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  • há 6 minutos
Marina Silva critica fuga de Flávio Bolsonaro em primeiro discursa na Câmara após eleições

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Transcrição
00:00O presidente Lula foi eleito com 64.256.232 votos, 51,79% dos votos válidos, numa vitória
00:18clara e inquestionável, com uma diferença de mais de 4.400.000 votos.
00:26No primeiro turno, havia recebido 53.876.000 votos e chegando em segundo lugar.
00:38No segundo, mais de 10 milhões de brasileiros se somaram à sua votação.
00:46Houve uma mobilização extraordinária da sociedade brasileira nas ruas e nas redes,
00:53nas universidades, nas igrejas, nos movimentos sociais e nas famílias, inclusive, quando
01:02olhamos para o papel fundamental que tiveram os jovens e os idosos.
01:07Vi jovens participando pela primeira vez, netos levando seus avós para votar e pessoas de
01:16esquerda e do centro democrático compreenderam que a indiferença também seria uma escolha.
01:26Parte importante dessa mobilização aconteceu porque milhões de brasileiros reconheceram
01:32conquistas que passaram a fazer parte de suas vidas e da própria ideia de Brasil.
01:38O combate à fome, à pobreza, à valorização do salário mínimo, o acesso à universidade e ao ensino técnico,
01:48às políticas de transferência de renda, à ampliação de direitos e oportunidades para trabalhar, empreender e ir além,
01:58inclusive cuidando das bases naturais do nosso desenvolvimento.
02:03Esse é um legado importante dos governos do presidente Lula, mas esse legado não basta.
02:10Não pode ser tratado como obra concluída ou patrimônio a ser apenas administrado e acelerado.
02:18Ele é base lá.
02:21É o chão sobre o qual precisamos construir os próximos andares da morada de nossas esperanças, compromissos e vontades.
02:31O povo brasileiro sabe quando, sabe quanto custa conquistar determinados os direitos e não aceita vê-los retroceder.
02:46Preservá-los é indispensável, mas o sentido de preservá-los é criar condições para avançar,
02:53alcançando quem ainda ficou de fora e respondendo a problemas novos que não podem ser enfrentados apenas com respostas do
03:04passado.
03:05Quero registrar desta tribuna meu profundo agradecimento a todos os que participaram dessa mobilização.
03:13Faço isso em meu nome próprio e com certeza também o faço em agradecimento pelo presidente Lula.
03:21A democracia também é sustentada por esses pequenos gestos de cidadãos que não ficam de braços cruzados quando algo essencial
03:31está em jogo.
03:32Mas precisamos compreender que é apenas o começo.
03:38A eleição terminou, a democracia evidentemente não e continua e tem que continuar forte.
03:46A eleição terminou, mas temos grandes tarefas à frente e a tarefa central deste momento é a pacificação nacional para
03:57aqueles que entendem essa linguagem.
03:59pacificação não pode ser confundida com esquecimento, impunidade ou relativização da verdade.
04:08Não significa esquecer os ataques sofridos pela democracia ou fingir que todos agiram da mesma maneira,
04:16nem com atitudes esdrúxelas de eliminação das diferenças ou de homogeneização do sonho,
04:24como pensam aqueles que têm mentalidade totalitária.
04:28Uma sociedade que recalca seus conflitos não está pacificada, apenas os condensa de forma a aumentar a pressão
04:39que os fará eclodir ainda mais fortes e, consequentemente, ainda mais deletérios ao convívio político das pessoas e dos segmentos
04:50sociais.
04:50Ao mesmo tempo, não podemos transformar os próximos quatro anos num prolongamento de um interminável segundo turno.
05:03Um país não avança quando toda a sua energia política é consumida pelo equivocado desejo de destruir adversários.
05:13Por isso, há uma pergunta que não me sai da cabeça.
05:18Em vez de pensarmos apenas na derrota que queremos impedir a nossos desafetos,
05:26não seria a hora de perguntar quais são as vitórias mediante ao adequado manejo desses afetos
05:34a partir de algumas alianças pontuais que queremos conquistar?
05:39Não uso a palavra afeto no sentido sentimental ou ingênuo.
05:45Falo da confiança que a política precisa reconstruir dos laços e pontos de contato
05:52que legitimamente podem ser estabelecidos com as pessoas que não se sentem ouvidas
05:59e dos brasileiros que votaram no outro candidato, que não se colocaram em situação de desertores
06:08e continuarão vivendo neste mesmo país, que em um governo republicano serão tratados de forma justa e democrática.
06:21Governar democraticamente não é governar apenas para os que votaram em nós.
06:28A maioria confere legitimidade ao governo, mas não retira da minoria a sua cidadania.
06:36Quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro.
06:41Essas pessoas não podem ser tratadas como um corpo estranho dentro do país,
06:47nem como se todos compartilhassem das posições extremadas e reacionárias de seus líderes.
06:56Tem preocupações, valores e expectativas que devem ser respeitadas e ouvidas.
07:03O quarto mandato precisa proteger aquilo que o Brasil conquistou e reconhecer que preservar não é o suficiente.
07:15Há jovens mais escolarizados que seus pais e sem oportunidades, famílias sob o risco de voltar à pobreza,
07:25insegurança econômica, violência, uma revolução tecnológica que transforma a profissão
07:32e uma emergência climática que já está prejudicando a vida de milhões de pessoas,
07:42ameaçando segurança alimentar, segurança energética, só para dar alguns exemplos.
07:48Precisamos transformar as conquistas acumuladas em pontos de partida
07:53para um novo ciclo de desenvolvimento social, econômico e ambiental,
07:59melhorar a qualidade de vida, da educação, combinar a proteção social com emprego de qualidade e inovação,
08:08fazer da transição ecológica uma estratégia de prosperidade e enfrentar a violência
08:15e ao crime organizado com inteligência e capacidade efetiva do Estado.
08:20Tudo isso com responsabilidade social, ambiental e fiscal,
08:25dimensões de um mesmo projeto de desenvolvimento.
08:29E falar em pacificação não significa abrir mão das pautas e convicções que nos trouxeram até aqui.
08:38Estamos há poucos dias da COP31 na Turquia e a emergência climática continua sendo uma das questões decisivas do nosso
08:48tempo.
08:49Ontem, o presidente da COP30 apresentou dois mapas do caminho.
08:55Um para acelerar uma transição justa e ordenada para longe de combustíveis fósseis
09:02e outro para deter e reverter o desmatamento e a destruição dos nossos biomas e florestas até 2030.
09:13Essa é uma agenda de desenvolvimento, inovação, segurança energética, produção de alimentos, empregos e qualidade de vida.
09:21O Brasil mostrou que é possível produzir resultados.
09:25Nesse ano, o desmatamento caiu 41,8% na Amazônia em comparação a 2025.
09:36E o mesmo aconteceu no Cerrado com uma queda de 23,8%.
09:42E isso significa que chegamos na Amazônia aos menores índices de suas séries históricas.
09:51A queda na Amazônia, quando comparamos com 2022 no governo de deixar passar a boiada, foi de 71%.
10:01Um feito inédito só para aqueles que não consideram crimes ambientais como se fossem coisas corriqueiras.
10:11São conquistas construídas com ciência, políticas públicas, fiscalização, participação da sociedade,
10:19mas que não nos autorizam a diminuir o passo.
10:23O desafio agora é acelerar e fazer da transição ecológica um dos motores do próximo ciclo de prosperidade do Brasil.
10:32A eleição preservou uma base.
10:35O mandato que começa precisa ter ousadia para construir sobre essa base já estabelecida.
10:43Mas a pacificação não pode ser responsabilidade apenas dos que venceram.
10:50Flávio Bolsonaro recebeu quase 60 milhões de votos.
10:54É uma votação expressiva.
10:56E exatamente por isso aumenta a responsabilidade democrática de quem a recebeu, ou pelo menos deveria ter aumentado.
11:06O gesto esperado seria reconhecer a derrota, agradecer a seus eleitores e fazer a oposição como manda o figurino da
11:17democracia.
11:18Foi exatamente o contrário àquilo que ele fez.
11:22Após a derrota, ele deixou o Brasil, foi para os Estados Unidos, questionou a legitimidade das eleições sem apresentar elemento
11:32capaz de sustentar uma acusação de fraude
11:35e chegou a se apresentar numa primeira versão de mensagem pública, abre aspas, como o verdadeiro presidente eleito.
11:47Uma ironia que só serviu de espanto e de ridicularizações no país e no mundo inteiro.
11:54A soberania popular exige aceitar a vontade soberana das usnas, sobretudo quando ela contraria nossa própria vontade.
12:05Essa reflexão se conecta, para mim, com a experiência que vivi nestas eleições em São Paulo.
12:13Disputei uma vaga no Senado e recebi 7.862.000 votos.
12:23E não fui eleita.
12:25E respeito integralmente a escolha dos eleitores paulistas.
12:30Mas quase votos não podem ser lidos apenas pela ausência de uma cadeira para o Senado.
12:38Houve uma enorme assimetria de estrutura e recursos em relação aos principais candidatos competitivos.
12:47Se for fazer um levantamento entre os meus opositores e até parceiros de jornada, os recursos de que disponho eram
12:56incomparavelmente menores.
12:58Mas mesmo assim, nossa campanha obteve quase 8 milhões de votos numa demonstração de que para o povo paulista defender
13:08meio ambiente,
13:09combater desigualdade, defender democracia e soberania, ter uma visão da democracia, não de circunstância, mas como princípios e valores,
13:20e um projeto de desenvolvimento sustentável importa para o povo paulista.
13:26Recebi esse resultado não como patrimônio pessoal, mas como responsabilidade em nome de uma causa que precisa ser continuada e
13:36ampliada.
13:37Obrigado.
13:37Obrigado.

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