- há 1 ano
Denúncia sobre a adultização precoce em plataformas digitais ganha força e levanta discussões sobre a segurança de menores na internet.
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NotíciasTranscrição
00:00Agora, pessoal, deixa eu mudar um pouquinho de assunto.
00:03O Tribuna Amanhã coloca hoje em discussão um dos assuntos que viralizaram aí nos últimos dias nas redes sociais.
00:11Adultização infantil.
00:14É a super exposição de crianças, adolescentes com vídeos na internet.
00:20Quem trouxe esse tema à tona, tá aí, foi o influenciador Felca, em um vídeo.
00:25Ele denunciou a erotização infantil, essa super exposição nas redes sociais, com dancinhas sensuais,
00:35crianças usando roupas curtas, todas apareciam nas redes de um outro influenciador, o Ítalo Santos.
00:44Ítalo Santos tem milhares de seguidores, sem precedentes ao alcance desse cara.
00:51Tá aí, ó, esse é o Ítalo Santos.
00:52Depois de toda essa polêmica, a Ítalo teve a conta do Instagram, outras contas também banidas, estão fora do ar.
01:01Vamos entender melhor um pouco sobre isso na reportagem.
01:08A exploração de crianças e adolescentes.
01:12Será que eu fico agora, até?
01:14Oi!
01:14Situações do dia a dia usadas para erotizar menores de idade, ganhar seguidores e muito dinheiro, com a monetização dos vídeos que produz.
01:27Eu nem imaginava sair do Brasil.
01:30Ah, o quê?
01:30Eu parecia me dar lá.
01:31Camila.
01:32Danças, banhos com pouca roupa, festas regadas a bebidas e interações explícitas de cunho sexual.
01:40Situações constrangedoras, sob o olhar de adultos.
01:43Tudo para publicar um reality show na internet.
01:48Já tem um tempo que esse cara aqui, o Felca, tem usado o grande espaço que conquistou como youtuber para fazer denúncias.
01:55Foi ele quem trouxe à tona os vídeos que expõem a sexualização de crianças e adolescentes.
02:02Material produzido e divulgado por Ítalo Santos, influenciador que só no YouTube tem mais de 7 milhões de seguidores.
02:10O vídeo de Felca já soma cerca de 30 milhões de visualizações e muita indignação.
02:15O Ministério Público da Paraíba confirmou que investiga duas denúncias contra Ítalo,
02:20que envolvem a proteção de crianças e adolescentes e que estão sob sigilo.
02:25Toda vez que uma pessoa adulta se utiliza de crianças, adolescentes, para angariar recursos e lucros
02:34e se ver rico com estas situações envolvendo pornografia infantil, aliciamento de menores para estes fins,
02:42as penas deles são absolutamente agravadas.
02:47Isso é muito sério, né, pessoal?
02:49E quando a gente vê esses vídeos com bilhares de visualizações, né, a gente fala,
02:54ah, parece que está todo mundo feliz, tem gente que fala, né, parece uma brincadeira,
02:58essas crianças estão ali, porque os pais deixaram.
03:02Isso é um absurdo completo.
03:03Como é que nós, pais, mães responsáveis, né, família como um todo, como é que a gente deve agir?
03:10Como é que está o controle da utilização da internet aí na sua casa?
03:14Vamos conversar agora com a Ednete Rosa, ela é doutora em família, desenvolvimento infantil,
03:23psicóloga, professora da UFES, uma autoridade no assunto.
03:27Obrigada pela presença, Ednete, bem-vinda.
03:29Obrigada, Bruna, pelo convite.
03:32Vamos explicar para quem está em casa, porque tem muita gente que está ouvindo falar sobre Felca,
03:37sobre Ítalo Santos, sobre a adultização infantil e não está entendendo o que está acontecendo.
03:42O que é a adultização infantil, Ednete?
03:45Vamos explicar de maneira prática para quem está em casa.
03:47Então, adultização significa você expor a criança a comportamentos, a linguagens, ambientes
03:57que são inapropriados para a idade dela, né, até mesmo às vezes as expectativas que os pais têm da criança
04:04que não correspondem àquela idade, né, uma idade que é preservada, deveria ser preservada
04:10para outras expectativas, outros investimentos.
04:13Qual que é a diferença entre a gente ver uma criança ali na internet, um adolescente,
04:20numa situação infantil e ela sendo adultizada, vamos dizer assim,
04:27que hoje tem muita criança e muito adolescente trabalhando com a internet também
04:32e com o aval dos pais, inclusive.
04:35É, não deixa de ser um trabalho infantil, né?
04:37Ela deixa de fazer outras atividades importantes, né, como brincar e ir para a escola, né?
04:44Algumas crianças têm prejuízos até na vida escolar por conta dessa ocupação do tempo
04:51com atividades que não são próprias para a idade dela, né?
04:55Exatamente.
04:55Então, a diferença de um vídeo, na verdade, assim, o que esse influenciador chama a atenção
05:03é o uso inapropriado dessas imagens.
05:06Muitas vezes os pais permitem, ou até mesmo são os pais que divulgam, né,
05:10vídeos que supostamente são inocentes, mas a mídia pode, né, a internet pode manipular essas imagens
05:19e trazer um prejuízo muito grande para as crianças.
05:22Pois é, ficou até comprovado que muitos desses vídeos têm comentários ali,
05:28aparentemente ocultos, de toda uma rede de pedofilia por trás, né?
05:32Eles vão comentando emojis, parece que estão ali comentando carinhas
05:38e quando você vai ver, na verdade, tem toda uma rede de pedófilos mesmo,
05:42interessados nesses conteúdos.
05:44Exatamente.
05:45E aí é oferecido, né, às vezes pela própria família, assim,
05:48esse conteúdo que vai ser usado, né, para o consumo,
05:53porque isso é um consumo, né, de imagens, é um consumo do corpo da criança
05:57para sustentar essas redes de pedofilia, para sustentar, às vezes, até esse negócio, né,
06:05acaba sendo um negócio, que na verdade é o terceiro mais lucrativo, né, a nível mundial.
06:10Meu Deus, é um absurdo completo.
06:13Agora, a gente está falando de um caso ali específico, né,
06:18o Ítalo Santos fazia uma exposição, era surreal o que ele fazia, assim, né,
06:25todas as crianças e jovens, adolescentes viviam ali juntos, numa mansão,
06:31muitas com autorização dos pais para estarem ali naquela situação.
06:36E quando a gente fala, aí a gente se pergunta, cadê os pais, né,
06:42que é a primeira pergunta que a gente faz, cadê os responsáveis?
06:46Nesse caso ali, né, doutora, eles estavam com a permissão dos pais, né,
06:53como é que fica nesse caso?
06:56Sim, então, toda criança e adolescente, ele tem, ele está sob supervisão e responsabilidade dos pais, né,
07:04então os pais devem ser cobrados por essa exposição, quer dizer, é um ato errado,
07:08é um ato de violência contra a criança, contra a infância dessas crianças, né,
07:13essas crianças são expostas de uma forma que não há controle do que se vai fazer com essas imagens,
07:19então, uma vez colocada na rede, você não tem mais domínio, né, disso aí,
07:24então, muitas vezes, a intenção, ela é financeira, né, a motivação é financeira,
07:32ou mesmo de exposição, do sucesso, né, porque há uma cultura em que as pessoas estão buscando like,
07:39buscando reconhecimento, né, e isso tem um prejuízo enorme para a criança,
07:44então, muitas vezes, os próprios pais são as pessoas mais próximas,
07:48e elas são a primeira instituição, as primeiras pessoas que devem proteger a criança,
07:53não é uma responsabilidade só da família, sabe, há uma responsabilidade também social e governamental também, né,
08:01porque o poder público precisa monitorar, precisa punir e precisa proteger as crianças e adolescentes,
08:09mas, vamos dizer assim, quem vai, de fato, fazer ali no dia a dia é a família,
08:13então, esse núcleo familiar que deveria proteger está, na verdade, expondo essa criança, né,
08:20muitas vezes estimulando, como você falou,
08:22e muitas vezes também acaba sendo irreversível depois, porque os danos causados,
08:27eles são irreversíveis para a vida inteira, a criança vai ter que saber lidar com isso,
08:32mas essa história não é apagada, né, o que ela viveu não tem como voltar atrás e desfazer,
08:39então, ela vai ter que trabalhar com esse conteúdo em toda a sua vida.
08:42E a gente está falando de registros que são expostos e que ficam para o resto da vida ali na mão de centenas de pessoas abertas.
08:50Agora, e as plataformas, né, elas também têm muita responsabilidade nessa história, né?
08:57Sim, tem responsabilidade quem produz os vídeos, quem consome esses vídeos, né,
09:02e quem deveria monitorar, né, essas informações que são passadas, principalmente com crianças e adolescentes,
09:11e esse ano a gente completa 35 anos do Estatuto da Criança e Adolescente, né,
09:15que é um instrumento que foi super importante para justamente traçar políticas, parâmetros,
09:21para proteção da criança e adolescente.
09:23Então, expor a criança é um crime, né, e principalmente quando se filma a criança sem que ela saiba,
09:30sem o consentimento, às vezes também a criança cai, né, cai nesse golpe aí de você filmar a criança
09:38e depois usar essa imagem indevidamente.
09:41E há manipulações, né, você pode tirar roupa, colocar coisas na imagem...
09:46A inteligência artificial hoje é um assustador, né?
09:48Exatamente. Então, assim, crianças que são mais vulnerabilizadas, né,
09:54pelo esse comportamento familiar, são as crianças que mais ficam sendo vigiadas
09:58por pessoas que são violentadores ou mesmo pedófilos, né,
10:03porque as estatísticas mostram que os crimes sexuais são cometidos por pessoas próximas.
10:09E por que que são por pessoas próximas?
10:11Porque é quem mais tem informação dessas crianças.
10:14Então, o crime sexual, ele não acontece de uma hora para outra.
10:18As pessoas pedófilos e os agressores sexuais vão monitorando a vida dessa criança
10:23e quanto mais exposta essa criança, menos protegida ela está
10:27e mais facilidade terá, né, o crime de acontecer com essas crianças.
10:33Olha que fundamental que a família esteja atenta a isso.
10:37A gente vai conhecer agora, a Inikele, ela é mãe de três filhos
10:41e ela é bastante rigorosa com esse controle das crianças dela dentro de casa,
10:46o acesso nas redes sociais, o que eles estão jogando, com quem eles estão falando.
10:52Ela compartilhou um pouco como é que funciona dentro da casa dela.
10:56Vamos ouvir?
10:58Sou Inikele, de Campo Grande, e eu tenho três filhos.
11:02A Emili Maria, de 18 anos, o Davi Roque, de 10 anos,
11:07e o Isaac Emílio, que vai completar cinco anos.
11:11O Davi, ele tem celular, o celular dele é monitorado por mim.
11:18Eu tenho um aplicativo no meu celular que qualquer joguinho
11:22que o Davi vai baixar no celular dele, eu consigo monitorar ele.
11:26Baixar joguinho, o tempo, ele tem o limite que ele pode ficar no celular.
11:33Véspera de prova, o Davi, ele não entra no celular.
11:38Ele tem um computador que ele joga alguns joguinhos,
11:43que é um acordo que foi feito entre eu e ele, que eu conversei com ele.
11:48Ele só pode jogar joguinhos no computador com amigos.
11:52Proibido fechar a porta de quarto? Não pode.
11:55Então, eu sempre estou ali.
11:57E eu converso muito com o Davi, converso muito com o Isaac.
12:01Mesmo o Isaac sempre pequenininho, eu converso com eles.
12:04Por quê?
12:04A gente vive num mundo com muitas armadilhas.
12:08Muitas.
12:09Então, assim, questão de acesso a redes sociais.
12:12Eu evito colocar fotos do Davi, colocar fotos do Isaac.
12:17Eu coloco? Eu coloco.
12:19Mas eu evito.
12:21Obrigada, Henriquelli, por compartilhar aí como é que funciona na sua casa.
12:26E é isso, né?
12:27Que interessante que ela falou que evita colocar as fotos dos filhos.
12:31Porque acaba que, sem querer, sem perceber, a gente coloca ali, às vezes, uma foto numa praia, numa situação em casa.
12:41Isso é um perigo, né?
12:42Isso é um perigo.
12:43E ela falou uma outra coisa importantíssima, que é você monitorar e criar as regras junto com a criança.
12:51Porque a proibição em si, ela pode causar uma curiosidade ainda maior da criança, né?
12:57Tentativa de fazer escondido.
12:59Então, criar regras e combinações com a criança de horário e monitorar com quem essa criança está interagindo na internet é o melhor caminho.
13:10Esses joguinhos, né?
13:11Que é online, você joga com o outro, isso é também perigoso.
13:14Agora, as consequências que ficam para essas crianças que têm fotos expostas, que estão nessa situação de vulnerabilidade.
13:22A senhora já falou que são... é muito difícil a gente reverter.
13:25São registros que ficam para sempre, né?
13:27Sim.
13:28Sim, porque a criança, ela está num momento de formação de autoconceito, formação da identidade dela.
13:35Formação até da noção de bem-estar, né?
13:38Então, se ela tem roubado esse período que é propício para isso e, na verdade, preenchido com outro conteúdo,
13:47então, a criança vai ter uma imagem distorcida dela porque ela vai sempre estar preocupada com o que o outro acha dela,
13:54com a avaliação que ela vai ter do outro, né?
13:57E esse conceito de bem-estar que fica muito atrelado a essa entrega rápida de felicidade, né?
14:04Que a internet oferece.
14:05Então, ela vai crescer um adulto que pode entrar em relações tóxicas porque ela vai ser uma pessoa que sempre vai estar
14:14preocupada em fazer o outro, né?
14:17Atender aos desejos dos outros, né?
14:21Então, há esse prejuízo para ela nessa formação da identidade dela.
14:25Então, vai ser um adulto provavelmente ansioso, deprimido, preocupado excessivamente com a imagem, né?
14:31Sempre preocupado com a aprovação social, né?
14:37E isso é uma fragilidade muito grande para a pessoa nos seus relacionamentos.
14:41A gente está falando de crianças que estão deixando de fazer coisas de criança.
14:45Exatamente.
14:46Estão tendo uma fase da vida que não volta, né? Estão perdendo a infância mesmo.
14:51Estão sendo criadas num ambiente artificial, né?
14:54E a vida real não é artificial.
14:55A vida real tem outras coisas que ela não vai saber manejar no dia a dia dela, no futuro.
15:00A gente vai ouvir também, rapidamente, a delegada, né?
15:05Ela esteve aqui ontem no Tribuna Notícia, segunda edição, falando justamente da exploração sexual infantil,
15:11que é um crime e que muitas vezes é o que a gente está vendo aí aberto nas redes sociais.
15:17Vamos ver o que a delegada falou sobre esse assunto, gente. Roda aí.
15:20A exploração sexual, ela é tida como um meio de utilização de criança ou adolescente
15:27mediante uma troca de uma vantagem, de um dinheiro, de algum favor.
15:32E no ambiente virtual, como a gente observa muito hoje em dia,
15:37principalmente através de pornografias infantis,
15:40em que o corpo daquela criança, ele é usado como uma mercadoria.
15:44E aí a gente vê fotografias, vídeos em que pessoas armazenam, compartilham em grupos.
15:52Então, isso acaba sendo um crime, ele é tipificado e busca justamente essa punição de quem comete esses crimes.
16:02Por isso que é importante a gente, percebendo, denunciar e não se calar.
16:07Faz a denúncia à polícia, denuncia à plataforma, né?
16:11Não é passar pelo conteúdo e fingir que não viu, né?
16:14Agora, doutora, que recado, para a gente finalizar aqui a nossa conversa,
16:19que renderia muito mais, é um assunto muito importante,
16:22que você deixa para quem está assistindo o Tribuna amanhã,
16:25pais, tios, enfim, responsáveis, que têm crianças e adolescentes em casa.
16:30Que recado que fica para essas famílias diante de um assunto
16:33que veio à tona e que é tão importante e necessário da gente discutir?
16:36É a responsabilidade, né? Com a vida de uma criança.
16:41Então, os estudos já mostraram que o ideal mesmo seria que uma adolescente
16:47só recebesse um celular em sua mão aos 13 anos de idade.
16:50É um estudo robusto que saiu agora, que mostra que é a partir da idade
16:55que a criança tem um pouco de noção do que é certo e o que é errado,
16:58de onde pode se inserir ou não.
17:01Então, assim, pais, dê o mínimo possível de acesso a essas redes sociais,
17:09monitore, converse o máximo possível e crie normas para o uso dessa rede social.
17:19Tem que ter regra.
17:20Tem que ter regra e combinada, criada junto com a criança,
17:24que ela possa participar para ela entender o motivo pelo qual
17:27ela precisa diminuir a exposição nas redes sociais.
17:31e saber com quem essas crianças estão andando e interagindo no seu dia a dia na internet.
17:38Proteger a infância significa dar condições para que ela possa viver
17:42todos os conteúdos e todas as oportunidades que a infância precisa.
17:48Brincar, estudar, interação com a família, jogos com a família.
17:52Quanto mais tempo junto com essa criança e mais valores a família puder passar,
17:58mais ela vai ter, colher bons frutos no futuro.
18:02Com certeza, a gente conversou com Ednete Rosa,
18:05doutora em família e desenvolvimento, psicóloga, professora da UFES,
18:09dando uma aula aqui para todos nós.
18:12Obrigada, Ednete, pela entrevista.
18:15Fico com o convite para uma próxima já.
18:16Muito obrigada, prazer.
18:18Valeu, bom dia pra você.
18:20Tchau.
18:20Tchau, tchau.
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