00:00Domingo, quase 11 da noite. A mala da maternidade já estava pronta.
00:05Depois de quase 40 semanas de espera, as contrações começaram.
00:09O destino era a maternidade, mas a violência cruzou o caminho dessa família
00:14antes da chegada de uma nova vida.
00:17A gente estava em casa, a gente estava se preparando para dormir,
00:20e aí a minha esposa começou a sentir contrações, né?
00:24E aí a gente decidiu ir para o hospital, para a maternidade.
00:27Nós já estávamos preparados para isso há alguns dias, né?
00:30A gente já estava com o carro cheio de mala, com roupa do bebê, roupa para minha esposa, roupa para
00:34mim.
00:35No meio da viagem começou a chover. O limpador do para-brisa apresentou defeito.
00:40O Júlio encostou o carro, imaginando que levaria poucos segundos para resolver o problema.
00:45Não imaginava que aqueles segundos mudariam completamente aquela noite.
00:50Esse foi o local que o Júlio resolveu parar o carro para consertar o para-brisas.
00:55Pelo horário não passava quase veículo nenhum aqui na BR.
00:59Ele achou que era um momento seguro, ele precisava consertar o para-brisas porque chovia no momento.
01:06Ele contou que quando parou, chegou a reparar que ali de baixo vinham dois homens.
01:12Mas ele achou que era um momento muito ok para poder fazer aquilo,
01:17até porque esses dois homens, um deles, estava com camisa de uniforme de empresa,
01:23com aquelas paixas refletivas no braço.
01:26Com toda a educação, ele chegou a dar boa noite para a dupla, que respondeu anunciando o assalto.
01:34Era um dois. Um deles estava bem agressivo, o outro estava mais tranquilo, né?
01:37E aí ele falou, não fala nada, isso aqui é um assalto.
01:42E aí eu meio entendendo o que aconteceu, e aí minha esposa na hora pegou os documentos do bebê,
01:48saiu do carro, aí ele pediu para a gente entregar os celulares, entregar as alianças e deitar no chão.
01:55Em poucos minutos o carro desapareceu.
01:58Agora veja a situação.
01:59O relógio marcava quase meia-noite do domingo para segunda-feira.
02:03A BR estava praticamente deserta, o casal ainda tentando processar o que faria.
02:08O homem decide então pedir ajuda, e os dois precisaram vir andando, andando,
02:16por cerca de um quilômetro na BR.
02:19A mulher com 40 semanas de gestação, em início de trabalho de parto, sentindo contrações,
02:26até que eles chegaram nesse ponto e pediram ajuda aqui, neste posto de combustíveis,
02:32que era o único local aberto na hora.
02:35Subi no morro, desci no morro, era 11h30 da noite, a gente tinha parado de chover.
02:41Na hora que a gente desceu do carro, parou de chover, por incrível que pareça.
02:45E aí, quer dizer, a gente andou ali de noite, totalmente deserto, local, com bairros perigosos ali perto, né?
02:51A gente com uma tensão danada.
02:53Chegamos no posto e o pessoal lá que nos ajudou, tinha um ex-policial abastecendo o carro no momento,
03:00e foi quem nos deu todas as orientações necessárias, foi muito importante para a gente naquele momento.
03:04E aí a gente conseguiu contato com o meu sogro, meu sogro foi até o posto e levou a gente
03:08para a maternidade naquela noite mesmo.
03:10Mesmo depois do susto, a vítima surpreendeu o marido.
03:14Ela ficou um pouco chocada com o que estava acontecendo.
03:18Eu acho que o interessante ali naquele momento foi que ela falou assim, olha, Deus é muito bom.
03:25É isso que a gente tem que entender agora, nesse momento.
03:27Deus é muito bom.
03:29Aí ela fez menção de até querer fazer uma oração ali naquele momento, mas como a gente estava no deserto
03:35ali, né?
03:35Enfim, eu falei, não, vamos andando.
03:37Os sentimentos se dividem entre a revolta de perder os bens e a gratidão pela vida.
03:44Era um misto de sentimentos.
03:46A gente estava muito abalado pelo que tinha acontecido.
03:50Toda vez que a gente tinha que relatar para as pessoas que perguntavam, a gente se emocionava.
03:56Eu, por exemplo, fiquei ali naquela noite revivendo esse momento várias vezes, não consegui dormir direito.
04:02Minha esposa também não conseguiu dormir direito.
04:04Então, por um lado, a gente estava muito abalado, revoltado com o fato de que a gente demora anos para
04:11conquistar as coisas.
04:12E em um minuto, simplesmente, alguém tira de você, né? De forma muito brutal.
04:16Mas também com um sentimento muito claro de gratidão a Deus por estarmos vivos.
04:21A nossa filha de três anos não estava no carro no momento.
04:24Isso a gente agradeceu muito a Deus por isso também.
04:26A história mobilizou amigos.
04:28Nas redes sociais, eles organizaram uma campanha de arrecadação para ajudar a família a recuperar parte do que foi perdido.
04:35E ontem, uma boa notícia.
04:37O carro foi encontrado.
04:38Mas os documentos, roupas e objetos levados pelos criminosos continuam desaparecidos.
04:44A gente recebeu a ligação de um soldado da polícia falando que o carro foi encontrado, né?
04:49E aí eu perguntei para ele, o que eu faço agora, né?
04:53Primeiro eu perguntei se os nossos pertences estavam no carro.
04:56Eles nos informaram que não.
04:58Cerca de 24 horas depois do assalto, a esposa deu à luz.
05:02Foi quando, por alguns momentos, o jovem pastor se esqueceu de toda a angústia das últimas horas
05:08e, por meio da fé, exerceu a gratidão.
05:11É um sentimento de muita gratidão a Deus.
05:13Um sentimento de muita felicidade pelo nascimento do nosso bebê.
05:17Em todo momento ali também, naquela ocasião do assalto, indo, caminhando para o posto,
05:23a minha preocupação não era com o carro, não era com os pertences.
05:26A minha preocupação era totalmente focada na saúde dela e do bebê, assim.
05:30Enquanto a polícia procura os criminosos, essa família tenta reconstruir o que perdeu.
05:35Mas há algo que a violência não conseguiu levar.
05:38Na maternidade, no colo da mãe, o bebê que nem imagina a forma que veio ao mundo é acalentado.
05:45Uma história que começou com medo, mas continua com esperança.