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  • há 9 meses
Lidiane Cristina Andrade contou no Bora Brasil como sua mãe a influenciou a ler e a realizar seu sonhos. Ela é formada em pedagogia, virou professora e agora escritora.

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Transcrição
00:00O Brasil é a sua segunda casa, né?
00:01A gente tem aqui um sofá e a gente recebe pessoas.
00:05Hoje a gente vai ter duas pessoas muito queridas aqui daqui a pouquinho.
00:08Mas antes, para apresentá-las, a gente vai mostrar, né?
00:12Vamos conhecer a história, essa história inspiradora
00:16da filha de uma trabalhadora doméstica
00:19que mudou de vida depois de um livro que ela ganhou da mãe.
00:24Essa aqui é a Lidiane Cristina de Andrade, 43 anos.
00:30E essa aqui é a família dela.
00:32Oi, tudo bem?
00:36Lidiane é professora de educação infantil.
00:39Concluiu o magistério quando já tinha 33 anos.
00:43Teve muitos motivos para não poder se formar antes.
00:46Era muita dificuldade. Eu não tinha lugar para dormir.
00:48Eu não tinha cama, eu dormia com o chão no chão.
00:50Sim, a Lidiane foi uma garota pobre, filha de empregada doméstica, negra,
00:55que teve que trabalhar muito em várias áreas,
00:57inclusive fazer faxina para conseguir pagar a faculdade.
01:01E era tão difícil, eu não tinha dinheiro para comer uma pipoca.
01:06Essa história começa com a mãe do Cineia,
01:09que era empregada doméstica de um casal de jornalistas.
01:12Ele pegou e falou para mim assim,
01:15você já experimentou leitura?
01:18Ele tem muito livro.
01:19Eu falei, eu nunca pensei nisso.
01:21Ele falou, então vou mandar uns livros para ela.
01:22A menina ganhou um livro do patrão da mãe
01:25que nunca mais saiu da memória dela.
01:27O que chamava Cinzas de Ângela,
01:30que é um livro muito pesado,
01:32para uma pessoa de 11 anos.
01:34E sem dúvida nenhuma, é o meu livro preferido até hoje.
01:38Lidiane estudou muito, virou professora,
01:40mas tinha todos os motivos para desistir.
01:43Eu trabalhava de manhã na creche,
01:45de tarde eu dava aula e à noite ia para a faculdade,
01:47eu tinha dois filhos.
01:48Na escola se empenha para que todos os alunos
01:51conheçam a realidade do país.
01:53Esse livrinho, Crianças Contam o Nordeste,
01:57foi escrito pelos alunos do terceiro ano de Itacoaquecetuba,
02:01um dos locais mais nordestinos de São Paulo.
02:04A gente vê um Nordeste,
02:05ou a gente vê um Nordeste só de tristeza,
02:08ou a gente vê um Nordeste só de alegria.
02:11E eu queria que eles descobrissem o Nordeste pelo meu olhar.
02:15Agora, Lidiane vai estrear como escritora.
02:18O livro está sendo editado.
02:19O título é Yo-Yo Ogrilô,
02:22que quer dizer contador de história africana,
02:25o mais velho da aldeia, o sábio.
02:27Se uma pessoa lê o livro e uma criança falar
02:30eu posso ser sereia?
02:33Para mim, eu já ganhei.
02:34É como se o meu propósito já tivesse cumprido.
02:36Bom, vocês viram a história,
02:42então vamos fazer o seguinte.
02:43A gente convidou a dona Dulcinei e a Lidiane
02:46para contarem pessoalmente muito mais
02:48dessa história bonita para a gente.
02:50Primeira coisa, o que foi essa transformação?
02:53Como é que foi que ela se deu, de repente, para você?
02:56Então, na verdade,
02:58a gente vem de um lugar que livro é luxo.
03:02Livro é caro, livro é caro mesmo, né?
03:06Quando eu era mais pequena,
03:08eu tinha o Gibi do Zé Carioca.
03:10Só que a minha mãe trabalhava
03:12na casa do seu Sérgio e da Meire.
03:15E eu cheguei lá,
03:17tinha um espaço lindo de livros.
03:21E eu estava meio perdida, adolescente, né?
03:24E aí, minha mãe chegou chorando no serviço
03:29e o seu Sérgio falou assim,
03:30já tentou leitura?
03:32E aí, ela fez ele escrever um bilhete.
03:35Esse bilhete foi parar na mão dele
03:36e ele começou a me mandar livros para casa.
03:39E aí, eu lia muitos livros.
03:42Eu lia livros...
03:44O meu primeiro foi Cinzas de Ângela.
03:48Ele é um livro...
03:49Eu falo para as crianças hoje, né?
03:51Que é um livro de lombada grande.
03:53E eu li em três dias.
03:55Estou vendo a dona Dulcineia toda emocionada.
03:57Estou quase me emocionando aqui com ela também.
04:00Dona Dulcineia, como é que é olhar
04:02para o desenvolvimento da sua filha?
04:05De onde a senhora tanto batalhou
04:06para que ela realmente desabrochasse
04:09e ver agora a história linda
04:11que ela está contando para o Brasil?
04:14Para mim, eu sempre falo
04:16que é orgulho.
04:20Nem cabe no peito, né?
04:21Porque não, não cabe.
04:22Porque eu fui empregada doméstica,
04:27mas eu não queria isso para a minha filha.
04:30E eu falava isso para ela desde pequena.
04:33Filha, mãe, não quer você fazer no que eu faço.
04:36Quero que você estuda.
04:38E a gente...
04:40Eu batalhei muito para isso.
04:42Para estar hoje aqui junto com ela.
04:44Então, para mim, é orgulho.
04:46Mulheres fortes, né?
04:48Que não abandonou aquilo
04:50que eu determinei para ela
04:52e eu não abandonei.
04:54Então, eu acho que isso que é importante.
04:56E as nossas histórias, né?
04:57De pessoas pretas, periféricas, se cruzam, né?
05:00Eu olhei para vocês, eu reconheci minha mãe,
05:02reconheci minha avó,
05:03que foi uma pessoa que trabalhou também
05:05na Casa das Pessoas,
05:06uma mulher analfabeta.
05:07E a gente sempre ouve de onde a gente vem
05:09o quanto a educação transforma, né?
05:11E o quanto a gente tinha que estudar mais que todo mundo
05:13e ser muito melhor que todo mundo.
05:15Então, é muito emocionante ver no lugar
05:16que vocês chegaram, né?
05:18E, especialmente, as mulheres pretas
05:20lideram um ranking difícil
05:22de criar seus filhos sozinhas,
05:24que foi o caso da senhora, né?
05:25E como que foi ter essa construção aí
05:28de ter essa...
05:29Tem que ser forte.
05:30E não dá para ser forte o tempo inteiro.
05:31Quantas vezes a senhora não deve ter chorado ali
05:33nos bastidores sem querer passar isso
05:35para a sua filha, né?
05:36E muitas vezes acabou passando, né?
05:38Porque esse sentimento é uma coisa presente.
05:41E o...
05:43Eu casei, a gente casa com um sonho.
05:46Eu acho que todo mundo casa com um sonho.
05:48De ser feliz, de ter uma vida com o esposo, né?
05:51Ter filhos.
05:54Mas...
05:55Quando ela tinha 12 anos, eu me separei.
05:58E ficou nós duas.
06:00Então, eram umas jornadas, assim, difíceis.
06:04Tinha dia que eu falava assim,
06:04meu Deus, o que é que eu vou hoje fazer?
06:07Né?
06:07Eu estava trabalhando e ela ficava sozinha.
06:09Tinha serviço que eu arrumava
06:11para me trabalhar,
06:13que eu chegava em casa e ela já estava dormindo.
06:15Nem via sua filha.
06:16E eu só via ela no final de semana,
06:18no domingo.
06:19Porque o sábado também eu trabalhava.
06:21Então, era uma jornada corrida.
06:24Só que ela sempre foi boa filha, assim.
06:26Até chegar na adolescência.
06:28Toda adolescente é um pouco chato, né?
06:30Mas ela sempre foi.
06:32Ela sempre foi.
06:33Eu chegava em casa,
06:34os vizinhos perguntavam, assim, para mim.
06:36A gente morava em apartamento CDHU.
06:39A Lidiane não está em casa?
06:41E eu falava, tá.
06:42Nossa, a gente não vê ela.
06:43Está quietinha, Lidiane.
06:44Porque eu falava para ela,
06:45filha, a mãe está saindo para trabalhar.
06:47Então, colabora.
06:49Não arruma problema para a mãe.
06:51Quando a mãe chegar de tarde,
06:52a gente está sossegada.
06:54E era isso a nossa vida.
06:55E como que é hoje, né?
06:57A relação de vocês, né?
06:59A sua mãe é a sua ídola,
07:00a sua grande exemplo.
07:01Acho que é o que fica, né?
07:02Dessa história toda,
07:03dessa batalha dela
07:04para criar você uma boa mulher.
07:08Eu acho que ela é o ex...
07:09Ela, sem dúvida,
07:11é a minha ancestral mais próxima.
07:13E a mais importante, né?
07:16O que você lembra do esforço dela ali
07:18para hoje você chegar onde você chegou?
07:22Eu e ela.
07:23Não tinha opção.
07:25Chegou um momento que ela tinha
07:26a prefeitura, né?
07:28O Nivaldo, que era o meu padrasto,
07:30que apoiava.
07:31Mas na dúvida é ela.
07:33É quem eu conto,
07:34é quem eu espero.
07:35É quem eu...
07:36Quando eu era criança,
07:37é quem eu queria ser.
07:39Quebrando alguns ciclos, claro, né?
07:42Eu saí...
07:43Minha mãe era empregada doméstica
07:44e eu não sou mais.
07:45Espero que a minha filha
07:46tenha um caminho ainda melhor que o meu.
07:49Mas,
07:50indiferente do que ela fez,
07:51até porque trabalhar como doméstica
07:53não é desmérito para ninguém,
07:54ela é o meu ídolo.
08:01Lidiane?
08:01Ela é minha queridinha.
08:03O que é o seu livro?
08:04Conta, eu sou escritor também,
08:05eu sei o momento que você está vivendo
08:07maravilhoso,
08:07que é o livro que está indo para a gráfica.
08:09Qual é a história?
08:10É...
08:11É assim...
08:13Eu...
08:14Fui num curso e ouvi uma música
08:18e achei que era pouco demais.
08:19Que música?
08:20Ah, eu não cantar, não.
08:22Mas você lembra?
08:22Está no livro.
08:23Mas eu vou deixar aí segredo,
08:25porque está no livro.
08:26Aí as pessoas contam no livro.
08:27Deixa eu mostrar seu livro enquanto isso.
08:28É.
08:28A capa, né?
08:29E aí,
08:31eu ouvi uma música
08:31que tinha um gesto
08:33para brincar com as minhas crianças,
08:35porque eu sou professora de educação infantil.
08:37E aí, eu achei pouco
08:38e eu criei uma história.
08:40Aí, uma amiga minha,
08:41a Grazi.
08:43Grazi Oliveira.
08:44Ela falou para mim,
08:45isso aí dá um livro.
08:46Eu falei, não dá.
08:46Ela dá um livro.
08:48E aí, eu mandei
08:48e num dia que eu estava
08:49num dia muito difícil,
08:51eu cheguei em casa
08:51querendo desistir da educação.
08:54Veio a resposta
08:55que o livro era excelente
08:57que a editora iria publicar.
08:59E aí, eu comecei a gritar.
09:01Ouvi um monte de grito,
09:01porque eu gritei muito,
09:03eu gritei muito.
09:04E todo mundo...
09:05E minha filha e meu esposo, Milton,
09:08você vai me assustar.
09:09E eu, não.
09:11Eu vou publicar meu livro.
09:13E de lá para cá,
09:14esse livro vem salvando a minha vida.
09:16Maravilha.
09:17Ele é a história...
09:17Tem uma mensagem que ele traz, assim, né?
09:19Um pouco da sua história.
09:21Tem alguma coisa
09:22dessa relação com a sua mãe?
09:23Na verdade, é um livro infantil
09:25sobre um griot, né?
09:29Que é um contador de histórias e tal.
09:32E ele é...
09:34Fala da minha ancestralidade,
09:36fala de como isso é vivo
09:38e de como isso precisa estar vivo
09:39todo o tempo.
09:41Porque é a história de como
09:42a gente se organiza como povo, né?
09:47Fala como as minhas...
09:51A importância que tem o mais velho,
09:54a importância que tem a história,
09:55a importância que tem as raízes,
09:57a contação de história.
09:59É uma fábula.
09:59Posso pedir uma coisa?
10:00Você também é mãe,
10:01só que você não está mostrando
10:02para a gente a sua filha.
10:03Vamos convidar a Isabela
10:04para vir aqui?
10:05Tio, tu mostra ela ali, ó.
10:07Ela fez assim, não quero não,
10:09mas ela vem, vai fazer uma foto
10:11lá da mãe aqui.
10:13Para a gente registrar
10:15essas duas mães aqui.
10:16Isabela tem 17 anos,
10:17vamos espremer,
10:18ela senta aqui entre nós.
10:19Eu vou até já fazer a selfie aqui, gente.
10:20Senta aqui, Isabela.
10:21Mais pertinho da sua mãe,
10:22deixa eu chegar para a minha casa.
10:23Vamos começar com foto.
10:25Hoje o sofá está cheio aqui
10:26porque a casa é nobre.
10:27Não está aparecendo.
10:30Pronto.
10:31Isabela, você está...
10:33Sua mãe fala muito
10:34sobre ancestralidade, né?
10:35Sobre essa...
10:36de levar esse legado
10:37do que você aprendeu.
10:38Você tem a sua avó perto,
10:39sua avó viva,
10:40para contar a história
10:41do que vocês foram,
10:42do que vocês são.
10:43E você é o presente e o futuro.
10:45Como que é ver você também
10:46quebrando um pouco
10:47esse ciclo de dores, né?
10:48E começando a contar
10:49um pouco das vitórias.
10:50Eu quero ser o que minha mãe...
10:52Tudo o que a minha mãe sonhou
10:53e não conseguiu,
10:54porque ela fez faculdade tarde.
10:56Então, tipo,
10:56um dos sonhos dela
10:57sempre foi fazer faculdade na USP.
10:59Então, o que ela passou para mim.
11:01Tudo que...
11:01Todas as vezes que ela quis
11:02desistir da educação
11:03e ela chegou chorando em casa
11:04e eu vi ela chorando.
11:06Eu só não quero ser
11:07mais do que ela,
11:09mas, pelo menos,
11:10se eu for pelo menos
11:10um por cento do que ela é,
11:12já está bom para mim.
11:13E o que você sente
11:14quando você ouve, né,
11:16o esforço da sua mãe,
11:18tudo que sua avó passou, né?
11:19Como que isso toca em você?
11:21Eu fico orgulhosa delas
11:23por tudo que elas passaram,
11:25porque eu sei que
11:26foi doloroso para elas.
11:28Já sabe o que quer estudar na USP?
11:30Não.
11:31Primeiro tem que passar
11:32e vai passar.
11:33O que você quer estudar?
11:34Ainda tem dúvida, né?
11:36Ainda tem dúvida, ainda.
11:37Qual é a sua idade?
11:3817.
11:39Ah, mas está na hora
11:39de começar a pensar.
11:40Mas tem um tempinho ainda.
11:42Sem pressa, né?
11:43Sua mãe começou com 30 e poucos
11:44e está aí mostrando
11:45que tem um futuro brilhante
11:46ainda pela frente, né?
11:48Nossa, é muito bom conhecer
11:49a história de vocês, né?
11:50Muito obrigada.
11:51Saber um pouquinho
11:51dessa relação de mães.
11:53A gente vai falar muito
11:54sobre mães ainda
11:55nesse mês de maio,
11:56que é bastante importante.
11:57muito bonito ter vocês
11:58aqui com a gente.
11:59Obrigada.
12:00Mas continua aqui com a gente, tá?
12:01E aí
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