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  • há 15 minutos
Criança foi abusada dos 9 aos 12 anos por amigo do pai e suspeito é preso no ES.

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00:00De janeiro a abril, presta atenção nesse intervalo, o Espírito Santo notificou 519 casos de pacientes vítimas de abusos sexuais.
00:11São meninos e meninas com menos de 14 anos que foram atendidos na rede pública de saúde.
00:18E você aí de casa, você sabe identificar, perceber os sinais de que seu filho, seu sobrinho, seu vizinho está
00:25sendo vítima de abuso sexual?
00:26E mais do que isso, não é só saber identificar, é preciso conversar sobre esse assunto com as crianças, ensinar,
00:35educar, é tudo muito importante, por mais que o tema seja delicado.
00:39Então, bora aí, ó, chama o neto, chama o filho, chama o sobrinho, porque aqui no estúdio eu recebo a
00:44psicóloga Aline Hessel, que vai falar pra gente sobre esse assunto tão delicado, né?
00:50Que mais do que perceber os sinais, é preciso também saber introduzir esse assunto com as crianças.
00:58Boa tarde, Aline, obrigada pela sua presença.
01:01Boa tarde, Roberto, obrigada pela oportunidade mais uma vez estar aqui e a gente poder conversar com o seu público,
01:06que é muito grande aqui em Vitória e tenho certeza que a gente pode ajudar bastante eles com informações que
01:11a gente vai poder gerar hoje aqui.
01:13Se Deus quiser. Então, ó, já chamou a criançada aí pra frente da TV? Chama, minha amiga, chama, porque vamos
01:19começar por partes, Aline.
01:25Como que a gente introduz esse assunto pra que elas criem com a gente uma relação de verdadeira amizade, de
01:35contar pro pai, contar pra mãe, pro tio, pro avô, pro avó, seja quem for, né?
01:39Contar pro responsável que algo de estranho está acontecendo.
01:44Olha, é algo que eu considero muito importante, que as pessoas às vezes confundem, que é o que a gente
01:50chama de educação sexual.
01:51Quando a gente chama de educação sexual, a gente não está querendo introduzir à criança ou à infância um assunto
01:58ou algo que não seja adequado à idade dela.
02:01É justamente o contrário.
02:03A educação sexual tem esse nome, mas o objetivo é ensinar as crianças, pelo menos da primeira infância, o que
02:10são partes íntimas, o que não é parte íntima,
02:13o que a gente pode expor ao outro, o que a gente não deve expor.
02:17Então, assim, isso pode ser trabalhado tanto na escola quanto em casa.
02:23E junto com essas informações do que pode ou não ser feito com o corpinho dela, também uma relação de
02:29confiança entre pais e filhos,
02:31onde a gente consegue conversar, onde a gente pode expor o que a gente sente, o que a gente não
02:35sente, independente da questão sexual.
02:39É um espaço aberto nessa relação.
02:42Então, vamos lá. Você é mãe?
02:43Sou.
02:44Quantos?
02:45Dois filhos.
02:45Dois filhos. E também é psicólogo.
02:47Isso.
02:48Como que você... Você já conversou sobre isso com seus filhos?
02:50Sim.
02:51Como que você conversa?
02:53Primeiro, eu ensinei eles sobre partes íntimas.
02:56Então, por exemplo, por que a gente usa calcinha, shorts, tudo para cobrir essa parte?
03:00Tem duas peças de roupa para cobrir essa parte.
03:03Por quê? Porque essa parte é só nossa, é só a gente que pode colocar a mão.
03:07O papai e a mamãe e o médico, quando com o papai e com a mamãe que podem mexer.
03:13E se alguém quiser encostar naquela parte, que antes eles venham conversar comigo ou com o pai, que são as
03:19pessoas de confiança.
03:21Por que a gente faz isso?
03:22Porque muitas vezes a gente fala para a criança, ninguém pode mexer aqui, hein?
03:26Se alguém querer mexer aqui, não pode.
03:28Aí o que acontece?
03:29Caso aconteça, a criança acha que ela fez alguma coisa de errado e ela pode não querer contar para os
03:36pais.
03:37Então, a gente tem que tomar muito cuidado quando a gente fala o que pode e o que não pode
03:41para a criança,
03:42porque ela pode interpretar como se ela faz algo errado quando o adulto mexe nas partes íntimas dela.
03:50Agora, é uma vez na vida que a gente conversa sobre isso com a criança?
03:53Então, já expliquei, já falei sobre esse assunto ou a gente deve sempre relembrar a criança sobre isso?
04:00É um trabalho constante.
04:01Existem muitos livrinhos infantis que a gente pode explorar com as crianças.
04:06A escola deve falar com as crianças, porque daí existe uma diferença, Roberta.
04:11Existe uma faixa etária com 3, 4, 5 anos que as crianças têm curiosidade.
04:17Então, elas vão, entre os seus iguais, querer explorar.
04:20Ah, o que você tem aí?
04:21É igual o meu?
04:22E essa exploração, ela é saudável.
04:25A gente precisa controlar, claro, porque não pode ser...
04:29Socialmente, a gente não faz isso, mas elas têm uma curiosidade ali.
04:32Assim como elas ficam curiosas com a plantinha, com os alimentos, elas vão ter curiosidade sobre o corpinho delas.
04:38Então, matar essa curiosidade num ambiente controlado, uma vez matada essa curiosidade, acabou por ali.
04:44O problema está quando acontece em crianças de idade diferente.
04:49Então, uma criança de 3, 4 anos com uma outra criança de 10, 11 anos, já não é uma curiosidade
04:55que tem que ser matada
04:56e tem que ser orientado e restrito essa liberdade onde eles estão podendo explorar isso, caso esteja acontecendo.
05:03E olha só, gente, foi preso aqui no Estado...
05:06Por que a gente está falando sobre esse assunto?
05:08Presta atenção nisso.
05:08Porque foi preso aqui no Estado um homem suspeito de abusar sexualmente...
05:13A gente está falando de um menino de 12 anos.
05:16Essa era a idade da criança.
05:17E esse homem foi preso em Belo Horizonte, Minas Gerais.
05:19Os abusos começaram quando a criança ainda tinha 9 anos.
05:24E escuta só esse detalhe.
05:25Foi a criança, foi esse menininho que contou para a tia sobre a violência que ele vinha sofrendo.
05:31Isso aconteceu porque ele assistiu uma reportagem na televisão sobre estupro de vulnerável.
05:38Olha só, acompanhe.
05:39O homem de 53 anos foi preso na região metropolitana de Vitória após uma operação conjunta da Polícia Civil de
05:47Minas e do Espírito Santo.
05:49No momento em que os fatos se tornaram públicos, no momento em que a criança revelou os fatos e foi
05:54até a polícia junto com sua família
05:56para noticiar que era vítima de estupro há três anos, esse homem foi ouvido, negou tudo e de imediato ele
06:05evadiu para o Estado do Espírito Santo.
06:08O suspeito estava foragido da justiça desde que o caso foi denunciado em abril deste ano.
06:14Ele estava comandado de prisão preventiva em aberto e é investigado por estupro de vulnerável.
06:20Segundo a polícia, o menino sofreu os abusos dos 9 aos 12 anos de idade.
06:26Um dos casos foi presenciado pelo irmão mais velho dele, que também sofreu uma tentativa de agressão sexual pelo homem.
06:34Os dois não teriam contado sobre a violência para a família por medo.
06:39A gente ressalta que é muito difícil para uma criança informar de imediato o que acontece.
06:45Ela precisa desse trabalho psicológico até mesmo para entender o que aconteceu.
06:49O homem que trabalhava como motorista de ônibus na capital mineira morava com o pai da vítima na região do
06:55Barreiro.
06:56Os genitores dessa vítima eram separados e a criança visitava o pai a cada 15 dias.
07:04O investigado, por ser um grande amigo do pai das crianças, residia junto com ele.
07:11E, portanto, ele teve acesso amplo e restrito a essas crianças todas as vezes que elas iam visitar o pai.
07:18De acordo com a delegada da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, a vítima relatou os abusos sofridos
07:25desde 2019,
07:27após assistir uma reportagem sobre o assunto na televisão.
07:31Como é importante empoderar a vítima, empoderar a criança, explicar para ela o que é certo e o que é
07:37errado,
07:37o que significa abuso, independente da idade dela.
07:41É claro, utilizando as palavras corretas de acordo com a idade dessa criança.
07:45Esse menino estava vendo uma reportagem que tratava sobre abuso sexual.
07:51Ele estava na casa da avó e questionou a tia dele o que exatamente seria isso, o que seriam as
07:56partes íntimas.
07:58E, no momento em que a tia explicou, sentou com ele para assistir a reportagem,
08:02esse menino caiu em desespero, caiu em choro e revelou que ele mesmo era vítima
08:07e que ele não entendia aquilo que acontecia com ele, aqueles atos que o investigado praticava com ele há três
08:14anos.
08:16Está vendo aí, gente, a importância da gente saber conversar sobre esse assunto com os nossos filhos?
08:22Aqui no estúdio, a gente também recebe a Priscila Oliveira.
08:25Muito obrigada pela sua participação, Priscila.
08:28Nada, que isso, boa tarde.
08:28Ela já sofreu isso na pele, né? Abuso sexual quando era criança.
08:34Conta um pouquinho para a gente, Priscila, como é que foi a sua história.
08:37Obrigada pela sua presença aqui no Fala.
08:39Então, quando a gente se fala de abuso, eu costumo dizer que a gente dá sinais.
08:46Hoje, eu com quase 40 anos de idade, eu consigo entender que tudo que eu fazia, né,
08:57quando criança e quando adolescente na escola, eu estava dando sinais,
09:04querendo que alguém tivesse um olhar para mim.
09:07Porque naquela época ainda era mais difícil, além dos pais, não acreditar no que a criança estava falando,
09:17também tinha a questão de você ter medo de conviver com o abusador, porque você mora com o abusador, né?
09:25É, geralmente, o abusador não está tão longe.
09:29É um pai, é um tio, é um avô.
09:32Então, assim, você pensa assim, para onde eu vou?
09:35Se a minha mãe não acreditar em mim, se eu não tiver alguém que acredite em mim.
09:40Então, você começa a fazer coisas, né?
09:46Tipo, é ruer um, ia morder a roupa, se automutilar.
09:52Então, você cresce aquela criança depressiva, agressiva, né?
09:57Então...
09:58E você demonstrava todos esses sinais?
10:00Tudo isso, eu demonstrava.
10:02A partir de quantos anos?
10:03Eu já começava a demonstrar isso a partir de 8 anos de idade.
10:08Como é que era?
10:09Quem é que abusava de você?
10:10Qual foi a sua história?
10:12Então, quando eu era pequena, né?
10:16Minha mãe foi uma mãe de muitos filhos.
10:19E me deu para o meu pai, e meu pai deixou eu morar na casa do meu avô paterno, por
10:25parte de pai.
10:27Então, isso acontecia por parte do meu avô paterno.
10:33Então, como eu contaria isso para minha avó?
10:38Eu já sabia que eu não tinha como ir ficar com minha mãe na época, quando eu era criança.
10:42Era muita dificuldade financeira que ela passava.
10:45Já era horrível para ela ser mãe de vários filhos e ter sido abandonada pelo meu pai.
10:52E, na ocasião, meu pai não podia ficar comigo também, porque já estava em outro relacionamento.
10:58E eu ficava pensando para onde eu iria.
11:01E eu tinha que enfrentar aquilo sem contar para minha mãe.
11:06E se eu contasse para minha avó, eu ia ficar desacreditada.
11:11E você carregou isso para você para o resto da sua vida?
11:13Assim, até agora?
11:14Nesse tempo, por algum tempo da minha vida, eu tive que carregar.
11:18Porque uma vez, quando uma menina de criação da minha avó chegou a comentar, ela não acreditou.
11:25Então, eu pensei, quando eu falar, ela também não vai acreditar em mim.
11:30Olha só, Aline, a gente percebe, assim, o que ela carregou...
11:34Porque ele não tinha abusado só de mim.
11:36Então, como outras meninas contavam para ela e a forma com que ela agia, quem ia para fora de casa
11:43ia ser eu, no caso.
11:45No caso, não seria ele que ia para fora, eu que ia para fora de casa.
11:50Mas ela carregou não só isso até a vida, né, durante a vida dela, mas também ela se colocou no
11:57lugar de todas essas pessoas.
11:59Por isso que ela guardou isso para ela.
12:02Quais são os traumas que isso pode trazer para a vida da Priscila e também para a vida de outras
12:06crianças que estão agora assistindo a gente?
12:09Olha, as consequências disso vai de cada pessoa, de cada personalidade.
12:14E também como essa história se desenrolou, né, porque você está trazendo uma informação que é importante.
12:22O que as famílias fazem quando ficam sabendo?
12:26Se essa criança tem apoio, se a fala dela é escutada, é acreditada, isso minimiza os danos do abuso.
12:38Quando a criança tem que reprimir isso, sente medo de falar ou percebe que ela não é respeitada, não é
12:45ouvida,
12:46isso intensifica e pode, com certeza, piorar as consequências desse abuso.
12:51Então, é muito importante como as crianças são acolhidas e recebidas dessas informações compartilhadas.
12:58Certo, então agora também para participar aqui da nossa conversa, eu convido a Rúbia Rodrigues, ela é conselheira tutelar e
13:05lida, gente, diariamente com esses casos,
13:08que assim como a Priscila está aqui contando, né, chocam a gente.
13:12Boa tarde, Rúbia, obrigada pela sua participação aqui no Fala Espírito Santo.
13:17Como é que é, para você que lida com isso, né, você ouve aqui a história da Priscila, de outras
13:22mães também,
13:22é assim, geralmente as crianças têm medo de contar, de relatar para alguém da família, Rúbia?
13:30Boa tarde, Roberta, boa tarde a todos.
13:33Infelizmente, né, eu sinto muito pela Priscila e por todos, né,
13:37a Priscila falou um ponto muito interessante, importante da gente pensar.
13:42A criança, ela não tem essa obrigação, a gente não pode jogar uma responsabilidade nela,
13:48dela ter que pensar que quem ela vai ficar, né, igual ela falou,
13:52ah, eu sabia que minha mãe não tinha como, né, ficou sozinha, o pai deixou,
13:57o pai tinha uma nova família, quer dizer, o pai antes de ter essa nova família,
14:01ele já tinha a Priscila, né, o seu filho é a sua prioridade.
14:05A partir do momento que você já tem um filho, ele é seu filho, ele é a sua prioridade,
14:09você não pode colocar uma nova família acima disso, né.
14:12E são várias informações que a gente precisa de pensar, igual ela falou,
14:19algumas coisas que a criança demonstra, né, roer unha, tem muita questão de puxar cabelo, né,
14:24são várias informações que a criança vai demonstrando a gente,
14:27a gente precisa de ter sensibilidade de ouvir e prestar atenção naqueles pequenos detalhes.
14:32Agora, o que a gente percebe, de acordo com vários casos que a gente já mostrou aqui no Falho Espírito
14:37Santo,
14:38inclusive você já contou pra gente, a Aline também,
14:40é que muitas das vezes o abusador é uma pessoa próxima, né.
14:46Maioria das vezes, eu tô pra dizer, e com os 90% das vezes é alguém que tá dentro de
14:51casa.
14:52Eu, em 10 anos que eu estou aqui em Cariaciga, no Conselho de Estelar,
14:55eu não me recordo de, acho que um caso, que foi aquela situação assim,
15:00ah, o carro passou, puxou, essa história que a gente tem,
15:03óbvio que a gente tem que ter medo, tem que tomar cuidado, né, de andar na rua, de situações,
15:07em situações, mas assim, em relação ao abuso sexual, 90% é dentro de casa,
15:13se não é um familiar, é alguém muito próximo.
15:16Aí, é mais difícil ainda, Aline, lidar pelo fato de ser alguém da família,
15:21de, a criança já não quer se abrir por conta disso,
15:24e de resolver, porque como que você vai afastar, né, a criança daquele ambiente?
15:29É complicado? É mais difícil ainda desemaranhar tudo isso?
15:32Sim, é difícil até porque a família tende a querer negar esse assunto,
15:38como se fosse uma forma de, que ele não fosse acontecer.
15:42Muitas famílias têm dificuldade de olhar pra isso,
15:45como uma forma que, ah, se eu não vi, se eu negar, ele não aconteceu.
15:50É muito difícil até mesmo pras famílias admitirem que um marido,
15:54que um pai, que um avô, tá fazendo algo tão cruel com uma criança.
15:59Então, a negação, muitas vezes, entra como uma estratégia emocional,
16:04uma estratégia ruim, uma estratégia não positiva, né,
16:08pra aquela família lidar com aquela situação e negar,
16:12descreditando no que a criança está falando.
16:14A gente tem uma participação aqui no Facebook que chama muita atenção,
16:18a Marina fala, isso acontece muito com mães que são apaixonadas, né,
16:23elas não acreditam nas crianças, elas acreditam que elas estejam falando aí,
16:25no caso de um companheiro, né, quando a mãe é muito apaixonada pelo companheiro.
16:29Não é o caso da Marina, ela fala que ela não sofreu abuso,
16:33mas geralmente a mãe não acredita na criança.
16:38Isso aconteceu também com você, quando você começou a contar, como é que foi?
16:42Então, no caso, eu também penso nisso por causa da minha história,
16:48e chegam outras histórias a mim, né, que a mãe é apaixonada pelo marido
16:54e não acredita na adolescente.
16:56E acaba o que acontecendo é que muitas dessas adolescentes acabam saindo de casa
17:02e virando mãe precoce, tendo que arrumar uma família muito nova.
17:08Participei de várias ONGs hoje, né, gosto muito de participar do social,
17:12por ter passado por isso.
17:15Porém, o perfil do abusador é um perfil de um homem sério,
17:19é um perfil de um homem trabalhador,
17:21é um homem que, dentro de casa, ele é acima de qualquer suspeita.
17:25Então, assim, quando você conta, a criança conta, a criança está mentindo,
17:31a criança está querendo chamar atenção por alguma coisa,
17:36então a criança acaba sendo desacreditada realmente.
17:39E eu costumo dizer que, para as outras meninas e para quem tem os seus filhos
17:46para dentro de casa, que prestem atenção, acreditem,
17:50porque o abuso, você deixa uma marca que ela vai levar para toda a vida.
17:57Aquilo a criança, ela vai levar na adolescência.
18:02E até hoje, eu faço tratamento, eu vou em psicólogo,
18:06tratamento terapêutico, porque para você lidar com a sociedade,
18:11para você lidar com novos relacionamentos, é muito complicado.
18:16Porque aquela marca ficou em você.
18:19Algumas pessoas são mais fortes que as outras,
18:22algumas demonstram ter força, mas é luta para mim.
18:27Eu digo na minha vida que eu luto todo dia.
18:29Você foi abusada dos sete anos até qual idade?
18:33Eu lembro, eu vou ser sincera para você,
18:36eu lembro de um último abuso que ele tentou.
18:40Eu ia completar 15 anos e eu peguei uma faca para ir para cima dele
18:47e falei assim, agora vai ser eu contra você.
18:50E isso era tão ruim porque eu continuei sendo criança.
18:54E essa pessoa, ela me tirou a vida lá.
18:59Porque eu costumo dizer que eu sou uma eterna criança.
19:04Eu não consegui desenvolver tanto quanto as outras pessoas.
19:08Quais foram os traumas que isso deixou em você, Priscila?
19:11Nossa, me matou lá.
19:15Lá.
19:16E eu falo assim, claro que Deus me perdoe por isso.
19:19Eu preferia ter morrido do que ter certas lembranças.
19:23Então, assim, me matou lá atrás.
19:25Às vezes, as pessoas cobram muito da gente, psicóloga.
19:30Assim, coisas que, ah, você consegue, você vai ser curado.
19:35Mas a ferida foi aberta em mim.
19:38Então, é mais fácil você julgar a pessoa.
19:42Muitas vezes me cobram eu ser mais adulta.
19:45Porque eu tenho o que eu não vivi lá na minha infância.
19:48Eu fui obrigada a ser adulta muito cedo.
19:50Eu fui obrigada a trabalhar para me virar muito cedo.
19:54Então, hoje eu quero ser aquela criança que eu não fui.
19:57Eu não sei se a senhora também conhece pessoas assim, lida com pessoas assim.
20:02Então, eu tenho uma mente criança.
20:07Então, aquela menina morreu lá atrás.
20:10Ou continuou, parou lá atrás.
20:12É possível, Aline, cicatrizar essa ferida da Priscila?
20:17Olha, Roberta, eu como psicóloga e com quem trabalha com as emoções e com a mente das pessoas,
20:23eu realmente acredito que é possível.
20:24Mas isso não significa que é fácil ou que é possível para todos.
20:28Então, buscar um tratamento terapêutico é fundamental.
20:31Acredito que esse trabalho em ONGs, em poder falar sua história, em poder ajudar outras pessoas que passam por isso,
20:37é algo que com certeza colabora com lidar com essa ferida, tentar cicatrizar essa ferida.
20:45Mas acredito que ter um acompanhamento terapêutico, um apoio familiar, buscar uma rede de apoio,
20:51é o que pode ajudar a essa caminhada de cura.
20:55A gente também tem a participação aqui de um outro telespectador.
20:58Eu vou fazer o seguinte, a partir de agora, gente, eu não vou mais mencionar nomes
21:01para preservar também a identidade de vocês, caso vocês prefiram assim.
21:06Um telespectador fala, ele mora em Vila Velha, sofreu abuso sexual aos 7 anos de idade,
21:12é um menino, tá?
21:14E dos 7 aos 10 anos, ele escondeu isso da família dele por muitos anos,
21:20hoje ele é depressivo, tem crise de choro, mal-estar na cabeça.
21:24Gostaria de saber o que deve fazer.
21:27Inclusive, ele tem até uma consulta marcada agora com o psiquiatra,
21:30pois ele não anda bem, nem no trabalho, ele está conseguindo, sabe,
21:34ele atender as expectativas no trabalho.
21:37O que essa pessoa deve fazer, Aline?
21:38Pois é, você vê que o abuso em si, ele pode gerar um impacto na vida da pessoa
21:43em diferentes áreas, não é só em relacionamentos ou amadurecimento, né?
21:48Pode ser em diferentes áreas.
21:49E aí é importante as pessoas buscarem uma ajuda, um acompanhamento terapêutico,
21:54buscar um psiquiatra, é fundamental isso para conseguir, de alguma forma, lidar.
22:00Porque é um impacto muito grande, sim.
22:03E acredito que só com acompanhamento psicoterapico e medicamentoso, talvez,
22:08vai conseguir superar isso.
22:10Inclusive, tem um assunto aqui que gerou uma polêmica aqui no Facebook,
22:14que é sobre o pai tomar banho com a filha.
22:17Isso pode influenciar de alguma forma, Aline?
22:20Olha, não há mal nenhum no pai e a mãe tomar banhos nus com seus filhos.
22:27Isso não é um problema.
22:28Mas como isso é feito, a orientação que isso é feito.
22:31Então, por exemplo, como eu falei, uma criança pode ter a curiosidade,
22:34e naquele momento ela quer tocar, ela quer ver o que está acontecendo ali.
22:38E ali é importante o pai e a mãe mostrar, não, olha, aqui é o meu corpo,
22:41da mesma forma que a gente não toca no seu corpo, você não toca no meu corpo,
22:45a minha parte íntima, eu e você somos pai e filha.
22:48E isso se respeita a cada família.
22:50Tem famílias que não gostam de fazer isso e, ok, não há uma regra.
22:54Fazer isso previne ou não fazer, não tomar banho previne.
22:58Não.
22:58É a forma como a família lida com aquela situação,
23:01como ela conversa com a criança de forma aberta.
23:04Muitas pessoas têm medo de orientar as crianças sobre parte íntima,
23:08sobre as partes do corpo, achando que vai antecipar o fim da infância.
23:13Mas é o contrário, a gente dando a elas informação numa linguagem adequada à idade delas,
23:19é o que a gente tem de melhor para preservar a infância
23:22e impedir que um outro adulto pode chegar e cometer um abuso,
23:26e aí sim a gente acabar com a infância dessa criança.
23:29E Priscila, como que você saiu desse contexto todo,
23:33já que você morava ali, o abusador estava junto com você?
23:36Então, com 15 anos, a minha avó veio a falecer e volto com a minha mãe.
23:46E assim, a viver ali, e minha mãe sempre criou a gente na igreja.
23:54E eu comecei desde nova a cantar, a gostar de música, a ter fé.
24:02E acredito que a igreja, ler a Bíblia, nunca foi um pedido de ninguém.
24:11Eu sempre quis, eu sempre tive interesse de saber sobre Deus, sobre as coisas.
24:15Então, isso me ajudou muito desde criança.
24:18Quando eu não tinha ninguém, eu ia para um cantinho, falava com Deus,
24:22eu acreditava que tudo ia passar.
24:24E o que me mantém hoje também, né?
24:26Hoje, a música, eu sou cantora, sou compositora, e é isso aí.
24:32E os projetos sociais que eu participo, isso me ajuda, minimiza um pouco a dor.
24:39Eu não sou a única, e isso me deixa feliz e triste ao mesmo tempo,
24:45porque, por saber que, enquanto nós estamos conversando aqui,
24:50no nosso estado, está acontecendo abuso, tem abusador,
24:54e eles estão abusando dentro das nossas casas.
24:57Enquanto a gente tem tanto medo de deixar nossos filhos na rua,
25:01de deixar nossos filhos em um parquinho,
25:03o abusador está lá dentro da nossa casa,
25:08contra os nossos filhos, né?
25:10E isso, gente, não é só para quem tem filha, mulher, não.
25:12Menino também, que foi o caso aqui do telespectador, que eu li, né, Aline?
25:16Menino também se torna vítima.
25:18Sim, não há aí as fantasias de uma pessoa adoecida,
25:24porque, né, para cometer esse ato não haveria outra definição.
25:28Não tem limites, né?
25:29Pode ser menino, menina, bebê.
25:32Agora, a nossa conexão por Skype com a Rúbia, do Conselho Tutelar,
25:36infelizmente a nossa conexão caiu,
25:37mas você aí de casa, se você desconfia de algo, né,
25:42seja do vizinho, seja do primo, do neto, enfim,
25:46gente, seja de quem for, é importante fazer a denúncia, né?
25:50Priscila, você hoje, já que você atua, inclusive, nessa causa,
25:55qual a importância?
25:56Deixa um recado para o pessoal de casa, a importância de denunciar,
25:59a importância de salvar essa vida, porque foi o que você disse, né?
26:02A criança ficou lá atrás.
26:04Então, primeiramente, Roberta, se você já identificou
26:10que está acontecendo algo de errado com o seu filho,
26:13você conhece seu filho e sua filha.
26:16Se você identificou, mesmo que você trabalhe muito,
26:20se você identificou que tem algo errado no seu filho,
26:22você identificou que está roendo muita unha, está muito nervoso,
26:27procura saber se é algum tipo de violência, ou física, ou sexual.
26:31Se você conseguiu identificar, ame mais o seu filho.
26:35Não dê atenção ao abusador, não tenha medo de denunciar.
26:39Vai até o fim, porque se a criança está sofrendo esse tipo de abuso
26:44e você não tiver um olhar hoje, ele vai carregar para o resto da vida dele.
26:49Então, denuncie mesmo.
26:51Tá certo.
26:52Gente, obrigada pela participação de vocês.
26:54E principalmente você, Priscila, por vir aqui e abrir a sua vida
26:58e que você consiga recomeçar a todo dia.
27:02Amém.
27:02Amém.
27:02Obrigada, viu, Aline, também pela sua presença.
27:04Obrigada.

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