00:00Eu tentei, Ramiro. Juro que tentei. Mas não dava mais. Essa miséria toda fosse cada vez mais escravo da maldita bebida.
00:26Eu não aguentei. Acho que tenho o direito de sair em busca da felicidade. Me perdoe. Quando ajeitar minha vida de novo, volto pra buscar as crianças.
00:41Você me paga, Maria Helena. Você me paga, Maria Helena. Você lamentou? Eu sei muito bem por que você lamentou. Sou uma vagabunda.
00:52Papai? O que houve? Nada, nada, nada. Eu e sua mãe tivemos um desacervo.
00:59A mamãe foi embora. Não é isso?
01:01Você quer saber, não é? Pois fique sabendo. A sua mamãezinha foi embora.
01:08Quer saber mais? Se mandou com um sujeito cheio da nota. É isso.
01:12A sua mamãezinha não vale nada. É uma vagabunda.
01:19E agora? Você não tinha esse direito, Maria Helena. Você não tinha esse direito de me largar assim com as crianças.
01:27Até a roupa. A roupa lavada, ela não pendurou. Essa vagabunda.
01:32E agora? E agora? Como é que eu dou prazer?
01:38Não tinha esse direito, Maria Helena.
01:41Não podia fazer isso. E agora, Senhor? E agora?
02:02Maria Maria Maria
02:23Meu nome é Maria como tanta ação
02:33Que se entregam como eu, de coração
02:35E na alma na mão, com a merda da vida
02:37Parecida com outras vidas
02:39Mamãe? Aconteceu alguma coisa?
03:00Pergunta idiota. O que você acha?
03:03Santiago ainda não voltou do médico.
03:05Eu tô ansiosa pra saber
03:07Quanto tempo ainda falta pra doença acabar com a vida deste maldito.
03:11E quantos dias, Beatriz?
03:13Mamãe, não fala desse jeito.
03:14Não é justo desejar a morte de ninguém.
03:16Mas eu desejo.
03:17Desejo, sim.
03:19Por tantas humilhações
03:20Que o Santiago nos fez passar todos esses anos.
03:23Mas, mamãe, será que...
03:24Cala a boca, Beatriz!
03:25Deixa dessa pose de Madre Teresa de Calcutá.
03:28Será que você não percebe
03:29Que é principalmente por você e pelo seu irmão
03:31Que eu odeio esse demônio?
03:34Mas ele vai pagar.
03:35Ah, como vai?
03:38Ou eu não me chamo Malvina Trajano Queiroz?
03:40Oh, Maria!
04:11Pensei que já tivesse ido.
04:12Você atrasou por quê?
04:13Algum problema?
04:14Hoje sempre, Filó.
04:16Café bem forte pra curar a ressaca do pare.
04:19Roupa pra lavar e pendurar no varal.
04:20Enfim.
04:22Tomar conta da casa.
04:23Meus irmãos não mexem uma palha.
04:24Tá bom.
04:25Então entra, vem cá.
04:26Vamos tomar um gole de café que eu acabei de coar.
04:28Não, não, valeu, Filó.
04:29Acabei de tomar em casa.
04:31Ai, desculpa.
04:33Desculpa.
04:33Eu não devia ter vindo incomodar.
04:34Você ainda tem que terminar de arrumar as coisas pra montar a barraca.
04:37Ai, que bobagem, menina.
04:38Não é um pastel a menos que vai me deixar mais pobre.
04:41Bonitas.
04:43Gostei.
04:44Dão lindas as flores.
04:45Aposto que você vai vender todas.
04:48Vender flores hoje em dia é um sufoco, Filó.
04:50Acabou o romantismo.
04:52Agora, milhetes?
04:54Esses eu vendo a beça.
04:55Do jeito que a vida anda dura, todo mundo arrisca uma fezinha.
04:59Tá bom.
05:00Vem cá e me conta tudo.
05:04Você não veio aqui pra falar de loteria.
05:08Você tá com algum problema, não tá?
05:11É.
05:12Tô.
05:14Eu queria que você jogasse as cartas pra mim.
05:16Ai, pode ser só intuição.
05:18Mas eu tô cismada com a Isabel.
05:20Essa menina é um mistério.
05:21Eu nunca sei o que ela faz quando tá na rua.
05:23Tá bom, eu concordo.
05:24Não custa nada a gente consultar as cartas, né?
05:27E, além do mais, já tem um tempão que eu tô achando que essa sua irmãzinha vai te deixar de cabelo branco.
05:54Vai lá, Isabel.
06:17Coragem.
06:17É, agora ou nunca.
06:20Onde você não olha as cartas?
06:22Cigana já traz esse dom no sangue.
06:24Mas quem me ensinou mesmo foi minha avó, Angelina Beiju.
06:29Beiju?
06:31Sobrenome esquisito.
06:33Beiju.
06:34O senhor também é beiju.
06:37É.
06:37Eu sou Filomena Beiju.
06:39Neta da dona Angelina.
06:41Cigana do ramo dos Calon que vieram de Portugal pro Brasil.
06:45Eu só não sei ainda o que que a minha gente veio fazer aqui.
06:49Bom, mas vamos deixar as perguntas de lado e vamos às cartas.
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