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320 mulheres foram presas esse ano por tráfico de drogas no estado.
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NotíciasTranscrição
00:00Então a gente começa o programa de hoje falando da notícia da morte de uma traficante durante um confronto no
00:07Rio de Janeiro
00:08e isso reacendeu a discussão do envolvimento das mulheres no tráfico de drogas.
00:14Rayane Nazaré, ela era conhecida no meio do tráfico como a Hello Kitty.
00:19Ela começou no tráfico de drogas aos 15 anos, olha isso gente, com 15 anos.
00:24E detalhe, foi por influência do pai que também morreu no confronto com a polícia na semana passada.
00:32Ela era considerada um dos braços direitos do chefe do tráfico no complexo do Salgueiro.
00:38Ela também era acusada de vários roubos e homicídios.
00:42E nós fomos atrás da realidade capixaba.
00:46Quando a gente fala de mulheres no tráfico de drogas, este ano teve um aumento nas prisões.
00:52Em todo o ano passado, olha só essa diferença, 496 mulheres deram entrada no sistema prisional capixaba por tráfico de
01:02drogas.
01:02Uma média, gente, de 41 prisões por mês.
01:06Neste ano, detalhe que a gente está em julho, hein, já foram 320 prisões.
01:12Uma média de quase 46 por mês.
01:15Os dados são da Secretaria de Justiça, a Sejus.
01:19Então, bora falar sobre esse assunto?
01:21Estou aqui no estúdio e recebo hoje a advogada criminalista, Laila Freitas, e também a socióloga, Maria Ângela Rosa.
01:29Obrigada pela presença de vocês.
01:31Uma boa tarde.
01:33Boa tarde.
01:33O que atrai as mulheres para o tráfico?
01:36Mesmo sabendo de todo o perigo, mesmo sabendo de todos os riscos,
01:41a gente vê cada vez mais mulheres participando do tráfico de drogas.
01:48O que atrai?
01:52Pega o microfone aí para a gente.
01:55Achou?
01:56Isso.
01:56Obrigada, Maria Ângela.
01:57Está ligado.
01:59Essa é a minha prática com os microfones.
02:02Bom, boa tarde a todos.
02:04Prazer estar aqui.
02:05Prazer em rever a Roberta.
02:07Que eu não vou resistir em dizer que eu conheci bebê.
02:11Me contou isso chegando aqui, nem eu sabia.
02:13Olha que honra entrevistá-la, hein?
02:15Mas a questão, assim, eu acho que o tráfico, a gente analisa por uma questão do crime,
02:22depois a doutora vai explicar, no crime, está no corte penal e etc.
02:26Mas o tráfico, ele precisa ser visto, antes de tudo isso, no meu entendimento,
02:30como um segmento econômico altamente rentável, de fácil acesso, assim,
02:37não exige diploma, pós-graduação, grandes estudos,
02:42paga bem mais do que o 1.100 do salário mínimo.
02:45Você está dando esses valores do aumento de mulheres nas prisões.
02:53Sim, no momento de pandemia, a gente teve um aumento enorme de diversos problemas,
03:01inclusive desemprego, que é altíssimo, e a carência de tudo.
03:08O que ocorre, né, essas mulheres, também homens, também jovens, né, a questão.
03:15O tráfico, às vezes, é o que está disponível, né, porque o lugar de fala é dessas pessoas.
03:24Só quem vive, assim, a carência de A a Z consegue explicar o porquê dessas questões.
03:31Então, ao invés da gente analisar apenas, claro, é um crime, é um crime,
03:35está no Código Penal, no Código Penal é crime, tudo bem, não estamos discutindo isso.
03:40Mas a gente não pode analisar essa adesão sobre uma questão moral apenas.
03:46Isso é uma questão de necessidade.
03:47Se a gente pensar que temos um auxílio emergencial de R$ 150,00
03:53para uma família sobreviver um mês inteiro com R$ 150,00,
04:00a oferta do tráfico é extremamente tentadora.
04:03Então, nós estamos aqui justificando?
04:06Não, a gente está explicando.
04:08Até porque o caminho mais rápido, nem sempre é o caminho mais certo, né?
04:14Sim, sim.
04:15As pessoas sabem isso, as pessoas sabem o risco.
04:18Tem muita gente que está arregaçando as mangas aí para trabalhar, para lutar,
04:20a gente vê pessoas no sinal, por exemplo, arrumando outra forma de pedir ajuda,
04:25gente que depende, às vezes, de cesta básica da igreja,
04:28gente que depende de doação ali no sinal.
04:30E ainda assim, essas pessoas conseguem, de alguma forma, garantir o sustento da família.
04:35Sim, sofrendo enormes preconceitos, sendo negligenciados por uma enormidade de pessoas,
04:42sendo tidos como desconfios dessas pessoas,
04:46ah, não precisam tanto, estão aqui para tirar proveito.
04:48Então, tem uma série, isso também não sai de graça, não, né?
04:52E é uma questão extremamente confusa.
04:55Então, o tráfico se ampliou, é um segmento econômico.
04:59Enquanto a gente não pensar o tráfico nessa perspectiva,
05:03a gente não consegue resolver esse problema, nem dos homens, nem das mulheres,
05:07nem dos adolescentes, nem dos jovens que entram nessa questão.
05:11Se você analisa, e quando a gente conversa com pessoas que militam na questão,
05:17o dono do tráfico não está lá no morro, o dono do tráfico não está lá na boca,
05:26o dono do tráfico está em locais que a gente não imagina que esteja.
05:33Porque é um segmento que mobiliza 5 bilhões de dólares por ano.
05:38Se você perguntar a uma mulher dessa, escreve aí 5 bilhões de dólares,
05:42quantos zeros põe depois dos 5, a maioria não vai saber.
05:46Então, é bastante interessante, mães que vão falar disso,
05:50na hora que nossos filhos, nós vivemos em uma sociedade
05:53que o ter é mais importante do que ser.
05:56E é uma vida de ilusão, porque a pessoa não dura muito tempo ali.
06:00Sim.
06:00A Laila lida com isso, advogada criminalista, qual é a realidade dessas mulheres?
06:05Olha só, rapidinho, Laila, o Tiago Valadão está participando aqui com a gente pelo Facebook,
06:09ele fala que o tráfico de drogas não tem preconceito, aceita homens e mulheres.
06:14Mas a gente sabe o machismo que existe ali, que geralmente o dono da boca é o homem,
06:22uma mulher dificilmente consegue chegar nesse poder.
06:25Ou não.
06:25Mas qual é a realidade dessa mulher, Laila, que entra para o tráfico de drogas?
06:30Boa tarde a vocês, é uma honra estar novamente, ainda mais com a professora,
06:33que já tivemos em outros momentos juntas.
06:35Na questão social, eu não tenho nem o que considerar, porque ela disse muito bem.
06:40Fazendo uma análise sobre as mulheres e também sobre a lei de drogas,
06:44que é uma lei específica, existem considerações a ser feitas.
06:48Por exemplo, antigamente seria possível falarmos que existem mais homens do que mulheres
06:54e ainda existem mais homens do que mulheres no alto escalão em relação à organização do tráfico de drogas.
07:01Mas hoje as mulheres, elas estão cada vez mais desempenhando um papel principal nessas questões.
07:06Antes da pandemia isso já vinha acontecendo e com a pandemia, possivelmente,
07:10por tudo que a professora também indicou, o desemprego, a fome, a saúde e por aí vai,
07:16questões sociais e econômicas mesmo, isso desencadeou um número maior.
07:20O grande problema que a gente tem, creio que a professora vai concordar comigo,
07:25é que a lei de drogas, ela só pune, ela não busca justamente ressocializar,
07:30trazer uma alteração de vida social, cultural e econômica para essas pessoas.
07:35O que traz o que a gente já tem hoje, que é o superlotamento, o superencarceramento
07:41dentro das unidades prisionais, onde três, quatro pessoas deveriam estar numa cela,
07:45nós temos 15, onde um único presídio feminino não comporta mais nenhuma mulher.
07:51Além de todas as próprias penalizações ilegais que acontecem, como tortura,
07:57alimentação estragada, falta de atendimento à saúde.
08:01Então, aquela mulher ou aquele adolescente, aquela adolescente que entra nesse status e é presa,
08:08e no início da sua vida criminosa, digamos assim, ela vai sair dali pior, provavelmente.
08:15Justamente porque o Estado não buscou trabalhar essa pessoa.
08:19Então, as mulheres, elas estão, assim como os homens, buscando compreender de forma melhor
08:25o atendimento à vida dos seus familiares, porque geralmente tem filhos menores,
08:30tem família sustentável.
08:31Não que eu esteja justificando, mas a mulher que vai, por exemplo, para a rua pedir dinheiro,
08:37como a professora disse, ela passa por uma situação não só vexatória, não só humilhante,
08:43mas também perigosa, porque pode passar por uma situação de risco.
08:46E nem todo mundo, e eu entendo o porquê disso, está disposto a passar por isso.
08:50Justamente porque o tráfico, de forma errada, criminosa, oferece oportunidade.
08:56Fácil, errado, mas de uma forma mais abrangente.
09:00Então, isso é interessante.
09:01Para a gente entender como que, de fato, uma mulher, ela é atraída para o tráfico,
09:06o que nós fizemos?
09:07Nós convidamos a Aline Knup.
09:09Gente, durante 10 anos, ela trabalhou para o tráfico de drogas aqui no Espírito Santo.
09:15Hoje, ela já mora em outro estado, conseguiu recomeçar a vida.
09:19Aline, obrigada pela sua participação aqui no Fala Espírito Santo.
09:23Conta para a gente, como é que foi que tudo isso começou na sua vida?
09:27A partir de qual momento que você começou a ingressar na vida do crime?
09:33Boa tarde, Roberta.
09:35Boa tarde, delegada, professora que está aí conosco e todos os telespectadores.
09:40De início, que a graça e a paz do nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos que estão nos ouvindo
09:45agora.
09:46Me sinto honrada de estar aqui para tratarmos sobre esse assunto que é muito importante.
09:52Pois bem, Roberta, eu costumo dizer nas palestras, quando eu tento, quando eu vou ajudar essas meninas
10:01que estão saindo da criminalidade, do tráfico de drogas, tantas meninas como os rapazes,
10:08eu costumo apontar duas vertentes.
10:11Acredito que a professora e a delegada que está conosco aqui, onde concordar também.
10:18Duas vertentes que são ponto alto que acaba levando as mulheres, também os homens, a se envolver na criminalidade.
10:26Comigo, aconteceu no berço.
10:30Quando eu falo berço, é da família desestruturada.
10:34Eu vim acompanhando o que a professora vem falando e com muita veracidade nas palavras.
10:42É a questão do nível social, a questão da dificuldade financeira.
10:47Mas tem também, no meu caso, o meu pai.
10:51Minha mãe se envolveu com um homem que já era usuário de drogas, traficante de drogas.
10:58Eu cresci vendo meu pai usando heroína.
11:01Eu cresci vendo meu pai usando drogas.
11:03Então, a droga sempre foi muito presente na minha vida.
11:08E com cinco anos de idade, eu já ia visitar o meu pai na cadeia.
11:14Então, para mim, como criança, já fazia parte do meu ciclo de convívio.
11:20Então, para mim, acabou se tornando um pouco que normal.
11:24A ponto que o meu pai me apresentou a maconha.
11:28Eu fumava maconha com o meu pai.
11:30Então, uma das vertentes que acabam levando uma mulher ou um homem que seja a se envolver nas drogas, na
11:39criminalidade,
11:40é a questão do beijo, da criação.
11:42Só que hoje nós sabemos, Roberta, também, que a droga e o tráfico atingiram os pontos mais altos da sociedade.
11:52Atingiu classe alta, pessoas que têm dinheiro.
11:58Mas, pastora, Aline, o seu pai te estimulou atirar, o seu pai te ensinou esse caminho, você aprendeu esse caminho
12:09e se envolveu na criminalidade.
12:13Com a morte do meu pai, com a morte da minha mãe, que o meu pai morreu no tráfico de
12:17drogas, eu me tornei dona do tráfico de drogas.
12:20Mas, por outra vertente, que é o que a delegada falou aí também, é a questão do glamour, a questão
12:30do status,
12:32a questão de não encontrar, às vezes, uma oportunidade de sair, de se ressocializar, que não é uma desculpa.
12:43Claro, mas acaba se envolvendo.
12:46O que eu costumo dizer é o seguinte, para as meninas que estão nos ouvindo ali agora,
12:52que às vezes acham que é um papo, ah, que papo, careta.
12:56O que os nossos olhos acabam vendo, às vezes, e até algumas letras de música e funk acabam dando apologia,
13:05mostram apenas a rosa, mostram apenas a beleza, mostram o perfume do tráfico, que é o quê?
13:15É o dinheiro fácil, é a ostentação do ter perfumes caros, bolsas caras, de marca e de uma vida de
13:25glamour.
13:26O que tem por trás disso, Aline, que muitas das vezes a mulher só vai sentir depois na pele mesmo?
13:34Que é o que eu ia até abordar agora, Roberta, quando chega a hora dos espinhos.
13:40Por quê?
13:41Todo aquele glamour, todo aquele dinheiro fácil, isso tem consequência.
13:46Isso vai chegar uma hora que a conta vai chegar, não é verdade?
13:52Muitas mulheres, elas não são traficantes, no meu caso eu me tornei traficante porque o meu pai era,
13:58mas algumas mulheres se envolvem com os homens traficantes por dinheiro fácil,
14:03pela vida boa que isso me proporciona, logo após, o que acontece é que o homem vai preso,
14:11ele acaba sendo detido e a mulher, às vezes com o sentimento de, vou mostrar o amor,
14:19vou mostrar, vou dar uma prova de amor para ele.
14:22Vai acabar se tornando dona do tráfico de drogas, cuidando das finanças,
14:26cuidando do giro, do capital que acontece ali, ou seja, ela passa a ser a traficante no momento.
14:36E isso traz depois, começa a trazer prejuízos, inclusive a gente mostrou uma foto ali
14:42que representa várias perdas que você teve, não é isso?
14:49Verdade, eu até falei com a produtora, eu falei, olha, eu até faço questão de que passe,
14:55hoje eu sou pastora no Mato Grosso, a mês que vem eu estou aí no Espírito Santo,
14:58eu tenho muitos amigos aí no Espírito Santo, e a foto dessas pessoas que estão aí para vocês verem agora,
15:06são amigos de infância, são amigos que se envolveram na criminalidade,
15:12e que eu vi esses amigos morrerem, inclusive o meu pai foi assassinado cruelmente,
15:18apaulado e pedrada pela questão do tráfico de drogas.
15:23Então, isso aí, galerinha, está chegando aí, se envolvendo agora no tráfico de drogas,
15:28isso aí é os espinhos.
15:31Você lembra quando a mãe fala assim, olha o caixão, olha o cadeiro,
15:34às vezes as pessoas na sociedade falavam, bandido bom é bandido morto?
15:38É porque a verdade é que esse caminho que muitos estão entrando,
15:44agora muitos jovens estão entrando somente pelo amor, a beleza,
15:48tem consequências gravíssimas que podem levar à morte.
15:52Hoje eu estou viva pela misericórdia, porque a mão de Deus me alcançou.
15:57Mas essas pessoas que estão aí em fotos, esses amigos jovens,
16:02vocês podem perceber que muitos aí não chegaram aos 20 anos de idade,
16:07tiveram a vida interrompida, ceifada, devido a dívida de drogas,
16:13se envolver com guerra de tráfico de drogas.
16:15Então, fica o meu apelo aqui a todos que estão assistindo,
16:19por favor, acorda enquanto há tempo, escute a mãe,
16:24mães, por favor, cocaína não tem cheiro,
16:28uma mãe até tem cheiro, mas cocaína não tem cheiro,
16:31olha, vai atrás, procure saber, fique em cima,
16:36em nome de Jesus, acima de tudo, busque a Deus,
16:38porque só o Senhor é o caminho.
16:42Acredito, Roberta, que a professora e a delegada também
16:46há de concordar comigo.
16:49A palavra que eu disse em Mateus 11, 28,
16:52vinde a mim todos estão cansados, sobrecarregados,
16:55e eu vos aliviarei.
16:57Isso é o Cristo dizendo, e eu acho que,
16:59além do trabalho social,
17:02o acompanhamento espiritual também é muito importante
17:05para poder ajudar essas pessoas a sair.
17:07Aline, já já eu quero saber como que você deu essa reviravolta,
17:10como que tudo mudou, mas antes você tocou num ponto
17:13muito importante que eu quero consultar aqui
17:14as nossas especialistas,
17:16que ela disse que é questão da educação,
17:19desde berço, o homem, então, de fato,
17:22ele é fruto do meio, aquela criança que nasce,
17:26cresce ali naquele ambiente, onde se torna normal,
17:30o pai, a mãe vender droga,
17:32ver o pai fumando baseado, usando drogas também,
17:35é maior a chance dessa pessoa se tornar também
17:39uma pessoa no crime?
17:41Sim, porque passa a ser, a gente, na verdade,
17:44nós somos socializados, a família, a religião,
17:47olha, o que ela está dizendo, a religião é importante,
17:49mas hoje o Deus moderno é o dinheiro,
17:54infelizmente, quer dizer, temos Aline,
17:56eu considero uma exceção.
17:57Um Deus falso, né?
17:58Sim, sim, um Deus entre aspas aqui,
18:02um todo, né?
18:02Deus entre aspas, mas o dinheiro hoje é o que faz as pessoas
18:06serem percebidas como pessoas,
18:09serem percebidas como gente,
18:11deixar de ser invisíveis,
18:13e você pensar, um adolescente,
18:15para uma criança e um adolescente,
18:17a invisibilidade é uma das piores violências que existem.
18:22Então, se ele chega no shopping vestido com as coisas
18:25que ele pôde, o vestido todo arrumado,
18:27de acordo com o que o tráfico lhe permitiu,
18:29ele é uma pessoa, se ele chega no shopping com as roupas
18:33que o salário mínimo de R$ 1.100 do pai dele permitiu,
18:37ele vai ser primeiro investigado e já é suspeito
18:39antes de abrir a boca.
18:41Então, é uma questão, assim, que vai se aprendendo isso também
18:44desde pequeno, independente, o pai, a mãe, a vizinha,
18:48a sociedade que ele está, a sociedade é essa,
18:50a mídia passa o quê?
18:51Quem é o importante da mídia?
18:54Quem tem coisas, não é quem é.
18:57Ser hoje, ter é mais importante do que ser.
19:00E a mídia, os meios todos vão colocando esse tipo de questão.
19:05Quando a doutora vai falar, vai falar até dentro
19:08do próprio sistema prisional,
19:10quem tem mais tem regalias,
19:13quem tem menos tem menos regalias.
19:16Uma coisa interessante para todas as mulheres
19:18é que, inclusive, dentro, a situação das mulheres
19:21é desigual na sociedade, em todas as esferas,
19:25em todos os segmentos, inclusive no sistema prisional.
19:29É também diferente.
19:30Inclusive no tráfico também.
19:31Sim.
19:32E essas mulheres, depois que são presas,
19:34elas são abandonadas.
19:35Eu ia falar exatamente sobre isso, Roberto.
19:37Porque quando o homem vai preso,
19:39quem está lá na fila para visitar?
19:41A mulher.
19:42E a mãe.
19:43E aí, quando a mulher vai presa...
19:45Existe um documentário que trata exatamente sobre isso,
19:48sobre as mulheres encarceradas e que são abandonadas,
19:51não só pela sociedade, como por seus familiares.
19:54E é justamente uma demonstração de como a sociedade trata as mulheres,
19:58a questão de gênero mesmo.
20:00A mulher, ela é literalmente abandonada dentro da cadeia.
20:04Dificilmente tem visitação para mulheres.
20:06Independente de ter filhos, de ter marido, de ter a mãe,
20:11ela realmente é deixada de lado.
20:13É importante em relação à questão do meio, professora,
20:17coadrando novamente com tudo o que disse,
20:19que nós somos produtos, sim, do meio social.
20:22A realidade dessas mulheres, dessas pessoas que se envolvem com o tráfico,
20:27é aquela da comunidade,
20:28que não tem como sair da questão do risco social,
20:33do risco cultural, do risco econômico.
20:33Então, por isso que a gente sempre vê uma repetição de perfil?
20:36Sim, sim.
20:38Porque ele quer alcançar aquilo que a mídia vende para a gente,
20:41aquilo que a sociedade vende para a gente,
20:42que é o capital.
20:43O status hoje, ele está conectado ao capital.
20:46E a droga também está conectada ao capital.
20:49Por que ela está fazendo circular?
20:50Dinheiro.
20:51Então, aquela pessoa, aquela mulher,
20:54pelo menos da experiência que eu tenho, viu, Roberta?
20:56Ela não está fazendo aquilo pelo status de primeiro ponto,
21:00e sim para poder ocupar o espaço que a pessoa, o homem, tinha,
21:05que era de demandar a família, que era sustentar a família.
21:07Agora, muitas mulheres, já vi diversas reportagens,
21:11muitas mulheres entram para o tráfico de forma indireta.
21:17Pelo marido.
21:18Pelo marido, porque ama,
21:19e aí ela começa a fazer um papel ali, um papel aqui, né?
21:24Sim, Roberta, mas hoje...
21:25Sendo uma, sendo pior, e olha só os termos que elas recebem.
21:28Mas hoje, a mulher já assumiu também seu protagonismo.
21:33Isso hoje não é mais recorrente, só isso.
21:35Começou dessa forma.
21:36Você cobriu que o marido, o noivo, deixou,
21:39porque você precisava de fazer.
21:41Agora, hoje, a mulher também assumiu seu protagonismo.
21:44Existem mulheres que assumem porque é seu lugar.
21:48Ela também tem esse poder, ela também aprendeu a atirar,
21:51ela também aprendeu a enfeitar a realidade que ela vive.
21:53Ela aprendeu a assumir, né, uma parte de protagonista.
21:58Então, essa é uma questão...
22:00Meu Jesus.
22:02Pensa lá tocando aí, pode deixar que a gente...
22:05Não, é o alarme.
22:05É o alarme.
22:06Aí, a questão é de protagonista também em todas essas esferas.
22:12Então, é um processo, assim, que o meio vai colocando.
22:15Agora, uma questão que a gente fala muito,
22:16questão de classe e de cor, quando a gente está falando disso.
22:20As classes altas têm também tráfico, tem também...
22:24Só que também é outro tipo de droga,
22:27porque houve um tempo que a maconha era de pobre,
22:30cocaína era de rico, isso já mudou.
22:32Agora, tem as drogas sintéticas que também...
22:34Tem, que são importadas, que vêm...
22:36São mais caras.
22:37São mais caras e que os pobres não têm acesso.
22:40Então, nós temos tráfico de drogas e temos essas questões
22:43em todas as classes sociais.
22:44Só que só aparece para a doutora lá uma determinada classe
22:49e, fundamentalmente, a cor, que também...
22:52Negra, pobre, normalmente.
22:54Essas são as questões.
22:55Enquanto você desliga aí o seu alarme,
22:58deixa eu tirar uma dúvida aqui com a Laila.
23:00Qual é a consequência, quando uma mulher entra para o tráfico,
23:05qual é a consequência disso para a família?
23:08Desestrutura, né?
23:10Uma desestrutura que já existe, socialmente falando,
23:13familiarmente falando, porque, geralmente, essas famílias,
23:16e aí são dados que nós estamos debatendo aqui, de fato.
23:19A família, ela tem uma desestrutura quanto ou ter um pai ausente,
23:22ou ter uma situação de alcoolismo, ou de outras drogas ali dentro
23:27daquela família, daquele quadro familiar.
23:30Uma criança que se vê sem a mãe, de repente, que vai presa.
23:33Ou que a mãe é violenta.
23:34Então, assim, já é uma família desestruturada economicamente
23:39e socialmente falando.
23:40Quando acontece da retirada desta mãe, você piora ainda mais a situação
23:45falando dessas crianças, não só da mãe que vai presa,
23:47mas das crianças, dos familiares que dependem dela.
23:50Porque a quem ela tem como...
23:53Referência.
23:54Referência.
23:55E, muitas vezes, algo que a gente não discute,
23:57e a professora, eu sei que vai concordar comigo,
23:59é que o tráfico pode ser referência para eles.
24:02Não de uma forma correta, mas aquilo que o pai não conseguiu,
24:05aquilo que a mãe não conseguiu,
24:07o tráfico, em tese, ele tenta cumprir esse papel,
24:11dando segurança, dando retorno, sentimentalmente, inclusive.
24:15Porque existe uma união, entre aspas, entre eles, né?
24:19E isso é interessante de se discutir também.
24:22Não que seja certo, né, Roberta, como nós falamos,
24:24mas eles buscam, de alguma forma, cobrir esse papel
24:27e aí acaba sendo uma via de mão dupla,
24:31onde a pessoa, a mãe, a criança,
24:33entende que ela tem uma certa dependência emocional
24:37e não só financeira daquela situação ali.
24:39E uma questão aqui, Roberta, o Estado é ausente nesses lugares.
24:44A gente já vai tocar nesse ponto,
24:45de que forma que o Estado pode contribuir,
24:48quais políticas públicas.
24:50Antes, deixa eu só ler aqui o comentário do Adriano Veríssimo,
24:52que ele fala, a maioria dessas mulheres
24:55herdam de seus companheiros a liderança do tráfico.
24:58É o caso aí da Hello Kitty,
24:59uma visão de vida fácil por meio de obtenção de poder,
25:02ver o retrato de uma família desestruturada,
25:06que também o pai dela foi o que aconteceu com o pai dela também.
25:09E são muitos os casos de famílias que foram, gente,
25:13destruídas pelo tráfico.
25:14O seu Marcelo, ele perdeu uma filha que foi assassinada na época.
25:19Ela tinha apenas 19 anos.
25:21Hoje, inclusive, eu liguei, conversei com o seu Marcelo,
25:23uma pessoa maravilhosa,
25:25e aí ele gravou um vídeo para a gente falando desse sofrimento.
25:28Olha aí.
25:29Filhos, filhas, netos e netas,
25:35procuram ouvir seus pais, suas vós, sua avó,
25:40seus tios, tia.
25:43Isso é muito importante porque,
25:46acho que em 2014, né,
25:49eu perdi uma filha assassinada por causa de drogas,
25:53por teimosia e ela nunca queria ouvir.
25:58A vida continua, mas ainda por dentro de mim
26:01tem uma dor muito forte e grande,
26:04porque eu perdi minha filha.
26:06Hoje ela estivesse vivo, estaria com 24 anos.
26:14Infelizmente, eu perdi ela.
26:17A gente sente a tristeza na fala desse pai.
26:22Sim.
26:22Isso passa pela televisão, pela tela,
26:26a gente chega a arrepiar com a fala desse pai.
26:29Muito obrigada, Sr. Marcelo, pela sua participação.
26:33Fala para a gente de que forma que as famílias que estão em casa agora,
26:37acompanhando o Fala Espírito Santo,
26:38como que a gente pode identificar, né?
26:42A Aline já começou a fazer esse alerta,
26:45principalmente quem tem crianças, adolescentes em ambiente vulnerável.
26:49O que a gente pode fazer pelas nossas famílias?
26:55Crianças, é preciso ser acolhidas, né,
26:58e ser amadas e acolhidas e entendidas como importantes dentro dessa questão.
27:05Ninguém nasce determinado para o crime.
27:08Ninguém, né, essa questão de que é da natureza do crime, não é.
27:13As pessoas aprendem a ser, né,
27:16como aprendem a ser racista, aprendem a ser machista,
27:18aprendem a ser homofóbico, aprendem a ser...
27:21Todas essas questões são aprendidas.
27:23Isso ninguém nasceu determinado para.
27:26Ninguém nasceu determinado para ser traficante,
27:28ninguém nasceu determinado para ser assassino,
27:31ninguém para ser feminicida.
27:34As pessoas se tornam analisando o que está acontecendo no entorno onde vive.
27:41Que entra a família, entra a escola, entra a religião,
27:43entra as instituições socializadoras
27:46que vão precisar de formar essas pessoas para dar um destino,
27:52te dar uma motivação para buscar caminhos que não sejam esses.
27:58Quando esses caminhos são negados, negligenciados,
28:02o que aparece e hoje o tráfico está ali do outro lado da rua,
28:06é muito simples e muito fácil de escorrer.
28:09Nós estamos dizendo que está certo, está errado,
28:10não, nós estamos falando da realidade do mundo.
28:12A presença é muito importante, né?
28:14E que a família, geralmente, não tem uma rede familiar,
28:18não tem uma rede de apoio.
28:20A gente fala muito isso com mulheres vítimas de violência.
28:23Então, que a mulher, que os pais tenham essa rede de apoio familiar,
28:27que muitas vezes não é um familiar próximo, como a avô, a avó,
28:31mas é uma amiga próxima que pode estar sendo de confiança.
28:35Tá certo, gente.
28:36Obrigada pela participação de vocês nesse assunto tão importante.
28:39Eu só quero dar os parabéns aqui para a Tássia Oliveira.
28:42Para a gente encerrar, aqui ela falou o seguinte.
28:46Calma aí que eu vou achar o comentário da Tássia.
28:48Ninguém entra na minha mente de nada, tá?
28:51Ela falou.
28:51Porque ela já teve um marido que foi preso por tráfico de drogas
28:56e nunca escondeu nada na casa dela.
29:01Ao contrário, ela sempre deixava de fora.
29:03Ou seja, ela soube se esquivar desse problema dentro da casa dela.
29:08Parabéns, Tássia.
29:09Quero trazê-la um dia aqui no programa
29:11para servir como um bom exemplo para a gente, tá bom?
29:13Obrigada pela presença de vocês.
29:15Tchau, tchau.