00:00O Brasil aparece como um dos melhores destinos para a instalação de data centers nos próximos anos.
00:08E a explicação para isso é simples.
00:11Temos abundância de energia elétrica e de fontes limpas, mas temos também um problema.
00:18A concentração da infraestrutura em poucos lugares.
00:23Vamos ver agora os detalhes na reportagem.
00:30A Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, alertou o governo federal sobre os riscos da concentração dos data centers em grandes cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.
00:43O presidente da autarquia, Carlos Baigorre, avalia que a dispersão desses centros de processamento pelo território nacional é essencial para garantir mais segurança ao sistema de dados do país.
00:56Nesta quinta-feira, ele conversou com a agência Reuters após participar de um evento na Fundação Getúlio Vargas.
01:02Nesta sexta, a Anatel enviou uma nota assinada pelo presidente da agência ao olhar digital.
01:08Carlos Baigorre explicou que a Anatel tem dialogado com o Ministério das Comunicações e o governo federal numa perspectiva de gestão de riscos,
01:17diversificar a disposição geográfica dessas infraestruturas, que hoje estão bastante concentradas.
01:23No caso das capitais paulista e fluminense, isso acontece por fatores econômicos.
01:30No caso de Fortaleza, existe uma concentração de cabos submarinos chegando ao país pela Praia do Futuro.
01:37A maior parte do tráfego internacional de dados que entra ou sai do Brasil passa por ali.
01:43Na nota do presidente da Anatel, ele argumentou ainda que essa diversificação geográfica tem justamente o objetivo de reduzir riscos.
01:50A agência entende que esse deve ser um elemento a ser considerado na política nacional de data centers e de cabos submarinos.
01:58O debate sobre a distribuição dos data centers ocorre em meio a medidas do governo federal para estimular o setor.
02:06No mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória
02:10que cria o regime especial de tributação para serviços de data center, o Redata.
02:17O programa visa impulsionar o desenvolvimento de segmentos ligados à computação em nuvem e à inteligência artificial.
02:25Segundo o governo, a medida provisória também busca promover a desconcentração regional,
02:30oferecendo contrapartidas reduzidas para investimentos nas regiões norte, nordeste e centro-oeste.
02:36O projeto de lei orçamentário anual de 2026 reserva mais de 5 bilhões de reais para o Redata,
02:44que a partir de 2027 vai passar a contar também com os benefícios da reforma tributária.
02:51O Olhar Digital procurou o Ministério das Comunicações para repercutir o assunto
03:03e comentar o diálogo com a Anatel para a descentralização dos data centers.
03:09A pasta ainda não retornou.
03:13Então, vamos repercutir esse assunto agora com o Arthur Igreja,
03:17que é especialista em tecnologia e inovação, para falar um pouco sobre essa notícia que acabamos de ver.
03:24Vamos lá? Deixa eu receber aqui o Arthur Igreja nos nossos estúdios.
03:29Arthur Igreja, muito boa noite.
03:31Seja muito bem-vindo e obrigada mais uma vez por participar aqui conosco.
03:35Olá, boa noite, Marisa. Obrigado pelo convite.
03:38Arthur Igreja, vamos começar com a principal questão que foi colocada aí nessa informação.
03:43Qual o risco que nós corremos caso esses data centers no Brasil não estejam bem distribuídos?
03:51Porque, como nós vimos, são apenas três localidades meio que concentram os data centers.
03:57Quais são os riscos para essa má distribuição?
04:02Veja, em se tratando de infraestrutura, dá para usar uma série de comparações e metáforas aqui,
04:08mas é o equivalente a você precisar ir do destino A para o destino B e você tem uma estrada só.
04:13Se acontecer qualquer problema, acontece uma interrupção brusca.
04:17Então, por vezes, nós vemos isso com as estradas, acabamos vendo isso com linhas de transmissão,
04:24com apagões e poderia acontecer um apagão cibernético.
04:27Então, de fato, nós temos essa concentração em Rio e São Paulo por questões econômicas
04:33e até por disponibilidade de mão de obra e as empresas já estão ali instaladas
04:40e fortaleza, obviamente, pela chegada dos cabos marítimos e pelo atendimento a toda a região nordeste.
04:46Então, nós não temos, basicamente, redundância, nós não temos plano B.
04:51Então, esse é o grande risco.
04:52A partir do momento que você pode enfrentar um problema, e não estou falando só de tragédias,
04:59de causas naturais e esse tipo de coisa, mas pode acontecer simplesmente um apagão técnico,
05:05pode acontecer um ataque, pode acontecer algum tipo de indisponibilidade.
05:09E aí nós teríamos um problema grave, gravíssimo, a indisponibilidade até mesmo de serviços básicos.
05:15Então, eu acho que esse ponto, de fato, ele é muito relevante, ele é muito importante,
05:18porque trata-se de uma questão de estratégia, uma questão de estratégia enquanto país.
05:24Não se pode ter uma fragilidade desse tamanho ainda mais, uma fragilidade que todos sabem que existe.
05:31Agora, Arthur, até o Brasil ele já tem, obviamente, seus data centers,
05:36mas nunca se falou tanto em data center antes da chegada da inteligência artificial,
05:41que exige bastante material tecnológico mesmo, infraestrutura.
05:46E agora começa-se a pensar nisso.
05:49O que poderia ser prejudicial já com a atual necessidade que temos de data centers
05:55com a inclusão da inteligência artificial e dessa necessidade?
05:59Por exemplo, num caso de um apagão, como você menciona.
06:03Olha, o que acontece é que a inteligência artificial multiplicou de forma dramática essa necessidade.
06:09Até então, nós tínhamos os data centers basicamente para armazenamento, para nuvem,
06:13para rodar os softwares que hoje são muito mais usados através de navegadores,
06:19através de apps do que instalados localmente.
06:22Então, ao longo das últimas três décadas, o que nós vimos foi um crescimento na velocidade de conexão
06:28e isso possibilitou menos recursos locais.
06:31É por isso que as pessoas podem hoje usar Spotify, podem usar YouTube e nos assistir
06:37e elas não fazem tanto o download das coisas.
06:40Foi pelo crescimento da velocidade que fez uma troca.
06:45Ou seja, aplicações e armazenamento foram para nuvem com acesso remoto.
06:49Agora, do outro lado, quando chega aí àquela demanda,
06:53um volume de dados que é brutal, a equação se inverte.
06:58Então, não é só a questão de que se ela estiver mais próxima,
07:01a resposta também é mais rápida, mas nós vimos uma multiplicação nesse volume.
07:07Então, até por isso que os investimentos em hardware, eles multiplicaram.
07:11É uma coisa incrível.
07:13Se em 2016 nós tínhamos um investimento na casa de 30 bilhões de dólares em hardware, em capex,
07:20no próximo ano nós devemos atingir 530.
07:23Então, quer dizer, é um fator de multiplicação gigante.
07:25E aí, somando isso, que a IA demanda muito mais infraestrutura para que ela seja efetiva,
07:33ela se torna esse drive de produtividade, ela é a internet dos nossos tempos,
07:39é a coisa mais importante que aconteceu nessa década, seguramente.
07:44Nós ficamos mais expostos.
07:45Então, se nós já estávamos expostos, ficamos ainda mais dentro de uma realidade
07:50em que a infraestrutura torna-se ainda mais importante do que era há três anos atrás.
07:55Agora, o Redata, ele foi anunciado pelo governo federal com bastante otimismo e entusiasmo também.
08:03Quais são as qualidades, digamos assim, para o Brasil?
08:06Quais são os diferenciais para ter essa infraestrutura e nos colocar nessa corrida tecnológica,
08:13à frente dessa corrida, Arthur?
08:14Marisa, parece que, como sempre, o Brasil tem todos os ingredientes a seu favor.
08:21A dúvida é se nós seremos capazes de aproveitar esses ingredientes
08:28para, de fato, nos colocarmos nessa corrida, porque isso aconteceu poucas vezes.
08:33Então, nós temos alguns segmentos que acabam se aproveitando
08:37dessas características que o Brasil tem e que estão na vanguarda,
08:42que têm um belo posicionamento econômico em escala global,
08:46mas são poucos casos.
08:47Então, mais uma vez, o Brasil aqui pode ser o país do futuro dos data centers,
08:52pode estar bem posicionado, mas, como sempre,
08:55a questão é se nós seremos capazes de fazer o nosso dever de casa.
08:58Então, o Brasil tem muitos ingredientes.
09:00O primeiro deles é um mercado consumidor de mais de 230 milhões de pessoas.
09:06Então, quer dizer, em se tratando de qualquer aplicação tecnológica,
09:10é um dos principais mercados consumidores do mundo.
09:12Mas, em segundo lugar, e eu diria que, na verdade, em primeiro lugar,
09:16a nossa grande característica é a capacidade de poder rodar esses data centers
09:21com uma matriz energética que é ímpar, é incomparável.
09:25Não tem nenhum país do mundo que chega perto do que nós temos
09:27com esse somatório de energia hidráulica, que é renovável,
09:32e também nas renováveis que surgiram nas últimas décadas,
09:36como a eólica e solar.
09:37Então, considerando todo o somatório da matriz energética brasileira,
09:42nós temos uma vantagem competitiva, especialmente numa economia
09:46que busca uma menor emissão de carbonos.
09:50Ou seja, nós temos essa confluência, um aumento dramático
09:54da necessidade de data centers, que tem um consumo energético,
09:58um consumo de energia elétrica voraz,
10:00e nós temos a melhor matriz energética do mundo.
10:04Ou seja, mais uma vez, está na nossa frente.
10:07O que esse programa propõe é uma série de isenções fiscais,
10:10uma série de benefícios, ele demanda reinvestimentos em inovação.
10:15Então, quer dizer, ele é bem arquitetado, ele tem uma boa intencionalidade,
10:24dá para ver que existe ali um esforço para criar um ambiente de negócios
10:28mais favorável. Agora, como sempre, os elementos não funcionam
10:32como ingredientes isolados.
10:34Esse programa é importante, sim.
10:36Agora, se me perguntar, só essa medida,
10:40essa medida provisória que foi assinada hoje,
10:43ela é suficiente? A resposta é não.
10:45Nós continuamos tendo problemas de segurança jurídica,
10:49temos questões tributárias, questões de câmbio.
10:54Então, ou seja, é um passo, é um avanço,
10:57precisa ser reconhecido, acho que é louvável,
11:00mas por si só não é suficiente.
11:03Olha, então, para a soberania digital,
11:06digamos que o sucesso desse projeto,
11:08desses próximos passos, representa muito para o Brasil.
11:11É claro, o que nós estamos vendo é que todos os países
11:14estão pensando mais sobre esse aspecto,
11:17especialmente depois do que aconteceu durante a pandemia,
11:19que muitos países se deram conta que podem ter fragilidades,
11:25do ponto de vista de redundância.
11:27Muito se fala sobre os ataques cibernéticos serem,
11:31talvez, a maior camada de guerra moderna.
11:35Então, se você quer, basicamente, inutilizar um país,
11:37se você conseguir desestabilizar as comunicações,
11:41a internet, enfim, você deixa aquele país
11:43muito mais fragilizado do que até mesmo
11:46com um ataque efetivo fisicamente.
11:48Então, tem tudo a ver com soberania.
11:51E na era da IA, em que nós temos a IA avançando a passos largos,
11:57mas o que muitos países e o que muitas empresas
11:59também se deram conta é que o grande ativo que eles têm
12:02não é o LLM, não é a IA, mas são os seus dados,
12:06é a parte mais sensível.
12:08Então, é por isso que é um tema que os países
12:10estão investindo muito.
12:13Muito se fala não só na necessidade de armazenamento
12:16de nuvens nacionais em relação a dados sensíveis
12:19e, óbvio, para poder também rodar as IAs.
12:25Então, de fato, é um tema que tem tudo a ver com soberania.
12:28Muito bom, Arthur Igreja, muitíssimo obrigada novamente
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