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  • há 1 ano
‘Y Pytahak, que significa “água duradoura” na língua indígena tupi-guarani, será o nome do sistema de captação e tratamento de água que será implantado na aldeia Tembé Herekohaw, localizada no município de Santa Luzia (PA), por meio de um projeto da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). O nome simboliza a esperança dos indígenas Tembé, que passarão a contar com um sistema de água potável e saneamento de qualidade, a baixo custo. A iniciativa visa garantir o abastecimento hídrico por meio da captação de águas pluviais, de forma ecológica e autônoma. Até novembro deste ano, serão instalados na aldeia seis sistemas de captação de água da chuva, que funcionam sem necessidade de energia elétrica, utilizando apenas a força da gravidade.

Reportagem: Vito Gemaque
Imagens: Ivan Duarte

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Transcrição
00:00Em 2012, quando a gente começou a desenvolver os sistemas,
00:03minha preocupação, quando a gente andava nas comunidades ribeirinhas,
00:07a gente via que elas não tinham água potável.
00:11A maioria delas consumia água do rio e tinha muitos problemas de saúde, diarreicos.
00:16E aí a gente começou a construir o primeiro sistema,
00:20na mesma ideia das cisternas do Nordeste.
00:23Se no Nordeste, que chove pouco, as pessoas têm água,
00:26a gente pensou num projeto similar para a Amazônia com as adaptações locais,
00:32pensando que nas áreas que a gente instalou não tinha energia elétrica,
00:36a gente tinha um solo bastante instável e uma precipitação diferente também.
00:41Então, a gente usava a área de captação, o telhado,
00:46que geralmente as pessoas no interior têm telha de barro,
00:49que é um telhado bom para captar água de chuva.
00:52tubulações, onde a gente desenvolveu um sistema que desviava a primeira água da chuva,
01:00que lava o telhado, e depois caía para uma caixa d'água, um outro reservatório.
01:06E de lá saía uma tubulação, tudo por gravidade, que já chegava na cozinha,
01:10uma torneira que chegava na cozinha da pessoa, do morador.
01:15Então, o primeiro sistema, os primeiros que a gente instalou,
01:18foram para 15 famílias na Ilha das Onças.
01:21Depois, a gente teve um sistema maior, que a gente instalou no Kombu,
01:26no Chocolate da Menor, então já alimenta uma fábrica,
01:30um sistema de água de chuva que já consegue,
01:32envolvendo uma pequena fábrica de chocolate.
01:35E em Marapanim, a gente instalou numa escola também,
01:38uma escola que fica numa ilha e que eles não tinham água potável.
01:42Então, a gente tem, nesses três locais, instalado as tecnologias hoje.
01:47Então, a gente vai começar a instalar aqui os tembéis, os indígenas tembéis.
01:54Então, isso foi um pedido da CESAI, que se fizesse o atendimento à água potável
02:03de algumas comunidades.
02:05E o trabalho junto aos Yanomamis veio com uma demanda da Fiocruz.
02:13Então, a Fiocruz, ela já trabalha há muitos anos com a saúde indígena Yanomami
02:18e com a análise da qualidade da água.
02:21E pela péssima qualidade de contaminação biológica, química,
02:26então, se chegou a essa alternativa de abastecimento de água de chuva.
02:32Exatamente. Então, a gente tem várias vantagens,
02:35desde a qualidade da água, custo e rápida instalação.
02:40Então, começando com a qualidade da água.
02:43A água da chuva tem um pH muito melhor do que a água do rio, a água de poço.
02:48Então, o pH da água de chuva é 13 vezes menos rápido que uma água de poço.
02:54Ou até das que você compra no supermercado.
02:57Então, a gente já fez essas comparações.
02:59É muito comum a água de poço ter altos teores de ferro.
03:04Então, a água da chuva também não tem.
03:06Então, a água da chuva é uma água muito limpa, muito fácil de tratar.
03:11Ela cai limpa do céu.
03:13Ainda mais aqui na Amazônia, que a gente está numa região
03:17onde a gente não tem uma grande industrialização
03:20para contaminar a atmosfera e contaminar a água da chuva.
03:22Então, esse sistema, essa grande floresta é um grande filtro
03:26para a gente ter boa qualidade de água.
03:28A gente não tem agrotóxico próximo.
03:31Então, isso é muito bom.
03:33Econômica.
03:33Então, instalar um sistema de água de chuva
03:36é uma coisa muito simples e barata.
03:38Quando a gente compara um sistema que a gente precise
03:42ou cavar um poço ou mesmo um sistema de bombas,
03:46que é caro.
03:47Você tem que ter energia elétrica ou combustível.
03:50E muitas comunidades, elas não têm energia elétrica.
03:53Ou muitas vezes, até de...
03:56Elas são tão carentes, elas não têm nem combustível
03:59para fazer funcionar uma bomba.
04:01Então, nas comunidades que a gente já tem trabalhado,
04:04é a comunidade mesmo que cuida do sistema.
04:07Nas aldeias indígenas, a gente tem um ajudante a mais.
04:12Nas aldeias indígenas, a gente tem o agente indígena de saneamento.
04:16Então, além das pessoas cuidarem do seu sistema,
04:20vai ter o agente indígena de saneamento,
04:23que vai ser...
04:24Todos vão ser capacitados.
04:26Mas ele é o que vai ser mais capacitado,
04:30que vai olhar se as pessoas estão fazendo o cuidado de forma correta.
04:34Então, nas aldeias indígenas que a gente está implantando sistemas,
04:39a gente vai continuar fazendo o monitoramento.
04:41Por um ano, após a instalação, mês a mês, a gente vai lá,
04:45vai avaliar a qualidade da água
04:47e se a gente ver que são necessárias adaptações e correções,
04:53a gente vai fazer.
04:54Mas a gente acompanha para ver se eles estão fazendo o tratamento certinho.
04:58É uma tecnologia muito simples, muito fácil.
05:01Não tem...
05:02Não é uma tecnologia difícil de operar.
05:06É muito simples.
05:07Mas a gente tem que ter o cuidado.
05:09Toda a água que a gente consome precisa de cuidado.
05:12A água que chega na nossa casa,
05:14alguém faz o tratamento.
05:16Então, ninguém toma água bruta.
05:18Porque a água bruta vai ter patógenos do ambiente.
05:22Então, a gente vai ter o telhado das casas,
05:28que, como eu falei, geralmente é de telha de barro.
05:32Uma calha que vai captar essa água.
05:35Essa água é conduzida para o primeiro reservatório
05:38que vai armazenar a água que lavou o telhado.
05:41Então, é importante que partículas podem se depositar sobre o telhado,
05:46animais podem andar sobre o telhado.
05:48Então, a gente tem que descartar o primeiro milímetro de chuva,
05:51o primeiro milímetro por metro quadrado.
05:53Então, o reservatório, ele é calculado em função do telhado.
05:58Então, o telhado de 20 metros,
06:00eu preciso de um reservatório de 20 metros, de 20 litros.
06:04Encher o reservatório, ele fecha automaticamente,
06:07ele tem um sistema de fechamento.
06:09E aí, a água limpa é armazenada na caixa d'água, no reservatório.
06:14Então, nas aldeias indígenas, a gente vai trabalhar com esse primeiro reservatório
06:20que vai receber essa água e a gente vai trabalhar com o segundo reservatório ainda.
06:26Então, a água chega, esse primeiro reservatório vai ser de 500 litros.
06:31Dali vai sair no clorador e depois a água vai ser armazenada
06:35num reservatório de 5 mil litros.
06:38Então, por que a gente está trabalhando com esses dois reservatórios?
06:41Porque, ao longo desses últimos anos,
06:45a gente percebeu os períodos de seca extremos
06:49que a gente tem vivido a cada ano
06:51e a gente precisa reservar o volume de água.
06:53Então, a água vai ser guardada, já tratada, clorada
06:57e, por final, ela vai ser passada por um filtro de carvão ativado
07:03que vai tirar esse gosto de água sanitária,
07:06que não é agradável.
07:07Então, a gente vê que muitas comunidades têm receio de beber água clorada
07:13porque não é um sabor agradável.
07:15Então, a nossa água que a gente entrega no final é uma água sem sabor.
07:20Sim, com certeza.
07:22Então, quando a gente começou o projeto, em 2012,
07:25o nosso reservatório era de mil litros.
07:27Depois, a gente passou para dois mil litros.
07:30Quando a gente escreveu o projeto para a aldeia Tembem,
07:33a gente tinha pensado em reservatórios ainda de dois mil litros.
07:36Passando três anos da nossa primeira visita à aldeia,
07:40a gente percebeu que a gente teve dois anos de seca extrema
07:43e eles nos relataram que ficou bastante difícil a água
07:48durante o período seco,
07:50esse seco desses dois últimos anos.
07:53Então, a gente pensou, não, a gente tem que aumentar,
07:56já aumentar para guardar a água para o período seco.
07:59Então, é um sistema adaptado para as mudanças climáticas
08:04e para fornecer água potável o ano todo,
08:08pelo tamanho dos sistemas que a gente está trabalhando.
08:12Sim, então, a água tratada clorada para consumo humano.
08:16Essa água que fica no desvio pode ser usada para limpeza de casa,
08:20regar plantas.
08:22Então, no período seco vai faltar água.
08:25E uma coisa muito importante que eu destaco aqui
08:30é que a tecnologia social tem que ser adaptada
08:33conforme as especificidades de cada cultura,
08:36de cada comunidade.
08:38Então, o sistema que a gente vai instalando
08:41vai instalar na aldeia, Tembé,
08:44então vai ter o grafismo Tembé,
08:46vai estar conforme o que eles querem.
08:49Então, a tecnologia tem um princípio de funcionamento.
08:53Então, isso aqui a gente tem que respeitar.
08:55Mas as adaptações, o material construtivo,
08:58o material que a gente vai cobrir as caixas d'água,
09:01vai ser sempre conforme a questão cultural,
09:05para a gente não agredir.
09:07Tanto é que até os sistemas,
09:09geralmente eles são feitos atrás da casa,
09:11para não interferir na questão cultural deles.
09:15O que a gente vai fazer nos Yanomamis,
09:19mesma coisa, o grafismo Yanomami,
09:21a gente vai produzir cartilhas na língua portuguesa,
09:25na língua indígena falada,
09:27e a gente vai ter placas falando
09:31sobre o consumo dessa água
09:35sempre na linguagem indígena.
09:38Até o projeto Tembé,
09:41ele já tem um nome indígena,
09:43que é Iptahraque.
09:45Que foram eles que deram esse nome,
09:47que eles viram que isso é uma água adoradora.
09:51Então, sempre a gente vai incorporar
09:54o máximo que a gente puder da cultura,
09:57porque o sistema é para eles.
09:58Então, o sistema é construído com eles e para eles.
10:02O sistema é construído com eles e para eles.
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