O podcast Divirta-se desta semana recebe a atriz Bárbara Colen. Mineira de BH, ela atuou em grandes projetos como 'Aquarius' e 'Bacurau' do diretor Kléber Mendonça Filho, além de diversos projetos incluindo novelas de sucesso.
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NotíciasTranscrição
00:00Divirta-se! Divirta-se! Cultura! Divirta-se!
00:04Olá, seja bem-vindo ao Divirta-se, o seu programa de cultura do jornal Estado de Minas.
00:09Hoje não estou ao lado de Lucas Lana, ele infelizmente não pôde participar,
00:14mas estou animadíssimo com a nossa entrevistada de hoje.
00:19Antes de mostrar quem é, eu quero falar um pouquinho dos projetos que ela já participou
00:25e acho que vocês vão ficar animados.
00:28Vamos lá, eu tenho aqui Aquários, Baixo Centro, Dia de Reis, No Coração do Mundo,
00:37Bacurau, Breve Miragem do Sol, enfim, vamos ao que interessa.
00:44Eu estou aqui hoje com o Bárbara Collen.
00:46Collen.
00:47Collen, atriz. Seja bem-vindo ao Divirta-se, Bárbara.
00:51Bem-vindo, prazer estar aqui para bater um papo, conversar.
00:54Eu gosto muito de conversar, é sempre bom quando a gente tem esse convite.
00:58É bom mesmo, a gente ficou muito feliz, eu fiquei muito feliz que você topou,
01:01que a gente conseguiu essa agenda relativamente rápido aí,
01:05no meio da loucura das gravações.
01:08A gente vai falar de o que você está fazendo.
01:11Eu faço uma pergunta para quase todo mundo que vem aqui do cinema,
01:15que é, você lembra o primeiro filme que você viu ou gostou?
01:19Nossa, o primeiro.
01:23Eu não sei se foi o primeiro, mas eu lembro, é muito pequenininha,
01:28vendo, eu até esqueci o nome dele, mas era aquele filme dos dinossauros
01:31que iam para um vale encantado, acho que é Em Busca do Vale Encantado.
01:34Acho que é.
01:35Não é isso?
01:36Esse é o primeiro que tem na minha cabeça, assim, infantil.
01:39Foi esse filminho, eu era encantada com ele.
01:42Outro dia até revi.
01:43E foi legal ainda, sim?
01:45Foi, porque é engraçado, ele tem uma coisa, tem essas histórias antigas,
01:48elas eram boas, né?
01:49O pessoal conseguia fazer, tinha muito menos estímulo, né?
01:52Os desenhos de hoje são cheios de novidade,
01:54que eu acho que é um pouco o que acontece com os filmes.
01:57Mas esse filme tinha um negócio dos pais, os avós ancestrais,
02:01ele em busca, de encontrar.
02:03É um negócio muito profundo, assim, para um filme daquela faixa etária, sabe?
02:07Me impressionou.
02:09Que legal.
02:10Eu lembro muito do Anastasia, né?
02:13Anastasia, que era aquela da Rússia, foi um dos primeiros que eu vi.
02:17Então você é muito jovenzinho.
02:18E aquele é forte.
02:19Porque aquela...
02:19Eu fui um dos primeiros, mas é um que era de infância.
02:22Que era de infância, é.
02:24Eu acho que o primeiro que eu lembro foi o ET, o meu.
02:27ET?
02:28Não, eu fui ver ET muito tempo depois, sabia?
02:30É, eu lembro que eu fiquei com medo e tal.
02:33Mas enfim, vamos conversar.
02:35E aí você viu esse filme e você já sentia que você poderia ser a atriz?
02:40Você era aquela criança que fazia showzinho na sala para a família?
02:44Vergonha alheia total.
02:45Eu tenho um irmão mais velho, muito tímido e muito nada artístico.
02:50Eu era a vergonha alheia do meu irmão, assim, sempre em toda festa de família.
02:53Eu era a criança chata que pegava microfone, que ia entrevistando os parentes.
02:59Isso que eu fazia.
03:00Eu tinha uma coisa muito engraçada depois que...
03:02Na época era normal para mim, mas depois que eu fui pensar...
03:05Eu passava muito tempo sozinha, criando texto na cabeça, falando para o espelho, chorando
03:11na frente do espelho, ouvindo música e criando textos.
03:15Eu tenho muito essa imagem, assim, sabe?
03:17De muitas histórias.
03:19E eu acho que meus pais simplesmente deixavam eu ficar lá falando sozinha, andando pelos
03:23cantos, assim.
03:24Mas eu sempre tive essa vontade de ser atriz.
03:30Eu sabia que eu era atriz, mas demorei muito para conseguir realmente começar, né?
03:36É, racionalizar o que era ser atriz, né?
03:39E qual foi o primeiro passo que você deu já na profissão, escola de teatro, na escola?
03:46Cara, é muito difícil começar, Otávio, quando você não vem de uma família de artistas,
03:51sabe?
03:52Eu acho que quando você já um pouco habita esse métier, né?
03:55Você já sabe os caminhos.
03:57Mas eu vim, minha mãe trabalhava na Caixa Econômica Federal, meu pai tinha um microempreendedor...
04:02Pessoas normais...
04:03É, não tinha nenhuma referência na família.
04:05Eu sabia que eu queria ser atriz, mas eu tinha uma questão de grana muito forte, assim,
04:09na família, que meus pais nunca foram daqueles que falavam, não, segue seu sonho, a gente
04:15te banca para você viver seu sonho.
04:17Não era assim, era beleza, você quer ser atriz, então quando você pagar suas contas,
04:22você vai poder ser...
04:23E aí foi um pouco isso que aconteceu na minha vida, assim.
04:26Eu fiz carreira de Direito, formei na UFMG em Direito, fui trabalhar no Ministério Público
04:31daqui, concursada.
04:34Quando eu fiz o concurso, eu falei, agora eu tenho dinheiro para fazer teatro.
04:39E aí eu comecei no Cefar, que foi o meu primeiro curso mesmo, assim, de profissionalizante,
04:45sabe?
04:46Mas até então eu tinha certeza de que eu era um fracasso absoluto.
04:52Você estava redondamente enganada.
04:54Quando eu fui fazer a prova, eu estava, né, do Cefar e do TU, que você faz as duas,
04:58eu fui completamente aterrorizada, assim, falando eu vou passar uma vergonha horrível,
05:02porque, né...
05:04E foi ótimo.
05:07Mas é isso, eu acho que é porque a gente que não tem...
05:10Eu sempre tive referência artística em casa, no sentido de...
05:13Eu sempre li demais, muito.
05:15Eu era aquela criança leitora, então, tipo, acho que toda a minha...
05:18O meu acervo de personagem e de pessoas vem da literatura, assim, sabe?
05:24Porque eu não via muito filme quando eu era pequena.
05:26Minha família não via muito filme, sabe?
05:28Ouvia muita música.
05:29Música tinha muito lá em casa.
05:31Então, tipo, tinha uma coisa de...
05:32Eu era muito musical, sempre fui, tive uma relação...
05:35E tem uma relação visceral com a música, assim, pra mim.
05:38Construção de personagem, tá no set, tudo é meio entremeado com música.
05:43Então, essa parte da literatura e da música que era a minha potência artística.
05:46E dança, eu dancei balé desde pequenininha, assim.
05:51Mas o teatro, não.
05:52E o teatro, realmente, ele chegou tarde pra mim, assim.
05:56Infelizmente, eu penso que, talvez, nossa, queria ter começado antes, sabe?
06:01Ah, entendi.
06:02E aí, depois desse curso, como é que foi?
06:04O que foi as primeiras coisas que você começou a fazer?
06:07Você ficou fazendo teatro?
06:08Ah, eu fiz o curso.
06:09Foi muito curioso.
06:10Porque, assim, foi em 2010 que eu entrei pro curso.
06:12E, quando eu entrei pro curso, eu recebi um e-mail da UNA,
06:16que era falando que tinha um casting pro pessoal de cinema,
06:20que tava formando, que era trabalho de final de curso deles,
06:22que eles estavam fazendo um casting pra um curta que ia ser o trabalho de final de curso.
06:25E eu fui fazer o teste.
06:27Quando eu fui fazer o teste, era o Gabriel Martins e o Maurílio Martins.
06:30Ah, que incrível.
06:31Era com o Robert, o teste, exatamente, que era o Contagem.
06:35E aí, a gente foi fazer o curta, mas eu nunca tive a menor ideia, assim,
06:39do que que era aquilo, assim, né?
06:41Tipo, um set e tal.
06:42Fizemos, e aí o Contagem meio que estourou.
06:46Ele foi pra Brasília, ganhou o prêmio de melhor direção em Brasília.
06:49O filme rodou muito, assim, sabe?
06:51E aí foi um pouco com um susto, assim.
06:53Então, começou meio as duas coisas juntas, o teatro e o cinema já de uma vez, sabe?
06:58E aí, cara, foi engraçado que teve um período de, sei lá, uns quatro anos, e aí depois eu fiz o Aquarius.
07:07Aí foi quando a coisa começou.
07:08Mas coincidiu, engraçado essas coisas, né, Otávio?
07:11Coincidiu quando eu larguei o Ministério Público.
07:15Eu tinha um pouco essa intuição, assim, de que enquanto eu tivesse pé dentro, pé fora, a coisa não ia acontecer de fato, sabe?
07:22E foi dito e feito, assim, eu marquei a demissão do Ministério Público.
07:27Eu sempre conto isso em entrevista, quem acompanha a minha entrevista já deve ter lido 500 mil vezes.
07:30Mas o que eu acho muito curioso, porque eu marquei a demissão pro dia 20 de julho, uma semana antes, me chamaram pro Aquarius, sabe?
07:40Então, foi uma confluência de coisas, e aí eu comecei a fazer o Aquarius, aí foi um tanto de filme, assim, graças a Deus.
07:46Pois é.
07:47A gente vai falar dos filmes do Kleber Mendonça já, já.
07:50Tem muitas coisas que eu quero saber disso.
07:52Mas, primeiro, eu queria falar do pessoal da Filmes de Plástico, né?
07:55Que legal que você já começou fazendo o Curta, depois você participou do No Coração do Mundo, né?
08:00Do Mundo, é.
08:01Como é que é trabalhar com eles?
08:03Você, agora que já teve outras experiências com outros diretores, eles têm um jeito um pouco próprio de trabalhar.
08:09Todo mundo fala essa coisa do cinema de vizinhança, né?
08:13Como que foi, assim, desde o Curta até também o No Coração do Mundo, que já foi uma coisa com mais grana, enfim.
08:20Conta um pouquinho do processo, assim, como que você foi se sentindo, especialmente no começo.
08:26Cara, é muito engraçado, assim, minha relação com os meninos da Filmes de Plástico é um pouco familiar, assim.
08:31Eu tenho a sensação de amigos de vida inteira.
08:35E começou desde muito cedo, acho que tem essa coisa de começar juntos, né?
08:40Parece que eu estava começando a carreira e eles também.
08:43Tem essa coisa do início.
08:45Mas tem uma coisa de afinidade, de alma mesmo.
08:47Para mim, é uma questão de...
08:49Tem gente que a gente bate, que dá muito certo, que a gente tem muito amor e muito carinho.
08:54E que bom quando isso acontece com o seu trabalho.
08:57Então, quando eu fui fazer o No Coração do Mundo, era um grande reencontro.
09:02É muito gostoso quando você já tem intimidade para poder começar um trabalho, sabe, Otávio?
09:08Porque uma das grandes barreiras, eu acho, para começar um filme é justamente você ter esse diálogo fluido com quem está te dirigindo.
09:17É você estar junto, é ter uma coisa de confiança.
09:20Quando isso já existe, o trabalho vai muito rápido, sabe?
09:23Eu lembro da primeira vez que a gente ensaiou, estava eu, Robert, Maurílio e Gabito, lá em Contagem, para a gente fazer o No Coração do Mundo.
09:31A gente passou a cena, os meninos começaram a rir e falaram, ah, gente, é isso aí, então vamos tomar um café.
09:34E era meio que não tinha muito o que fazer, sabe?
09:38E é uma relação que perdura até hoje, assim, né?
09:42A gente vai fazendo trabalhos constantemente, assim, a gente está sempre em contato.
09:48E é muito lindo, eu me emociono muito de ver a trajetória deles.
09:53E de cada um em si, são amigos mesmo, assim, pessoais.
09:58E eu realmente estava até conversando com o Tiago, o Tiago Macedo, que é o diretor, e agora eles vão para uma nova sede.
10:06Eu estava vendo aquilo e fiquei tão emocionada de falar, nossa, o que a gente conseguiu, né?
10:11Porque Minas, a gente tem muitas barreiras aqui no Estado, assim, muita gente que sai.
10:17E a gente continua e está dando certo, sabe?
10:20É, sem dúvida. E é massa isso, né?
10:23Eu achei muito, eu não sabia que você tinha feito curta com eles já no início da sua carreira.
10:27Pois é, foi o inicinho.
10:28Que coincidência incrível, né?
10:30Assim, com fluência massa.
10:32De hoje, olhando aqui do futuro, né?
10:35Duas potências, né?
10:36Tanto você como atriz, quanto eles, como esse hub de produções ali, acontecer no mesmo tempo.
10:43É uma loucura.
10:44Nada mais Belo Horizonte, Inno, do que isso.
10:46É muito Belo Horizonte.
10:48Ano, ai, não sei, não foi retrasado, acho que foi em 2023.
10:51A gente, eu e o André, a gente recebeu uma homenagem no Festival de Tiradentes, de cinema.
10:57E foi muito emocionante estar com o André, porque a gente subiu no palco juntos, sabe?
11:02Eu falei, cara, eu não queria receber essa homenagem, de fato, sozinha.
11:06E foi isso, a gente dando entrevista e lembrando da trajetória de um e de outro, sabe?
11:11É muito bonito mesmo.
11:13É uma coisa que a gente pensa, poxa, quando estiver velhinho, né?
11:16Olhar para trás.
11:17É, a gente aqui já fica, eu fico emotivo, porque eu gosto muito do filme de plástico.
11:22Acho que realmente tem uma representação do que é ser mineiro aqui do centro, né?
11:29Aqui da região de Belo Horizonte.
11:31Não só de BH, mas disso, de Contagem, de Betim, das periferias.
11:37Então, muito incrível e acho que é uma conferência perfeita mesmo, né?
11:40E eu acho que tem uma coisa, estava engraçado você falando, eu pensei aqui, que tem uma
11:44coisa que é de, né, eu sinto isso, eu quero que a minha carreira tenha significado, sabe?
11:52Eu vi uma vez uma entrevista do Gabito, não sei se foi uma entrevista ou se foi uma conversa
11:56que a gente estava tendo, mas enfim, o Gabito falando assim, é difícil você ser coerente
12:00na sua carreira, porque muitas vezes você não avança tão rápido, assim, igual as pessoas
12:04falam, né, esse sucesso imediato, que, e às vezes você vai perder grandes oportunidades
12:08financeiras, mas você está tentando ir ali num trajeto de fazer coisas que são significativas
12:14para você, que te fazem crescer como pessoa, como profissional, sabe?
12:19Então, acho que vendo os meninos e pensando na minha carreira até hoje, eu acho que tem
12:23muito esse cuidado também, assim, sabe?
12:26De querer fazer projetos que te digam, que tenham ressonância dentro do que a gente acredita,
12:33na forma de estar no set, na ética profissional, na forma de relações com cada pessoa que
12:41está ali no trabalho, sabe?
12:43Essa questão de valores mesmo, sabe?
12:45Que às vezes parece um negócio que está meio...
12:47Nossa Senhora, hoje em dia é difícil de falar, né?
12:50É, foi usado o termo meio desgastado, né?
12:54É, e tudo é tão rápido, né?
12:56E você tem que ir nessa onda e parece que vale tudo, falando em vale tudo, vale tudo
13:01para isso.
13:02Então, quando você tenta manter ali uma carreira, né?
13:06Uma história mais coerente com você e com o que você acredita, é isso.
13:11Acho que vai...
13:12Às vezes parece que vai mais devagar, mas vai mais profundo também, né?
13:17Vai num lugar mais íntegro, eu acho.
13:20Legal.
13:21Eu já vi uma entrevista sua falando que no início você sentia que você não estava
13:26nos padrões, que você ia fazer cinema, principalmente por causa dessa questão de aparência e tal,
13:31você talvez não tivesse tão à vontade.
13:34O que acontece com isso, assim?
13:36Como foi que você ou superou isso ou essa introdução te ajudou, de alguma forma,
13:42a passar por cima disso?
13:44Eu acho, primeiro, que tem uma questão racial, né?
13:46A gente viu uma mudança muito grande, assim, de 2010 para cá.
13:52Eu acho que os meninos da Filme de Plástica, bom, a gente está falando deles, tem muito
13:56a ver com isso, sabe?
13:57Porque, por exemplo, o primeiro personagem que eu fiz que era um curta, que era a Rose,
14:01era uma mulher que tinha subjetividade, que tinha desejo, que se colocava, que traía
14:06o namorado, que falava, que acontecia.
14:09Então, já era uma figura superpotente, assim.
14:11Isso, essa personagem veio com os meninos que também eram pretos, né?
14:16Que vêm de contagem, que tem uma outra... já vinham de um outro lugar.
14:21Então, acho que isso aconteceu no mercado audiovisual e tem acontecido.
14:26Claro que a gente ainda tem muito que avançar, mas em 2010 não tinha tanto.
14:31O que você via eram meninas...
14:33Ah, meninas superpadrão, brancas, lindas, cabelos lisos.
14:39Para ser artista de cinema, para mim, eu tinha que ter essa aparência.
14:42Ou, no máximo, o que eu ia conseguir era um papel meio estereotipado.
14:47Enfim, eu não me via realmente representada, sabe?
14:51Eu acho que...
14:52É porque parece pouco tempo, né?
14:5415 anos, quando você fala de 2010 para cá, tem 15 anos.
14:57Mas esses 15 anos foram muito, profundamente revolucionários, assim, na construção do nosso audiovisual,
15:04principalmente em termos de diversidade e dos pretos também estarem em lugares que, né?
15:12De seres universais, né?
15:14E não como o outro.
15:15Como aquele...
15:16Como minoria.
15:17Como minoria, exatamente.
15:19Então, acho que eu tive sorte de nascer e de estar nessa geração, nesse momento.
15:26Acho que foi isso que, principalmente, mudou.
15:29Mas acho que ainda tem uma sensação de inadequação muito grande.
15:33É muito difícil você vencer isso, sabe, Otávio?
15:37Porque você, pequena, já tinha, desde pequena, uma coisa de uma autoestima,
15:42de não se ver, de se achar feia, de saber que você tinha que prender seu cabelo.
15:47Tipo, eu ia fazer teste para audiovisual, eu lembro disso.
15:50É teste de publicidade, alguma coisa assim.
15:52Eu fazia escova no cabelo.
15:54Imagina, hoje em dia é impensável.
15:56Mas era isso, para ficar bonita, né?
15:59Então, assim, tem umas marcas que ficam, desde quando você é pequena,
16:03que é difícil romper com isso internamente.
16:06Eu acho que é uma luta diária, para mim.
16:08É uma coisa que eu tenho que me colocar.
16:12É claro que, quando a gente vai vendo novos...
16:15tendo novas referências de belezas e de pessoas e de potências,
16:20a gente se expande também e a gente se afirma e ganha força.
16:23Eu faço até por isso, né?
16:24Tudo que você vê, especialmente quem cresceu na década de 80,
16:28tudo que a gente via era gringo, branco, loiro.
16:32Sim, paquita, né?
16:33Então, até a nossa referência está deturpada nesse sentido,
16:36do que é bonito para mim, o que é que tem valor e tal.
16:40Esse momento que a gente está vivendo,
16:41que a Globo estava com três novelas,
16:43com três protagonistas, mulheres pretas, assim,
16:47era um negócio que, poxa, eu fico imaginando
16:49que forte que está sendo isso para essa geração
16:52que liga a televisão agora,
16:54essas menininhas de cinco, seis anos,
16:56e que falam, pô, a heroína dessa novela sou eu, né?
16:59Que a gente não teve essa...
17:01É a moça do tempo, né?
17:02A gente, eu lembro quando a Maju apareceu, né?
17:05É.
17:05Uau, nossa, representatividade master de tipo ter uma jornalista negra.
17:11Exatamente, uma jornalista.
17:12Então, enfim, 15 anos, realmente muita coisa,
17:16especialmente de 2010, 2013, né?
17:18Com aquela confusão do Brasil.
17:21Acho que aquilo também trouxe novas pautas, assim,
17:25e de alguma forma.
17:27Mas, enfim, vamos dar um passinho para trás, voltar aqui.
17:30Você caiu, então, nas graças da Filmes de Plástico,
17:33o que é muito legal.
17:34Já desde o início.
17:36E depois, do Kleber Mendonça Filho, né?
17:39Você foi fazer o Aquarius.
17:41Como que foi?
17:41Como que ele te achou?
17:43Você mandou?
17:43Conta a história de como vocês se conheceram.
17:47Foi muito engraçado.
17:47Essa história do Aquarius é muito boa,
17:49porque uma amiga me mandou pelo Facebook, assim,
17:52falando, tá rolando esse teste, vai lá.
17:55Aí eu olhei, já tinha passado o prazo para poder fazer o negócio,
18:00mas eu mandei, assim, mesmo.
18:01E quem estava fazendo a produção de elenco é o Marcelo Caetano.
18:07E o Marcelo Caetano veio para Belo Horizonte.
18:09Eu fiz o...
18:10Belo Horizonte era a última cidade.
18:12Eu fiz o último teste de Belo Horizonte.
18:14O último teste da última cidade eu fiz.
18:16E aí terminou o teste, ele olhou para mim e falou assim,
18:18porque eu fiz para uma outra personagem.
18:20Ele olhou e falou,
18:21acho que você poderia fazer a protagonista mais jovem.
18:24Você animaria a cortar o cabelo?
18:26Eu falei, claro, vamos lá.
18:29E aí meio que ficou isso, assim.
18:31Aí passou um tempo, eles fizeram o meu primeiro contato,
18:34eu fiquei morrendo, né?
18:35Depois nunca mais ligaram, eu falei,
18:37ih, não vai dar certo.
18:39Passou um mês, aí me chamaram para fazer o filme.
18:43Eu acho que foi uma das coisas mais loucas que eu já fiz na minha vida, assim.
18:46Realmente a gente precisa de muita coragem para viver, porque assim...
18:50Porque quando a gente começa as coisas, Otávio, a gente não sabe, né?
18:54A gente vai no escuro e, tipo, era muito grande aquilo.
18:58Era estar num set profissional do longa, era o meu primeiro longa.
19:02Um set já com uma equipe de, sei lá, de 100 pessoas para fazer a Sônia Braga jovem,
19:07com o Kleber Mendonça.
19:09E eu, assim, muito...
19:11Cara, síndrome do impostor era mato, né?
19:13Tipo assim, que eu saí do mistério público ontem, gente.
19:16É claro que foi um equívoco, me botarem aqui.
19:21Mas tem uma coisa muito intuitiva também, sabe?
19:23Que é a beleza dessa profissão, assim.
19:26Que é uma coisa que, sei lá, eles falam que a gente nasce, né?
19:29Que é ator, vem com uma coisa.
19:31Eu acho que é isso.
19:32Um pouco você segura na sua intuição, no seu instinto ali e vai.
19:37E vai com coragem.
19:38Eu lembro muito isso, assim, sabe?
19:41Que foi essa beleza.
19:44E de ir e encontrar uma equipe muito querida, assim.
19:48Um pessoal que me abraçou muito.
19:51E ser muito mais gostoso e fácil do que o meu medo estava me falando que seria, sabe?
19:56Eu tenho muito prazer de estar na câmera, assim, sabe?
19:59Eu estava...
19:59É um negócio que é...
20:00Nem sei te explicar, assim.
20:01Você se diverte, assim?
20:02Eu tenho prazer.
20:04Coloco uma câmera na minha frente.
20:05É um negócio que me dá uma...
20:07Não sei.
20:08É uma relação meio até sensual, assim.
20:11Eu tenho uma coisa.
20:13E é isso, sabe?
20:14Eu lembro dessa câmera.
20:15E aí o Kleber falando.
20:16Vamos fechar nela.
20:17Vamos fazer esse plano fechado nela.
20:19Aí botava a câmera mais perto e falava.
20:21Hum, agora ficou mais gostoso ainda, sabe?
20:23Tipo...
20:24É um negócio que é meio maluco mesmo, assim, sabe?
20:26De gostar mesmo da coisa.
20:29Que legal.
20:30E aí?
20:31Aí tinha direção...
20:32Quem fazia a direção de atores era o próprio Kleber?
20:35Tinha uma preparação de elenco?
20:36Teve a preparação com a Amanda Gabriel, mas eu nem fiz tanto a preparação.
20:41O Kleber dirige bastante no set.
20:44Ele muda muita coisa no set.
20:46É incrível trabalhar com ele, porque é um trabalho meio vivo, assim.
20:48O Kleber vai te dando fala na hora, sabe?
20:51Fala, agora fala isso daqui com a câmera rodando.
20:53Agora vamos fazer assim.
20:55Então você tem que ter um pouco essa pegada.
20:57Mas é engraçado, com o Kleber eu sinto que a gente tem uma comunicação muito boa,
21:02que às vezes nem é de palavras, sabe?
21:04Às vezes eu entendo muito bem o que ele queria dizer, a indicação, assim.
21:09E a coisa fluía.
21:10Ele é um diretor que dá muito espaço para a criação.
21:13Aí eu peguei todo o material da Sônia Braga, porque já tinha um mês que eles estavam filmando.
21:18E aí eu peguei tudo que eles podiam disponibilizar, já tinham feito.
21:22Comecei a ver as coisas para pegar um pouco do gestual, da energia, assim, sabe?
21:26Que era o que mais interessava.
21:27Você ensaiou os trejeitos dela e tal.
21:29Acho que nem tantos trejeitos.
21:30Assim, um pouco do olhar, da cabeça e muito da energia.
21:35O que aquela personagem estava trazendo, assim, sabe?
21:38E era uma loucura, porque a gente foi para...
21:41Eles construíram dois apartamentos, né?
21:43Tem a parte antiga do filme, de 1980.
21:46E era um do lado do outro.
21:47Então um com a direção de arte, né?
21:49Aquela decoração toda de época e o outro da atualidade.
21:52Então um pouco era entrar num túnel do tempo, assim, sabe?
21:55As pessoas todas com aquelas roupas.
21:58Aí de repente vai sair, vai fazer a cena da festa, do aniversário.
22:03Põe toda a menina baiana.
22:04A gente está dançando.
22:05E lá, lá, lá.
22:06Que Deus deu.
22:07E câmera passando.
22:08E eu falando, gente, isso é muito divertido.
22:12Que massa.
22:13Que é muito legal, né?
22:14Quando pode ser bom, assim, sabe?
22:17Fluido e...
22:18É, assim, você deu sorte de pegar pessoas que realmente são muito incríveis, né?
22:22Não conheço todo mundo aí da área, mas todo mundo que fala realmente.
22:27Tanto da questão do filme de plástico, nessa coisa mais humana e de focar, às vezes, na alma dos personagens ali.
22:37Nas dores, às vezes.
22:38E no ambiente de set também.
22:39Acho que tem muito a ver com o ambiente de set, sabe?
22:41O Cleber, especificamente, ele consegue uma coisa que é incrível, assim, de ver que ele deixa toda a equipe completamente apaixonada pelo filme.
22:50Então, todo mundo que está ali quer muito contar aquela história.
22:54Eu não sei como é que o Cleber faz.
22:55É uma coisa...
22:56É um talento mesmo, assim, sabe?
22:57É um storyteller nato mesmo, né?
22:59Cara, ele chega e quando você vê, você está totalmente rendido à história dele, assim.
23:03Você quer fazer aquilo.
23:04E todo mundo quer muito, com muito sangue no olho.
23:07Então, isso gera uma coisa no set de uma energia, de uma potência, assim.
23:11E eu acho que é um set também que todas as equipes se veem muito contempladas, sabe?
23:17Acho que o Cleber tem esse poder de ouvir as pessoas.
23:23Então, quem está diretor de arte vem, ele ouve, ele altera as coisas, ele incorpora coisas a partir do que os outros estão falando.
23:32É uma sabedoria mesmo de tocar equipe, assim, sabe?
23:36Que eu acho que é uma das características de direção que são as mais necessárias.
23:40Que é um pouco essa inteligência emocional de lidar com um grande grupo, né?
23:44Que não é fácil.
23:45Às vezes você tem muito talento como cineasta, você tem muita bagagem, você sabe o filme que você quer contar,
23:53mas você não tem facilidade de gestão de equipe mesmo, sabe?
23:57E aí, o set não vai tão bem.
24:00É muito curioso isso.
24:02É, e no Aquarius, foi bem um período político que o Brasil estava vivendo, né?
24:08Pós questão do Temer ali, né?
24:10Pós golpe, aquela coisa.
24:12É, quando a gente foi para a Cannes com o filme...
24:14Isso que eu ia falar mesmo.
24:15Estava no processo de impeachment da Dilma, né?
24:17Pois é.
24:18Teve um timing, tanto o Aquarius quanto o Bacurau, eles tiveram um timing de estreia assustador.
24:24Porque, meu Deus, em 2016, a gente já estava achando que aquilo já era o fim do mundo, né?
24:30Mal sabíamos.
24:32Verdade.
24:32Que ainda muita coisa viria.
24:34Mas, assim, eu lembro da gente estrear em Cannes.
24:36Teve o ato político lá no Tapete Vermelho, né?
24:39A gente estava vivendo...
24:40E era a história do Aquarius, essa mulher que resiste, né?
24:45Resiste à especulação imobiliária, é uma mulher.
24:48É lindo isso no filme também, né?
24:50Ter uma protagonista como a Sônia Braga, que está em 95% das cenas do filme, que realmente
24:58pega a história pela mão, assim, né?
25:00E aí, todo aquele contexto que a gente estava vivendo, assim, foi muito forte.
25:06E aí, você acha que isso, na sua visão, impulsionou o filme?
25:11Atrapalhou o filme?
25:12Como que você vê, assim?
25:14Ah, eu acho que impulsionou, Tava.
25:15Eu não acho que quem fosse de direita, extrema direita, iria no cinema de todo jeito para ver
25:22um filme como Aquarius, entendeu?
25:24E dentro da galera que estava muito inconformada com aquele golpe de Estado que estava acontecendo,
25:32independentemente de partido político, né?
25:35Tinha gente que ainda tinha noção de que aquilo era uma agressão à democracia, que
25:39aquilo não podia estar acontecendo.
25:42Aí, essas pessoas ficaram curiosas para poder ver o filme e acabou sendo visto por muita gente, assim.
25:48Então, acho que impulsionou.
25:49Acho que foi muito ataque que a gente sofreu, né?
25:52Eu lembro que era uma época também, acho que agora está um pouco diferente isso,
25:56mas é aquela época do ataque ao artista, né?
25:59Que falavam da...
26:01Lei Rouanet.
26:02É, mamã na teta da Lei Rouanet.
26:05E que os artistas eram pessoas corruptas e que eram pessoas ruins.
26:09Então, estava muito...
26:10A nossa imagem artística estava muito atrelada à gente exploradora, né?
26:15E isso foi muito triste, assim, constatar o tanto que estava naquela época.
26:20Mas, por outro lado, também, eu acho que o Brasil está passando esses últimos anos,
26:26parecem que estão sendo muito terríveis, mas um pouco eu me questiono o tanto de coisa
26:31que simplesmente está vindo para fora, sabe?
26:33De um país que sempre foi extremamente racista, extremamente misógino, extremamente patriarcal,
26:41escravocrata, né?
26:42Enfim, com todas essas questões, de repente as coisas vêm para a luz.
26:45E aí parece que é um horror, mas na verdade sempre existiu.
26:49E vem para a luz naquele seu tio, né?
26:51Não é assim, só vem para a luz no Jornal Nacional, né?
26:54Exatamente.
26:54Vem para a luz aqui do lado.
26:56Mas vir para a luz é muito importante para a gente começar a discutir e para a gente se curar também.
27:01Eu acho que o Brasil tem muitos processos que precisam ser curados, né?
27:07Nossa, esse é o gancho perfeito, Bárbara.
27:09Que coisa maravilhosa.
27:10O Bacurau, eu acho que vem um pouco nessa cura, nessa coisa de extravasar um pouco os demônios ali do Brasil,
27:21especialmente do imperialismo, mas não só, né?
27:24Muitas coisas...
27:25É um filme que traz muitas camadas se a gente estiver buscando essa interpretação, né?
27:32Então eu queria que você me contasse.
27:33Aí você fez o Aquarius, ficou amiga do Cleber, do pessoal todo.
27:38E aí quando veio o Bacurau, assim, ele te mandou um roteiro, ele falou...
27:42Porque eu já ouvi outros relatos, até dele próprio, que inicialmente eles achavam aquele roteiro uma doideira,
27:48uma coisa meio de filme da Band, de madrugada, né?
27:52Meio gore, meio sci-fi esquisito e que nem eles próprios estavam tão seguros.
27:59Como que foi isso?
28:00Como que você foi convidado?
28:01Como que você leu o roteiro?
28:02Me conta um pouco dessa parte.
28:02Cara, o Bacurau já foi convite mesmo, assim, o Marcelo Caetano fez o primeiro contato e aí falou...
28:08Não, então, o Cleber escreveu esse personagem já pensando em você, vou te mandar o roteiro.
28:13Eu quase caí pra trás, né?
28:14Porque era um pouco aquele...
28:14Quando eu recebi essa mensagem, foi muito engraçado, sabe, Otávio?
28:18Foi aquele momento da vida que você fala, minha vida vai mudar.
28:21Sabe?
28:21Foi um negócio...
28:22Eu lembro que eu sentei no chão, eu chorei, assim, e falei...
28:25Cara, minha vida vai mudar com esse filme.
28:27E quando eu li o roteiro, eu já sabia que ia ser um grande filme.
28:31É um negócio que tava ali, era um roteiro muito diferente.
28:34Era meio estranho mesmo, né?
28:36Super estranho.
28:37Mas justamente por isso eu falava, cara, esse filme vai ser bom.
28:42E eu acho que a gente já começou a gravar, todo mundo entrou no Bacurau muito nessa pegada, assim,
28:47de a gente tá fazendo um puta filme.
28:49Esse filme vai ser foda.
28:52Como é que foi?
28:53Vocês foram pra lá?
28:54Teve uma preparação no lugar?
28:55Cara, foi um processo longuíssimo, assim.
28:57Conta aí um pouco desde os primeiros momentos, assim.
28:59Eu fui pra Recife em janeiro, a gente começou a preparação lá.
29:03Depois eu fomei pro sertão, eu fiquei de fevereiro, fevereiro inteiro, março, abril inteiro, voltei em maio.
29:08Foi três meses no sertão, direto.
29:11Foi o processo de imersão mais profundo que eu tive, assim.
29:13Mudou tudo na minha vida.
29:14Eu voltei de lá, eu tava morando fora, voltei, divorciei.
29:19Foi um negócio muito louco, assim, porque realmente mudou minha estrutura.
29:23Porque era um filme de muita gente, eram 40 atores o Bacurau.
29:26A gente tinha aquela vivência.
29:28Então, a sensação que eu tinha, parece um pouco místico isso que eu vou te falar, mas era exatamente o que eu vivi, assim.
29:36A sensação que eu tinha é que, à medida que a gente ia gravando o filme, aquele povoado começava a existir, sabe?
29:42Bacurau começava a existir, em um outro nível energético, assim.
29:47Parece que a gente tava plasmando, de fato, uma outra realidade que existia por si, assim.
29:52Era muito forte.
29:54Tanto que tinha cenas que aconteciam, que eram cenas de muita gente.
29:57Tem uma cena especificamente que a gente fazia a marcha pra fora do povoado, que eu olhava pra trás pra ver as coisas.
30:02Aquele momento, assim, coletivo, tinha uma força ali que tava guiando aquele grupo e que parece que ia contando pra gente o que precisava ser feito, assim, sabe?
30:13Nas cenas.
30:14É um negócio muito louco.
30:15O Bacurau foi um negócio meio diferente, assim.
30:19O Sertão é muito poderoso, sabe?
30:20O Sertão, ele tem uma coisa de uma força mesmo, assim.
30:25E muitas histórias, né?
30:26Porque a gente tava...
30:28Bacurau tem muito cangaço e eram histórias da região.
30:31Então, tinham muitas histórias que estavam aparecendo ali no filme que já tinham sido vividas, né?
30:36Por aquelas pessoas em outros momentos também.
30:39Então, acho que tem toda essa força também ali do lugar, daqueles ancestrais que já estavam ali, de histórias que já tinham acontecido e tal.
30:48Então, isso pra te falar da força que foi a filmagem.
30:52Ninguém que tava ali tava fazendo um job, sabe?
30:54Nenhum ator foi falando, ah, eu vou fazer um trabalhinho aqui.
30:58Não tinha essa história, sabe?
31:00E aí, foi muito emocionante terminar.
31:04Foi muito difícil voltar pra mim.
31:06Acho que foi o processo mais difícil de retomada da vida, assim.
31:11Porque chega uma hora que você tá completamente imerso naquele outro contexto, assim, sabe?
31:16Vamos parar tudo, montar uma Hollywood aqui no meio do sertão.
31:19Vamos viver disso daqui, gente.
31:20Mas isso daqui é muito mais legal.
31:22Porque é muito intenso, né?
31:25A coisa de filmar e de você viver outras vidas, quando é bom aquilo ali, é muito intenso e muito mais divertido e muito mais gostoso do que a vida normal.
31:35Que você sai pro sacolão e compra não sei o quê.
31:39Eu lembro que eu voltava pra casa, eu olhava pra cozinha, eu ficava assim, como é que é que eu faço mesmo, gente?
31:43Como é que é que cozinha aqui?
31:45Tipo, totalmente descolada da realidade, assim.
31:48Foi muito, muito intenso, assim.
31:51E aí, depois, quando veio a estreia, que aí foi estrear em Cannes e foi muito lindo.
31:57Porque a primeira vez que eu fui pra Cannes foi com o Aquarius.
32:01E fui muito com medo, deslocado, não entendendo nada daquilo ali e tal.
32:05Quando eu fui pra Bacurau, eu já sabia como acontecia, né? Qual que era o esquema de Cannes.
32:11Então, tava mais tranquila nesse ponto.
32:14E fui com os amigos todos, né? Foi muita gente.
32:17Então, era uma festa. A gente tava ali num carnaval recipiente de comemoração.
32:24Foi muito gostoso ter a estreia ali.
32:25Aí aconteceu a estreia ali.
32:27Aí vem a estreia do Brasil, que foi assim, ufff, né?
32:30Aí foi uma loucura, porque todo mundo via, todo mundo, né?
32:35Tipo, gente indo dez vezes no cinema pra ver.
32:38Eu vi umas sete vezes, ou até mais, Bacurau.
32:42E todas as salas de cinema que eu tava, quando vinha a cena do Bacamarte, do Carlão,
32:48o povo levantava e era uma catarse no cinema.
32:51O povo aplaudia num grito que saía, assim, das pessoas, sabe?
32:54Muitas mensagens do pessoal, muito emocionado.
32:58Era um negócio que me impressionou muito.
33:01Não tinha dimensão de que um filme pudesse ser um fenômeno coletivo, como foi Bacurau, assim.
33:06É perceptível pra quem assiste, eu acho, que tem uma coisa diferente acontecendo ali, né?
33:13Uma entropia.
33:15E a própria jeito que o roteiro vai é um pouco inesperado.
33:19Que o filme, que a gente, aquilo que você falou no início, né?
33:23A gente é treinado pra ver as coisas por um lado, né?
33:26E a gente que vê o filme americano, né?
33:29O tempo todo, desde pequeno, vendo o filme americano, acostumado com os heróis brancos,
33:35indo lá, sei lá, matar índio, esse tipo de coisa.
33:39E ali, do nada, o filme vai achando que é isso aqui.
33:42E de repente, cara, aí a galera tá se reunindo ali pra salvar a cidade.
33:48De um jeito que você não espera, né?
33:52E aí, pra quem vê, realmente, acho que teve esse momento de catarse.
33:57Ainda mais com isso da política que a gente tava falando no Brasil.
34:00E aí, você sofreu hate nessa parte?
34:03Chegou nesse momento, assim, dessa coisa mais agressiva relacionada à política?
34:09Sim, tinha muita gente, né?
34:11Que criticava.
34:12Mas é engraçado, quando vem o hate de gente que você sabe que, enfim, tem menor...
34:18Assim, né?
34:18Gente que eu não prezo pela opinião, que eu, enfim, pode achar o que quiser.
34:24Aí, é um pouco que não tem muito a ver, sabe?
34:26Assim, não é um negócio que eu ligo muito, não.
34:28Eu só simplesmente ignorava e vambora.
34:30Que bom que tá incomodando, assim.
34:32Que se tá incomodando é porque a gente chegou num ponto importante.
34:35Com certeza, as pessoas que foram falar bem e enaltecer o filme foram muitas, né?
34:40Muitas.
34:40É porque eles sabiam a força que a gente tinha.
34:43Eles sabiam a força política que aquilo tinha naquele momento.
34:45Até hoje, eu fico me perguntando tanto que aquilo realmente não influiu no...
34:50No cenário.
34:50Depois, até a gente tá agora, sabe?
34:54Porque...
34:54Ah, cara, essa galera de extrema-direita sabe que a arte é uma arma muito potente, sabe?
35:01De resistência.
35:02Porque a arte, ela vai no coração das pessoas.
35:06Não é na mente.
35:08Você não tá num discurso político.
35:11Frio.
35:12Porque, às vezes, você tem ali um partido de esquerda que vai estar ali num discurso que não vai chegar.
35:16Vai chegar na cabeça, mas, às vezes, não chega no coração.
35:19Um filme chega no coração.
35:20Sabe?
35:21O personagem, quando você tem empatia com ele, você torce por ele.
35:25Que é um pouco o que acontece muito com as novelas, assim.
35:27Você põe a primeira mulher trans na novela.
35:30Poxa, aquela mãe que tem uma filha trans, começa a olhar pra filha diferente porque aprendeu a amar aquela personagem.
35:37Sabe?
35:37Tem uma coisa de amor mesmo, que vai no coração das pessoas.
35:41E, quando vai nesse lugar, é muito forte, sabe?
35:45Eu sentia...
35:46Eu me emocionava muito nas sessões do Bacurau porque eu sentia isso.
35:50Eu falava, a gente tá chegando na sensibilidade das pessoas pra elas poderem criar energia, pra ter força pra a ação.
35:59Era uma época que a gente tava muito apático, sabe?
36:03Apático, impotente, sem saber pra onde ir, sem saber o que fazer.
36:07E, de repente, você tá em grupo.
36:08Porque o cinema é uma experiência coletiva, né?
36:10Assim como o teatro.
36:12Você se junta com outras pessoas naquele espaço.
36:14E a coisa do coletivo é muito potente.
36:17Um dos problemas nossos, na atualidade, é justamente estar cada um numa casa mesmo.
36:24E a pandemia, que foi essa questão, que era essa desarticulação.
36:27Porque, quando você junta um grupo de pessoas vivendo uma experiência, é uma coisa que é imparável, sabe?
36:33É muito forte essa energia que começa a andar ali, sabe?
36:38E eu via isso acontecendo nas sessões.
36:40Então, é uma loucura, assim, quando você faz parte de um processo desse.
36:44É, e você falou que tentou buscar um sentido pra carreira, alguma coisa assim.
36:52Nesse caso, você conseguiu levar, você acha que você levou essa energia pro resto da sua carreira?
36:58Pra escolha dos filmes?
37:00Até os mais recentes?
37:03O Bacurau, você falou que você achou que ia mudar.
37:07Mudou a sua carreira nesse sentido das suas escolhas, pelo menos?
37:11Ou não, você já tava naquela onda mesmo?
37:14É, eu não digo das escolhas, Otávio.
37:16Eu acho que muda em termos de visibilidade.
37:19Eu acho que eu fiz a novela na Globo em consequência do Bacurau.
37:23Assim, o sucesso que o Bacurau teve.
37:25E outras oportunidades que apareceram no streaming e tal.
37:28Acho que deu uma coisa...
37:30As pessoas começaram a saber um pouco quem eu era, do meu trabalho.
37:35E isso é um facilitador, abre muitas portas, né?
37:37Mas em termos de escolha, acho que nem tanto, assim.
37:41Eu tenho uma coisa que é...
37:43Eu não sei se é sorte.
37:44Engraçado, eu dou um crédito pra sorte, viu?
37:48Eu acho que tem muito nessa carreira que é sorte mesmo.
37:51E que não adianta discutir, não.
37:54Mas eu acho que tem também uma coisa de você colocar seu desejo no mundo.
37:59Assim, um pouco as pessoas que você atrai pra poder trabalhar contigo, sabe?
38:05Eu acho que tem uma confluência.
38:06Eu sou muito...
38:08Eu acredito muito nessa coisa do desejo, sabe?
38:13Psicanalisticamente falando.
38:14Quando você tem o seu desejo posto, você fala, eu quero fazer esse tipo de coisa.
38:19Parece que as coisas se movimentam mesmo pra chegar.
38:22Então, acho que um pouco esses projetos que acontecem nas minhas escolhas vêm muito por aí.
38:27E eu sou muito intuitiva também.
38:28Às vezes eu vejo um filme e falo, não, esse filme eu não vou fazer.
38:31E eu não sei muito bem.
38:33E às vezes eu olho e falo, esse eu vou fazer.
38:36E também não sei muito bem por quê, sabe?
38:37É tipo uma coisa meio...
38:38Entendi, você não põe uns prós e contras, não.
38:41A mensagem do filme, tananã.
38:43Tem gente que fala disso, né?
38:45Que os personagens escolhem a gente.
38:47Eu acredito um pouco, sim.
38:48Eu acho que...
38:50Eu lembro um filme, Fogarel.
38:51Eu tenho uma amiga que é primeira AD.
38:54E ela ia começar o processo do Fogarel.
38:58E aí ela falou...
39:00Era 2018.
39:01Aí ela me contou.
39:02Eu falei, engraçado.
39:03Ela tá falando que vai fazer esse filme.
39:05Porque eu que vou fazer esse filme.
39:06Olha que loucura.
39:07Em 2018...
39:08Eu fiz o filme mesmo, mas em 2019.
39:10Em 2018 eu não tinha nenhum indício de que eu ia fazer aquele filme.
39:13Não tinha recebido nenhum convite, nem nada.
39:14Mas tinha uma coisa de uma intuição, assim.
39:16Às vezes acontece isso comigo.
39:18É um negócio meio maluco.
39:20Tá.
39:20E como que foi na TV?
39:21Você citou novela, tal.
39:24Essa entropia do Bacurau, de estar no meio do sertão.
39:28Na TV até que você conseguiu ter algumas similaridades nisso também.
39:33Me conta um pouco dessa experiência, assim.
39:35Como é que foi chegar lá pra fazer?
39:38Você se sentiu insegura de alguma forma?
39:41No início, por estar entrando também nesse esquemão da Rede Globo.
39:46Das novelas.
39:47Que é uma coisa que a gente acostuma a ver desde pequeno também.
39:50Como uma coisa grandiosa.
39:51Eu sempre fui muito noveleira.
39:53Nossa, eu era criança noveleira até.
39:56Mas eu não ia muito no sonho.
39:57Eu acho que o que mais me dava insegurança era a questão da linguagem.
40:01Porque, de fato, é uma outra linguagem.
40:03Tipo, o melodrama, a novela, aquela estrutura.
40:07É realmente fazer algo novo.
40:09Por mais que, ah, só atriz, tudo se comunica.
40:11Se comunica, mas mais ou menos, assim.
40:13Você aprende muita coisa.
40:14Eu aprendi muita coisa na novela.
40:16E eu sempre tive.
40:17Eu estava no desejo de não ficar com esse título de...
40:22Ah, atriz que só faz projeto autoral.
40:26Ou de conteúdo extremamente político.
40:28Porque nunca foi a minha pegada, assim.
40:30Eu fico muito mais encantada pelas histórias do que, de fato, por pensar.
40:34Ah, vou fazer uma história que tenha mensagem e tal.
40:36Não penso muito nessa coisa da mensagem, não.
40:39Penso nas personagens, né?
40:41E eu falava, ah, cara, vamos lá.
40:43Eu quero fazer outras coisas, sabe?
40:46Porque eu acho que é muito gostoso quando você pode fazer outras linguagens.
40:49Eu fiz o Dia de Reis, que foi o telefilme que eu fiz com o Marcos Pimentel.
40:53Que foi uma delícia.
40:54A gente fez para o Globo Minas.
40:57Cara, que experiência gostosa que era.
40:58Até hoje eu encontro gente na rua que me fala do Dia de Reis, assim.
41:02Que chega em outro público, sabe?
41:04Tipo, eu lembro quando eu fui para a Matipó fazer o Silêncio das Ostras, que é o filme que está estreando agora.
41:10Eu cheguei em Matipó e todo mundo, os meninos pequenininhos, eles ficavam, Rose, Rose.
41:15Que era o personagem que eu fazia na novela.
41:17Os velhinhos, muito emocionados.
41:19A Rose está aqui.
41:21Então, cara, é uma outra coisa.
41:23Você chega num outro Brasil e isso é incrível, sabe?
41:26Esse poder na novela no nosso país é uma coisa muito emocionante, sabe?
41:31Então, eu acho que é isso.
41:33É um trabalho diferente, muito cansativo.
41:36Eu acho que é muito exigente em termos de carga horária mesmo, de trabalho.
41:41Mas que eu vejo muito valor e muita relevância no país que a gente vive.
41:45É, desculpa interromper.
41:46Mas em termos de atuação, assim, tem uma diferença?
41:50É igual do teatro, né?
41:52A gente fala, ah, porque no teatro tem que ser mais expressivo e tal.
41:55O cinema, às vezes, é mais contido.
41:57A novela está no meio do caminho entre esses dois ou não?
42:01Eu acho que a novela, a interpretação para a televisão, ela te exige uma técnica.
42:08Você precisa ser técnico.
42:10O que eu quero dizer com técnica?
42:11Primeiro, você tem que ter uma projeção de fala.
42:14Você tem que ter um texto bem dito.
42:15Porque muitas vezes as pessoas não estão vendo a televisão, elas estão ouvindo a televisão.
42:20Então, às vezes, no cinema, que a gente fala numa linguagem mais naturalista,
42:23meio embolada ou meio para dentro.
42:25Isso não dá, na televisão não dá.
42:27Se você não fala bem, seu personagem perde força dentro da cena.
42:33Isso foi uma coisa que eu aprendi fazendo, sabe?
42:35Porque eu vinha do cinema justamente numa linguagem que é muito outra e tal.
42:39E eu falei, cara, aqui eu tenho que ter potência de voz, eu tenho que ter potência de texto.
42:44Eu não posso dar esse texto e sair dando esse texto, por exemplo, sabe?
42:48Isso para te dar um exemplo, assim.
42:50Outra coisa, a linguagem melodramática, ela tem códigos.
42:53Ela tem coisas.
42:55Tem um momento que a câmera para, você olha para o lado e olha para o infinito.
42:58E vem um flashback.
43:00Isso, assim, quantas vezes você já vê novela?
43:02Tem muito.
43:03E assim como esse, tem vários outros códigos.
43:06Que precisam ser respeitados.
43:08Porque é uma linguagem específica.
43:10É um texto construído para aquilo.
43:12Então, eu tive várias coisas.
43:14Tem gente que fala que a televisão fica no meio termo entre o teatro e o cinema.
43:18Pois é.
43:18É um meio do caminho ali.
43:20E, de fato, às vezes eu estava dando um texto ali e não estava sentindo.
43:24Eu tinha que botar mais corpo no texto.
43:26Eu tinha que botar mais gestualidade.
43:28Porque senão o texto não funcionava.
43:30Tem uma coisa do gesto das mãos, que tem gente que fala que é televisão exagerada.
43:35Eu não acho que televisão seja exagerada.
43:37Televisão é feita pela linguagem da televisão.
43:39Que talvez não caiba numa linguagem de cinema.
43:41Porque a câmera do cinema é uma outra câmera que vai acompanhar outras coisas.
43:46Sei lá, vou te dar um exemplo besta.
43:49No cinema, a gente pode estar tendo um diálogo aqui e a câmera está nessa caneca.
43:53E essa caneca é contar muito mais a história do que está sendo dito aqui.
43:57Na televisão isso não acontece.
43:58Na televisão é plano contra plano.
43:59O Cidadão Kane, por exemplo, é um filme todo baseado nisso.
44:02Pois é.
44:03É um negócio que a linguagem, a história, ela vem de outros lugares.
44:08O texto é a última camada do cinema.
44:10E é mais, você tem que ficar nos lugares fixos, em termos de espaçamento,
44:15onde você tem que atuar.
44:17Tem umas marcações mais rígidas na novela, questão de luz e tal?
44:20Não, não acho que é mais rígido, não.
44:21Agora eles estão andando com muita câmera na mão,
44:23eles estão fazendo muita coisa diferente, assim, sabe?
44:27Plano de sequência mesmo.
44:29É mais fácil nesse sentido, porque você tem quatro câmeras funcionando ao mesmo tempo.
44:33Então você chega lá, faz a cena, pegou.
44:35Pegou o fechado, pegou o aberto, pegou o outro, pegou o zé.
44:37Contra plano.
44:38Entendeu?
44:38O cinema a gente tem uma câmera, duas, quando tem dinheiro, projeto, sabe?
44:43Então, tipo, fazer tudo com uma câmera...
44:44Tem diretor que nem gosta, assim, nesse sentido de chutar as duas ao mesmo tempo, né?
44:49É, e nem é necessário, porque às vezes você vai fazer, vai resolver ali num plano aberto.
44:53O pior é quando tem que fazer plano e contra plano, quer dizer, você tem que fazer a sua ação
44:58na deixa do outro, depois que na câmera vier pra você.
45:01Tipo, você tem que repetir duas vezes ou 500 mil vezes, né?
45:04Porque o cinema é muita repetição.
45:07Aquela emoção, aquele estado, aquele timing da cena.
45:10Então, televisão facilita muito, porque, tipo, você fez a cena bem, tá resolvido.
45:14Já pegou todas as câmeras, já pegaram tudo que tem que pegar, sabe?
45:16Pois é, você acredita naquelas técnicas, assim, de Stella Adler, que chora, Stanislavski,
45:23eu tenho que pensar numa coisa triste pra eu chegar aqui, na emoção triste.
45:28Como é que é a sua preparação interna pra alguma personagem?
45:32Aí você pode separar cinema e novela, como preferir responder.
45:36Eu tenho que fazer uma defesa no Stanislavski, tadinho, porque todo mundo acha que ele é
45:40de memória afetiva e não é.
45:43Isso é sendo bem...
45:45Não, total.
45:45Mas a Stella, ela tem já essas técnicas.
45:48Os americanos têm muita técnica, né, Otávio?
45:50Eles têm muitas escolas, Hector Studio.
45:53Sim.
45:55Então, eles têm um processo que é meio americanozão, assim, objetivo.
45:58Eu não sigo muito isso, não.
45:59Eu acho que não é bem muito por aí, não.
46:03Mas tem algumas coisas que a gente tem que fazer.
46:05Eu acho que como ator, às vezes eu dou oficinas, né, eu adoro dar oficina, inclusive,
46:10um pouco pra ter essa conversa com os meninos, assim.
46:13Um é estudar o texto.
46:15Você tem que ver o que o roteiro tá te dando.
46:17E você tira muita coisa do roteiro, sabe?
46:19Esse estudo bem minucioso, assim, de ler a cena, entender a cena, o que que tá acontecendo
46:24naquela cena, qual que é o objetivo de personagem naquela cena, o que que o personagem quer
46:29naquela história, qual que é o arco dele, pra onde que ele tá indo, o que que tá
46:33acontecendo em cada momento.
46:34A gente precisa ter esse estudo racional da história, pra você entender por que que
46:40você tá falando o que você tá falando.
46:42Porque, às vezes, a gente fala, acho que o pior erro de ator, quando você sente que
46:46a pessoa não tá bem na atuação, é porque ela não tá entendendo de fato por que que
46:49ela tá falando aquilo, sabe?
46:51Então, acho que é um estudo de texto bem forte.
46:54E depois, tem um negócio que eu sempre falo em oficina, que é a coisa de criar imagem.
47:00Você precisa criar memória pras personagens, sabe?
47:03Porque quando você fala, sei lá, um personagem vira pro outro e fala, não, porque naquele
47:07dia, quando eu tinha cinco anos, foi muito difícil quando você foi embora.
47:12Eu posso te falar isso sem pensar em nada.
47:15Mas eu preciso ter passado.
47:16Então, eu escrevo muito, assim, sobre a história.
47:19Gente, é um faz de conta.
47:21Não tem nada além disso.
47:23Nossa profissão são crianças fazendo de conta que tão vivendo as coisas, assim.
47:28E pra fazer de conta, você precisa lembrar, sabe?
47:30Você precisa ter um lastro, tipo assim.
47:33No Bacurau mesmo, vamos pegar que era a dona Carmelita, minha avó.
47:36Dona Carmelita, eu só via ela no enterro.
47:40Mas eu criei toda uma história de que que era a minha avó na minha vida, de como que
47:45era, o que que foi meu pai, quando foi que eu saí, não sei o quê.
47:48Que são essas histórias que vão dar chão, né, depois pra você poder botar a imagem
47:56na lembrança, botar subtexto na coisa, né?
47:58Eu sinto que, às vezes, o pessoal vai muito vazio, assim, pros personagens e cinema precisa
48:05subtexto, porque cinema é olhar, né?
48:06Cinema é um negócio que pega mais do que você tá pensando do que qualquer outra coisa,
48:12sabe?
48:13É.
48:14Bom, eu acho que, chegando mais pra perto do fim aqui, o diretor já tá me avisando,
48:18no meu horário, mas eu sou um pouco rebelde, o nosso orçamento aqui, enfim.
48:25Mas eu queria que você falasse um pouco do Silêncio das Ostras, né?
48:28Que a gente aqui viveu essas tragédias ambientais relacionadas à mineração, e esse é um filme
48:35muito forte nisso, né?
48:39Como que foi, pra você que é mineira, tá aqui, como que foi fazer um filme sobre essa
48:47questão, das questões de Brumadinho e Mariana?
48:51Então, Otávio, era o que eu tava te falando, assim, o que me pegou a primeira vez que o
48:57Marquinhos me contou, é o Marquinhos Pimentel, né, que dirige, quando ele me contou o argumento
49:01pela primeira vez, o que me pegou mais não era sobre um tema forte político com a mineração,
49:08não era sobre isso.
49:09A Cailane me pegou, a Cailane me encantou, assim, a personagem é muito linda, sabe?
49:15Ela é incrível, ela tem uma outra introspecção, ela se conecta com o mundo de uma outra maneira,
49:22e é uma mulher, né?
49:23Uma mulher sendo massacrada.
49:25Tem uma muito bonita na hora que fala, né?
49:26Que chegou no mar, aí dá uma pausa, assim, né?
49:29A lama foi até o mar, chegou lá, e aí tem essa pausa da personagem, assim, que você
49:36vê que aquilo deu uma impactada, e isso é muito, é bonito, assim, deu até uma piada
49:42que eu lembro.
49:42É lindo, assim, porque ela é uma personagem muito linda, assim, então quando era pra contar
49:46a história dessa menina que cresce numa vila de operários, que tem um pai, né, que
49:51sofreu derrame, a questão da mãe que ela vai vivendo, que a mãe é outra mulher que
49:55tem uma história totalmente despedaçada, né, e massacrada pelo mundo.
49:59Todo mundo que vai embora.
50:02Eu falei, poxa, essa história é uma história muito forte, diz de abandono, mas diz também
50:08de uma mulher que se ressignifica, né, tipo, ela vira uma grande resistente, ela segue o
50:14caminho da lama depois da ruptura e ela vai, ela resiste, né?
50:20Então essa história em si me pegou muito.
50:22Aí vem a questão da mineração, que é Minas Gerais, tá no nosso nome, né, gente?
50:27Minas Gerais.
50:28Todas as traumas, eu acho, do nosso estado vêm dessa questão, assim, e duas rupturas
50:36sucessivas foi um negócio que deixou, acho que a gente, todo mundo muito, não sei, foi
50:41um negócio, pra mim, foi brutal.
50:43Foi brutal.
50:44Quando aconteceu a segunda, eu falei, não é possível.
50:46Não é possível que eles matam o rio e nada acontece, né, assim.
50:51E isso tá muito forte no filme, porque tem umas imagens de arquivos, né, que é daquele
50:55momento que acontece a ruptura das barragens.
50:58Então, assim, eu senti que era urgente, era necessário, tinha que ser contada a história.
51:03Marquinhos fala muito da dificuldade de se fazer uma ficção desse tema, porque a gente
51:08encontra barreiras mesmo, reais, de dificuldade de filmar, de gente que impede, da dificuldade
51:14de circulação do filme, do filme não passar em alguns festivais por questões políticas,
51:19sabe?
51:20Então, você tem uma dificuldade de falar desse tema que é real, assim, não é fácil
51:24fazer, tocar, são escalas de poder muito grandes dentro do Brasil, principalmente aqui
51:30dentro de Minas Gerais, assim.
51:32Mas, ao mesmo tempo, eu acho que é uma história que eu vejo o Silêncio das Ostras mesmo sendo
51:38visto daqui a 30 anos como uma peça de um arquivo da nossa história, assim, sabe?
51:46Eu acho fundamental, acho um filme fundamental.
51:49Para tudo, para esse retrato, pensando no cinema como um retrato do que a gente vive
51:54em cada tempo, eu acho que o Silêncio das Ostras, para mim, vai ser um clássico de um
51:59retrato.
52:00E o filme é lindo, né?
52:01O filme é muito bem filmado, assim, é uma imagem, uma fotografia incrível, trabalho
52:05de som, direção de arte, sabe?
52:07Eu acho que é um filme de uma qualidade visual e técnica dos atores.
52:14Eu acho um puta filme.
52:15Tá aí em cartaz, gente, vocês têm que ver.
52:17Pois é, imperdível, Silêncio das Ostras, vamos ver, cinema nacional tá em alta, a
52:22gente chegou no horário aqui, o Léo já tá prestes a me matar ali, mas as últimas
52:28palavras.
52:28Queria primeiro te agradecer, a entrevista foi incrível, passa muito rápido.
52:33Passa muito rápido.
52:33E queria que você falasse um pouquinho do que você tá fazendo agora e o que a gente
52:37pode esperar de você aí nas telinhas, nas telonas, nas telas, onde for.
52:43Então, agora, nesse momento, eu tô fazendo um filme com o Ricardo Alves Júnior, que chama
52:47Professora de Francês, protagonizado por Grace Passau, nada mais, nada menos que Grace
52:51Passau, maravilhosa.
52:53É um filme muito forte esse daqui, eu acho que daqui a pouco a gente vai estar aqui conversando
52:58sobre ele, porque é um filme de um elenco, assim, incrível, tô muito empolgada com
53:03esse projeto.
53:05E em outubro, final do ano, eu vou pra Salvador pra fazer um novo filme lá também, que chama
53:10Cidade Vermelha, tô bem empolgada, um projeto grande e bem especial, e são os que eu posso
53:17falar por enquanto, temos que a gente tem que manter segredo.
53:22Legal, é bom manter um pouquinho de curiosidade aí.
53:25É bom, é bom.
53:25Bom, Bárbara, de novo, agradecer, adorei a entrevista, o Divirta-se está aberto aqui
53:32pra você divulgar os próximos, a gente gostaria muito de te ver de novo em novos projetos
53:37aí, mas agradecer a força aí que você também deu pra gente.
53:40Ai, gente, sério, obrigado mesmo pelo convite, é muito importante ter esse espaço pra poder
53:44falar, né, dos projetos e da vida, acho que a gente pensa muito, né, quando conversa,
53:48assim, numa entrevista, ainda mais uma conversa tão boa, muito obrigada.
53:52Que bom que você gostou, é um pouco terapêutico, né, a gente tá em temas aqui, eu também
53:57sou belo-horizontino, então a gente tá aqui em muitas sensações parecidas nessa
54:02sua trajetória, amo os filmes que você fez, vou continuar te seguindo, e agora a gente
54:08tem que encerrar, senão o diretor vai me matar ali, o pessoal já tá ali na porta
54:14querendo invadir o CT, mas de todo jeito, esse é o Divirta-se, Léo, nessa ou nessa?
54:22Beleza, esse foi o Divirta-se, siga o portal AI, a gente tem notícias do Brasil e do mundo
54:28todo, é m.com.br também, é o nosso site onde tem a parte de cultura, é uma das partes
54:34que a gente mais se orgulha aqui do jornal, então siga, leia, é muito importante fortalecer,
54:40especialmente a cultura nacional, a cultura mineira, e agora eu queria que você cortasse
54:45para aquela para a gente se despedir, Léo.
54:47Então, valeu, um abraço e até a próxima.
54:51Deixem o like.
54:51Divirta-se, divirta-se.
54:53Cultura, divirta-se.
54:55Divirta-se.
54:56Divirta-se.
54:57Divirta-se.
54:58Divirta-se.
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