00:00Eleita em Santa Catarina, toda a polêmica, e aqui em São Paulo não tá muito diferente disso não,
00:04porque o vice do Ricardo Nunes criticou o Tarcísio de Freitas, Mano Ferreira.
00:09Pois é, David, o coronel Melo Araújo, que é o vice-prefeito,
00:15foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro pra compor a chapa de Ricardo Nunes,
00:21disparou a metralhadora verbal, viu?
00:23Eu disse que a operação na Cracolândia tá sendo explorada politicamente por Tarcísio de Freitas.
00:33Ele também já tinha feito declarações de que, enquanto o Bolsonaro estava sofrendo a prisão,
00:40muitos políticos que se elegeram às custas dele estavam fazendo negociações e olhando pro futuro,
00:48ignorando o sofrimento do ex-presidente.
00:52E tudo isso fez com que, ele também ainda falou que havia irregularidades na gestão de Ricardo Nunes
01:02no apoio à política pública da região da Cracolândia antes que ele assumisse como vice-prefeito.
01:10Ou seja, na primeira gestão de Ricardo Nunes.
01:13Então, disparou aí pra todo mundo e isso mexe o tabuleiro político.
01:18Por quê?
01:18Na eventual candidatura de Tarcísio de Freitas à presidência,
01:22Ricardo Nunes era especulado como um possível candidato a governador
01:27que desse sustentação à candidatura nacional de Tarcísio.
01:31Só que isso faria com que Melo Araújo virasse prefeito de São Paulo.
01:36E aí, o tabuleiro todo se mexe, porque tanto o prefeito Ricardo Nunes como o governador Tarcísio de Freitas
01:44olham pra situação e dizem, peraí, não é muito confiável deixar que ele vire prefeito da cidade de São Paulo.
01:52É isso que eu ia falar, mano.
01:53Foi um baita de um tiro no pé do Melo Araújo, meu.
01:55Se o prefeito, de quem ele é vice, é o principal cotado a assumir o posto da direita
02:03na corrida pelo governo do estado, quando ele descredibiliza esse prefeito,
02:07ele primeiro passa esse recado de que ele não é alguém ali que será benquisto
02:11pela classe política pra ocupar a cadeira do terceiro maior orçamento do país,
02:16que é o orçamento da cidade de São Paulo.
02:19Melo Araújo já não foi muito benquisto pelas classes políticas,
02:21inclusive na sua indicação como vice do prefeito Ricardo Nunes.
02:25Teve alguns ruídos aí no campo político a respeito disso.
02:29Mas ele deu um tiro na própria carreira política, porque fazendo isso,
02:33evidentemente que ele recolhe a candidatura de Ricardo Nunes,
02:37que a partir de agora, enfim, se as eleições fossem hoje,
02:39sempre bom lembrar que tudo pode acontecer daqui pro ano que vem,
02:43não será mais o candidato.
02:45Se fossem hoje as eleições, Ricardo Nunes teria que ficar em São Paulo
02:48e essa cadeira da sucessão de Tarcísio, eventualmente candidato à presidência,
02:52ficaria pros outros partidos aí debaterem.
02:54Então, o Melo Araújo não entendi muito bem esse movimento dele
02:57do ponto de vista político.
02:59Deu um tiro na própria carreira política.
03:02O cara tá acostumado a dar tiro, pô.
03:04Mas não na política, né?
03:05Acho que na política tá errando, tá dando tiro no pé.
03:07É assim, roupa suja se lava em casa.
03:11Eu acho também.
03:11Ele não tem que ficar atacando aliados ou até então aliados de forma pública
03:17sem ter a certeza de que ele vai sobreviver politicamente sem este apoio,
03:24o que não parece ser o caso.
03:26Então, se eu puder dar um conselho ao coronel Melo Araújo,
03:30mesmo que eu dou para os meus clientes, é,
03:32lave essa roupa na sua casa.
03:33Não, e tem só mais um ponto também.
03:35É engraçado ele criticar o Tarcísio
03:37por fazer propaganda de seu governo com a questão da Cracolândia.
03:41Ele quer que o Tarcísio faça propaganda com o quê?
03:43Com o que nós repercutimos hoje?
03:44Com o policial sendo baleado na rua, em São Paulo?
03:46Mas não seria também, Fernando?
03:47Tem que fazer propaganda com aquilo que é bom, ué.
03:49O Fernando Fonseca, eu quero também trazer uma outra ótica com você.
03:53Será que não seria também uma busca pelo protagonismo
03:55que muitas vezes não deram a ele?
03:57Exato.
03:57Eu ia comentar exatamente sobre isso.
03:59Existe uma diferença fundamental entre a esquerda e a chamada direita,
04:03e não é só no Brasil, é no mundo inteiro.
04:05É que a esquerda tem um enorme poder de mobilização e centralização
04:09e homogeneidade em suas ações.
04:13Dificilmente a esquerda briga entre si.
04:14Porém, a direita, do outro lado, ela sempre briga entre si.
04:18Então a gente vê sempre os rachas, a gente vê um falando sobre o outro e etc.
04:22Isso não é, politicamente, uma estratégia interessante,
04:25justamente por causar essas cisões e dificultar e colocar os lados em posições difíceis.
04:31Mas, ideologicamente, isso faz sentido.
04:34É um ponto interessante a trazer.
04:35Porque a esquerda tende a ter pensamentos mais coletivistas.
04:38Ou seja, mais centralizadores, coletivistas para toda a sociedade.
04:42E isso faz com que o pensamento acabe flutuando, orbitando para uma opinião comum.
04:48Ao passo que a direita é mais associada a um pensamento mais individualista,
04:51mais individual, mais próprio.
04:52Então você tem a direita que é uma certa linha, uma direita mais conservadora,
04:56uma direita mais liberal, uma direita mais cristã.
04:59E cada um acaba por essa característica individual do pensamento chamado de direita,
05:04querendo defender o seu ponto de vista em cima de outros que divirjam um pouco.
05:08Então, é muito comum você ver duas pessoas de direita que concordam em 95% das coisas,
05:14passar o tempo todo discutindo pelos 5% que ela não concorda.
05:18E tem uma frase interessante do Ronald Reagan, que eu trago aqui,
05:21e se o nosso vice-prefeito estiver ouvindo, ele deveria aplicar.
05:25É a seguinte, o ex-presidente americano, né?
05:28Que se você concorda em 80% com alguma pessoa,
05:31essa pessoa não é seu inimigo, ele é seu aliado.
05:33Então, vamos falar e vamos conversar sobre o que a gente concorda,
05:37que eu acho que aí a gente vai ter uma linha de pensamento comum.
05:40Quer dizer que o verdadeiro amigo, de fato, é aquele que realmente abre os seus olhos,
05:44e não que concorda com tudo que você diz.
05:47Mas fazer isso publicamente também não fere a credibilidade ali perante o governo?
05:51Fere, fere, sem dúvida, a credibilidade do governo.
05:54E eu concordo em grande parte com isso que o Fernando trouxe.
05:57Mas eu vejo uma coisa no bolsonarismo, especificamente,
06:01que é muito próximo daquilo que a esquerda faz.
06:04O bolsonarismo, ele não é um culto a um conjunto de ideias.
06:07É um culto à figura do presidente Jair Bolsonaro.
06:09E como todo culto pessoal, eles buscam dentro do campo,
06:12que eles ocupam uma certa hegemonia no campo das ideias.
06:16E isso é muito do que o PT fez.
06:17Só que o PT fez isso com sucesso na esquerda.
06:20O PT conseguiu anular, de certa forma,
06:22todos os outros players da esquerda que se apresentavam,
06:25hoje, com a aproximação do fim da carreira do presidente Lula,
06:28isso tem se relativizado um pouco, mas por muito tempo foi assim.
06:32E, no campo da direita, o bolsonarismo tenta fazer esse mesmo papel,
06:36de ser a única vertente da direita,
06:37confundir o bolsonarismo com a direita.
06:40Isso aconteceu muito durante o mandato, inclusive,
06:42do ex-presidente Jair Bolsonaro.
06:44Todas as discordâncias pontuais que ocorreram no mandato,
06:47quem concordava 80% com o Bolsonaro, mas discordava dos 20%,
06:51foi tratado como traidor, foi jogado para o lado de lado do espectro político,
06:55chamado de esquerdista, e por aí vai.
06:57Então, eu acho que não é bem uma questão de fragmentação da direita.
07:01É que a direita tem mais players de relevância
07:04do que a esquerda, historicamente, mas são muito próximos.
07:07Eu vejo como algo muito mais contextual do que estrutural, viu, Fernando?
07:10Porque na esquerda tem muita briga interna também.
07:13É que o Lula consegue ficar acima dessas brigas.
07:16Mas, sei lá, desde Stalin, Lenin e Trotsky, um matando o outro,
07:19na esquerda sempre teve conflitos.
07:22E eu imagino que, num cenário pós-Lula,
07:25a gente vá assistir a uma guerra civil na esquerda
07:28sobre quem será o sucessor.
07:30Acho que haverá muita briga se o Lula não for capaz
07:34de organizar a sua própria sucessão.
07:38Agora, falando do campo da direita,
07:41o que eu vejo nesse cenário também
07:43é uma espécie de postura que me case do vice-prefeito
07:48que acaba reproduzindo a postura do bolsonarismo,
07:53que é, vocês não vão virar a página do Bolsonaro
07:58colocando o Tarcísio como novo líder do campo,
08:01colocando o Ricardo Nunes como governador,
08:05sem que haja um grande custo político.
08:08Então, na prática, até porque vale dizer
08:10que o Melo Araújo também disse que, na próxima eleição,
08:13ele fará, segundo ele, entre aspas,
08:16aquilo que Bolsonaro mandar.
08:18Então, ele se coloca como um soldado,
08:21como um peão no tabuleiro do xadrez
08:23em que o jogador é Jair Bolsonaro.
08:26De um modo que, na prática,
08:27isso mostra a dificuldade que haverá
08:30no campo da direita ou no campo do antipetismo
08:33para conseguir construir uma alternativa viável.
08:38E quem ganha com isso?
08:39Quem ganha com isso é o presidente Lula,
08:41que vai ter um cenário, ao que parece,
08:44mais fácil para a sua reeleição
08:46se não houver capacidade de organização na direita.
08:50E isso, mais uma vez, mostra
08:52que Jair Bolsonaro e a família Bolsonaro
08:55têm atuado pela reeleição de Lula,
08:58justamente com o objetivo
09:00de manter a hegemonia do campo sobre a direita
09:04e impedir que o país vire a página.
09:07Será que você está falando tanto do Lula?
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