00:02Dói muito, dói muito, dói, dói insuportável, dói insuportável, insuportável, é que seu coração não existe mais, você não tem
00:12mais coração, não tem sentimento.
00:14Não dá pra explicar e eu acho que também não dá pra sentir, perdão, não dá pra explicar e eu
00:20acho que não dá pra sentir, porque é uma dor de explicar.
00:23Não dá pra explicar, sangra, rasga o coração, dá vontade de pegar o peito e jogar fora.
00:27Ele acordou cedo, a gente fomos na casa da tia dele, lá na minha rua tem uma baia, que tem
00:31cavalo e alinha.
00:33Ele passou na baia, ele mexeu com os cavalos, ele mexeu com as galinhas, ele foi na tia dele, ele
00:37chegou na casa do meu irmão, brincou com todos os meus sobrinhos.
00:40Ficou abraçando muito o meu sobrinho, a minha irmã falou meio assim, para até eu, parece que vai morrer.
00:45E ele continuou abraçando.
00:47Aí a gente fomos pra casa e ele ficou vendo um desenho.
00:50Deu a noite, ele pediu o pão, eu ainda falei, vamos jantar, vamos jantar, insisti, insisti, mas ele queria pão,
00:54ele queria pão, ele queria pão.
00:56Pra você ver como é que é, as coisas, eu não tinha dinheiro pra comprar pão.
00:59Ele pegou o celular e ligou pra minha irmã e falou que a minha irmã saia, saia, pão, pão.
01:05Aí minha irmã falou pra mim, que em casa ele pega o dinheiro pra você comprar pão pro hotel.
01:08Eu abri a porta, ele saiu na frente, fechei a porta, ele me deu a mão.
01:14Quando a gente tava no terceiro degrau, eu ouvi pão, na hora que eu ouvi pão, já virei pra pegar
01:18ele pra gente voltar correndo.
01:20Só que não deu tempo, quando eu peguei ele, ele já caiu no meu braço, ele já tinha soltado a
01:23minha mão, caído no meu braço, ele já tava, ele já tinha tomado o tiro.
01:26O primeiro tiro que eles deram acertou no meu filho e varou no cérebro dele.
01:31Na hora eu não tive nem reação.
01:34Ela gritando e eu não sabia o que eu fazia, entendeu?
01:37Sabia se eu corria pra socorrer, eu que eu fazia.
01:40Na hora eu travei, cara.
01:42Porque você vê seu filho rindo pra você o dia todo, brincando com você, depois seu filho tá ali sanguentado,
01:49sem poder pedir um socorro, não ter como se ajudar com uma criança inocente, né?
01:54Então é uma dor suportável, tá?
01:57Muito suportável mesmo.
01:58Tá aí correndo pra rua com o meu vizinho que mora embaixo, ele falou, vamos lá, né, minha irmã, vou
02:02pegar o carro, vou pegar o carro.
02:03A gente saiu correndo, só caiu meu outro vizinho, pegou e veio com o carro, aí ele já me colocou
02:08dentro do carro, foi comigo, foi conversando com o meu filho, ele falou, poxa, Tel reais, Tel, Tel.
02:13Aí ele falava, Tel, Tel, pelo amor de Deus, Tel, pelo amor de Deus, Tel.
02:16Ele falava, Tel, não faz isso não, Tel, pelo amor de Deus, pelo amor de Deus.
02:19Eu não recebia ainda que você tava do lado dele.
02:21Eu tava segurando a mãozinha dele e tava olhando no monitor.
02:25E o monitor começou, a pressão dele começou a baixar demais, aí depois essa alteração começou, o coração começou a
02:32diminuir.
02:32E eu coloquei a mão no coração dele.
02:35Ele foi, foi parando, foi parando, foi parando, e eu com a mão no coração dele senti até que parou
02:41de bater.
02:42Aí a médica veio, tentou reanimar o coração dele, mas ali o Deus já tinha levado o meu filho.
02:47Eu botei, eu senti a batida do coração dele até a última batida.
02:52Porque o pai vê seu filho ali morto, cara, é a pior cena do mundo, na hora que me chamava
02:57pra reconhecer ele no encrotério.
02:59Foi a pior sensação do mundo ver seu filho costurar, seu filho que só ria, só brincava.
03:04Então, não desejo isso pra pai nenhum, família nenhuma.
03:07Muito divertido, o dia todo ele ria, ele caía, ele ria, assim, nós brigava com ele.
03:13O Tel não fazia isso, ele tava nem aí, ele ria, brincava mesmo, ficava bebichate, bebichate o tempo todo.
03:20Era muito, pra ele não tinha tempo ruim, era só felicidade.
03:25Graças a Deus, meu filho, fez muito bem pra muitas pessoas aqui na Terra.
03:30O desejo da família agora é por justiça.
03:33Querem que os assassinos de Tel paguem pelo crime.
03:37Eu quero que quem fez isso com ele pague em vida, não com a morte, entendeu?
03:40Que ele pudra se arrepender, que ele lembrar, pô, mateu uma criança, cara.
03:46Como eu consegui matar uma criança.
03:48E se ele tiver filho ou filho um dia, olhar pra seu filho e lembrar,
03:52poder lembrar também o sofrimento que o pai e a mãe dele tá passando agora, entendeu?
03:56Espero a Deus que Deus nunca toque na família dele, pra ele não sentir a dor que nós estamos sentindo.
04:01Essa, Deus, só justiça, só isso que eu queremos, só isso, nada mais.
04:12Tchau, tchau.