- há 2 semanas
Porque a polícia prende, mas os agressores acabam soltos?
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NotíciasTranscrição
00:00Aqui no nosso estúdio eu recebo o advogado criminalista, doutor Rivelino Amaral.
00:04Muito obrigada pela sua presença.
00:06Elza Leite, que é psicóloga e também vai participar com a gente.
00:09E a Paola, gente, a Paola Vieira, a irmã dela, a Ana Carolina Rocha Cortes,
00:15foi morta aqui no centro de Vitória há três meses e também foi um caso,
00:19um feminicídio que ganhou uma grande repercussão.
00:22E ela também veio contar esse relato pra gente, né, de como que a família tem encarado essa dor.
00:26Mas antes, eu queria que o doutor Rivelino explicasse pra gente, o que que explica isso?
00:33Esse suspeito vai duas vezes à delegacia e consegue simplesmente sair pela porta da frente.
00:41Doutor, boa tarde.
00:42Nada explica isso, né?
00:45Em primeiro lugar, assim, como que acontece uma prisão em flagrante?
00:49Prisão em flagrante é quando a pessoa é surpreendida cometendo o crime,
00:53quer dizer, ela tá cometendo o crime e alguém chega,
00:55e vale dizer que todas as pessoas têm o direito, por força da Constituição,
01:00de prender quem tá cometendo um crime, certo?
01:03Então você tem direito, eu tenho direito,
01:05todos nós temos direito de prender alguém que tá cometendo um crime.
01:08Então a pessoa é presa em flagrante quando ela tá cometendo um crime
01:10ou quando ela é perseguida logo depois de cometer um crime.
01:15Essa coisa de 24 horas pra fugir do flagrante não existe.
01:19É uma invenção, mas não existe prazo nenhum pra que a pessoa seja presa em flagrante.
01:24Mas pra tá em flagrante ela precisa ser surpreendida cometendo um crime,
01:27ou seja, ela tem que ser presa quando tá cometendo um crime,
01:30quando tá matando alguém,
01:31ou ela é perseguida, por exemplo, por familiares, pela população, pela polícia,
01:37e ela é pega, e ela tá presa em flagrante.
01:40Se a pessoa não for presa em flagrante, não quer dizer que ela não vai ser presa.
01:44Então, quer dizer, se uma pessoa cometer um crime hoje de manhã
01:47e ela se apresentar no final da tarde à delegacia,
01:50o delegado recebe essa pessoa, deve ouvir essa pessoa,
01:55e se for um crime bárbaro, por exemplo, como esse,
01:58deve determinar a diligência de sua equipe.
02:00Quer dizer, ir ao local, saber quem presenciou,
02:04se alguém presenciou, saber de que forma esse crime foi cometido,
02:10determinar que a equipe de perícia vá ao local
02:13para fazer uma perícia do local do crime.
02:15A perícia fala, né, de que forma que a pessoa morreu,
02:18a que horas a pessoa morreu,
02:20o que que causou aquela morte.
02:22Então, quer dizer, o delegado de polícia,
02:24que é o titular do inquérito policial,
02:26ele recebe uma ocorrência,
02:28ele determina a instauração de um inquérito,
02:30que é uma investigação,
02:32e ele tem que tomar as providências
02:33para poder saber da necessidade de manter aquela pessoa presa.
02:37E isso ali na hora, ele consegue delegar tudo isso
02:40com o suspeito ali na frente dele?
02:42Mesmo que seja no final de semana,
02:44porque no final de semana existe juiz, promotor, desembargador, delegado,
02:49todo mundo trabalhando no plantão.
02:52Então, a pessoa não foi presa em flagrante,
02:55mas nada a obstáculo que o delegado recebendo essa ocorrência,
02:58uma ocorrência de um crime tão atroz,
03:01que faz tanto mal e traz tanto sofrimento para a sociedade,
03:04que represente pela prisão dessa pessoa.
03:07E aí, é um outro nome, mas é uma prisão,
03:10uma prisão preventiva, que é decretada pelo juiz.
03:13Então, o juiz pode, em alguns casos,
03:16decretar a prisão preventiva das pessoas.
03:18Quando que o juiz determina a prisão,
03:20decreta a prisão preventiva de alguém?
03:22Quando essa pessoa representa risco para o processo,
03:24ou quando essa pessoa representa risco para a sociedade?
03:27A Constituição, Roberta, fala que as pessoas todas têm o direito
03:30de responder os processos em liberdade.
03:32Mas tem exceções.
03:33A depender do crime, da forma que foi cometido esse crime,
03:37essa pessoa precisa ficar presa.
03:39Então, quer dizer, se foi um crime bárbaro,
03:41se essa pessoa pode fugir,
03:43se ela pode intimidar testemunhas,
03:44se ela pode ir no local e sumir com elementos de prova,
03:48lavar, jogar a arma,
03:50essa morte, por exemplo, foi uma morte cruel,
03:53por facadas, né?
03:54Quer dizer, a moça foi morta a facadas.
03:57Então, quer dizer, pode sumir com a faca,
03:59pode sumir com elementos de prova.
04:01Então, quer dizer, essa pessoa representa risco para o processo,
04:03ou, se essa pessoa estiver solta,
04:05ela pode novamente atacar alguém,
04:07porque isso é um comportamento que foge da normalidade.
04:10Então, se essa pessoa representa risco para o processo,
04:12ou risco para a sociedade,
04:13o juiz, levando isso em consideração,
04:15pode decretar a prisão preventiva de alguém.
04:17A prisão preventiva não tem prazo para terminar,
04:20ela vai durar até enquanto o juiz entenda
04:23que aquela pessoa solta pode trazer risco para a gente,
04:26essa pessoa pode te atacar, pode me atacar, né?
04:28Ou, essa pessoa representa risco para o processo,
04:30se ele estiver solto, ele pode fugir?
04:32Ele pode intimidar testemunha?
04:34Ele pode sumir com elementos de prova?
04:36Tudo isso é feito no momento em que o delegado recebe a ocorrência.
04:39Ele recebe a ocorrência, ouve a pessoa,
04:42e aí ele vai precisar tomar decisões.
04:45E, ao contrário do que as pessoas pensam,
04:47não é o delegado que, nesse momento aí da prisão preventiva,
04:51não é ele que tem autoridade para fazer essa prisão.
04:55Porém, ele tem autoridade para acionar o juiz.
04:59É isso mesmo, doutor?
05:00Isso mesmo, é.
05:01O delegado, o mesmo poder que o delegado tem,
05:04você tem, de prender alguém flagrante.
05:06Fora isso, o delegado é o executor da decisão do juiz.
05:09Mas, cabe a ele, em determinados casos,
05:13que a gente chama, tecnicamente, de representar.
05:16Que é pedir.
05:16Pedir ao juiz que decrete a prisão daquela pessoa
05:19por força do que ele já viu na investigação.
05:22Quer dizer, quem é aquela pessoa que matou?
05:24Quem é a vítima?
05:25De que forma a vítima morreu?
05:27Se essa pessoa representa risco para o processo,
05:29se as testemunhas viram, imagina,
05:31a filha dessa mulher que viu a mãe morta.
05:34E saber que o pai está solto.
05:36A faca ainda é enterrada no corpo dela.
05:38Então, quer dizer, e aí o delegado,
05:40não obstante não prender em flagrante,
05:42mas nada óbvio, é que ele represente pela prisão.
05:45Agora, é importante também dizer assim,
05:46ah, o delegado errou, o promotor errou, o juiz errou.
05:49Não, né?
05:49Precisa analisar absolutamente tudo.
05:51Mas, você receber uma ocorrência,
05:53você tem que diligenciar, que a gente chama.
05:56Ouvir todo mundo.
05:57Determinar que a equipe vá ao local.
05:59Ver de que forma o crime foi cometido.
06:02Ver de que forma que a pessoa morreu.
06:05Qual o instrumento que foi utilizado.
06:07Enfim, aí com base nisso tudo,
06:09inclusive o delegado já dá uma interpretação dele
06:11àquele caso.
06:12Que ele diz, por exemplo,
06:14ah, essa pessoa cometeu um homicídio qualificado.
06:16Ele já dá uma interpretação.
06:17Ele é o titular do inquérito policial.
06:19Ele é o presidente, melhor dizendo, do inquérito policial.
06:21Quer dizer, ele vai proceder a uma investigação,
06:23instaurar o inquérito policial.
06:24Tem essa autoridade, né?
06:24Tem essa autoridade.
06:25Ele está lá para isso.
06:26Ele é um funcionário público,
06:27e a gente paga ele para ele fazer isso.
06:28Para ele receber a ocorrência e diligenciar.
06:31E saber o que aconteceu.
06:32E, eventualmente, a depender do caso,
06:34pedir a prisão ou não de determinada pessoa.
06:36Até porque a gente está falando aí de um crime bárbaro, né?
06:38A gente está falando de um feminicídio.
06:40E quem há três meses passou por esses processos também
06:45foi a Paola, porque a irmã dela
06:47foi vítima de feminicídio.
06:50O principal suspeito, que é o Matheus,
06:52também teria usado as mesmas estratégias, Paola.
06:56Boa tarde.
06:57Boa tarde.
07:01Infelizmente, mais um caso, né?
07:03Muito parecido com a da minha irmã.
07:09O que nos conforta é que o acusado continua preso, né?
07:15Porque a dor é imensa, é diária.
07:19É uma luta diária que nós enfrentamos, né?
07:23Tendo que continuar a vida, mas a todo momento,
07:28lembramos dela.
07:30Ela era um ser humano incrível.
07:33Da forma como que ela foi morta, né?
07:38Mas, apesar de toda a burocracia para manter o acusado preso,
07:48nós temos muita esperança.
07:52É uma das coisas que me motiva, sabe?
07:56E que é continuar fazendo o necessário para que a justiça seja feita, né?
08:03Dentro do que eu posso estar fazendo, né?
08:06À frente da minha família, por meio do advogado,
08:10em contato com o promotor.
08:13Enfim, é algo assim, que dá um pouco de consolo, né?
08:18À justiça sendo feita.
08:21Na época, o Matheus teria também fugido do flagrante e aí passar do prazo que não existe.
08:27O doutor Rivellino já falou que não existe esse prazo de 24 horas.
08:30Isso é mito, isso é lenda, tá?
08:33Então, não repasse também dessa forma.
08:35Vamos desconstruir essa informação.
08:37É, o Matheus, por ser...
08:39Ele era estudante de Direito, inclusive estava fazendo o último ano, né?
08:44Do curso de Direito e as duas vezes que eu estive com ele, ele me disse que teria um interesse
08:51muito grande em atuar na área criminal.
08:53E ele saiu, né?
08:56Ele cometeu o crime, saiu do local e se apresentou 24 horas depois.
09:03E foi no dia seguinte pela manhã, né?
09:06Se apresentou à delegacia, saiu normalmente, né?
09:11Mas durante o período daquele dia, a Polícia Civil colheu muitos depoimentos que ajudaram a polícia a juntar provas e
09:26levaram para o juiz.
09:27Para mostrar que ele é um perigo, né?
09:30Assim, para a sociedade, né?
09:33Pela forma como...
09:35Pela essência dele, né?
09:37Os depoimentos, os vizinhos falaram de como é o comportamento dele e que ele poderia estar colocando em risco a
09:48sociedade, né?
09:49Se ele continuasse solto.
09:50Por isso, a prisão provisória dele foi decretada.
09:56E depois foi convertida em prisão preventiva e é um conforto para nós.
10:02Mas qual foi o seu sentimento, Paola, o sentimento da sua família quando ele se apresentou à delegacia e foi
10:09liberado?
10:10Ah, uma revolta muito grande.
10:13É uma revolta porque além da dor, que é insuportável, indescritível, só quem passa para saber.
10:20É algo que nós não controlamos, é insuportável.
10:26E ainda ver pela televisão ele saindo normalmente como se nada tivesse feito.
10:34E foi uma crueldade muito grande a forma como ele matou a minha irmã, né?
10:41E, enfim, aquilo foi o que me fez buscar ajuda do advogado, para ser assistente técnico,
10:53para já dar um apoio para nós logo ali na fase de investigação, né?
10:59Na fase de inquérito, para a gente se sentir mais amparada e para ter um apoio a mais, né?
11:06E trazer um pouco de conforto e de consolo para a gente, que é o mínimo, né?
11:10Que nós esperamos.
11:11A gente pergunta de que forma que essa mensagem chega para a sociedade.
11:15Vamos lá, a gente falou aqui rapidamente dois casos de feminicídio em que o principal suspeito
11:21vai, comparece à delegacia e é liberado.
11:25Acaba que isso pode até banalizar para a sociedade?
11:30Se tratando do Brasil, né, o código penal que precisa ser revisto, essa amorosidade das justiças,
11:36ela traz para a gente como sociedade, primeiro, uma sensação de desamparo, desesperança,
11:44de insegurança, de incerteza de que aquele crime, ele vai ser punida,
11:50aquela pessoa que cometeu o crime, ela vai ser punida com a força da lei e num prazo rápido.
11:56Essa demora traz para nós muita revolta, sabe?
12:02Porque você já perdeu o seu ente querido, só que você não vê nada acontecendo depois daquilo.
12:08E é horrível, é uma péssima referência, porque se tem alguém aí em casa pensando em fazer,
12:14ele olha para um exemplo desse e fala, não vai dar nada.
12:18Então, eu posso fazer e acontecer que nada vai acontecer.
12:23Vão me soltar, eu não vou ser preso, vai demorar o julgamento, o advogado.
12:28E assim, sem contar com a cultura que a gente tem de impunidade, que fala, ah, se tiver dinheiro, resolve
12:33tudo.
12:34Então, é muito ruim lidar com essa sensação.
12:37E a família tem que tirar força, tem que tirar recurso financeiro para tentar corrigir o erro que alguém,
12:44que um criminoso foi lá e fez.
12:45É muito traumatizante isso para a família.
12:48É muito traumatizante.
12:49Esse sofrimento, Paola.
12:51Até porque é essa resposta rápida que faz com que você ganhe forças para tentar viver esse luto?
13:01É muito difícil.
13:03A força, eu busco muito na fé, né?
13:07No amor pela minha irmã, pela minha mãe, pelo meu filho, é o que tem me feito levantar e tentar
13:16fazer o máximo
13:17para que a justiça seja feita da melhor forma possível.
13:22Infelizmente, como a doutora que falou, a lei penal tem as suas...
13:33É muito retrógrada, muita coisa precisa melhorar, mas dentro do que é possível, a gente espera que seja feito.
13:43E a gente tem que buscar recursos, realmente, assim, agora eles entraram com um incidente de insanidade mental,
13:52precisamos, tivemos que contratar um psiquiatra para dar essa assistência para a gente,
13:59para que, né, é como eu falei, é que a justiça seja feita da melhor forma possível,
14:04para que a gente tenha consolo e consiga, né, suportar essa dor que, infelizmente, vai ser para a vida toda.
14:11E sobre esse assunto, inclusive, nós conversamos, tá, gente, por telefone com o advogado,
14:16Homero Mafra, que representa o Matheus Sten.
14:19Ele disse que foi anexado ao processo o laudo que confirma que Matheus tem esquizofrenia
14:25e que, inclusive, havia procurado tratamento dias antes do crime.
14:30Ele não nega que tenha matado Ana Carolina, mas teria agido durante um surto,
14:37não tendo consciência dos seus atos.
14:40E sobre isso a gente aguarda, né, o julgamento, a decisão, então, do juiz.
14:46Voltando para o caso que aconteceu nesse final de semana, né, dessa técnica de enfermagem,
14:51uma mulher de 41 anos que morreu vítima de um possível feminicídio.
14:57Doutor, o principal suspeito, a gente está falando que ele foi a duas delegacias
15:03e na outra ele não teria sido nem ouvido, né?
15:08O que que isso mostra? O que que isso quer dizer?
15:11Não sei por que isso aconteceu.
15:12Não consigo te explicar.
15:13Essa é a verdade.
15:14Não sei.
15:15Não sei por que isso aconteceu.
15:16Isso não é comum acontecer.
15:18Se eu cometer um crime de homicídio, de feminicídio, que mata uma mulher a facadas,
15:23não é comum que ele vá a duas delegacias e que, eventualmente, não recaia sobre ele
15:28uma prisão preventiva, né?
15:33A Constituição Federal fala que as pessoas têm o direito de responder aos processos em
15:38liberdade.
15:39Mas a depender do crime que a pessoa cometeu, de que forma que ela cometeu, qual o reflexo
15:45que esse crime teve na sociedade, não há que se falar na possibilidade dessa pessoa
15:49responder ao processo em liberdade.
15:50Essa pessoa representa risco para a sociedade, né?
15:54Então, assim, eu acho incomum isso ter acontecido, sabe?
15:57Foge a normalidade, né?
16:00Nesse caso, por exemplo, que a Paola colocou da Ana Carolina, a prisão foi decretada no
16:06mesmo dia.
16:07Salvo engano, ele foi ouvido na manhã, no final do dia já tinha prisão decretada
16:11contra ele.
16:12A prisão temporária, que é prorrogada uma vez e depois pode ser decretada prisão
16:16preventiva.
16:16Esses nomes todos de prisão, entre aspas, para a gente, não importa.
16:20Importa que a pessoa está presa ou que a pessoa está solta, né?
16:23Então, quer dizer, mesmo que essas pessoas que cometam feminicídio, que traz tanto sofrimento
16:29para a sociedade, traz sofrimento para mim também, traz sofrimento para todo mundo, traz
16:32sofrimento para a minha família, para os meus alunos, para os meus filhos, que cometem
16:37crime dessa natureza.
16:38de matar uma mulher afacada, não é comum que essa pessoa fique solta.
16:45Especialmente que ela vá a uma delegacia, que ela sequer seja ouvida.
16:49Precisa saber o que aconteceu, eu não sei, né?
16:51E assim, como você foge à necessidade da prisão de alguém que não foi preso em flagrante?
17:00Essa pessoa pode pesar contra ela um decreto de prisão preventiva.
17:05Os juízes estão aí para isso, para receberem, os juízes precisam ser provocados, para receberem
17:11essa demanda e decretarem ou não.
17:14Poderia ter uma decisão judicial do juiz dizendo, não é necessário prender fulano.
17:19Ok, a gente tem que respeitar, sabe?
17:21Não tem decisão judicial, não tem decisão certa ou decisão errada.
17:25Tem decisão que tem que ser respeitada.
17:26Mas precisa ter uma decisão. Nesse caso, por exemplo, sequer tem uma decisão, né?
17:31Pelo menos que eu tenha conhecimento, não.
17:33E não é comum que isso tenha acontecido.
17:36Foge da normalidade.
17:37Eu não sei dizer para você por quê.
17:40A mesma perplexidade que causa você, causa a mim também.
17:45Por que que isso aconteceu?
17:46Por que que essa pessoa matou dessa forma, foi lá à delegacia e depois comparece a uma
17:51delegacia especializada e absolutamente nada acontece e é muito esquisito?
17:58E olha só, Elza.
17:59Teve um depoimento da irmã dela, da irmã da Maria de Fátima, dizendo das características
18:05desse relacionamento.
18:07Que ele era controlador, que ele policiava os passos dela, que a Maria de Fátima estava
18:14estudando, né?
18:15Acredito que talvez seja ele focada no curso de técnica de enfermagem.
18:18E essa situação não deixou ele confortável.
18:21Se ela passasse um batom, ele controlava.
18:24São sinais que toda semana a gente está aqui no programa reforçando que às vezes a
18:30mulher espera chegar, ela acredita que a agressão, a violência só vai acontecer quando ele
18:37me bater.
18:38Mas não, esses sinais já aparecem antes, né?
18:41A violência psicológica, por exemplo, se dá nesses sinais.
18:44As pessoas confundem muito o zelo com a posse.
18:48Então, são perfis que são extremamente controladores, eles desacreditam essa mulher
18:52o tempo todo, eles tentam monitorar o que ela come, o que ela veste, com quem ela fala,
18:56com o que ela anda, tenta tirar ela do convívio social com a família, proíbe de trabalhar,
19:02controla o dinheiro.
19:03Isso tudo é violência psicológica.
19:05É violência psicológica, é violência patrimonial, é violência moral e, por último, às
19:10vezes, acontece a violência física.
19:12Só que quando a mulher chega a esse ponto de ser agredida fisicamente, às vezes ela
19:18não vai só apanhar, ela vai ser morta.
19:20Então, a gente não pode, gente, romantizar o ciúme.
19:24Não acha que é bonito a pessoa te controlar o tempo todo, porque isso não é saudável.
19:29Isso é extremamente perigoso, isso pode levar a um crime de passividade, sabe?
19:39A pessoa fica tão imbuída no meio das emoções, de achar que ele é dono do outro,
19:43que ele tira a vida do outro em pensar que esse outro pode estar com outra pessoa,
19:48trair ou contrariar todos esses desejos que estão envolvidos.
19:52Então, a gente não pode, crime passional, perdão, a gente pode ter, a gente tem que
19:57ter muito cuidado com essas posturas, não pode romantizar, por quê?
20:02Porque os resultados a gente vê o todo dia na mídia.
20:04E eram esses sinais que vocês também já tinham percebido no Matheus em relação
20:09a sua irmã?
20:10Isso, após o crime, veio tudo à tona, né?
20:14Infelizmente, a Ana Carolina não mencionou, não entrou em contato, não falou nada conosco,
20:23mas eu soube após o crime, um dia após o crime, eu estive no local onde ela foi morta
20:28e os vizinhos me disseram que ela, há três meses, estava morando lá com o Matheus e desde
20:37do início ela apanhava, as agressões eram contínuas, isso é notório, todos os vizinhos
20:44disseram a mesma coisa e infelizmente só o pai do Matheus sabia, porque o prédio só
20:55tinha um contato do pai, não tinha um contato da família, né?
20:59E enfim, infelizmente nós não pudemos ajudá-la, né?
21:03Eu acho ela por falta de maturidade, ela tinha 24 anos, mas era uma menina, ela era muito
21:11inocente, ele foi o primeiro namorado dela, talvez é isso, é falta de maturidade, ela
21:17não soube pedir ajuda, não soube, talvez não entendeu que aqueles ciúmes que ele tinha,
21:27né, que eu fiquei sabendo depois, que ele tinha um sumo assim, bem, bem, ele...
21:34Controlador.
21:35É, bem controlador, os vizinhos falaram que ele saía, deixava o celular carregando para
21:40saber se alguém entrava dentro de casa, isso ele avisava o porteiro falando que, né,
21:46estava fazendo isso, ele um mês antes dela ser morta, ela saiu, ela pediu demissão do
21:53trabalho, que ela adorava, enfim, mas tudo isso veio à tona depois, infelizmente nós
21:59só, nós não conseguimos ajudá-la, né?
22:02E por...
22:03Eu fiquei, eu me, assim, eu me perguntei durante uma semana do porquê isso, talvez ela achasse
22:09que ele o amasse apesar das agressões e, enfim...
22:14E é aí que tá, Nelsa, a gente não pode confundir, a gente precisa enquanto mãe, vamos
22:19lá para as mães que estão agora vendo o programa, as avós que percebem às vezes
22:24esses sinais e nem sempre é jovem, a mulher primeiro está aberta para ouvir isso.
22:30É, primeiro a mulher acha que não vai acontecer com ela, só acontece com o outro na televisão,
22:34comigo não vai acontecer, porque que eles fazem injuras de amor, ele tem esse ataque,
22:38esse rompante, depois, ai, me perdoa, eu perdi minha cabeça, às vezes ele culpa a mulher
22:42também, foi você quem provocou esse mim, aí ela fica confusa se aquilo é dele ou
22:47se aquilo pertence a ela.
22:48Então, a gente tem que falar, sim, com essas jovens, mãe, avó, pai, se mete, gente, a
22:54gente pode se meter, porque depois a gente fica culpada achando que a gente não fez
22:57nada.
22:58Às vezes a gente fica constrangido de se envolver no relacionamento do outro, mas pelo menos
23:03a gente tem que tentar criar alerta, porque a maioria dessas mulheres são cegas, são
23:07dependentes, são dependentes emocionais, dependentes não só emocionais, em outras
23:11circunstâncias também.
23:13Então, se a gente tentar criar esse alerta, já é válido.
23:16Perfeito.
23:17E olha só, a Polícia Civil informa que o investigado de ser o autor das facadas se apresentou
23:24na Delegacia Regional da Serra e foi ouvido pelo policial que estava no local, sendo coletadas
23:30todas as informações.
23:31A Polícia Civil esclarece que a legislação brasileira estabelece que a prisão de suspeitos
23:36só deve ocorrer em situações de flagrante delito ou mediante mandado de prisão em
23:42aberto.
23:43No caso em tela, não se configurou nenhuma das duas situações, portanto, o mesmo foi
23:49liberado.
23:50Posteriormente, o indivíduo compareceu ao plantão especializado da mulher, acompanhado
23:55de um advogado no mesmo dia, tendo em vista que ele já havia sido ouvido na serra, ainda
24:01não havia mandado de prisão expedido.
24:04E as informações já estavam encaminhadas à unidade responsável pela investigação,
24:10então não houve necessidade de nova oitiva.
24:13Então, para a gente finalizar esse estúdio, mais uma vez a gente deixa aquela pergunta,
24:19por que então o mandado de prisão não foi expedido?
24:22Nós queremos resposta, a sociedade clama por essa resposta.
24:26Gente, obrigada pela participação de vocês.
24:28Doutor Ivelino sempre dando uma aula para a gente, enquanto sempre com o programa Fala
24:32Espírito Santo.
24:33Elza, a gente agradece também nessa mente, viu?