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NotíciasTranscrição
00:00Olá, antagonistas! Um sintoma do Brasil pós-lava-jato é que as empresas não sabem mais como se relacionar
00:10com os seus chamados stakeholders. Será que eu dou aquele brinde? Ou quando eu der o brinde vão achar
00:18que eu estou querendo pagar uma propina? A empresa que realmente está sendo acusada de dar propina faz o quê?
00:25A gente tem visto várias empresas fazendo tentativas, empresas que têm reuniões prévias com as pessoas do poder público
00:36falando que agora tem programas de compliance, empresas que lançam cartilhas por aí, mas no dia a dia
00:44o pessoal está pulando miudinho nos departamentos de marketing. E é por isso que o Instituto Brasileiro de Direito
00:52e Ética Empresarial resolveu lançar uma cartilha, não em juridiquês, em português, explicando o que fazer no dia a dia.
01:04E eu trouxe aqui para conversar com a gente a Marina Peclivanis, da Agência Umbigo do Mundo,
01:10e o Diego Valois, que é do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial, para explicar para a gente
01:16que cartilha é essa. Tudo bom com vocês?
01:18Tudo bom, Madeleine?
01:19Tudo bom.
01:20Então, que cartilha é essa que vocês fizeram? É para a pessoa saber o que é presente e o que é propina?
01:26Inclusive, a proposta da nossa cartilha é traduzir como ser ético sem deixar de ser criativo.
01:34E digamos, né, Diego, que essa é a grande questão do momento.
01:38Com tantas notícias que vieram à tona, demonstrando, vamos chamar de abusos,
01:43no poder dos rituais de troca, as marcas ficaram extremamente confusas.
01:49O que antes era totalmente deliberado e todo mundo fazia de forma aberta, explícita e exagerada,
01:56agora ganhou uma contenção nunca vista.
01:58E as pessoas, em muitas empresas, ou cortaram os seus gifts,
02:05ou passaram a refletir com muito mais parcimônia em cada ação, em cada iniciativa.
02:11Existe uma grande pergunta, em função de todo esse cenário que existe de crise de moralidade
02:17desencadeada até com a operação Lava Jato,
02:20se eu posso ainda estabelecer algum tipo de relação de brindes com fornecedores, com agentes públicos.
02:28Então, em função dessas dúvidas, o Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial
02:32resolveu fazer uma pesquisa com base nas legislações estaduais, das empresas estatais,
02:37e que tentaram definir alguns parâmetros para que você consiga ainda manter esse tipo de relacionamento,
02:45observada a lei, observado parâmetros éticos, sem ferir ou sem criar algum tipo de conflito de interesse.
02:54E, para tanto, convidamos a Marina, que participou efetivamente na segunda edição da cartilha,
03:00contribuiu efetivamente, ou seja, uma cartilha feita a quatro mãos, a várias mãos,
03:06e tentando traduzir essas questões que realmente são complexas, exigem um pouco de leitura jurídica,
03:13como eu posso presidiar sem estar ferindo alguma norma legal, algum parâmetro ético.
03:19E a gente está numa crise econômica.
03:21As empresas querem vender, elas querem se colocar no mercado de forma criativa,
03:27elas querem ser vistas, elas querem ser lembradas.
03:31Justo nesse momento, você restringir a criatividade do departamento de marketing,
03:38que já está matando cachorro a grito em tudo quanto é empresa, é muito complicado.
03:43Então, assim, na maioria dos estados, o que se diz é que esse relacionamento com agentes públicos
03:48é até cem reais.
03:51Mas eu não sei, eu acho esse conceito meio solto, não sei.
03:56Ele é meio arbitrário, né?
03:57Ele é quase cabalístico, assim, mas ele é o suficiente,
04:00talvez a Marina possa até me ajudar com isso,
04:02para poder fixar do outro lado, às vezes, a intenção da imagem,
04:07a intenção do marketing, exatamente, esse limite,
04:10ele é um limite que a gente pode dizer que ele é um limite que não gera um constrangimento,
04:14ele não é um Rolex, não é?
04:16Ele não é uma caneta Tiffany, né?
04:18Então, ele consegue, dentro desse limite, digamos assim,
04:22receber, às vezes, uma agenda que custa 50 reais, 60 reais,
04:25e realmente não ter isso como um elemento de influência nas suas decisões, o agente público, né?
04:31É, tem um elemento interessante que é a questão do valor percebido.
04:35O valor investido e o valor percebido.
04:38Por vezes, se o material foi desenvolvido com bom gosto, com bom senso,
04:43e principalmente o que nós trouxemos de experiência para a cartilha,
04:47que é a visão do proprietário, as marcas têm seus códigos.
04:51Esses códigos têm territórios proprietários com símbolos, ícones, cores, texturas, aromas.
04:57Quando a marca, a empresa, sabe reconhecer estes elementos,
05:01traduzir estes elementos, o que nós chamamos de gifts, pequenos mimos,
05:06gestos simbólicos para uma troca que tem um papel vinculado à gentileza,
05:13à simpatia, a se fazer lembrado,
05:17e isso não tem problema nenhum, né?
05:18Exato, exato.
05:19Está dentro do território da lei.
05:21Eu queria até acrescentar um detalhe,
05:24você falou de se fazer lembrado,
05:26porque as relações entre público e particular são marcadas pelo princípio da impessoalidade.
05:31Ou seja, é como se um poder público dissesse,
05:33eu não quero saber se é A, B ou C que está prestando esse serviço para mim.
05:38Eu só quero que o serviço seja prestado com qualidade.
05:42Mas é importante também para o agente público,
05:44ele saber identificar que aquele serviço bem prestado está vinculado a uma marca A ou uma marca B.
05:51Ainda que isso não interfira em procedimentos recitatórios,
05:54em concorrências depois, porque tem o princípio da impessoalidade,
05:58isso certamente gera uma segurança para o agente público.
06:01Mas é o seguinte, olha, estou lembrando dessa empresa em função da marca dessa empresa
06:06que teve o serviço bem feito, então é um aspecto positivo.
06:10E eu acho que...
06:11É uma coisa, é uma linha fina.
06:13Entre o beneficiamento indevido e se fazer lembrado.
06:18Por isso essa questão do valor, ela é tão polêmica.
06:20Tem empresas que conseguem fazer excelentes ações de relacionamento,
06:24investindo o mínimo.
06:26Por quê?
06:26Porque elas colocam todo o seu código em jogo, em cena,
06:31e produzem objetos que são característicos e proprietários.
06:34Um exemplo muito claro são as nações.
06:36Se a gente pensar em empresas como nações,
06:39e pensar nos pequenos mimos,
06:41que são esses objetos em que você reconhece imediatamente
06:44que você está falando da Escócia, pela cor, pela textura, pelo tipo de música,
06:48que você está falando dos Estados Unidos, que você está falando...
06:51A rainha da Inglaterra tem inúmeras histórias do que você espera
06:55quando você visita o Palácio de Buckingham.
06:58São determinados objetos, ela não quer comprar ninguém,
07:00ela está retribuindo uma gentileza com objetos simbólicos.
07:04É o que nós percebemos na visão mercadológica,
07:07que falta muitas corporações.
07:08que acabam exagerando em presentes impessoais,
07:13que por vezes geram benefícios indevidos,
07:15quando na verdade elas poderiam criar objetos proprietários
07:20de um território muito característico de determinada marca,
07:24que por intermédio de gestos, por intermédio...
07:26A forma de entregar, já diz alguma coisa?
07:28O que você vai dizer quando você entrega?
07:31Tudo isso conta muito sobre quem é uma empresa.
07:34O que é bem diferente, né?
07:36É a troca que a gente deixa muito clara na cartilha
07:38entre o que é o presente e o que é a propina.
07:41E aí já é um outro departamento bem distinto.
07:44As pessoas, às vezes, que estão aqui acompanhando,
07:48pensam assim, ah, poder público igual licitação.
07:52Pra que ele vai levar um brinde?
07:54Porque é tudo listado.
07:56Ganha o menor preço.
07:57Não é assim, gente.
07:58A maioria das coisas é feita pelo quê?
08:01Tomada de preços.
08:03Então, você já tem lá os fornecedores cadastrados.
08:06Então, por que que tem o negócio do cara levar e ser lembrado?
08:10Porque, vamos dizer, você precisa arrumar lá o teto
08:13que tá com um problema, tem um buraco.
08:17Vossa, é a coisa mais cotidiana.
08:19O piso aqui teve um problema,
08:22que saiu o negócio do piso, tem que colar.
08:24Aí você lembra, ah, o cara colou direito ali na sala de lá,
08:28cobrou barato, veio aqui, fez um serviço bom.
08:32Quem que era o cara mesmo?
08:33Ah, ele deixou ali uma régua.
08:36Tá no dádio.
08:37É, ele deixou a régua lá na sala do não sei quem.
08:40Aí você vai lá e vê o nome, já tem o preço cadastrado.
08:43Na tomada de preço, ele já era o preço que aquela repartição
08:48reconhecia como entre os mais baratos.
08:50E ele podia prestar aquele serviço.
08:51É por isso que essas coisas são distribuídas no poder público.
08:55É uma coisa, assim, muito do dia a dia, muito pequena.
09:00Mas pra essas empresas que conseguem se qualificar,
09:04é muito importante, porque é desse jeito que vão lembrar o nome dela.
09:07Tem 500 empresas lá na lista.
09:10Só que, assim, agora todo mundo fica desconfiando
09:13do cara que chega com uma coisa lá e dá pro funcionário.
09:15Não aceitamos nada, né?
09:17Não, não me vem com esse calendário aqui pra morrer na minha mesa.
09:19Você vai me comprometer com esse calendário.
09:21É, então, isso tá se tornando uma coisa muito complicada,
09:25porque a sobrevivência de muitas dessas empresas é assim.
09:29Agora, por outro lado, tem empresa que chega e fala,
09:32ó, me chama aí que eu te dou x% do que eu prestar de serviço.
09:36Como é que você sabe a diferença entre um e outro?
09:39É muito complicado.
09:40Sim.
09:41É, e a propina, né?
09:42É um caso clássico de propina.
09:45Às vezes até um presente muito caro,
09:47como a gente mencionou aqui no começo,
09:49ele pode ser, ele, sobre uma roupagem de brinde,
09:57chega lá um cartão da empresa, bonito,
10:01uma caixinha da empresa bonita,
10:02somos uma empresa que é fornecedora,
10:04tem um Rolex dentro.
10:05Isso não faz sentido.
10:07É.
10:07Não faz sentido, não.
10:08Porque aí existe uma clara tentativa de indução na decisão
10:12do agente público, né?
10:14Então, não é simplesmente deixar a marca,
10:18que é aquilo que a gente acha que é válido,
10:21que anda de forma alinhada com áreas de comunicação,
10:26áreas de marca,
10:27mas aí já passa a ser uma tentativa de influenciar
10:31uma decisão do agente público.
10:33E aí a gente não recomenda.
10:34E essa, não recomenda, inclusive é crime, né?
10:38Não recomenda, nem foi preso.
10:43Hashtag, né?
10:45Hashtag, xilindró.
10:46É melhor não brincar disso.
10:48E tem um lado de receber, né, Madeleine?
10:50Por quê?
10:50A gente está falando de entrega.
10:52Bom, qualquer um pode entregar qualquer coisa para qualquer um.
10:54Então, quem recebe,
10:56e isso antropologicamente faz parte de um circuito de dar,
10:59receber, ressignificar e retribuir.
11:03Quem recebe faz parte do processo, é conivente.
11:06Você tem o direito de falar não,
11:09não, não quer, não, não é para mim.
11:11Então, tem a empresa que entrega,
11:13o chamado, né, a propina,
11:16vamos chamar de propina,
11:17transformada em forma de presente,
11:20e tem aquele que recebe.
11:22E quantos não são os casos,
11:24e posso falar de 20 e tralalalala anos de mercado,
11:28quantos não são os casos em que
11:29a gente viu de forma explícita,
11:31as pessoas pedindo para entregar o gift na casa delas,
11:34aqui eu não posso receber.
11:36E não era um valor acima de 100 reais,
11:38mas tinha um valor percebido maior,
11:40para ver como é complexa a linha.
11:41Mas, olha, eu vou devolver isso,
11:43você entrega na minha casa um vinho no mesmo valor.
11:46E eu lembro que eu falei com o pessoal do escritório, assim,
11:48como vinho no mesmo valor?
11:49Eu disse, o que é um valor simbólico,
11:51a gente conseguiu uma peça maravilhosa,
11:53um preço baixo,
11:55porque soubemos fazer uma boa negociação.
11:57E era uma data de celebração,
12:01um aniversário de empresa.
12:03Então, é complexo.
12:05Saber lidar com essas nuances,
12:07com esses detalhes,
12:09realmente requer o conhecimento de uma expertise dos dois lados.
12:13E a orientação é,
12:15na dúvida, consulta o código de conduta da empresa,
12:18vê se existe alguma legislação atuando especificamente,
12:21se você está tratando com um agente público.
12:23consulta os departamentos internos de compliance,
12:27jurídico,
12:28marketing também,
12:29e busca respostas,
12:32analisa a cartilha,
12:33a cartilha é um bom guia para orientar.
12:35A cartilha é gratuita?
12:36É gratuita.
12:37Ela está no site do IBDE,
12:39IBDE.org,
12:41e é só dar o download.
12:43IBDE.org.br,
12:45qualquer um pode baixar,
12:46e a gente fez com esse intuito.
12:47Como a gente pode contribuir com a sociedade,
12:49sabendo que temos o know-how?
12:51Olhando até o que acontece lá no Vale do Sulício,
12:53o sistema de mentoring,
12:54a gente sabe que, de alguma forma,
12:55este é um sistema da troca,
12:57da troca positiva.
12:59Entregando algo para a sociedade,
13:00as empresas vão continuar fazendo os seus processos,
13:03os seus negócios,
13:04não vão deixar de se comunicar por intermédio
13:07dessa mídia poderosíssima,
13:08que é o território do gifting,
13:10vão utilizar a criatividade,
13:13ao invés de simplesmente o que restam as cartilhas.
13:16Distribua lápis, caneta, boné,
13:19isso pode,
13:20mas eu também posso te entregar um boné
13:21de uma marca absurda,
13:23quantas não são as grifes de luxo,
13:25ou te entregar uma caneta,
13:26citaria aqui inúmeras marcas de canetas
13:28de valores absurdos.
13:30Então, nós não vamos,
13:32e essa foi a nossa contribuição na cartilha,
13:33nós não vamos limitar pelo tipo de objeto,
13:36e sim pelo repertório corporativo,
13:39dentro de limites,
13:40tanto do código de ética da própria corporação,
13:43quanto do que a cartilha propõe.
13:46E em caso de dúvidas,
13:47a gente dá o alerta,
13:48em caso de dúvidas,
13:49consulte todo mundo lá dentro,
13:51consulte, como disse o Diego,
13:53área de compliance,
13:54área jurídica,
13:54não faça nada sem falar com o seu chefe,
13:57dá lá essa dica também,
13:58consulte seus superiores,
14:00não saia fazendo compras de presentes,
14:01pode ser um bolo,
14:03e depois você que toma o bolo,
14:05tomar muito cuidado com qualquer troca,
14:07e sempre na dúvida,
14:09consulte um advogado,
14:10um advogado experto no assunto,
14:12e consulte uma empresa
14:13que seja experte em criatividade,
14:15que possa diagnosticar quais são seus códigos,
14:18e estabelecer a partir daí,
14:19rituais de troca,
14:20que sejam pertinentes proprietários,
14:23na justa medida.
14:24A mensagem é como ser criativo,
14:26sem deixar de ser ético.
14:27Ou como ser ético,
14:28sem deixar de ser criativo.
14:30Sem deixar de ser criativo.
14:30Essa é a mensagem que a gente tenta,
14:33de certa forma,
14:33transmitir pela cartilha.
14:35A gente recebeu aqui na TV Antagonista,
14:37a Marina Peclivanis,
14:39da Agência Umbigo do Mundo,
14:41e o Diego Valois,
14:42do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial.
14:45Muito obrigada por vocês terem vindo aqui.
14:48Obrigada.
14:49Eu que agradeço.
14:50Obrigada.
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