00:00Se você for ao Museu Abílio Barreto agora, vai encontrar na entrada uma charge, logo ao lado, uma fotografia escura
00:05e meio fora de foco de um hospital.
00:07Essa foto foi apreendida pela ditadura.
00:09Eles vieram e pegaram a minha coisa, entrega a máquina. Eu falei, não entrega, a máquina não é minha, é
00:14do jornal.
00:15Eu rebobino o filme, entrega o filme. Aí eles deixaram.
00:19A foto e a charge fazem parte da exposição Mana Coelho, foto pioneira,
00:22que apresenta uma parte de um acervo extenso de mais de 18 mil fotografias feitas pela Mana entre 1976 e
00:291986.
00:31Na época, ela trabalhava para o Jornal dos Bairros, em Belo Horizonte, e fotografava a realidade da cidade durante a
00:36ditadura militar.
00:37Uma coisa que eu vi quando eu fui selecionar as fotos é a quantidade de polícia que aparece em tudo,
00:44porque a polícia estava em tudo.
00:46É um dos perigos que a gente está correndo agora.
00:48Você não pode dar notícia, a possibilidade de prender, de arrebentar com você, de arrebentar com o seu trabalho.
00:54Agora, como morador de bairro da periferia, era muito pior.
00:58Ó, você vem reclamar que o ônibus está ruim, vem polícia em cima da pessoa, com cavalo em cima das
01:03pessoas, jogando bomba de gás lacrimogênio.
01:05Mana era a única mulher a trabalhar como fotojornalista em BH naquele período.
01:09Fotografava eventos históricos e manifestações com apenas 19 anos, ao mesmo tempo em que ingressava na graduação em Ciências Sociais.
01:16Depois, o estado de Minas contratou a Vera Godói.
01:18A questão é o seguinte, a fotógrafa mulher tinha que fotografar moda, criança, gatinho, cachorrinho.
01:26Não fotografava greve, manifestação, polícia batendo.
01:30Eu que estava nessas coisas.
01:31As fotografias feitas por Mana mostram de perto como eram os movimentos dos jornalistas, dos operários, dos estudantes e das
01:37feministas.
01:38Além de incluir algumas fotos de apresentações culturais e jogos de futebol.
01:41Há ainda uma parte requisitada pela fotógrafa que explica como tirar fotos era mais complexo no passado.
01:47Sem tempo ou atenção suficientes, as imagens podiam apresentar defeitos, como aconteceu com a fotografia que está na entrada do
01:53museu.
01:53Uma vez que eu estava fotografando o Aureliano Chaves, ele era vice-presidente e ele foi internado e ninguém dava
02:00notícia do que era.
02:02E aí eu conversei, ele estava no hospital do irmão dele.
02:05E eu fui com a minha câmera dentro da bolsa para não mostrar que eu queria fotografar.
02:10Só que quando eu cheguei, como eu disse, todo mundo me conhecia porque eu só era a única mulher fotógrafa.
02:14Aí eu disse, segurança, o que você está fazendo aqui, maninho, uma hora dessa?
02:18Eu regulei a câmera sem olhar.
02:20E quando a Aureliano passou, eu fotografei.
02:22Acabou que eu tive que entregar.
02:23Mas eu falei com eles, vocês podem pegar meu filme.
02:26Mas acontece o seguinte, que eu sou jornalista e eu vou contar o que eu vi.
02:29Eu vou falar tudo isso.
02:30E as pessoas vão acreditar em mim, porque eu sou jornalista.
02:33Eu sou o olho de quem não está aqui.
02:34E anos depois, o coronel Leozito, que era o chefe da segurança dele, foi lá e me entregou o filme.
02:39Falou, olha como você é boa fotógrafa.
02:41Só que eu ia puxar o filme, que era um recurso que a gente fazia,
02:45que era aumentar o tempo de revelação para poder ficar mais nítido quando o lugar estava escuro.
02:49E eles não fizeram isso.
02:50Então a foto é meio escura.
02:51E aí
02:52Obrigado.