- há 13 minutos
Nesta estreia da série "A Eleição que Eu Vi" — em que jornalistas do Grupo RBS relembram eleições marcantes que cobriram —, o correspondente em Brasília Matheus Schuch fala sobre o pleito de 2018. Foi uma eleição de rupturas: o fim do financiamento empresarial de campanhas exigiu disputas mais baratas, e a expectativa de uma repetição da polarização entre PT e PSDB não se confirmou. No lugar dela, cresceu a candidatura de Jair Bolsonaro, então no PSL, que sofreu um atentado a faca e fez uma campanha atípica até a vitória.
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NotíciasTranscrição
00:00Marca a história da política brasileira é o atentado sofrido por Jair Bolsonaro.
00:05O candidato que eu estava acompanhando na ocasião praticamente não saía de casa,
00:09não por uma questão de saúde.
00:11E a gente nem falou ainda que em 2018 o atual presidente Lula estava preso.
00:20Eu sou o Matheus Schuh, sou correspondente do grupo RBS em Brasília,
00:24tenho uma coluna em Zero Hora.
00:25Então eu fui para Brasília em 2016 como repórter na época da Rádio Gaúcha,
00:30mas já participando um pouco também da cobertura online,
00:33que estava já ganhando cada vez mais relevância,
00:37para acompanhar o dia a dia da política.
00:39Eu decidi compartilhar com vocês a eleição de 2018,
00:43não porque foi a primeira que eu acompanhei presencialmente,
00:47acompanhando os candidatos em vários atos de campanha,
00:51estando também na capital federal.
00:52Mas eu acho que é uma eleição que traz muitas novidades para o ambiente nacional
00:59e ajuda a explicar um pouco onde nós estamos agora.
01:02Até porque a eleição onde nasce, digamos, Jair Bolsonaro
01:05é uma polarização que existe até hoje.
01:08Em 2018, o primeiro ponto que eu acho que é importante a gente mostrar
01:14que é uma novidade, marca a história da política brasileira,
01:19é o atentado sofrido por Jair Bolsonaro.
01:22Nesse momento, até para contar um pouquinho para vocês
01:24como foi para a gente no Grupo RBS,
01:27na época eu estava na sucursal do Grupo RBS,
01:30junto com outros colegas, com a Carolina Bahia,
01:33que muitos aqui acompanharam por bastante tempo,
01:35era colunista naquela ocasião,
01:37com colegas do jornal, da TV,
01:40e a gente assistiu pela televisão,
01:42porque era um ato injusto de fora,
01:44em Minas Gerais,
01:45a gente ainda não estava viajando muito naquela ocasião,
01:48porque era o início ali ainda da campanha,
01:52e foi algo que no momento em que aconteceu
01:55a gente já tinha certeza de que a eleição mudaria muito.
01:57Bolsonaro, na época, um partido pequeno,
02:00era um candidato que estava ganhando muita força,
02:02muita atração,
02:03muito em função da Operação Lava Jato,
02:06a gente vai falar mais sobre essa influência daqui a pouco,
02:08e foi um momento determinante
02:11para o que seria depois o resultado dessa eleição.
02:15E tem uma curiosidade que eu quero falar
02:17sobre como foi cobrir uma eleição
02:19em que o candidato que eu estava acompanhando na ocasião
02:23praticamente não saía de casa,
02:24não podia sair de casa por uma questão de saúde.
02:28Para se aproximar das pessoas que eram do entorno dele,
02:32que eram poucas e que, como eu disse,
02:34eram um pouco desconfiadas da imprensa,
02:36uma estratégia que a gente usou foi ficar hospedado no mesmo hotel,
02:40na Barra da Tijuca, bem perto da casa de Bolsonaro,
02:45porque, estando no mesmo hotel,
02:47a gente, pelo menos, via as pessoas no café da manhã,
02:51no hall de entrada,
02:52e conseguia ali estabelecer alguma relação.
02:55Então, eu fiz isso com alguns colegas
02:58de outros veículos de imprensa,
02:59e aí a gente conseguiu ali já estabelecer uma relação
03:02que durou depois, aliás, por bastante tempo,
03:05durante todo o governo.
03:06Foram pessoas que já tinham o mínimo de relação,
03:09sabiam quem a gente era.
03:11Isso gerou alguma relação de confiança
03:13dentro do que o jornalista sempre precisa ter com fonte,
03:16para a gente conseguir acessar algumas informações.
03:19Então, foi uma alternativa.
03:22Na época, eu tive que acionar o administrativo da RBS
03:26para trocar de hotel,
03:27porque, evidentemente, não estava no hotel do lado
03:29da casa do presidente,
03:30mas a gente fez essa mudança,
03:32e isso facilitou bastante se aproximar das fontes
03:35e conseguir fazer uma cobertura
03:38minimamente, assim, produtiva,
03:40para conseguir levar informações
03:42para o eleitor, para o nosso ouvinte.
03:45A eleição de 2018, eu acho que ela mostra,
03:48não só para os jornalistas,
03:50mas para a sociedade como um todo,
03:53várias quebras de paradigmas.
03:56Primeiro, porque se elege um candidato
03:59de um partido pequeno, com pouca estrutura,
04:01porque nós vínhamos de campanhas,
04:04desde a redemocratização, muito caras,
04:07que movimentavam necessariamente alianças grandes,
04:10muitos recursos,
04:11até 2018, antes de 2018,
04:14eram permitidos os financiamentos empresariais,
04:16então a gente tinha campanhas muito caras,
04:19e depois várias investigações mostraram que também
04:21os pagamentos por caixa 2,
04:23pagamentos não registrados,
04:24tornavam as campanhas ainda mais caras,
04:26e que em 2018 muda completamente,
04:29com busca de apoio mais orgânico,
04:32com um modo de fazer campanha completamente diferente,
04:34e que ajuda a frustrar várias previsões.
04:40A gente tinha uma ideia no momento em que
04:42o então líder do PSDB,
04:46Geraldo Alckmin,
04:48hoje vice-presidente da República,
04:49no momento em que ele se candidatou,
04:51com o Ana Amélia como vice,
04:53com uma aliança grande de partidos,
04:55praticamente todo mundo via aquela ali
04:57como uma candidatura muito competitiva,
04:59que seria a principal forma de enfrentar,
05:01na época, a candidatura de Fernando Haddad,
05:04do PT.
05:05Mas depois Bolsonaro conseguiu mostrar
05:07que, mesmo sem todos esses partidos,
05:10que ele estava conseguindo vender,
05:12levar para a sociedade uma ideia
05:15de que ele era diferente.
05:17E a gente nem falou ainda que em 2018
05:19o atual presidente Lula estava preso,
05:20então é uma eleição que já é diferente também
05:23por esse aspecto.
05:24Eu acompanhei primeiro e segundo turno
05:27no Rio de Janeiro,
05:28como eu falei,
05:29a gente tinha uma opção
05:32de fazer a cobertura
05:35daquele candidato que estava liderando.
05:37Outros colegas acompanharam na ocasião
05:41o Fernando Haddad e os outros candidatos,
05:43em 2018.
05:44Mas já que a gente está falando
05:45da minha experiência pessoal,
05:46que foi de acompanhar
05:48Jair Bolsonaro na época,
05:49o que foi mais marcante
05:50foram os dois dias da eleição.
05:52Porque foram dias em que eu vi
05:55uma mobilização popular muito grande,
05:58que era de apoio, é claro, ao candidato,
06:00porque na época se tinha uma ideia
06:02de que Bolsonaro poderia fazer diferente, etc.
06:05O eleitor estava apostando aquilo nele,
06:07mas era também um grito de desabafo
06:12de quem estava vivenciando
06:15todos aqueles escândalos ali,
06:17querendo fazer algo diferente.
06:19E por incrível que pareça,
06:21é uma eleição em que eu vi muita gente
06:25votando não só por ideologia.
06:27Às vezes as pessoas pensam,
06:28ah, está votando porque ou a pessoa
06:30é muito de direita ou muito de esquerda, etc.
06:32Não, eu vi muitas pessoas falando
06:34em votar em algo que era diferente na época,
06:37que pudesse representar alguma mudança.
06:40Eu acho que isso é o que a gente via forte
06:41em 2018, é o que mais me chamou a atenção
06:43no primeiro e segundo turno,
06:46acompanhando essa votação.
06:48E foi um pouco diferente também,
06:50porque geralmente no dia da eleição
06:52o candidato tem vários compromissos,
06:56encontra aliados,
06:58circula na comunidade,
07:00essa é a agenda que a gente costuma
07:02acompanhar no domingo de eleição.
07:04E no caso de 2018 foi diferente,
07:06porque Bolsonaro ainda se recuperando
07:08de uma facada,
07:09ficou em casa,
07:10então toda a imprensa ficou na frente
07:12da casa dele na Barra da Tijuca, no Rio,
07:14e a movimentação era ali.
07:16E então todo o movimento de festa
07:19comemorando e de expectativa antes
07:21não foi em uma praça pública,
07:24em um local previamente marcado,
07:26foi na frente da casa dele,
07:28o que dava a ideia ali de fato
07:30de ser algo mais orgânico,
07:33mais ligado ao que as pessoas
07:35estavam pensando na hora.
07:37Também foi uma cobertura não tradicional,
07:39assim como foi a campanha,
07:41porque a gente se viu diante
07:43de campanhas menos profissionais,
07:46menos profissionalizadas,
07:47mais improvisadas.
07:49Teve uma série de mudanças também,
07:52porque depois de sofrer o atentado,
07:55Bolsonaro ficou em casa
07:56e não participou de praticamente
07:59mais nenhum ato de campanha.
08:02Inclusive nos debates,
08:04ele não podia participar
08:06em razão dessa restrição de saúde.
08:08Então isso mudou bastante a dinâmica,
08:10fez com que a gente precisasse apostar muito
08:14em poucas pessoas do entorno
08:16dos candidatos.
08:17Na candidatura de Fernando Haddad,
08:20que não era a preferência do PT,
08:22o Partido dos Trabalhadores,
08:23queria ter Lula como candidato,
08:24mas isso não foi possível
08:26porque ele estava preso.
08:27A gente tinha uma campanha
08:29mais estruturada,
08:30mas na campanha de Bolsonaro,
08:32que eu acompanhei mais de perto,
08:34porque naquele momento
08:34ele já estava liderando as pesquisas,
08:36então a gente fazia opção
08:37de acompanhar mais o dia a dia
08:40de quem estava ali liderando.
08:42Eram pessoas pouco ligadas à política,
08:46muito desconfiadas ainda da imprensa,
08:48porque não conheciam como funcionava,
08:50e que exigiu que a gente
08:55se esforçasse muito
08:56e se desafiasse muito
08:59para conseguir ter informações
09:00e fazer minimamente uma cobertura,
09:03mostrando para o nosso leitor,
09:05para o nosso ouvinte os bastidores
09:07e o que estava acontecendo
09:08naquele momento.
09:09Foi uma eleição que a gente teve
09:10dificuldade muito de confronto de ideias,
09:14porque Bolsonaro não participou
09:16de praticamente nenhum debate,
09:19mas foi uma eleição já
09:21em que a gente tinha muito viva
09:25uma desconfiança do eleitor,
09:28do nosso ouvinte,
09:31de quem consome os nossos conteúdos,
09:33quem nos acompanha
09:34está um pouco farto
09:36de ver tanto roubo,
09:38tanto esquema de desvio,
09:41poucas pessoas sendo
09:43poridas, respondendo por isso,
09:45então muitas vezes a ideia
09:47é de que
09:48é tudo a mesma coisa.
09:50A gente tenta diferenciar,
09:52mostrar o que um candidato oferece,
09:54o outro não oferece,
09:57de que forma a população
09:59como um todo pode se envolver
10:00em um debate público,
10:01mas é um pouco difícil
10:02porque muitas vezes as pessoas
10:04já nem querem ouvir
10:05tanto falar de política.
10:06Tanto é que uma das coisas
10:07que mais me perguntam agora,
10:09já estou há 10 anos em Brasília,
10:10é como é que tu aguenta?
10:12Como é que tu fica
10:13tanto tempo perto dessas pessoas?
10:17Independentemente do partido
10:18de opção ideológica,
10:19me parece que muitas pessoas
10:21estão com esse sentimento,
10:22de que não dá para ouvir falar
10:23sobre política por muito tempo,
10:24porque é muito ruim,
10:26mas é algo que,
10:27não só lá em 2018,
10:28mas agora está muito presente.
10:29Eu acho que como lição
10:32fica principalmente
10:33uma lição pessoal
10:34de jornalista,
10:35de que a gente
10:37precisa respeitar
10:39o que as outras pessoas
10:39estão sentindo
10:40e expressando naquele momento.
10:43Não necessariamente
10:44é o que a gente pensa,
10:46não necessariamente
10:46é o que a gente considera certo,
10:50mas que a gente precisa
10:51respeitar como algo legítimo,
10:53sabe?
10:53porque cada eleição
10:55geralmente tem
10:58uma pauta
10:59ou tem um tema
11:00que está mobilizando
11:01as pessoas.
11:02Em 2018,
11:03acho que ficou claro
11:04no que eu venho falando aqui,
11:05era a corrupção,
11:05a gente vinha de Lava Jato.
11:08Depois, em 2022,
11:09a gente vinha de um período
11:10de pandemia
11:11em que a inflação
11:12era alta,
11:13então,
11:14o aumento dos preços,
11:16o tema da economia doméstica
11:18estava muito presente.
11:19Agora, em 2026,
11:21está mais misturado,
11:22tem corrupção,
11:23mas não é só isso,
11:25não é corrupção
11:26de um ou outro partido,
11:28mas pegando boa parte
11:29de quem
11:32está se candidatando
11:33à presidência,
11:34então,
11:35está meio misturado o tema.
11:36Mas eu acho que
11:37a principal lição
11:37que fica é isso,
11:38que é o que a gente
11:40tem tentado levar adiante
11:41aqui nas coberturas sempre,
11:42de ouvir
11:43e tentar entender
11:44o que as pessoas
11:45estão sentindo
11:46naquele momento.
11:46E para deixar claro
11:47por que eu falei
11:48tanto de
11:50Bolsonaro,
11:50em 2018,
11:52porque,
11:53na minha experiência pessoal,
11:55foi o candidato
11:55que eu acompanhei.
11:56Como sempre,
11:57a gente
11:59estabelece tempos iguais,
12:00importâncias iguais
12:01para os principais candidatos
12:03e outros colegas
12:05da Rádio Gaúcha,
12:06da Zero Hora,
12:07estavam acompanhando
12:07os outros candidatos.
12:10Acho que isso tem que
12:11deixar claro, né?
12:12Sim,
12:13a gente tem que
12:13agradecer a nós.
12:16Beleza?
12:19Obrigada.
12:19Obrigada.
12:20Obrigada.
12:21Obrigada.
12:21Obrigada.
12:21Obrigada.
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