00:00Mais um evento do Nelfid, Nelsummit COP30.
00:03Eu estou aqui com o Ricardo Moussa, da SB COP30.
00:07Ricardo, você faz parte desse grupo, né?
00:10Eu sei que você, quando saiu do cargo de CEO, você andou viajando por aí.
00:17Como conciliar os interesses de diferentes países, da Arábia Saudita, da China, do Brasil,
00:24nesse caminho da sustentabilidade?
00:26Então, não é simples, Letícia. A gente está hoje com 67 países.
00:32E não é uma tarefa simples, porque cada país tem, obviamente, as suas prioridades.
00:35Tem países como a China, que fala muito mais de eletrificação.
00:38Você pega a Arábia Saudita, obviamente, falando muito mais dos fósseis e da redução da emissão dos próprios fósseis.
00:44Na prática, o que você tem que fazer é tentar...
00:45Eu sempre tenho a expressão, ótimo inimigo do bom.
00:47Se você for muito radical nas conversas, você não leva a lugar nenhum.
00:51Você tem que achar os pontos de conexão entre os países.
00:53E, assim, para mim, a surpresa até positiva, a gente conseguiu criar um consenso em torno de alguns pontos específicos.
01:01Não em todos.
01:02Então, a gente escolheu um pouco das brigas para ter algo que seja prático, que a maioria concorde.
01:08Mas não foi simples, não. E não está sendo simples.
01:11E quais são as principais divergências?
01:13Assim, tem divergência quando você fala de...
01:16Principalmente quando você fala de métrica de medição de carbono.
01:20Então, obviamente que os europeus, eles têm muita ciência por trás do que eles fazem,
01:24mas eles não levam em consideração, por exemplo, a agricultura tropical.
01:28Então, tem uma divergência enorme na métrica de captura de carbono na agricultura tropical.
01:32Por quê?
01:32Porque a ciência, a maior parte do tempo, focou no mercado de agricultura temperada.
01:37Então, esse é um exemplo de uma divergência que é grande ali.
01:40Aí você tem que usar ciência para poder levar adiante a discussão.
01:45Tem uma discussão, por exemplo, que é o compromisso com o fim dos fósseis.
01:51Claramente, isso é uma meta muito difícil de alcançar no curto prazo.
01:55Então, o que a gente vê agora, a gente sabe que não vai acabar com os fósseis no curto prazo.
02:00Como é que a gente cria uma ponte até lá?
02:02Então, eu acho que teve também muita discussão em torno disso.
02:04Mas são várias, assim.
02:06Eu estou citando algumas que vem na minha cabeça agora, mas essa questão do carbono é uma que é muito interessante,
02:11porque a gente tem pouca base científica aqui no que a gente chama do Global South
02:16para poder desafiar o que já existe de prática científica lá na Europa.
02:21Mas isso está melhorando bastante e a conversa está ficando mais de igual para igual.
02:25Existe algum país ou continente que enxergue essa questão climática com mais urgência?
02:32Eu acho que tem vários aspectos.
02:35Você tem...
02:36Eu vejo...
02:37Os Estados Unidos, obviamente, deram um passo para trás agora, infelizmente.
02:41Mas as empresas de lá, eu não vejo elas mudarem a direção.
02:45Eu vejo a mudança de intensidade.
02:47E a Europa continua, acho que, muito engajada.
02:49A Ásia e a China, em especial, ela olha isso também como uma grande oportunidade.
02:55Então, a China, como ela tem muita produção de renováveis, com solar, eólica, bateria,
03:01ela olha isso como uma oportunidade.
03:02É diferente.
03:03Cada região tem algumas...
03:04Cada país tem algumas características diferentes.
03:07Mas, de forma geral, eu não estou vendo um negacionismo das empresas em torno ao tema.
03:13O que eu vejo é uma prioridade distinta.
03:15Então, hoje, algumas regiões do mundo estão colocando esse tema como segunda ou terceira
03:20prioridade, o que era a primeira prioridade há três anos atrás.
03:24Então, tem uma mudança, sim, na priorização que cada região tem feito.
03:28Agora, cada um olha de forma diferente também.
03:31A África, por exemplo, tem necessidades tão básicas que ela assume compromissos, é mais
03:37difícil do que a Europa ou os Estados Unidos, que são países desenvolvidos.
03:41A Ásia, por outro lado, é uma grande força de fornecimento de muito produto para essa
03:49transição.
03:50E o Brasil, a América Latina dessa hora, é uma grande estrela, eu acho, porque a gente
03:54tem...
03:55A gente já está onde muitos países querem estar daqui a 20 anos ou 30 anos.
04:00Então, é diferente.
04:01Não tem...
04:02A expressão que a gente usa em inglês é não tem one size fits all.
04:05Cada região tem o seu tempo, cada região tem a sua forma de atuar.
04:09E tudo bem.
04:11E você acha que esse contexto macroeconômico, com as tarifas lá nos Estados Unidos, do
04:16Donald Trump, taxa de juros alta aqui no Brasil, isso é um obstáculo para mais investimentos
04:22em sustentabilidade?
04:23Eu acho que é.
04:24Quando você olha...
04:26E também não adianta a gente ficar adorando a pílula.
04:27É um momento muito mais difícil do que a gente está vivendo do que há três anos
04:31atrás.
04:31Então, essa transição energética, Letícia, ela tem uma característica que é mais
04:35cara do que a transição anterior.
04:37A transição anterior, que a gente saiu do carvão para o petróleo, ela acontecia naturalmente
04:41porque o petróleo era mais vantajoso do que o carvão para a gente seguir adiante.
04:45Neste caso, como ela é mais cara, alguém precisa pagar essa conta.
04:48E hoje o mundo, com os déficits que os países estão enfrentando, questões de aumento de
04:54demanda de energia até para o AI, guerra, trade war, nessa hora é mais difícil você
05:00conseguir...
05:01Então, a régua aumentou, ou seja, os projetos agora para alguém fazer um investimento,
05:06você precisa de um retorno mais alto.
05:08Isso e com projetos que muitos da transição energética ainda não têm viabilidade tão
05:13clara econômica.
05:14Então, isso atrasa a discussão de qualquer forma.
05:17Mas é parte do jogo.
05:19Acho que, de novo, como você está gerenciando uma empresa e tem as prioridades naquele momento.
05:22Mas eu digo que isso é um ciclo.
05:25E a gente está vendo agora um ciclo de baixa.
05:28E no ciclo de baixa, a régua aumenta.
05:31Aqueles projetos que não fazem tanto sentido, eles acabam ou morrendo ou sendo postergados.
05:36Mas os projetos que fazem sentido, eles ganham força.
05:39E tem, assim, eu acho que a mudança de direção, a gente não mudou.
05:44O trend que é...
05:45Porque a mudança climática não está indo embora se a gente não enfrentá-la.
05:48Então, a ciência mostra para a gente que precisa fazer alguma coisa.
05:51Então, o que eu vejo é que é um ciclo que está...
05:54A gente está num ciclo de baixa agora, mas a gente vai voltar lá na frente e com as
05:59tecnologias corretas.
06:00A solução está na inovação e na tecnologia.
06:02Mesmo nesse ciclo de baixa, há espaço para o Brasil ser reconhecido mundialmente como
06:06uma potência verde?
06:08Há muito espaço.
06:09Essas são poucas as temáticas.
06:12Eu brinco, né?
06:13Que nem no futebol mais o Brasil é líder.
06:15Agora, nessa questão, a gente é líder assim.
06:17Quando a gente entra numa conversa, pega o nosso código florestal, a agricultura brasileira
06:21é super correta e muito mais avançada do que o resto do mundo.
06:26Nossa matriz energética.
06:28Até eu fui visitar outro dia a produção de minério lá da Vale, lá no meio da Amazônia.
06:32É impressionante a qualidade da extração, como eles preservam.
06:36Então, a gente tem muita coisa boa.
06:39Eu acho que está sendo difícil nessa copa, porque a questão logística até atrapalhou
06:42um pouco o foco principal, mas o Brasil é muito mais estrela ou até o Brasil é muito
06:48mais solução do que problema.
06:49Então, você entra numa conversa com os outros países e você vê quem é parte do problema
06:53e quem é parte da solução.
06:54O Brasil está naquele grupo da solução.
06:57Agora, a gente precisa se comportar assim, né?
06:59Então, eu brinco aqui também que a gente tem que parar de lavar roupa suja na frente
07:02do resto do mundo e se orgulhar mais do que a gente tem e ir para a COP com mais orgulho
07:07e apresentar mais as soluções do Brasil para o resto do mundo, né?
07:10Esse é um trabalho.
07:11Mas é fácil falar, né, Letícia?
07:13O difícil é fazer esse negócio acontecer na prática, né?
07:15Mas a COP está chegando.
07:17Eu acho que a discussão da logística vai diminuindo e começa a ter uma discussão
07:20mais clara agora do qual o resultado que a gente vai entregar nessa COP.
07:24Falando em prática, o grupo, né, o SB COP30, propõe a criação de oito forças-tarefa, né?
07:31Como garantir que isso saia do papel?
07:33Então, esse foi um aprendizado nosso e tem uma tradição que o mundo já há muitos
07:39anos no G20, ele sempre convocou o setor privado para participar da discussão do G20
07:44e ajudar na elaboração das políticas e das recomendações que o G20 faz ao final
07:50de cada reunião.
07:51E criou-se o B20, que todos os anos, eu não sei se são mais de 15 anos que o B20
07:55se encontra e faz.
07:56E a gente copiou esse sucesso do B20 ajudar o G20 e criou o CSB COP para ajudar a COP.
08:01Então, a gente tem lá mais de 60 países que são representados pela SB COP, pelo
08:07setor privado, são as confederações de indústria e comércio de vários países do
08:11mundo, a US Chamber nos Estados Unidos, CCPIT da China, a Business Europe, a CNI aqui no
08:16Brasil e assim por diante.
08:18E a forma que a gente encontrou foi copiando o modelo de sucesso do B20.
08:22Qual que é o modelo de sucesso?
08:22Você faz poucos temas, os temas que são discutidos na COP tem transição energética,
08:28financiamento climático, bioeconomia, cidades sustentáveis.
08:32E para cada um deles eu convidei um CEO de uma grande empresa aqui do Brasil.
08:36Então, aqui no evento até, no exemplo, teve lá o Gilberto Mazzoni da JBS, o Rafael
08:42Segreiro da Schneider Electric, a Luciana Ribeiro da IB Capital.
08:45E ele, por sua vez, convoca do network dele, CEOs de outros países, para que eles juntos
08:51consigam elaborar recomendações para os negociadores.
08:56Então, isso foi feito.
08:57A gente está terminando agora.
08:58Agora, no mês de setembro, a gente entrega essas recomendações.
09:02São poucas recomendações.
09:03Esse é um aprendizado também.
09:05Não adianta você fazer muitas recomendações que ninguém lê.
09:08Então, cada grupo vai entregar duas ou três recomendações por força-tarefa.
09:12Mas o mais legal não é isso.
09:13O que eu aprendi também é que a gente tem que liderar pelo exemplo.
09:17Então, a gente fez um concurso que a gente chama de SBCOP Awards, é o termo inglês,
09:22onde, como a SBCOP representa quase 40 milhões de empresas no mundo,
09:25a gente falou que tem muitas empresas no mundo que estão fazendo bons trabalhos.
09:29Então, a gente pediu para eles mandarem para a gente os melhores cases de sucesso
09:33que tenha, importante, retorno econômico, provado já nos últimos cinco anos,
09:41tenha escalabilidade, seja escalável,
09:43tenha combate às mudanças climáticas e tenha impacto.
09:48Então, a gente recebeu quase mil projetos já, projetos não cases,
09:52e a gente está selecionando os melhores.
09:53Então, a gente vai lá na COP e falou, olha, foca naquilo que está funcionando.
09:58Em vez de a gente lançar uma ideia nova, vamos olhar o que já está funcionando.
10:01São 30 COP, são 30 anos do mundo já tentando,
10:05e muita gente testando, errando.
10:06Então, o setor privado é muito bom em testar, melhorar.
10:09Então, a gente está impressionante a qualidade dos cases que a gente está recebendo.
10:13Então, para mim, mais até do que as recomendações que a gente vai entregar também,
10:18eu fiquei mais animado com os exemplos.
10:20Porque nada melhor para movimentar o setor público,
10:22falou, olha, por que esse exemplo na Malásia de bioeconomia,
10:26por que esse exemplo no Brasil de transenergética funcionou?
10:29Foi a política pública?
10:30Foi a questão econômica?
10:32Foi o mercado?
10:34E aí a gente foca no que funciona para poder levar a diante.
10:37Então, esse, para mim, um dos maiores legados que a gente vai deixar
10:40é através do exemplo e influenciar os tomadores de decisão da COP.
10:46Olha o que está funcionando.
10:47Em vez de ficar fazendo uma ideia melaborante,
10:50que vai funcionar em 2050.
10:52E você pode contar o legado mais importante
10:55que você acredita que esse paper vai trazer?
10:57Olha, tem...
10:59Nossa, é difícil escolher um.
11:00Eu acho que tem uma...
11:01Eu acho que a gente está errando bastante também.
11:03Não vou falar aqui que...
11:04Sabe uma coisa que eu percebi em meu aprendizado com essa conversa toda?
11:08É que o setor privado nunca teve uma grande participação nas COP.
11:11É uma coisa muito de governo, de Estado.
11:14Essa COP em particular,
11:16ela está tendo uma abertura enorme do setor privado.
11:18E a gente está conseguindo, através da SB COP,
11:20organizar o setor privado para poder ser representado.
11:23Então, acho que um dos legados,
11:25que eu acho que a Austrália ou a Turquia,
11:26que a próxima COP deve acontecer em um desses dois países,
11:29é ter também a SB COP mais forte e mais organizada
11:32para poder influenciar corretamente.
11:35Então, acho que esse é um legado.
11:36A gente organizar melhor...
11:37Porque isso é uma discussão que não vai acontecer em um ano.
11:40A gente não vai resolver o problema agora.
11:41A gente vai começar...
11:42Já vem 30 anos...
11:44Muita coisa vem sendo feita agora.
11:46Mas eu acho que tem uma discussão muito pautada
11:48em a gente ser mais prático.
11:51Acho que o que está acontecendo agora com o mundo,
11:53a gente está deixando de ser muito...
11:55Tem um lado bom de ser sonhador,
11:57mas essa discussão,
11:59que agora a gente tem que...
12:00Tem um trade war, tem guerra, tem...
12:03O ESG está perdendo força.
12:05Está fazendo também com que o setor esteja mais prático.
12:08Então, acho que um legado dessa COP
12:10é a gente focar mais na ação
12:12e menos em ficar discutindo o longo prazo.
12:16A gente está agora realmente discutindo
12:17o que dá para implementar no curto prazo.
12:19Então, para mim, um grande legado dessa COP
12:20é ter uma agenda de ação muito clara para isso
12:23e o setor privado bem organizado
12:25para ajudar nessa agenda de ação.
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