Prepare-se para sair do piloto automático! O filósofo Clóvis de Barros Filho chegou ao Pânico para desmistificar a vida e, no processo, detonar as suas crenças mais profundas. O terror dos empresários, proletários e autoritários está aqui para desvendar o verdadeiro sentido do trabalho, e por que ele não deve ser sofrido (fala isso para os jogadores do Corinthians), o valor da educação em um mundo guloso por dinheiro - mas quem não sabe que é mal-educado falar de dinheiro na mesa? Por que a humanidade se contenta com migalhas de felicidade? O professor deu uma verdadeira aula sobre a suposta fórmula do sucesso, explicando a importância do autoconhecimento e da empatia… afinal de contas, trabalhe com o que ama e nunca mais vai amar nada na vida.
Assista ao Pânico na íntegra: https://youtube.com/live/Ctxks67TNhA?feature=share
00:00Eu sou de uma época que vai ter uma solenidade numa cidade.
00:05Quem estaria lá? O prefeito, o delegado, o diretor da escola.
00:11Essas seriam as pessoas que estariam lá.
00:13Por que a educação perdeu tanto valor, que nem a gente está falando aqui sobre isso, né?
00:19Por que o professor se tornou desvalorizado nessa sociedade? O que aconteceu?
00:24Não, é preciso, de fato, entender que a legitimidade, o prestígio, o aplauso, o reconhecimento de qualquer tipo de atividade
00:38tem a ver com as pessoas que aplaudem, tem a ver com as pessoas envolvidas.
00:44De alguma maneira, a escola não tem prestígio na sociedade.
00:50E o professor, junto. Não tem.
00:54Mas por que?
00:55Ora, são muitas as razões, mas uma delas me parece, assim, muito clara.
01:07Há um entendimento, que não é de todos, mas que é muito poderoso,
01:14de que, para ganhar a vida, para ganhar dinheiro, para obter prosperidade econômica,
01:25não é necessário aprender um monte de coisa que a escola ensina.
01:32Vamos dizer, para explicar isso de maneira mais ou menos apaziguada, sem criar confusão.
01:40Então, o que que acontece?
01:42Essas certezas, elas vão, tal como um circuito, elas vão perpassando os universos
01:54e vão se tornando uma espécie de obviedade.
01:58Quer dizer, tudo bem, num primeiro momento, tudo bem ir para a escola,
02:03mais, é melhor arrumar alguma coisa para fazer para ganhar dinheiro.
02:08E aí, a escola já perdeu um degrau.
02:12Porque isso não foi um despencar de uma hora para a outra.
02:15Aí, depois, se tiver que escolher entre um e outro, não hesite em logo começar a trabalhar.
02:22Porque, começando a trabalhar mais cedo, você tem mais chance de conquistar a prosperidade.
02:28Já perdemos mais um degrau.
02:30Depois, você junta isso, críticas muitas vezes justas, muitas vezes justificadas,
02:40do anacronismo da educação escolar, da impertinência de certos conteúdos curriculares,
02:49da desmotivação de certos profissionais da educação, alguns deles,
02:54que são críticas justas, que, somadas ao fato da escola não ser mais vista como trampolim único
03:03para uma vida próspera, acabaram, por pouco a pouco, solapando a sua legitimidade.
03:09Agora, a grande pergunta é como pensar diferente?
03:18E é aqui que eu queria que o nosso ouvinte telespectador e o que seja internauta me acompanhem.
03:29Tudo isso parte de uma premissa inicial, como toda boa premissa, que pode ser questionada.
03:37E qual é essa premissa?
03:40Vida boa igual prosperidade econômica.
03:44Vida boa igual ganhar dinheiro.
03:47Talvez, hoje em dia, pudéssemos acrescentar um segundo elemento.
03:52Vida boa igual notoriedade.
03:55Vida boa igual celebridade.
03:58Vida boa igual ser conhecido e seguido por muita gente.
04:02Muito bem.
04:03Então, isso faz uma espécie de fórmula da felicidade.
04:06Uma pessoa rica e famosa é uma pessoa feliz.
04:10Pois é.
04:11Então, aqui eu queria problematizar.
04:14Eu queria problematizar por quê?
04:15Porque, de fato, a escola não é o único caminho para você ganhar dinheiro,
04:21ainda que possa ser um deles.
04:23Que fique claro.
04:24Agora, a escola trará a você valores existenciais que vão além de ganhar dinheiro.
04:32que são valores do espírito, valores da razão, valores do pensamento, valores da inteligência, valores da sensibilidade,
04:40valores que tornam a vida boa, independentemente do dinheiro que você ganha.
04:46Então, se você é capaz, Emílio, se você é capaz de ler um Dostoiévski citado aqui e genuinamente ter prazer com isso,
05:00é muito provável que você deva essa capacidade a algum tipo de formação escolar.
05:07E veja, nada tem a ver com ganhar dinheiro, tem a ver com ter um momento bom de vida na leitura.
05:14Se você é capaz de ler um Machado de Assis e ter um genuíno prazer com isso,
05:20é muito provável que alguma aula de literatura tenha contribuído para essa capacitação.
05:24Eu continuo.
05:26Se você é capaz de se interessar por fazer uma visita guiada num museu qualquer
05:32e se interessar genuinamente pelo que é exibido,
05:37provavelmente a escola tem algo a dizer sobre isso.
05:41E isso é de graça.
05:42Não exige que você mova montanhas financeiras pra poder fazer.
05:47E isso te traz o quê?
05:49Te traz um contentamento.
05:51Que compensa mazelas da vida.
05:53Então, na hora que você não consegue ter prazer genuíno na leitura,
06:00não consegue ter prazer genuíno na boa música,
06:04tipo uma sinfônica de Mahler e alguma coisa que te leva à loucura,
06:08não consegue ter prazer genuíno, sei lá, interpretando uma pintura holandesa do século XVII,
06:15não consegue ter prazer genuíno lendo a Metafísica de Aristóteles,
06:21que um cursinho de Filosofia poderia ajudar a ter.
06:24Não consegue ter prazer genuíno.
06:26Perceba que todas essas coisas são prazeres genuínos que são obtíveis gratuitamente.
06:33Aí você tem uma tristeza, precisa compensar essa tristeza,
06:37e você só tem a carta do consumo pra poder compensá-la.
06:41Entendeu?
06:41Você sobrecarrega o consumo.
06:45Nada contra o consumo.
06:46Nada contra fazer suas compras.
06:49Mas isso é um valor da vida entre infinitos outros que poderiam dar colorido,
06:55dar sabor, dar tempero.
06:58Sabe?
06:58Os portugueses, eles têm uma expressão que eu acho...
07:02A primeira vez que eu ouvi, eu fiquei absolutamente fascinado.
07:05Quando eles experimentam alguma coisa de degustação, eles dizem...
07:11Nós dizemos, isto tem sabor de...
07:14Eles dizem, isto sabe a...
07:18Sabe a... não sei o quê.
07:21Do verbo saber.
07:23Ou seja, eles vinculam um apetite gustativo que traz um prazer enorme...
07:29A sabedoria.
07:29A questão do saber.
07:31Pô, essa é uma vinculação maravilhosa, né?
07:33Que eleva a vida, sofistica a vida, colore a vida.
07:39E nada disso tem a ver com começar a trabalhar cedo pra ganhar dinheiro.
07:43Porque tudo isso requer um tipo de formação do espírito.
07:47Que capacita para uma vida feliz.
07:51Ô professor, deixa eu fazer uma pergunta antes que saia desse tema aí do ganhar dinheiro e tudo mais.
07:56Por que as pessoas se sujeitam a isso?
07:58A se preocupar só em ganhar e não a fazer o que gostam?
08:01Isso vem talvez do medo da escassez ou a falta de propósito mesmo?
08:06Porque que nem o Emílio falou, eu também, como radialista, é uma satisfação enorme estar aqui.
08:12E assim, no começo a gente sempre busca.
08:14A rádio fala assim, ah, não consegue na capital?
08:17Vai pro interior.
08:18Então a gente tem um propósito?
08:19A gente não tem o medo desse lance da escassez.
08:21E por que as pessoas têm medo disso?
08:25De, ah, vou me sujeitar a ganhar melhor, mas não vou fazer o que eu quero do que, de repente, ir pra outra cidade pra fazer o que é o propósito?
08:35É a falta de propósito ou o medo da escassez ou os dois juntos?
08:38Sabe, eu...
08:41A rigor, a rigor eu não sei te responder.
08:43Mas o que eu penso é que muito do que acaba acontecendo na nossa vida é determinado por circunstâncias e encontros que às vezes facilitam certas descobertas ou inviabilizam certas descobertas.
09:03Eu tive a oportunidade, aos 13 anos, de ter um professor de geografia que me mandou dar um seminário.
09:11E aí eu descobri o que eu queria pra minha vida.
09:14Esse seminário definiu a minha vida.
09:17Mas isso não foi, digamos, consequência de uma lucidez minha, extraordinária, de perceber quem eu era, como se outros não tivessem a mesma lucidez.
09:31Não, eu devo isso a esse professor de geografia que me pediu pra fazer...
09:36Sabe-se lá por que ele pediu pra fazer o seminário?
09:39Provavelmente porque ele não queria dar aula, sei lá o que que é.
09:41Mas o fato é que ele pediu pra eu dar o seminário e eu fiz essa descoberta.
09:45Se ele não tivesse feito isso, eu provavelmente não teria tido a ocasião de dar outro seminário no colégio.
09:54Eu não teria firme convicção que queria ser professor.
09:56E então eu entrei na faculdade de Direito, como acabou acontecendo, e eu talvez entrasse pra ser advogado, pra trabalhar no Direito.
10:05Graças a esse único encontro, eu já sabia o que eu queria pra minha vida.
10:11Então, veja, eu penso que muitas pessoas vivem espaços de socialização,
10:20onde a obsessão com o dinheiro é asfixiante.
10:24E não há que julgar, porque há quem viva em penúria, há quem viva em muita dificuldade material
10:32e, portanto, se preocupar em ter o mínimo necessário pra sobrevivência é óbvio.
10:39É necessário, é imprescindível, é justificável, é digno, etc, etc, etc.
10:45Ponto. Agora, claro está que uma vez obtido o mínimo necessário pra sobreviver,
10:51também é fundamental perceber que a sobrevida por si só é apenas a condição para os valores da vida.
10:59Sim.
11:00Se você estiver sendo esganado e você luta pela vida,
11:05você luta pela vida, não propriamente pela vida, mas pelo que na vida vale a pena.
11:15É, é claro.
11:16Os valores, eles vão além de sobreviver.
11:19Sim.
11:20Eu quero mais um dia de vida pra ver minha filha mais uma vez.
11:24Eu quero mais um dia de vida pra dar uma aula, a última.
11:30Eu quero mais um dia de vida pra encontrar não sei quem uma última vez.
11:36Veja, é, eu quero a vida pelo que a vida tem de valor positivo e não apenas por sobreviver.
11:43Então, penso...
11:44Que é a razão da vida.
11:45Claro, claro.
11:46Então, veja, veja, é, é, que me entendam bem.
11:50Ninguém aqui é alucinado.
11:53Há muita gente em dificuldade material extrema.
11:57E é normal que lutem por sobreviver.
12:01E estão nesse estágio.
12:03Porém, não são todos a estar nesse estágio.
12:07Então, quando eu escrevo um livro, Happy Hour é na segunda,
12:10obviamente, eu tô me referindo a pessoas que talvez estejam num outro degrau.
12:16Professor, tem uma questão que a gente tava falando aqui antes do senhor entrar,
12:23que é o papel do acaso ou da sorte.
12:25Alguns podem achar que é Deus.
12:27Eu tenho uma visão mais estatística, acho que existem probabilidades.
12:31E você contou a história do seu seminário,
12:34que direcionou sua vida de certa forma,
12:36assim como seu professor de filosofia.
12:39Podia não ter acontecido, podia ter acontecido outras coisas.
12:42E aí eu lembrei de uma frase que era do Einstein,
12:44que será que Deus joga dados em que ele falava isso?
12:47Como que você vê o acaso, o papel do acaso na vida nessa procura de tornar-se quem tu és?
12:55Ah, eu tenho esse entendimento, que é só meu e que ninguém me siga.
13:04Se fôssemos onipresentes, oniscientes, olhássemos tudo de cima,
13:16com certeza teríamos certeza de que não há acaso nenhum.
13:20Ou seja, o que for acontecer vai acontecer mesmo.
13:27Quer dizer, sabe, o carro está vindo aqui, o outro está vindo aqui,
13:31o motorista daqui não vê esse, o motorista daqui não vê esse, né?
13:35Aí chama a colisão de acaso, mas quem está em cima vai bater.
13:39Sim, sim.
13:40Vai bater.
13:41Vai dar merda.
13:41Ou seja, se fôssemos Deus...
13:46Não jogaria dados, né?
13:48Se fôssemos Deus, tudo estaria no âmbito da necessidade.
13:53E necessidade na filosofia não é a necessidade do senso comum,
13:59que é estou passando necessidade ou isso é necessário.
14:02A necessidade da filosofia é o contrário da contingência,
14:06ou seja, aquilo que acontece necessariamente.
14:09Então, Deus que olha de cima, ou se você quiser,
14:16a perspectiva cósmica ou universal, como quiser chamar,
14:21tudo é inexorável.
14:24Tudo é necessariamente como tem que ser.
14:27Então, o acaso é sempre em função de uma perspectiva.
14:33O acaso, ele é o acaso para mim.
14:36E, portanto, ele, no fundo, ele é a consequência de uma ignorância,
14:43de uma fragilidade, de uma impotência.
14:46Falta de conhecimento.
14:47Falta, né?
14:48Então, quer dizer, e como o conhecimento é sempre parcial,
14:51é sempre pequeno, é sempre relativo,
14:54o acaso sempre existirá.
14:56Mas é o acaso para mim.
14:57Deus lá de cima olhando, já sabe o que...
15:01Isso se já sabe antes ou não, eu nem entro na discussão.
15:05Mas o certo é que ele sabe que o que acontecer
15:10é resultado de relações causais inapeláveis, inexoráveis,
15:16é o que vai acontecer.
15:17E, portanto, de certo modo, acontece sempre o que tem que acontecer.
15:22Agora, no nosso caso, dada a nossa ignorância de tudo o que acontece,
15:31então, para nós, há a surpresa.
15:34A surpresa que resulta de não entender muito bem
15:37por que aquilo aconteceu daquele jeito.
15:39Então, para mim, o professor de geografia é acaso.
15:43Para Deus, com certeza não.
15:44Então, para mim, o professor de geografia é acaso.
Seja a primeira pessoa a comentar