00:00Já dando pontapé inicial, proponho que a gente fale aqui da gangue das alianças
00:04que a gente tem exposto semana após semana e todos os métodos e táticas que eles vêm usando
00:09pra tocar o terror e tentar subtrair alianças, bens personalíssimos, preciosíssimos
00:15com alta carga de memória afetiva e valor simbólico
00:18que realmente tem ali um retorno imediato e um valor altíssimo.
00:22Só que no estado de São Paulo, pessoal, tem rendido traumas atrás de traumas
00:26até mordida no dedo das vítimas, sim.
00:30Agora, o que as investigações em curso vêm revelando sobre esse enorme esquema
00:33e o que ela descobriu é que depois de roubadas, essas alianças estão sendo derretidas
00:39e transformadas em joias de ostentação, sendo comercializadas por uma joalheria famosa
00:45pelos funkeiros, sim.
00:48Ninguém melhor que Mano Ferreira pra, na forma mais ponderada possível, pé no chão,
00:53tentar trazer os detalhes sem que a gente possa já aqui se indignar por completo.
00:57É isso mesmo, Marinho.
00:58Segundo as investigações da polícia, o crime começava com a maninha do crime.
01:03Nós já falamos sobre essa personagem outras vezes.
01:07Ela também estava conectada com o assalto do ciclista.
01:12Do latrocínio.
01:13Do latrocínio, exatamente.
01:14Do ciclista no Parque do Povo.
01:16Vitor Medrado, né?
01:17Vitor Medrado, a maninha do crime agenciava diversos assaltantes para fazer parte do esquema.
01:25Não apenas de celulares, como foi o caso daquele latrocínio,
01:31mas também essas quadrilhas de assalto às joias.
01:35E aí, basicamente, as joias passavam pra um dos grandes articuladores
01:40do comércio de ouro e negócio com joalherias.
01:43Em especial, a Dimi Joias, que é justamente essa empresa que estamos falando.
01:49Muito conhecida por produzir joias para funkeiros que mostram,
01:55na sua estética da ostentação, ficam exibindo os itens de luxo.
02:01Claro, a empresa nega as acusações, mas a Polícia Civil, inclusive, já pediu
02:08que o CNPJ, dessa e de outras empresas envolvidas no esquema,
02:13seja suspenso por envolvimento nesse tipo de falcatrua.
02:18Então, basicamente, a gente vê aí como a profissionalização desses esquemas
02:24atua usando empresas, desvirtuando empresas, usando CNPJs falsos,
02:31pra fazer todo o sistema que sai desde o ovo
02:35até a transformação do item, a receptação, pra depois a venda.
02:41É, sinceramente, pessoal, beira o inacreditável.
02:44Eu sei que essa é a reação que provavelmente vocês estão tendo aí do outro lado.
02:47Agora, Aninha, chega a ser simbólico, né?
02:50A gente fala tanto da inversão de valores que vem acontecendo
02:52em todas as instâncias, todas as esferas da sociedade brasileira,
02:55só que chega a ser simbólico e doloroso perceber
02:58que talvez o símbolo maior do amor eterno
03:01é sendo transformado aí num símbolo da vaidade efêmera,
03:05da ostentação dessa gente, de funkeiros,
03:08que, na melhor das hipóteses, é conivente com essas organizações criminosas.
03:12André, eu acho que você toca aí num ponto de extrema importância,
03:16que chega a ser muito ilustrativo, simbólico, como você disse,
03:20o fato de que a aliança, que é talvez o bem material mais afetivo
03:28que uma pessoa pode ter, né?
03:30Se torne um símbolo de ostentação.
03:34E aí a gente fala tanto sobre essas questões que o funk em especial trazem,
03:39e veja, não tenho nenhum tipo de preconceito contra o funk,
03:43mas normalmente ele é associado a essa ostentação extrema,
03:47e não deixa de ser uma forma de mostrar que não existe a valoração
03:52do símbolo, do afeto, é apenas uma ilustração daquilo que é mais,
04:01daquilo que é mais pesado, mais ouro.
04:04E aí tem uma outra questão, né, André,
04:06que acho que a gente pode usar nesse caso das joias,
04:08mas a gente pode usar em muitos outros exemplos de coisas que a gente discute aqui.
04:12Quando a gente vai a uma joalheria e a gente percebe
04:17que o valor é muito diferente do praticado em outras joalherias,
04:22a gente tem que desconfiar da procedência daquele material.
04:27A gente tem que desconfiar de onde ele vem.
04:30Com relação ao ouro, inclusive, existe uma enorme preocupação
04:33da forma que ele é extraído,
04:35porque tem muitos maus tratos aos funcionários,
04:39às pessoas que estão lá extraindo.
04:41Existe toda uma preocupação e uma valoração adicional.
04:45Quando a gente está falando de uma joia que chega no mercado
04:49num valor muito abaixo,
04:52claramente tem algo errado.
04:54E aí se você, graças a Deus,
04:56agora tem a oportunidade de comprar,
05:00compre num lugar em que a procedência é garantida.
05:03Agora, esse ponto da linha é divertido,
05:06porque o receptador, a defesa dele é...
05:08Não, eu não sabia qual era a origem do ouro que eu estava comprando.
05:13Eu só estava comprando, estava bom o preço.
05:16Não, mas...
05:16Agora, pelo amor de Deus,
05:18os volumes são indecentes, né, o Henrique Crignan?
05:21Até porque a gente está falando aqui de quatro anos,
05:24quatro anos de uma entidade,
05:26de uma empresa que não tinha...
05:27Uma empresa de fachada fraudulenta na essência,
05:30mas que não tinha menor porte para poder estar movimentando
05:32e tendo uma receita de 90 milhões de reais.
05:3590 milhões de reais.
05:36E isso derretendo o ouro das alianças,
05:38vendendo, obviamente, sem nota fiscal.
05:41Passaram aí, enfim, fora do radar,
05:43sem serem detectados por quatro anos.
05:46Agora que a casa caiu.
05:47Agora, experimenta você, do outro lado, meu amigo e minha amiga,
05:49atrasar um dia sequer na declaração do seu imposto de renda.
05:52É capaz até daquele japonês da federal bater na tua porta.
05:55Então, a inversão dos valores segue piorando dia após dia.
05:59Não é isso, Henrique?
06:00Exato.
06:00E a gente está vendo ainda mais...
06:03Na verdade, é o começo, né?
06:05A gente vai puxar esse fio e vai ter muito mais coisa vindo.
06:08Então, quem que imaginou que assalto de aliança,
06:12que já é uma trend aí na cidade de São Paulo
06:14e outras grandes cidades também,
06:16chegaria talvez a esse público, né?
06:20Justamente aí nesse meio.
06:21E a gente está vendo várias outras coisas nesse sentido,
06:24que é a questão das bets.
06:27A gente está vendo também a questão desse derretimento de joias roubadas
06:32para fazer colares e coisas do tipo,
06:36voltando para um determinado setor da sociedade que é bem suspeito.
06:41Então, a gente tem que começar a pensar também
06:43que tipo de conteúdo que nós estamos consumindo.
06:45Porque essa cultura de ostentação, que é uma cultura, né?
06:48E que não é restrita ao funk.
06:50Vamos deixar claro também.
06:51Mas essa cultura de ostentação dos influencers e de várias outras coisas
06:56vendem um sonho, uma realidade que não é possível.
06:59A não ser que você esteja disposto a cometer crimes,
07:03a usar coisas de outras pessoas que foram roubadas.
07:06E aí você passar por cima de vários outros valores.
07:09Aí sim, talvez você consiga fazer bastante dinheiro bem rápido
07:11e mostrar para todo mundo.
07:13Até um dinheiro que você talvez nem tenha.
07:14Aninha.
07:14André, sabe o que assusta muito?
07:16E você tocou nesse ponto e eu fiquei pensando sobre isso.
07:19A gente está falando de 90 milhões de reais em 4 anos.
07:23E nós estamos falando de joias.
07:25Ou seja, a gente está falando de um bem.
07:27Tem que ter uma origem para eles conseguirem faturar.
07:30Não estou falando, por exemplo, de um serviço como a advocacia.
07:33Que você trabalha com o seu pensamento, com a sua cabeça.
07:35Você não tem um insumo.
07:36Perfeito.
07:37Quando você fala de joias, você tem um insumo.
07:40Poxa, demoramos.
07:41Tem que vir de algum lugar.
07:42Exato, tem que vir de algum lugar.
07:43Demoramos 4 anos para chegar à conclusão
07:48de que isso vinha de algum lugar ilegal.
07:50Quão preocupante é o fato de que a gente demora 4 anos
07:54para visualizar algo errado
07:57num faturamento de 90 milhões de reais.
07:59E se você atrasasse a declaração do seu imposto de renda?
08:02Minha cara é minha.
08:02Rapidinho.
08:03E se você atrasasse a declaração do imposto?
08:05Imagina se fossem vários CNPJs.
08:075 milhões em cada um.
08:09Mais 10 anos para alguém achar algo errado ali?
08:12É isso aí.
08:12Pelo visto é o cupido trocando as flechas dele por facas que estão aí decepando dedos
08:18e roubando aí o que é o símbolo maior do amor eterno, que são as alianças.
08:22O nível da maldade é inacreditável.
08:24E para para pensar.
08:25Agora com essa manchete, com essa notícia sendo trazida aqui para qualquer um que possa
08:29estar nos escutando ou nos assistindo nesse momento, que foi vítima desse crime há pouco
08:34tempo atrás, mano, imagina o gosto amarro que eles devem estar tendo agora só de pensar
08:39que a aliança deles pode fazer parte agora de uma corrente sendo ostentada no peito de
08:43um funkeiro conivente com essas facções e esse esquema horroroso, né?
08:50É assim, é indignante para dizer o mínimo, né?
08:52É terrível, é realmente um negócio assim que precisa nos fazer levar a conversa para
08:59como aumentar a eficiência do Estado brasileiro em punir criminoso e em criar um ambiente
09:09para que a pessoa honesta seja recompensada.
09:12Porque enquanto a gente não for capaz como país de punir o erro e premiar o acerto, nós
09:19não seremos um país decente.
09:22E como a gente está demonstrando nesse caso, isso passa também por você ter mecanismos
09:28de fiscalização dentro do funcionamento do mercado formal de uma forma muito mais eficiente.
09:37Ou seja, como que uma empresa pode passar quatro anos dessa forma, atuando desse jeito,
09:44sem que isso dispare uma alerta, um alarme nas autoridades, nas formas como nós investigamos.
09:52A gente tem tanta burocracia no Brasil e a gente não consegue fazer o básico, que é
10:00punir o criminoso e premiar o honesto.
10:04Isso mostra como a gente precisa mudar completamente a lógica da relação entre o Estado e a iniciativa
10:11privada.
10:11Porque o essencial, que é punir o crime, a gente não consegue observar, detectar que
10:19empresa está sendo, na verdade, um lugar de fraudes, a gente não consegue fazer isso.
10:25Enquanto isso, a montanha de burocracia atrapalha o empreendedor honesto.
10:30É, pessoal, quando falaram por aí sobre a aliança do crime, eu confesso que eu não
10:35esperava que seria essa que a gente está adiante nesse exato momento.
10:38Mas, de qualquer modo, está posto aí e fica aquela pergunta, né?
10:41E os funkeiros que estão postos aí, será que eles são cúmplices ou vítimas desse
10:45sistema que glamouriza o ilícito?
10:48Será que, enfim, eles são de fato coniventes com o crime organizado?
10:51Será que eles sabem a origem de tudo isso?
10:52Aqui é uma pergunta que resta sem resposta, enfim, cabal, definitiva, que tem que dar
10:59esse benefício da dúvida.
11:00Mas o fato é que a dor de todos aqueles que tiveram suas alianças subtraídas e roubadas
11:05e só de imaginar que pode estar ali fundida, mesclada, dentro de uma corrente ostentada
11:10no peito de um funkeiro, é o fim da picada, né?
11:12Bom, Aninho, rápido comentário, a gente segue a gente.
11:15Por favor.
11:15Eu acho que, eu acho assim, eu não acho que as pessoas realmente saibam, olha, você
11:19está comprando um colar que foi derretido, um monte de aliança que foi roubada.
11:23Não é isso.
11:24Mas eu também acho que ninguém se preocupa em saber de onde veio.
11:27A premissa, ela está invertida.
11:29Ah, eu não sei que foi roubado, mas eu também não sei de onde veio.
11:32E aí você dá o benefício da dúvida como se isso te isentasse completamente de responsabilidade.
11:37E nesse aspecto, eu acho que também tem que haver uma modificação de pensamento,
11:42de forma de agir, porque você tem que saber de onde vem.
11:46Mas isso é muito difícil.
11:47É muito.
11:48Tem estudos de economia comportamental que perguntam ao consumidor,
11:52você se importa com a origem do produto que você está comprando?
11:56No vácuo, todo mundo diz, eu me importo.
11:58Mas você faz a pesquisa com os mesmos consumidores, logo após saírem do supermercado e pergunta,
12:05qual foi o critério que você levou em conta para escolher esse produto?
12:09E aí, sempre é qualidade e preço.
12:12É custo-benefício.
12:13Meio que a mesma lógica de pessoas que compram peça de celular,
12:16que com certeza é roubado, porque é muito mais barato no centro da cidade,
12:21e sabe que aquilo é produto de roubo, imagina, mas ainda assim compra.
12:25É, mas no caso da joia, ainda tem, poxa, é o ouro, certificado, nota fiscal.
12:31Se você não recebe nada disso, não é possível que não te ligue um alerta mínimo
12:34de que tem algo fora do lugar.
12:35Liga, mas o preço mais baixo importa mais para as pessoas na prática.
12:39Agora vamos falar...
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