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Transcrição
00:00Muito bem, eu aguardo então o Rogério Ortega entrar no estúdio depois desse pit stop com a saída de Graeb e o Wilson Lima, porque está havendo a Copa do Mundo de Futebol Feminino e isso dá um gancho para a gente falar dessa interseção da literatura e do futebol, que são duas grandes paixões da minha vida e eu acho muito importante que o futebol também seja retratado.
00:24A gente teve aqui Nelson Rodrigues, grande cronista do livro A Sombra das Chuteiras Imortais, sua coletânea de crônicas de assuntos futbolísticos, entre outros evidentemente, tem o Nick Hornby também, autor britânico que eu adoro por causa de alta fidelidade, mas que escreveu outros livros e o Rogério Ortega vai falar a respeito deles. Boa noite Rogério, tudo bem?
00:45Boa noite Felipe, salve salve, salve pessoal do chat, boa noite para vocês também. Exatamente a pauta que está aqui para falar, tendo como gancho a Copa do Mundo de Futebol Feminino, que está acontecendo agora na Austrália e na Nova Zelândia, são os livros do Nick Hornby e do Nelson Rodrigues,
01:06um dos dois grandes autores que escreveram sobre futebol. Eu sei que você também gosta muito do Hornby. O primeiro livro de maior sucesso que ele escreveu é um autor britânico, nascido em 1957,
01:19e o primeiro livro mais bem sucedido dele foi justamente sobre futebol, que é o Febre de Bola. O nome original é Fever Pitch, em inglês, é um trocadilho
01:31intraduzível com um gramado, que é pitch em inglês e o auge da febre. É fácil de achar, tem edição brasileira da Companhia das Letras,
01:42nunca saiu de catálogo. E é basicamente um livro sobre as dores e as delícias de ser torcedor de futebol com ênfase nas dores,
01:51com aquele humor autodepreciativo britânico de que a gente gosta e tal. O Hornby é torcedor do Arsenal, que apesar de ter tido
02:01fases muito vitoriosas, é basicamente um time conhecido na Inglaterra por ganhar jogando feio, ou ganhar de pouco,
02:07ou empatando. O que explica frases do Hornby como o sofrimento como entretenimento, era uma coisa
02:15completamente nova para mim. Isso ele escreve sobre a descoberta dele do futebol. Ele tinha 11 anos, os pais tinham
02:22acabado de se separar, se não me engano. O pai dele o leva para uma partida do Arsenal e ele fica apaixonado,
02:29encantado pelo esporte. Aquela relação quase masoquista dele com o fato de ser torcedor.
02:37O livro todo meio que se questiona o que eu estou fazendo aqui, por que eu estou insistindo nessa coisa
02:42estúpida que é ser fanático por futebol e, no entanto, não consegue, não conseguimos, nós que somos
02:49torcedores, nos desvencilhar disso. O Febre de Bola se estrutura a partir de datas e placares de jogos
02:57ocorridos no intervalo de 24 anos da vida do Nick Hornby. E essas datas também vão marcando a entrada
03:04gradual dele, primeiro na vida adulta e depois na literatura. Mas o centro é sempre o futebol. E tem um capítulo
03:11sobre a gente. Um capítulo sobre o jogo da Tchecoslováquia. Desculpe.
03:18É um capítulo que, se não me engano, é intitulado Pelé, né? Que ele fala que o campo ficou com a seleção brasileira de 70.
03:25É a estreia do Brasil na Copa do Mundo de 70 e o Nick Hornby escreve coisas muito bacanas
03:31sobre o nosso futebol. Ele diz que... Ele tinha 13 anos na época. O único termo de comparação que ele achou
03:38para explicar o que era o futebol brasileiro para ele eram carrinhos de brinquedo.
03:44Então ele fala do Aston Martin, do James Bond, que tinha assentos vegetáveis, armas escondidas,
03:50que era muito superior que qualquer outro carrinho de brinquedo e que tornava todos os outros
03:55absolutamente sem graça. Então era essa visão que ele tinha do futebol brasileiro da seleção na Copa de 70.
04:02E ele diz também que aquela seleção brasileira era uma espécie de ideal platônico do futebol
04:08que depois se tornaria inalcançável até pelo próprio Brasil.
04:11Então é um livro muito interessante, muito divertido.
04:15Eu acho que vocês que gostam de futebol e até vocês que não gostam vão se divertir lendo
04:20e sugiro que vocês procurem para ler O Febre de Bola, do Nick Hornby.
04:26E o outro...
04:26Eu adoro o Nick Hornby. Só um comentário rápido, Rogério.
04:30Só para registrar o meu apreço pelo Nick Hornby, um dos grandes autores contemporâneos.
04:35Evidentemente um autor mais pop. São livros que parecem praticamente roteiros cinematográficos,
04:40tanto que eles geralmente se transformam em filmes.
04:44Como foi o caso de um dos meus filmes favoritos, que é Alta Fidelidade.
04:49Nesse caso eu vi o filme primeiro e depois eu fui ler o livro.
04:54O livro é ainda mais completo e é muito divertido porque são personagens que têm paixões.
05:00No caso o Rock and Roll, a música pop de uma maneira geral.
05:05O filme, o protagonista é o John Kuzak e tem o Jack Black numa participação hilária, que eu adoro.
05:11Sensacional. Aliás, acho que foi a primeira vez que ele apareceu, o Jack Black.
05:16É uma aparição surpreendente no filme. Não vamos dar spoiler.
05:20O protagonista é dono de uma loja de discos e o personagem do Jack Black trabalha na loja de discos
05:28e é uma figura engraçadíssima. Eles ficam fazendo listas dos top 5 e tal.
05:32Até a partir desse filme, todo mundo começou a fazer mais listas dos seus top 5 para isso, para aquilo.
05:38E eles vão fazendo com músicas com todo detalhe.
05:41Tem um momento engraçado que uma pessoa pergunta para eles qual é o top 5 musical deles.
05:49Eles falam... O Rob Gordon, que é o personagem do John Kuzak, que responde assim,
05:53mas no banheiro, no quarto, segunda-feira...
05:57Ele precisa detalhar mais um pouco porque é muito vago.
06:00Estão acostumados a fazer listas mais específicas.
06:03E é claro que tem história de amor ali por trás.
06:06É muito divertida. Uma comédia romântica que, na minha visão, transcende o gênero.
06:12Tem o Grande Garoto também. Outros livros extraordinários.
06:16E até os livros de artigos que ele publica na imprensa britânica são muito bons.
06:20Tem livro dele falando sobre as próprias leituras.
06:23E também sobre essas questões mais populares, como o futebol, sobre a vida de DJ,
06:28porque é um autor que é DJ também.
06:30Então fica a dica ali para ler Nick Hornby, que vale a pena.
06:34É uma leitura leve, mas que tem uma sensibilidade profunda e bastante divertida.
06:40O que mais você separou, Nelson Rodrigues?
06:43É o Nelson Rodrigues.
06:45Apesar de o Nelson costumar dizer que toda unanimidade era burra,
06:49eu acho que ele é incontestavelmente o nosso maior dramaturgo.
06:52Não vejo quem se equipare a ele como autor de peças de teatro.
06:56E talvez ele seja também o nosso maior cronista de futebol.
06:58Basta lembrar que o Nelson Rodrigues foi o primeiro na imprensa brasileira a tratar Pelé como o rei.
07:05Isso foi antes da Copa da Suécia, em março de 1958, num artigo para a manchete esportiva.
07:11O Pelé estava aparecendo, ele mal tinha completado 17 anos.
07:16Então o Nelson foi o primeiro a chamar a atenção para a realeza do craque extraordinário que estava surgindo ali.
07:26Para quem não sabe, o Nelson Rodrigues era um torcedor absolutamente fanático do Fluminense.
07:31E tem uma série de frases antológicas sobre futebol e muitas têm a ver com o time do coração dele.
07:38Aquela história de, por exemplo, ele dizer que o Fla-Flu, o grande clássico entre o Flamengo, do Felipe e o Fluminense,
07:44foi uma... O primeiro Fla-Flu surgiu 40 anos antes do nada.
07:49Ou então dizer que o Rio de Janeiro era um lugar triste, vazio, meio deserto, etc.
07:54Até que o Fla-Flu inventou a multidão.
07:57Não havia multidão no Rio de Janeiro antes que o Fla-Flu se configurasse.
08:02E inventou personagens como o Sobrenatural de Almeida,
08:05que era o personagem que ele usava para explicar as hebras, os absurdos, os resultados inacreditáveis
08:10que a gente sabe que o futebol nos proporciona o tempo todo.
08:16Outra aspa clássica do Nelson Rodrigues sobre futebol é que não há clássico e não há pelado
08:21sem um mínimo de absurdo, sem um mínimo de fantástico.
08:25Então essas são as obsessões do Nelson Rodrigues, o humor dele, aplicados ao futebol,
08:31tratando os grandes personagens do futebol como mitos.
08:35E os livros com as crônicas sobre futebol do Nelson Rodrigues
08:40são algumas das mais bem escritas em língua portuguesa, na minha opinião.
08:45Não são difíceis de achar, mas está faltando reeditar alguns.
08:48Você encontra fácil na Amazon e em outros lugares, por exemplo,
08:51A Pátria de Chuteiros, que foi lançado pela Nova Fronteira,
08:56que é a editora que agora detém os direitos da obra do Nelson Rodrigues.
09:00Você encontra também, se buscar na Amazon, em Cebos, o A Sombra das Chuteiras Imortais,
09:06que é outra ótima coletânea de crônicas de futebol, mas essa não foi reeditada.
09:11Você encontra na versão lançada pela Companhia das Letras, na década de 90,
09:16e aí é caro, mais caro, porque não tem reedição dessas crônicas ainda,
09:21mas todas valem a pena conhecer o Nelson Rodrigues.
09:25Você pode conhecer o Nelson Rodrigues de várias formas,
09:28pela vida como ela é, pelas crônicas políticas, pelas peças.
09:32E eu acho que uma das formas mais interessantes e divertidas
09:35de entrar no universo dele é pelo futebol.
09:39Repito, para quem gosta de futebol e para quem não gosta.
09:41Então, acho que vale a pena vocês explorarem o mundo do Nelson Rodrigues
09:46aplicado ao futebol.
09:48Eu até virei aqui de futebol rapidamente para tentar localizar os livros
09:54do Nick Hornby e do Nelson Rodrigues.
09:56Eu tenho vários aqui atrás, só vi um aqui do Nick Hornby,
09:59que é de artigos, mas tem vários outros, os romances também.
10:02E A Sombra das Chuteiras Imortais está aqui e tal,
10:05mas a minha biblioteca está muito desorganizada, Roger.
10:07Preciso tirar um dia para colocar tudo por ordem de autor, tema, etc.
10:12Me identifique totalmente.
10:13Uma transmissão ao vivo pegar ali rapidinho.
10:15Que, aliás, é algo que o Rob Gordon, o protagonista de Alta Fidelidade,
10:23adorava fazer, que é organizar a sua biblioteca, entre aspas, de discos.
10:28E aí até os assistentes dele, o outro sem ser o Jack Black,
10:35que é também um personagem muito engraçado,
10:37ele vai encontrar o Rob Gordon na casa dele e ele está reorganizando os discos.
10:41Aí ele fica fascinado com aquilo, porque ele é apaixonado pelos discos de vinil,
10:46pela música, etc.
10:48E ele fala assim, adivinha que ordem que eu estou colocando?
10:52Aí ele tenta adivinhar e tal, e o Rob Gordon responde que é autobiográfico.
10:57Então ele está reorganizando os discos para ele lembrar,
11:01quando que ele ouvia, ele tem que lembrar que ele estava saindo com aquela menina,
11:05que ele viajou para não sei onde.
11:07Então assim, é a ordem em que ele comprou os discos na vida.
11:11Enfim, cada um organiza a sua prateleira da maneira que achar mais conveniente,
11:16mas é muito interessante ver pessoas que têm uma paixão muito grande
11:20e um entendimento, um conhecimento sobre aquele assunto, quando elas falam.
11:26E talento literário para expressar isso, né?
11:29Porque não sei se foi o Nelson Rodrigues ou o Rui Castro que disse,
11:34é mais a cara do Nelson, que a literatura brasileira precisa aprender
11:37a bater um corner, a cobrar uns canteios.
11:40E a gente até tem mais literatura interessante sobre futebol
11:47produzida nas décadas recentes, mas acho que ainda é meio pouco
11:51considerando o talento que o Brasil sempre teve,
11:54sempre dispôs e suportou no campo do futebol.
11:58Precisamos ter mais gol de letra, de certa forma.
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