação que vem muito relevante, né?
10:05A respeito do meio de transporte,
10:08que é o transporte por automóveis, né?
10:12É visitar a feira do automóvel, né?
10:15Para conhecer de fato e entender, né?
10:21O que essas novidades estão trazendo, né?
10:25E bastante, assim, no nosso sentido,
10:28eu acho que para a nossa geração, né?
10:30Que foi a geração de ver a indústria
10:32pujante automobilística,
10:34depois a abertura comercial,
10:35e toda a inovação que traz isso
10:39e o que reflete, né?
10:40No tempo e espaço aí,
10:42em relação ao nosso transporte,
10:44as nossas possibilidades de locomoção
10:46e os resultados da própria economia, né?
10:50Como a sociedade se organiza em torno disso.
10:53Queria agradecer a conversa que eu tive
10:55com Celina Ramalho,
10:56economista da Fundação Getúlio Vargas.
10:58É um assunto que ainda demanda
11:00muitas análises e mais desdobramentos,
11:03que a gente estende essa conversa
11:05para uma próxima oportunidade.
11:07Obrigado, professora Celina.
11:09Um ótimo final de semana.
11:10Até breve.
11:11Obrigada, Marcelo, para você também.
11:14Até breve.
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