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  • há 4 meses
Historiador explica “amazonização” e descolonização do Círio.

REPÓRTER: Gabriel da Mota
Op. de Corte: Karla Pinheiro (supervisão de Tarso Sarraf)
Edição: Bia Rodrigues (supervisão: Tarso Sarraf)

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Transcrição
00:00Grupo Liberal no Sírio de Nazaré 2025, eu sou o Gabriel da Mota, jornalista e pesquisador
00:23do Sírio e hoje eu recebo aqui no estúdio da Redação Integrada o professor Aldrin
00:28Figueiredo, que é historiador e há muito tempo estuda também o Sírio de Nazaré.
00:33Professor, primeiro, muito obrigado pela sua presença.
00:35Obrigado, eu agradeço o convite, estamos aí para falar de Sírio.
00:39Eu gostaria de começar lhe perguntando um pouco sobre a sua relação pessoal com o
00:44Sírio de Nazaré.
00:45Bem, eu não sou, apesar de estudar Belém, viver em Belém há muitos anos, eu não sou
00:50de Belém, eu nasci no oeste do Pará, nasci em Alenqué e lá o padroeiro é Santo Antônio.
00:56Há o Sírio de Santo Antônio, que foi agora em junho e, enfim, eu aprendi o Sírio vindo
01:04a Belém, havia, claro, informações sobre o Sírio, mas é uma, eu acho que a relação
01:10do Sírio com aquela região é mais recente, com essa grande explosão do Sírio.
01:16Então eu fui conhecer o Sírio e toda a relação com o Pará e principalmente com a cultura
01:21belenense aqui.
01:23Então eu tenho uma relação, assim, bastante, bastante forte, porque o Sírio ultrapassa
01:29esse universo somente da religião e ele é esse símbolo cultural tão fundamental.
01:35Que bacana, professor.
01:37Eu gostaria, então, de voltar lá ao comecinho do Sírio.
01:39Sim.
01:40Vamos falar um pouco da origem.
01:41O senhor já deu algumas entrevistas falando, afirmando que o Sírio não foi criado do
01:46nada, né?
01:46Existe um contexto e eu queria entender um pouco dessa origem.
01:50De que maneira a origem do Sírio desafia algumas versões que com o tempo foram romantizando
01:57um pouco a criação dessa festa?
01:59Sim.
01:59Primeiro, a origem portuguesa, né?
02:03Isso é muito importante, porque tem muito a ver com a nossa colonização, com esse processo
02:08de expansão portuguesa para o ocidente e para o Brasil, uma colônia de Portugal, como
02:13todos nós sabemos.
02:14Então, o Sírio é uma devoção que cresceu muito em Portugal, é uma antiga, vem da Idade
02:20Média, no século XII, está muito associada àquele famoso milagre de Nazaré que sai todos
02:28anos nos sírios, que é o milagre com Dom Fuas Roupinho, uma figura nobre.
02:33Então, ele tem uma relação muito forte com a monarquia portuguesa, isso é muito importante.
02:39A partir do século XII, ele vai se construir essa devoção em Portugal, que vai atrair muita
02:46gente e vai ser o grande símbolo, né?
02:50Ao lado de Santo Antônio, da devoção a Santo Antônio, também uma devoção antiga
02:55em Portugal, que é São Jorge, e depois Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora
03:02de Nazaré, a grande devoção portuguesa.
03:05Ela só vai ser ultrapassada já no século XX com Fátima, que é um outro fenômeno que
03:10não tem nada a ver com o Sírio, fenômeno mesmo realmente moderno, que tem a ver com o
03:15século XX, mas a grande devoção das grandes romarias em Portugal era o Sírio da Nazaré.
03:23Lá eles chamam o Sírio de Nossa Senhora da Nazaré.
03:25Então, essa devoção vem para o Pará com os jesuítas, a Companhia de Jesus.
03:32O Pará recebe, ainda no século XVII, desde a sua fundação, quatro ordens religiosas, franciscanos,
03:40carmelitas, jesuítas e mercedários.
03:43E os jesuítas trazem essa devoção, como outras devoções também.
03:47Só que, para o Pará, essa devoção foi muito importante.
03:51Inicialmente, na Vigia, no Colégio da Vigia.
03:54Essa é uma outra polêmica, né, sobre o Sírio de Vigia, o Sírio de Belém.
03:58A gente acredita que a devoção tenha começado por Vigia, mas que o Sírio, como nós conhecemos,
04:05o mais antigo é o de Belém.
04:07Isso vai, muitas vão inventar muitas histórias sobre sírios antigos.
04:11Então, o próprio, talvez o maior historiador do século XIX, Domingos Antônio Raiol,
04:19que era, inclusive, vigiense ao Barão do Guajará, ele afirma isso claramente.
04:24Então, a devoção é uma devoção que teve essa raiz forte em Vigia.
04:32O próprio Caboclo Plácido era vigiense, né, que é uma outra história que a gente vai, certamente, comentar aqui.
04:39Então, se estrutura esse Sírio em Vigia, então havia em Vigia várias Romarias,
04:47não era o Sírio só, ou vários Sírios.
04:50O que é o Sírio?
04:50É uma procissão, geralmente noturna, que carregam as velas, por daí vem esse termo Sírio,
04:57e que em Vigia existiam várias Romarias.
05:00Pessoas de Belém iam para o Sírio de Vigia, antes mesmo do nosso Sírio.
05:04Então, para uma dessas Romarias, não é o Sírio, porque é muito difícil comparar o Sírio de Nazaré,
05:12de Belém, com outros Sírios.
05:14Ele é uma procissão única, com muitos caracteres simbólicos, religiosos,
05:21assim, muito de culturais, que o tornam meio incomparável, né.
05:25Então, é um pouco essa tese que eu meio que defendo.
05:28E acho que também outros historiadores, principalmente do passado, defendem.
05:33Então, esse é um aspecto que é importante.
05:37O outro tem a ver com a tua pergunta, a origem reinau.
05:42Ele é uma procissão, é uma festa que nasce com a elite paraense, digamos assim.
05:49Quem institui o Sírio é o governador, é o capitão-general na época, Francisco de Souza Coutinho.
05:57Está ligado a uma devoção, mas também, claro, a essa herança portuguesa.
06:02Tanto que o Sírio é autorizado, as festas são autorizadas pela rainha de Portugal, Dona Maria I.
06:08Então, havia já a devoção, quer dizer, ele não cria do nada essa devoção instituída em Vigia,
06:16essa conexão entre Belém e Vigia, o achado, a questão do achado do Plácido.
06:22E depois, aproveitando toda essa, digamos assim, esse substrato popular que já existiu o Sírio,
06:31se institui uma festa, uma procissão entre o Palácio e a Ermida de Nazaré, que já havia sido construída,
06:41e com todo um arraial em torno do Sírio, em que essas pessoas iam assistir.
06:45Ou seja, o Sírio também nasce como um espetáculo, essa trasladação que leva a imagem do Palácio até a Ermida e o seu retorno.
06:55Isso é o único, isso é o único.
06:58E aí, uma elite vai tomar conta desse Sírio.
07:03Essa é uma questão muito importante.
07:05Sempre tem essa questão, ah, o Sírio foi controlado por uma elite, foi tirado do pulmão.
07:12O Sírio sempre foi controlado e organizado por essa elite, ou católica, ou elite mesmo.
07:20Se você for ver no século XIX, os provedores da Irmandade de Nazaré,
07:26que organizava o Sírio, era a elite paraense.
07:29Era a esposa do barão do Marajó, do barão do Guajará, dona Vitória Xermon,
07:35Maria Vitória Pereira Xermon, foi juíza do Sírio.
07:39Então, figuras nesse naipe eram os provedores dessa festa.
07:47Acontece que havia, como ainda hoje, uma grande participação popular.
07:52Então, não é possível que essa elite controlasse o Sírio totalmente.
07:55Então, a explosão de festa, de ressignificação dessa devoção,
08:02se espraia para muito além desse controle.
08:04Então, há um antropólogo, o professor Raimundo Heraldo Maués,
08:09que tem uma produção fantástica sobre o Sírio, ele fala disso.
08:12Quer dizer, há uma tensão constitutiva,
08:16essa tensão entre o oficial e o popular é que dá a riqueza do Sírio.
08:21Eu começaria dizendo assim.
08:23Então, ela sempre existiu?
08:24Sempre existiu.
08:26Foi atualizando, ainda existe hoje.
08:27Essa tensão sempre existiu.
08:29Ela é fundamental, inclusive, para que o Sírio ganhe essa profusão.
08:35A gente está debatendo isso aqui.
08:36Quer dizer, esses debates, essas questões,
08:39essa polêmica que no passado existia de uma determinada maneira
08:42e hoje está na mídia, nas redes sociais.
08:45Essas polêmicas são fundamentais para que esse Sírio, essa festa tenha peso, tenha sentido,
08:55ganhe sentido, ganhe debate constante.
08:58É uma tensão constitutiva.
09:00Quer dizer, a tensão ajuda a que aquilo se mantenha sempre presente, sempre vivo.
09:06Professor, vamos voltar um pouquinho antes, para o momento do achado.
09:10Sim.
09:11Do ponto de vista histórico, o que a gente pode entender desse contexto de que um caboclo
09:16encontrou a imagem da santa, as margens de um ingarapé?
09:20Como era a relação dos habitantes de Belém com a natureza nesse período?
09:25Primeiro, a figura do Plácio.
09:27Esse Plácio do José de Souza, ele tem muitas informações sobre o Plácio.
09:34Quer dizer, se conhece pouco sobre a sua figura e cada um disso de uma certa maneira.
09:40Ele aparece como mulato, como mameluco, como pardo, como preto, como caboclo.
09:46Que essa talvez fosse a terminação, a categoria que ficou mais perene.
09:52Hoje, basicamente, é citado como caboclo clássico.
09:56Mas se você for ver lá no Artuviana, no Raimundo Proença,
10:01em outros cronistas, Jorge Rulli, historiador,
10:06cada um vai ter uma espécie de, eu chamo de cromotopia.
10:11Cada um vai criar um cromatismo, uma racialização desse personagem.
10:19Não era uma pessoa humilde no sentido de classe.
10:22O Clácido vem de uma família importante,
10:25vem da família do Ayres de Chorro,
10:27que foi capitão, mora aqui no Pará, lá no século XVII.
10:32É fruto de um filho legitimado.
10:37A família de Ares de Souza, uma família importante.
10:39Então, essa imagem do humilde caboclo, Clácido,
10:44ela tem que ser aspiada.
10:46Humilde no sentido, talvez, cristão, católico.
10:50É uma pessoa que realmente instituiu essa devoção.
10:54E ele foi se constituindo entre o mito, entre a história e a lenda.
10:59Tanto que a gente fala da lenda de Nazaré, a lenda do achado.
11:03Então, um pouco história, um pouco mito.
11:05Por quê? Porque esses achados ocorrem em muitas práticas,
11:10em muitas devoções.
11:11Tem o achado, por exemplo, de Nossa Senhora Aparecida, no Rio Paraíba.
11:17Você vai encontrar notícias em todo o império português, espanhol,
11:23toda a história do cristianismo, do catolicismo,
11:26você vai encontrar achados semelhantes.
11:29Então, o Clácido existiu, era uma figura que tem essa...
11:37Se estrutura no meio dessa classe social,
11:40muito provavelmente era um sujeito que tinha um sítio,
11:43uma fazenda nessa região.
11:46Ele, inclusive, é uma família, os Ares de Souza,
11:51depois tem variações dessa família.
11:53Eles tinham muitas terras na região do Tinga.
11:59Sítios, fazendas, há estudos sobre isso.
12:04E muito provavelmente era um sitiante,
12:06quer dizer, um sujeito que tinha uma posse ali
12:08e deve ter encontrado uma imagem.
12:13Essa imagem que a gente chama imagem, o achado do sírio.
12:16Então, não é uma lenda nesse sentido.
12:19O uso que ela vai ter, quer dizer,
12:23toda essa conformação do que o sírio vai ganhar como simbologia, sim.
12:30Porque o que é que diz a lenda?
12:32Que ele levou essa imagem para a sua casa
12:34e que a imagem de noite voltava para o mesmo lugar do achado,
12:37que é o igarapé do Murutuku,
12:40próximo ali à basílica,
12:42um braço ali de igarapé.
12:45Então, essa notícia, você vai encontrar, por exemplo,
12:48eu cito o caso de Alenquer, que é Santo Antônio.
12:52A mesma história é contada lá.
12:54Santo Antônio ia de noite e as pegadas dele tiveram que construir
12:57ali na margem do Rio Surubiu a igreja de Santo Antônio.
13:00Então, essa imagem do santo que vai para o seu local,
13:04onde foi achado, ela acontece em vários locais.
13:07Então, aí você vê já a lenda entrando na história,
13:12o mito entrando na história.
13:14Isso é um aspecto muito interessante e também muito bonito,
13:16porque esse enlace entre mito e história é fundamental na crença.
13:22Então, nasce aí.
13:23E essa devoção vai ganhando um...
13:25As pessoas vão visitar essa primeira capela,
13:30depois se transforma numa ermida.
13:32Tem uma passagem muito bonita lá do Henry Walter Bates,
13:36no século XIX, que escreve aquele naturalista nos Amazonas.
13:40ele fala da antiga ermida de Nazaré com o seu manto azul recamado de estrelas,
13:47as pessoas...
13:48Uma devoção fortíssima, a história dos milagres.
13:53Então, isso já no século XIX você vai ver esse passado.
13:59Então, e ali...
14:02Ah, eu acho que para finalizar aqui essa fala,
14:05a tua pergunta, né?
14:06Tem toda uma relação com a água, né?
14:11Ela foi encontrada no Ingarapé,
14:13então esse sentido também de purificação,
14:16de pureza, de natureza,
14:19na mãe, né?
14:21Nossa Senhora de Nazaré pode ser muito...
14:23Daí, todo esse espraiamento, né?
14:27Que a gente vê hoje no sírio.
14:29Nossa Senhora de Nazaré é uma figura,
14:31uma imagem,
14:32é uma...
14:33É uma devoção que se espraia para outras religiões,
14:37para outras crenças, né?
14:39Então, sincretizada com Oxum,
14:42associada, então, na beira do Ingarapé.
14:44Não é à toa que a flor de devoção, né?
14:47O lírio mimoso também é a flor de Oxum,
14:50colhida no Ingarapé, ao pé de uma cachoeira.
14:53Então, você vai ver sempre muitas associações
14:56que cada devoto vai ter em relação ao sírio.
14:59Esse universo, ele é infinito, infinito.
15:04E tem esse sentido da mãe,
15:07Pachamama, né?
15:08Para os indígenas, por exemplo, na América Central, né?
15:12É aquela mulher que é a própria terra,
15:15como Gaia para os gregos.
15:18A gente nem tem tempo, acho, de falar tudo isso,
15:20mas isso é muito importante.
15:22Esse é o momento de virada no cristianismo,
15:25a figura da mulher como a própria terra,
15:28como a própria água, né?
15:30Mãe d'água.
15:31E a gente podia entrar nesse universo,
15:34por que que é tão importante,
15:37na visão, numa visão cabocla,
15:39numa visão amazônica,
15:40a figura de Nazaré.
15:41Então, acho que é bem emocionante isso, nesse sentido.
15:46E aí, do achado até a procissão,
15:48leva-se um tempo para a institucionalização, né?
15:50E desde então, mais de 200 anos de história.
15:53Sim.
15:54De modo geral, o que o senhor pode falar
15:56sobre essas mudanças,
15:57sobre o crescimento do número de procissões,
16:00sobre procissões rodoviárias, fluvial?
16:02Sim.
16:04O sírio, hoje, a gente pode analisar como um espetáculo, né?
16:08Uma festa.
16:09Gui Debord, né?
16:09O antropólogo, filósofo,
16:13que pensa essas grandes festas
16:14como grandes espetáculos modernos,
16:16grandes espetáculos contemporâneos.
16:20O sírio, ele ganhou uma amplitude,
16:22e essa amplitude do sírio,
16:27ela ajuda a entender
16:29como ele não se encaixa em todas essas análises, né?
16:32Quer dizer, ele é uma festa,
16:34ele é um espetáculo,
16:35tem esse sentido mercantil,
16:36mercantilista de comércio,
16:38mas de profunda devoção,
16:40todos esses sentidos que a gente falou do passado,
16:43eles permanecem no sírio.
16:44Essa multiplicidade, né?
16:47De cultural, étnica,
16:51tudo isso está no sírio.
16:52continua presente.
16:53Então, quando alguém vem dizer
16:54ah, o sírio perdeu,
16:56eu sempre olho com...
16:58Eu sempre olho, assim,
16:59com uma certa suspeição.
17:01Acho que perdeu várias coisas
17:03e ganhou várias coisas, né?
17:05Tem um jogo aí de perdas e ganhos,
17:07mas parece que mantém,
17:09parece que é cumulativo
17:10essa herança do passado,
17:13esses espólios do passado
17:15permanecem no sírio.
17:17Então, eu acho que ele só se amplia,
17:19ele só se amplia,
17:19ele só cresce.
17:20Então, eu acho que tem esse passado histórico
17:25do sírio, do achar...
17:26Bem, da introdução da devoção pelos jesuítas,
17:30esse momento lendo a história
17:31com o caboclo Plácido,
17:33com a figura do Plácido,
17:35há o encampamento do sírio
17:38por essa hierarquia que é católica
17:41e, ao mesmo tempo,
17:42da monarquia, né?
17:45Uma coisa da coroa portuguesa.
17:47E depois, no Império Brasileiro,
17:50tem toda uma história também
17:52do sírio no Império Brasileiro,
17:54os militares presentes no sírio,
17:56quem guardava a berlinda,
17:58quem fazia a devoção,
17:59se você ver as imagens,
18:02era como hoje a presença militar
18:04é muito grande,
18:04no século XIX, muito forte.
18:06Era o corpo militar que guardava a berlinda
18:09com toda essa pompa, né?
18:11Então, esses usos que vão
18:13da monarquia portuguesa,
18:16passando pelo passado colonial
18:20e hierarquia católica,
18:21o Império Brasileiro,
18:22até esse movimento republicano,
18:23até o contemporâneo,
18:25é uma longa história
18:26da relação entre poder,
18:28entre oficial e o popular
18:29e que é fundamental para o sírio.
18:31Eu só vejo amplitude,
18:33eu só vejo crescimento.
18:36Professor, o tema do sírio desse ano,
18:39Maria, Mãe, Rainha de Toda Criação,
18:40ele também tem uma conexão,
18:43um diálogo com a questão da COP30,
18:45que vai ser realizada esse ano
18:46aqui em Berlém.
18:48A gente já falou sobre a origem do sírio,
18:49essa relação com a natureza.
18:51O sírio dos dias de hoje,
18:53ele nos ajuda a pensar
18:54formas sustentáveis de habitar a Amazônia.
18:57Como é que a gente pode falar
18:58do sírio de hoje
18:59e a relação que a gente tem
19:01com a Amazônia, com a cidade,
19:03com a floresta?
19:05Eu acho que é um pouco inescapável hoje, né?
19:08Essa questão da crise climática,
19:11a questão da Amazônia,
19:13ela está na pauta.
19:16Eu não sei se há seriedade profunda
19:19ao tratar do assunto, né?
19:21A gente fala sempre,
19:23eu vou dar um exemplo assim,
19:25bem belenense, assim.
19:28O sírio, o caminho do sírio,
19:30toda vez se fala disso, né?
19:32É bom quando ele entra ali em Nazaré
19:34e as ruas, né?
19:35Tem aquele túnel de mangueiras
19:37e que fica mais conforto.
19:39Isso era uma questão no século XIX.
19:41O Antônio Lemos,
19:42que foi prefeito de Belém,
19:44intendente de Belém,
19:45ele dizia,
19:46essas mangueiras são o refrigério dos paraenses,
19:49traduzindo para os dias de hoje
19:50o nosso ar-condicionado urbano.
19:52Então, se você está lá no sol,
19:54é uma coisa.
19:55Se você está debaixo da mangueira,
19:56é outra.
19:56Então, isso é um aprendizado
19:59que a gente tinha que ter com o passado.
20:01essa importância de ter essa obsessão
20:06com o conforto térmico da cidade.
20:09Isso tem muito a ver com a história do sírio.
20:13E isso foi um aprendizado
20:15que foi construído ao longo do tempo.
20:17Eu te diria isso.
20:19Eu te diria que
20:19não é uma coisa automática.
20:23O sírio vai ensinar
20:25como a gente deve tratar a natureza.
20:27Mas os elementos simbólicos estão aí.
20:29o igarapé,
20:31o achado,
20:32a cidade,
20:33o território,
20:34o una,
20:36o otinga,
20:37as matas.
20:38Então, todos esses símbolos
20:40que a gente fala de preservação,
20:43ou a gente pensa em preservação,
20:45eles estão no sírio.
20:46Mas não são automáticos.
20:48Não é uma coisa que está ali pronta.
20:50Não.
20:50Precisa de uma espécie de
20:52educação sentimental.
20:54Quer dizer,
20:56incorporar esses elementos,
20:59entender,
20:59e é muito legal que
21:00o tema do sírio
21:05envolva essa questão
21:07da natureza
21:08e a questão da mulher também,
21:10questão feminina.
21:11Isso é muito,
21:12muito interessante.
21:14Isso tem a ver
21:14com aquela resposta anterior,
21:16aquela questão anterior.
21:17A terra com a terra fêmea,
21:19a terra mulher,
21:21a terra virgem também.
21:23Isso é um sentido
21:24de valorização
21:25desses aspectos,
21:27digamos assim,
21:28ancestrais,
21:29esses aspectos
21:31estruturais,
21:34universais,
21:36que há na crença,
21:37que há na fé.
21:38Eu acho que é por aí.
21:39Antes da gente seguir
21:40para a próxima pergunta,
21:42tem a questão do sacrifício
21:44como um dos valores
21:46importantes dessa procissão,
21:47o próprio calor,
21:48enfim.
21:49O senhor acha que,
21:51primeiro eu queria entender
21:51se isso vem daqui,
21:53da Amazônia,
21:54do Sírio,
21:54ou se é uma questão
21:55católica,
21:56europeia.
21:58E eu queria
21:58que o senhor falasse
21:59se o senhor acha
22:00que isso pode mudar
22:01com a imposição mesmo
22:02das mudanças climáticas
22:04e tudo que a gente
22:04está vivendo já.
22:06Bem,
22:08isso eu acho
22:09que não muda,
22:10que é a questão
22:11da promessa.
22:13Eu imagino
22:14que o sacrifício
22:14esteja associando
22:16as promessas,
22:17a devoção,
22:18enfim.
22:19Acho que isso é central,
22:21é muito...
22:22Talvez não seja central
22:24para a oficialidade católica,
22:26para essa elite
22:29que a gente está
22:30falando aqui.
22:31Mas a leitura popular
22:33é fundamental.
22:34E é muito antigo
22:35no cristianismo,
22:36no catolicismo
22:39e no cristianismo.
22:41Aí a gente pode falar
22:43de toda devoção,
22:45aquele caminhado,
22:46andar de joelhos,
22:47acorda.
22:48Tem a ver com
22:49dois conceitos fundamentais
22:51aí na história
22:52do cristianismo.
22:53Que é o conceito latino,
22:55lá do princípio mesmo
22:56do cristianismo primitivo,
22:58que é potência
22:58e presença.
23:00Que a gente podia dizer
23:00potência e presença.
23:02então potência,
23:05então a corda,
23:06então essa ligação
23:07com o sagrado
23:08está ali,
23:08naquele tato.
23:10É quase que uma espécie
23:11de cordão umbilical
23:12que se liga,
23:13uma corda
23:14que se liga ao divino,
23:16que se liga ao sagrado.
23:17Então tocar naquilo,
23:19segurar naquilo,
23:21naquele elemento,
23:22naquele símbolo,
23:24naquela relíquia,
23:25e a gente vai associar
23:27ao cristianismo primitivo.
23:29As relíquias dos santos,
23:31invadir as catacumbas,
23:33pegar os restos,
23:34os ossos,
23:36aquilo.
23:36Há um historiador inglês
23:38chamado Peter Brown
23:39que escreveu um livro,
23:40O Culto dos Santos,
23:41que ele analisa bem
23:42esses dois conceitos.
23:43São fundamentais,
23:44no meu entender,
23:45para analisar
23:46esse sacrifício
23:48dentro do sírio,
23:49essa questão
23:50da promessa
23:51e da dádiva.
23:53Também há outros antropólogos,
23:55a gente podia citar aqui vários,
23:57Marcel Mosse,
23:58que tem um famoso ensaio
23:59sobre a dádiva.
24:01Então,
24:02acho muito difícil
24:04isso mudar.
24:05Eu acho que isso é
24:06constitutivo,
24:08é fundamental,
24:09essa negociação
24:11com o sagrado,
24:12essa relação
24:13de
24:15lembrar que Maria
24:18é a intercessora,
24:20intercede conosco.
24:22A salvação,
24:23que é outra questão
24:24tensa também
24:25entre o protestantismo
24:27e o catolicismo.
24:29Maria para os católicos
24:30é a intercessora
24:31na salvação.
24:32Só Jesus salva,
24:33mas tem a mãe ali,
24:34a mãe ali do lado,
24:36falando,
24:36isso é um aspecto
24:37fundamental.
24:38Acho que não
24:39morre nada,
24:41se amplia
24:42e se
24:43diversifica.
24:45Então,
24:46esses dois
24:47aspectos
24:48para mim
24:49são fundamentais.
24:50A presença
24:51da divindade,
24:53da sacralidade
24:56ali,
24:57naquele momento.
24:59Então,
24:59ver a imagem
25:00original,
25:01estar perto
25:02da imagem
25:02original,
25:03ir na corda,
25:05ver os carros.
25:06Então,
25:07esse toque,
25:09todos os devotos
25:10estão ali
25:10tocando
25:11nas coisas,
25:12no toque.
25:12esse sentido
25:14tem a ver
25:15muito com isso,
25:16com o poder,
25:17que é a potência,
25:18o poder sagrado
25:20ali
25:20e a presença.
25:22Ali são
25:22tentáculos
25:24e espraiamentos
25:26da divindade
25:27ali presente
25:27em cada
25:28simbologia
25:30e cada
25:31ramificação
25:32do sírio.
25:33Professor,
25:34vamos falar um pouquinho
25:34mais sobre a corda.
25:35ela foi incorporada
25:37em 1855.
25:40É um objeto
25:41que chama a atenção,
25:42mesmo para quem
25:42tem algum tipo
25:43de referência
25:44de outras procissões,
25:46de que maneira
25:47a gente pode falar
25:48sobre o vínculo
25:50que as pessoas
25:50estabelecem
25:51com a corda,
25:52tanto a questão
25:53devocional
25:53quanto a questão
25:54política desse objeto?
25:56Sim.
25:57A corda,
25:59no meu entender,
25:59ela entra um pouco
26:00assim por aspectos
26:02mais técnicos,
26:03mas por acaso,
26:04para carregar
26:05o carro,
26:07as liteiras,
26:08o carro que trazia,
26:10puxar ali
26:11com os atoleiros
26:12e tudo.
26:15E ela vai ganhando
26:17esse peso
26:20justamente
26:21porque ela
26:22é,
26:23para mim,
26:24ela é muito semelhante
26:25àquelas fitas
26:26que se colocam
26:27no andor
26:28dos santos.
26:29Você toca ali
26:31e ela meio que
26:32sai dos pés
26:33da virgem.
26:34então,
26:35ela é um fio
26:36condutor.
26:38Para mim,
26:38tem muito
26:39essa imagem
26:40do cordão
26:40umbilical
26:41que liga
26:43que é uterino
26:44aquilo,
26:45liga o nosso corpo
26:46àquela
26:47força,
26:49àquele poder.
26:51E é assim
26:52que é visto,
26:53tocar naquela corda,
26:55esse elemento.
26:57E ela vai ganhando
26:58isso ao longo
26:58do tempo,
26:59aumenta,
27:00diminui,
27:01a história
27:02de cortar
27:02a corda,
27:03porque todo mundo
27:04quer levar
27:04um pedaço.
27:05Isso tem muito
27:06a ver
27:06com aquilo
27:07que eu disse
27:07no passado,
27:08a corda
27:08é uma relíquia.
27:10Você quer ter
27:10aquela relíquia,
27:11um pedaço,
27:12e daí
27:12eu vejo
27:13assim,
27:14as pessoas
27:14dão
27:15de presente
27:16para o outro
27:16um pedaço
27:17da corda,
27:17eu achei isso.
27:19Os artistas
27:20que vêm
27:21visitar Belém
27:22ganham
27:22dos romeiros
27:24um pedaço
27:24e eles mostram
27:25e eu ganhei
27:25um pedaço
27:26da corda,
27:26é a relíquia.
27:27Então,
27:28ela só vai
27:30também ganhando
27:32novos sentidos.
27:34Então,
27:34sai desse aspecto
27:36meio que usual,
27:37meio que técnico
27:38e vai ganhando
27:39um sentido
27:40religioso,
27:42um sentido
27:43político também,
27:48porque há sempre
27:49essa...
27:50Quer dizer,
27:51ao longo
27:51do tempo
27:52a gente ouviu
27:53muito isso,
27:53não corte
27:55a corda,
27:55isso não vai
27:59ter muita função,
28:00quer dizer,
28:01as pessoas
28:01querem aquele
28:02pedaço.
28:03Quando vai ser
28:04o corte,
28:05que é uma coisa,
28:05as pessoas
28:06querem levar
28:06aquilo,
28:08querem levar
28:09aquele objeto.
28:10É muito...
28:11Isso mostra
28:12todas as estratégias
28:15de controle
28:16do sírio,
28:17o controle
28:18social,
28:19o controle...
28:20E que é um milagre,
28:21realmente,
28:22é incrível,
28:23uma coisa que eu acho
28:23que todo mundo
28:24deve pensar
28:24como é
28:25que isso dá certo.
28:27Dom Macedo Costa,
28:28vou dar uma questão
28:29histórica aqui,
28:30Dom Macedo Costa,
28:32ele não gostava
28:32do sírio.
28:33Foi um bispo,
28:34no século XIX,
28:35importantíssimo
28:36na igreja,
28:3730 anos,
28:38bispo do Pará,
28:40ele tem textos
28:41bem horríveis
28:42sobre o sírio,
28:43ele compara o sírio
28:43com as festas
28:44de Brahman
28:45na Índia,
28:46por quê?
28:47Porque era
28:47tudo muito pouco
28:49civilizado para ele.
28:51Ele está
28:52naquela imagem
28:53de uma devoção
28:54romanizada,
28:55controlada,
28:56sabe,
28:57aquelas processões
28:58todas organizadinhas.
28:59E o sírio,
29:00ele desorganiza
29:01a nossa cabeça.
29:02É muito...
29:03Esse processo
29:04de desorganização
29:04é muito difícil
29:05para a hierarquia,
29:06principalmente
29:06para uma hierarquia
29:08católica
29:09romanizada
29:10do século XIX.
29:11Então,
29:11ele fez campanha mesmo
29:12para acabar com o sírio.
29:13Houve dois sírios civis,
29:15né,
29:15no século XIX
29:16sem a presença dele.
29:17E isso diz muito
29:20sobre isso,
29:21sobre o poder
29:22da corda,
29:23o poder
29:23desses símbolos,
29:24porque ao mesmo tempo
29:25que eles dão
29:26um outro sentido,
29:27eles desorganizam,
29:29eles desorganizam
29:30e organizam,
29:31eles vão dando
29:32um outro sentido.
29:34É mais ou menos isso.
29:36Essa desorganização
29:37que o senhor falou
29:38seria um traço
29:39de amazonização
29:40do sírio,
29:41como o senhor
29:41já usou esse termo?
29:43Não,
29:44acho que não,
29:44porque na verdade
29:46também a gente tem
29:46que ter cuidado
29:47ao pensar a Amazônia
29:49como lugar,
29:50né,
29:51da desorganização.
29:53O que eu acho assim
29:53é que
29:54hoje a gente pode
29:57perfeitamente dizer
29:58que a nossa leitura
30:00da fé,
30:02uma leitura amazônica
30:03em que esses elementos,
30:05digamos,
30:06locais,
30:07água,
30:08igarapé,
30:09né,
30:09todos esses sentidos,
30:10os brinquedos de miriti,
30:12as festas,
30:12as comidas,
30:13tudo isso que vai dando
30:14uma cor local ao sírio,
30:16eles são,
30:18eles descolonizam,
30:19descolonizam essa,
30:21essa,
30:22essa fé colonizada,
30:24essa fé colonial,
30:26né,
30:26a gente tem que pensar
30:28que o sírio
30:28foi meio que imposto,
30:30né,
30:30é uma festa
30:31que foi trazida
30:32pelos portugueses,
30:33mas o processo
30:35de releitura,
30:36o processo
30:37de apropriação popular
30:39que o sírio
30:39foi tendo ao longo
30:40do tempo,
30:41que é absolutamente
30:42fantástico,
30:43ele em si
30:44descoloniza
30:45essa procissão,
30:46essa festa,
30:47então,
30:48é muito rico,
30:49então,
30:50isso sim
30:51é a amazonização
30:51do sírio,
30:53a amazonização,
30:54no meu entender,
30:55é a descolonização
30:56dessa,
30:57dessa festa,
30:58dessa procissão,
30:59e aí ninguém controla,
31:01né,
31:01é óbvio que
31:02para a hierarquia,
31:04para a igreja,
31:05né,
31:05para,
31:06provavelmente,
31:07para,
31:07para a própria
31:08diretoria da festa,
31:10não é muito engraçado
31:11que a chiquita,
31:12a festa da chiquita,
31:13faça parte do sírio,
31:15que tenha,
31:17não sei,
31:17as religiões afrodescendentes
31:20que são muito presentes
31:21no sírio,
31:22há toda uma simbologia
31:24na tradição,
31:25no tambor de mina,
31:26aqui no Pará,
31:27com o sírio,
31:28enfim,
31:29e aí todas as religiões
31:30estão presentes,
31:31talvez isso não faça
31:32muito sentido,
31:33mas não,
31:34não existe esse controle,
31:36não há possibilidade
31:37desse controle,
31:38é um pouco isso.
31:40Professor,
31:40o que a gente pode falar
31:41sobre a importância
31:42dessas outras expressões,
31:43você falou da festa da esquita,
31:45tem o próprio alto do sírio,
31:47né,
31:47e outras expressões
31:48que vão se agregando,
31:50não são institucionais,
31:51não são oficiais,
31:52mas fazem parte do sírio,
31:53qual a importância delas
31:54para o sírio
31:56enquanto uma festa da cidade,
31:57uma criação coletiva nossa?
31:59É,
32:00eu acho que é assim,
32:03é o aspecto da cultura,
32:05né,
32:05o sírio,
32:06ele,
32:07ele,
32:08se a religião
32:09é o aspecto simbólico
32:11da cultura,
32:12né,
32:12ela reúne todos os elementos
32:15simbólicos,
32:16aí tem uma noção
32:17de cultura
32:18muito mais espraiada,
32:20né,
32:21traz tudo aquilo
32:22que está ausente de nós,
32:24distante,
32:25traz para dentro do sírio,
32:27né,
32:27essa é a possibilidade
32:28de entendimento do sírio,
32:30está tudo ali,
32:30então,
32:33cada um,
32:34cada participante
32:36ou cada grupo social
32:37que participa do sírio
32:38vai ter uma leitura,
32:40digamos,
32:41vai ter uma interpretação
32:42cultural daquela festa,
32:45a gente citou aqui,
32:46por exemplo,
32:46o Alto do Sírio,
32:47que é uma coisa
32:47que nasce dentro
32:48da universidade,
32:50do teatro,
32:51só que ele ganhou
32:52um sentido
32:53muito maior,
32:55as pessoas
32:58que participam,
33:00ela é um momento
33:02de cultura,
33:02um momento
33:03de espraiamento
33:04assim,
33:04cultural
33:04muito importante
33:06para a cidade,
33:06a festa da Chiquita
33:07também,
33:08porque aí ela vai ter
33:09todo um tópico
33:10de diversidade,
33:12um debate político
33:14ali de representatividade
33:18de um grupo social
33:21marginalizado
33:23historicamente,
33:24apartado
33:25historicamente,
33:25então isso é muito
33:26também importante,
33:28aí nas religiões
33:29afro-brasileiras
33:31também,
33:31ou afro-amazônicas,
33:33ou afrodescendentes,
33:34o tambor de mina,
33:36Nossa Senhora de Nazaré
33:37inclusive,
33:38é uma entidade
33:38que é até uma princesa,
33:40a gente fala,
33:41está muito famoso
33:43porque teve aí
33:44o carnaval
33:44da Grande Rio
33:45com as princesas turcas,
33:46há uma princesa
33:47chamada Sinha B,
33:48que ela adora
33:49Nossa Senhora de Nazaré,
33:50geralmente
33:51nessa época do sírio
33:53se toca um tambor
33:54para Sinha B
33:55e aparece
33:55nos terreiros,
33:58então associada,
33:59inclusive adota
34:01que as doutrinas
34:02dessa entidade
34:03se referem
34:03a essa imagem.
34:06Então,
34:07o sincretismo
34:08com o Shum,
34:09enfim,
34:12é muito amplo,
34:14a cultura
34:15ela ganha
34:15um sentido
34:16muito amplo.
34:18Todo ano
34:19eu fico esperando
34:20o manto,
34:21o manto
34:23que é
34:24entre os vários símbolos
34:26e às vezes
34:27as pessoas
34:29que estão lá,
34:31que desenham,
34:32que fazem parte
34:33da execução
34:34do manto,
34:35muito felizes
34:36em trazer
34:38todos os elementos,
34:39é uma coisa
34:39que eu fico
34:40esperando
34:41para ler
34:43aquilo
34:43com muito
34:45detalhe,
34:46porque
34:46é uma riqueza
34:49interpretativa,
34:50às vezes
34:50vão explorar
34:52a questão
34:52do lírio,
34:53já teve
34:53herança judaica,
34:56conexões
34:57com o mundo árabe,
34:59a lua,
35:00a lua,
35:01que é
35:01meia lua,
35:03que é um símbolo
35:04também,
35:04que são símbolos
35:05marianos
35:06que foram
35:07incorporados
35:07em várias
35:08religiões,
35:09símbolos
35:10ancestrais,
35:11isso é realmente
35:12uma obra de arte,
35:13mas também
35:14é uma obra
35:14teológica,
35:15uma coisa
35:16incrível,
35:18e as pessoas,
35:18cada um lê
35:19de uma maneira,
35:20você lê
35:20com uma coisa
35:21bela,
35:21com uma coisa
35:22bonita,
35:22mas aquilo
35:23vai ganhando
35:24um sentido
35:24de interpretação
35:26bastante amplo,
35:28é isso.
35:29E mesmo
35:29com essa
35:30orientação
35:30litúrgica,
35:31também tem
35:31elementos
35:32da cultura,
35:33a gente teve
35:33os periquitos
35:34do manto,
35:35em 2010,
35:36outros elementos,
35:37Exatamente,
35:38a rosa,
35:39a rosa de Saron,
35:41os pinhos da rosa
35:42que aparecem
35:43na poesia,
35:44o lírio
35:44que está lá
35:45nos cânticos
35:46de Salomão,
35:48o lírio,
35:49o solírio
35:50dos vales,
35:51então esses
35:52sentidos
35:53de pureza,
35:54só que
35:54tudo isso
35:55que está
35:56escrito
35:57numa matriz
35:58judaico-cristã,
36:00ela também
36:00se espraia
36:01para outras
36:02religiões,
36:03é esse
36:04que é
36:04o grande
36:05segredo,
36:06é o grande
36:06mistério
36:07da cultura,
36:09então vai
36:10se ganhando
36:11ênfase,
36:13sentidos,
36:14tem as poesias,
36:15tem a música,
36:16as pessoas vão
36:17realmente
36:18incorporando isso,
36:20e é muito rico
36:22assim,
36:22você vê isso
36:23na procissão,
36:24os bordados,
36:25as roupas,
36:26que são
36:26completamente
36:27fora,
36:28cada um faz
36:29da sua maneira,
36:31e aquilo vai,
36:33tem uma imagem
36:34que as pessoas
36:34dizem do sírio,
36:36que acho que faz
36:37muito sentido,
36:38essa devoção
36:39mariana,
36:40ela vai acolhendo,
36:42ela vai botando
36:43debaixo desse
36:44grande manto,
36:45dessa grande,
36:47tudo,
36:48ela vai
36:49incorporando
36:50tudo,
36:50e um grande
36:51mistério é que
36:52isso funciona,
36:53dá certo,
36:55é um período
36:55assim,
36:56de pouco
36:57conflito,
36:58assim,
36:59de confusão,
37:00pouca confusão,
37:01a cidade parece
37:02que ela vai
37:02se comportando,
37:04se arrumando
37:06nisso,
37:07e os paraenses
37:08gostam disso,
37:09incorpora,
37:10as pessoas
37:12de Belém,
37:13e aí tem a ver,
37:14certamente,
37:16um evangélico
37:16no sírio,
37:17não nos iludamos,
37:18ele está sempre
37:19olhando,
37:19vou pegar esse
37:20rapaz aqui
37:21para a crença,
37:23vamos atrás,
37:24mas é muito
37:25forte,
37:25não adianta,
37:27não dá,
37:27não tem
37:29essa possibilidade
37:30dessa negociação
37:32nesse momento,
37:33é tudo
37:34puxado
37:35por essa
37:36grande
37:36corrente,
37:38assim,
37:38que é incrível,
37:39que é um grande
37:39espetáculo,
37:40mas tem esse sentido
37:41de fé,
37:43isso,
37:44ah,
37:44o sírio
37:45virou só
37:46um grande
37:47mercado,
37:48é bobagem,
37:49é completamente
37:50bobagem,
37:50as pessoas estão ali
37:51realmente impregnadas,
37:53querem consumir
37:54tudo,
37:54mas elas estão
37:55impressionadas,
37:56o choque,
37:57a passagem
37:58da imagem,
37:59toca realmente
38:01fundo,
38:02e é muita coisa
38:03que vem ali,
38:03são emoções
38:04particulares,
38:06são passagens
38:07da vida
38:07individual
38:08de cada um,
38:10né,
38:10e isso é muito
38:11rico no sírio.
38:12Exatamente isso
38:13que eu ia lhe perguntar,
38:14por que que o sírio,
38:16na sua percepção,
38:16ele impacta tanto
38:17qualquer pessoa,
38:19assim,
38:20claro,
38:20em diferentes níveis,
38:21diferentes gradações,
38:23mas assim,
38:24o que que há de humano
38:25nele,
38:26ou de sensorial mesmo,
38:27o senhor falou da corda,
38:28né?
38:28É,
38:29eu acho que pra quem
38:30não vive,
38:32não é daqui,
38:33que não tem essa
38:33experiência cultural,
38:35é o tamanho,
38:36né?
38:36O sírio é assombroso,
38:39é uma procissão,
38:40é uma grande devoção
38:41mariana,
38:43católica,
38:43no mundo,
38:44então essa,
38:45sabe,
38:46não à toa,
38:47o Dom Macedo Costa,
38:49lá no século XIX,
38:50comparava o sírio
38:51sempre com as festas
38:52da Índia,
38:53que são aquelas
38:53grandes movimentações
38:55de gente,
38:58da cultura hindu,
39:00então esse peso
39:02é tocante,
39:04e quando reúne
39:05muita gente,
39:06é muita energia,
39:08não adianta,
39:09é o sírio,
39:09você entra
39:11no choque
39:12de muita energia,
39:14é muita presença,
39:15é muito calor humano,
39:16é muita gente,
39:18é muita,
39:18é muita pressão,
39:20de corpos ali,
39:22os fotógrafos
39:24exploram bastante
39:26os filmes,
39:27o nosso cineasta
39:29Líbero Luchardo,
39:30fez a imagem
39:31do sírio
39:31num dia qualquer,
39:33tem uma poesia lá,
39:34o Bruno de Menezes,
39:36o Dalcídio Jurandir,
39:37é sempre essa imagem
39:39dessa grande procissão
39:41que congrega,
39:42então eu acho
39:43que é isso,
39:44esse tamanho,
39:47essa dimensão
39:48que é muito forte,
39:49e para quem vive
39:50o sírio,
39:52as pessoas querem
39:53sempre estar comparando
39:55o sírio anterior
39:56que ocorreu no ano passado,
39:57da sírio da infância,
39:59olha,
39:59mudou isso,
40:01a imagem,
40:03aquela imagem,
40:04olha,
40:04ela está tão linda,
40:06a roupa,
40:09a vestimenta do sírio,
40:10você vai vendo
40:11como um elemento
40:13ali que é
40:14que é
40:15uma espécie de
40:18eterno retorno,
40:20você quer estar no outro,
40:22agradecem por estar
40:23no sírio mais uma vez,
40:25agradecer por voltar
40:27àquele ciclo,
40:30é uma festa cíclica,
40:32você,
40:32lá em 2024,
40:34agora em 2025,
40:35agradece por estar
40:35mais um ano aqui,
40:37então é um pouco isso,
40:38isso é para essa pessoa
40:40que vive o sírio,
40:41e outros para
40:42pelo menos uma vez,
40:44eu estive lá,
40:44eu vi,
40:45é isso.
40:47Professor,
40:47antes da gente encerrar,
40:48queria tirar uma dúvida,
40:50houve ou não houve sírio
40:51durante a cabanagem?
40:53O que se diz sobre isso?
40:55Para mim,
40:55sempre houve sírio,
40:57desde aqui nunca,
40:58desde o último,
40:59até houve também,
41:00porque houve um sírio,
41:02um sírio virtual,
41:04sírio virtual,
41:05então é assim,
41:07sempre houve sírio,
41:12porque o sírio
41:13nunca foi uma festa,
41:15os cabanos,
41:18por exemplo,
41:19que a gente está falando
41:19de cabana,
41:20eram devotos
41:21de Nossa Senhora de Nazaré,
41:22depois a poesia,
41:22inclusive,
41:23vai falar disso,
41:25vários autores
41:28vão falar disso,
41:29então,
41:31os cabanos
41:32tinham um grande problema
41:33com os mações,
41:34com tudo aquilo
41:35que era visto
41:37como contrário
41:38à hierarquia da igreja,
41:40os bispos
41:42foram grandes freios
41:44no avanço
41:46dessas lideranças cabanas,
41:48isso desde a independência,
41:50principalmente o bispo
41:52na época,
41:52que era muito respeitado,
41:53Romualdo de Souza Coelho,
41:56cametaense,
41:57então,
41:58houve o sírio,
41:59acontece que a documentação
42:01desse período
42:02é muito rara e feita,
42:03e não é só do ano
42:05de 1835 e 1836,
42:07dos outros anos,
42:10mas todos os documentos
42:13paralelos,
42:14por exemplo,
42:15o que era discutido
42:16no parlamento
42:17e em outros lugares
42:18atestam que houve sírio,
42:20quer dizer,
42:21que essas festas
42:22que permaneceram iguais,
42:24as procissões,
42:25as festas,
42:26em tamanhos menores,
42:27mas não era alvo,
42:29não foi um alvo
42:30dos cabanos,
42:31muito pelo contrário,
42:33então essa é a minha
42:35interpretação,
42:36em relação ao sírio,
42:41é basicamente isso,
42:43e também um outro momento,
42:45que é as grandes epidemias,
42:47em 1850,
42:49em 1918,
42:51nessas epidemias,
42:52houve grandes procissões,
42:54inclusive,
42:55com recitação do Rosário,
42:58para que essas epidemias
43:00fossem aplacadas,
43:02isso tem a ver
43:03com uma tradição
43:04muito antiga,
43:05na Idade Média mesmo,
43:07os santos adentravam
43:09nas cidades
43:11que estavam
43:12ocupadas com a peste,
43:17tem um caso muito bonito,
43:19lembrei agora disso,
43:22não sei se vocês,
43:23todos lembram,
43:24mas na pandemia,
43:25o Papa fez aquela famosa homilia,
43:30aquela famosa missa,
43:31sozinho,
43:32no Vaticano,
43:34e ele mandou vir
43:35da igreja de São Marcelo,
43:36em Roma,
43:37o Cristo Milagroso,
43:39se você for ver de novo
43:41aquela missa,
43:43tem um Cristo crucificado,
43:45colocado de um lado,
43:46é chamado Cristo Milagroso,
43:48que é um testemunho
43:49da famosa peste negra,
43:51que houve na Itália,
43:52a igreja de São Marcelo
43:54foi incendiada,
43:56teve um incêndio,
43:58e aquela imagem
43:58permaneceu intacta,
44:01os romanos faziam
44:02uma peregrinação
44:03da igreja de São Marcelo,
44:06e a partir dessa,
44:09e foi chamado,
44:10claro, obviamente,
44:12o fim da peste
44:13foi associado a esse momento,
44:15os papas faziam ali,
44:18colocavam atrás,
44:21a cada 50 anos
44:23faziam uma procissão
44:26para relembrar isso,
44:27e o papa coloca na cruz,
44:28naquela cruz está
44:29todos os papas
44:31que fizeram isso,
44:32Francisco,
44:32muito inteligente,
44:34fez esse momento
44:34e está lá
44:35o nome dele,
44:37isso tem muito a ver
44:40com a imagem
44:41que nós vimos aqui
44:42também na pandemia,
44:44aquele sobrevoo de Belém,
44:46com a imagem da virgem,
44:47nos hospitais,
44:51e isso é uma espécie
44:53de pedido,
44:55de intercessão
44:56para que acabasse
44:57a pandemia,
44:57teve oração,
44:59muitos nas casas
45:00fizeram isso,
45:01então,
45:01esse sentido
45:02é muito,
45:03muito forte,
45:04eu acabo até dizendo
45:05que houve também
45:07um sírio na pandemia,
45:08um outro tipo de sírio,
45:10então é sempre
45:11muito presente,
45:12muito forte
45:13na cabeça das pessoas.
45:15professor,
45:17o que esse sírio
45:18que sobrevive
45:19a tentativas de controle,
45:21a pandemia,
45:21tanta coisa,
45:22ensina para a gente
45:23sobre a resistência
45:26amazônica,
45:27sobre o pertencimento
45:28amazônico,
45:28sobre a gente mesmo,
45:30tem algo identitário aí?
45:31Muito,
45:33o melhor exemplo
45:35disso
45:36é a própria imagem,
45:38quando a imagem
45:39original
45:39deixa de sair do sírio,
45:41mandada fazer
45:41uma réplica,
45:42quando ela vem
45:43para cá,
45:44a própria igreja
45:46acha que essa imagem
45:47não é muito paraense,
45:49não é muito amazônica,
45:51então,
45:52essa imagem
45:53com uma tênis
45:54mais morena,
45:55mais cabocla,
45:57ela é uma imagem
45:58encomendada,
46:00é uma identidade
46:01projetada,
46:03quer dizer,
46:04já existia,
46:05já estava
46:06no universo,
46:08já estava
46:08numa espécie
46:09de repertório
46:10cognitivo
46:11dessa comunidade,
46:14o sírio
46:15tem um aspecto
46:16fundamental
46:17de comunidade,
46:19uma espécie
46:20de comunidade
46:20imaginada,
46:21toda essa cidade,
46:23e é muito interessante
46:24porque é muito
46:25mais amplo,
46:26é uma comunidade
46:27que não é só
46:28de católicos,
46:30vai sempre
46:31ter aquele católico
46:32mais radical
46:33que vai dizer,
46:33não,
46:34ela é uma posição
46:35totalmente católica,
46:36é claro que é,
46:37mas ela é mais,
46:40ela é mais,
46:41então,
46:41esse aspecto
46:42é profundamente
46:44identitário
46:45e é profundamente
46:46amazônico,
46:47porque todos
46:49os elementos
46:50que foram,
46:51talvez originalmente,
46:54não estou passando
46:54aqui pano
46:55no sírio,
46:56quer dizer,
46:56foram impostos,
46:59uma devoção
47:00que chegou
47:00do colonizador,
47:02eles foram
47:03apropriados,
47:04eles foram
47:05relidos,
47:05eles passaram
47:06por um processo
47:07antes,
47:08a gente não tinha
47:09essa expressão,
47:10não tinha nem
47:10essa palavra
47:12para dizer,
47:13eles foram,
47:14passaram por um processo
47:15de descolonização,
47:17é muito difícil
47:19você ver
47:20algum
47:21intelectual,
47:24às vezes até tem,
47:25mas a pessoa
47:26fica ruim
47:27das pernas
47:28ao analisar
47:29o sírio,
47:30ela não,
47:31que sabe,
47:32aquele script
47:33é muito quebrado,
47:35por quê?
47:35Porque a força
47:36da ressignificação
47:39desse processo
47:40de leitura
47:41a partir do
47:42popular,
47:42a partir do
47:44local,
47:44a partir do
47:45indígena,
47:45a partir do
47:46caboclo,
47:46é muito presente
47:47no sírio,
47:47o sírio é
47:48completamente
47:49amazônico.
47:51bacana,
47:52professor,
47:52muito obrigado
47:53pela sua disponibilidade,
47:55ficaremos aqui
47:55mais tempo
47:56falando sobre isso.
47:57Perfeitamente,
47:57eu que agradeço,
47:59então espero que as pessoas
48:00participem do sírio,
48:01né?
48:02E a você que nos acompanhou
48:03até aqui,
48:04obrigado pela audiência,
48:05Grupo Liberal
48:06no sírio de Nazaré 2025.
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