00:00O tempo passou, aquele ano de 96 foi a minha primeira experiência como professor de informática,
00:06já relatei antes, e eu trabalhei bastante animado porque estava começando uma nova profissão
00:13e estava no meu segundo ano de faculdade.
00:17Eu tinha certeza que dentro de mais um ano eu estaria me formando e portanto eu teria mais uma profissão
00:25e as coisas poderiam melhorar bastante na minha vida.
00:27E quando chegou o final do ano, fui me preparando para fazer a matrícula,
00:32era R$ 180,00 a matrícula, a mensalidade, mas no final do ano a escolinha de informática na Igreja
00:40Batista fechou
00:41e eu fiquei desempregado, não sabia o que fazer, fui trabalhar no escritório,
00:48consegui um emprego de auxiliar de escritório, ganhava um salário até bom,
00:51mas fui muito oprimido pelo chefe do escritório, muito humilhado, muito massacrado,
00:58dava conta do trabalho, mas não dei conta de aturar tanta chatice, tanta perturbação daquele sujeito
01:05porque ele sabia que eu era professor de informática, que eu estava fazendo faculdade
01:09e eu acho que ele tinha medo que o patrão descobrisse que eu tinha mais capacidade do que ele
01:15e tomasse o lugar dele e por causa disso ele começou a pisar muito em mim, me humilhar muito
01:20e eu disse, quer saber, eu vou sair, o Ronaldo me convidou para abrir uma escola de informática com ele,
01:27prometeu que a gente ia ganhar muito dinheiro e eu estava precisando ganhar dinheiro.
01:32Então eu saí daquele escritório e fui tentar abrir a escola de informática,
01:39não deu muito certo, fiquei com uma média de 10, 12 alunos e como antes dava para salvar o feijão,
01:47mas não dava para fazer grande sucesso com isso, em todo caso era melhor do que nada.
01:54Quando começou o ano, uma outra pessoa que também não posso deixar de mencionar,
01:58que foi uma pessoa maravilhosa, a Nissinha, fui formatar o computador dela e ela perguntou
02:06como eu ia fazer para continuar a faculdade, ela estava visivelmente interessada no trabalho
02:13que eu estava desenvolvendo.
02:14Eu disse, olha, eu não sei, eu fiquei desempregada, eu não tenho condições,
02:18eu não sei o que fazer, tenho que pagar a matrícula agora e ela falou, olha,
02:22a matrícula você fica tranquilo, eu vou doar o dinheiro da matrícula, você vai lá e paga.
02:28Eu já estava naquele esquema mesmo, totalmente dependente de todo mundo,
02:32eu não tive orgulho nenhum de dizer para ela que eu não queria, aceitei, agradeci,
02:37peguei o cheque de R$180, corri para Bebedouro para fazer minha matrícula,
02:43com R$180 eu poderia pagar a matrícula e também poderia pagar a primeira mensalidade,
02:50mas a secretária falou, olha, Miguel, infelizmente não tem mais desconto para você.
02:56E eu me estranhei, falei, como assim não tem desconto? Ela me deu 40% de desconto,
03:02então a secretária falou, é melhor você falar com ela.
03:05Aí eu fui, entrei na sala dela, me humilhou bastante, tenho péssimas recordações da dona Iná,
03:11uma mulher fria, insensível, não se importa com a cultura, com a educação,
03:17ela só se importa com o dinheiro, pelo menos foi essa a impressão que ela deixou para mim.
03:21Não devo nada a ela. Sou muito claro, disse assim, os meus sentimentos são esses, não devo nada para ela.
03:28Mas Deus tem um propósito em tudo o que acontece, então ela me humilhou bastante,
03:32falou, olha, se você não tem dinheiro, você não estuda e me pôs no meu devido lugar,
03:38abaixei a cabeça e saí da sala dela, me sentindo tão pequeno quanto realmente eu era.
03:44E decidi que não ia gastar o dinheiro com a matrícula, ia devolver,
03:52mas a secretária falou, você precisa pagar a matrícula ou você não vai poder trancar.
03:57Então, paguei os R$180,00 para poder trancar a matrícula, com esperança de um ano ou dois depois eu
04:04voltar.
04:04E eu fui investir na minha área de informática, eu fui procurar, abri meu espaço e fiquei naquele lenga-lenga
04:13o tempo todo,
04:13porque um pouco antes, uns dias antes, veio uma escola de Olímpia e abriu uma escola no centro da cidade
04:21e levou todo mundo.
04:23Então, o que só sobrou para mim é aquelas pessoas que não confiavam nos de fora,
04:29que me conheciam, sabia que eu não ia enganar eles, né?
04:32E teve pessoas muito bacanas, como a Márcia de Bagem, o Júlio César da Casinha do Papel e a Regiane
04:41e várias outras pessoas que ficaram firme ali comigo.
04:45E várias pessoas que ficaram firme ali comigo, inclusive, até foi na Escola Dufo que nós conseguimos uma sala
04:53para abrir a escola de computação, mas aí não deu muito certo, o Ronaldo saiu fora, fiquei sozinho no negócio
05:01e a diretora me oprimiu para eu ser de lá e disse, olha, eu dei a sala para vocês, mas
05:06eu não podia ter dado a sala.
05:08Você tem que sair daí.
05:10E, meu Deus, todo mundo correndo comigo de um lado para o outro, para onde eu vou, sabe?
05:14Quando você corre na direção da ponta, da lança e da lança da ponta e é fogo, é ferro, meu
05:20Deus do céu, que provação, que dificuldade.
05:23Mas é assim mesmo o sabor da vitória, né?
05:26Eu não pude continuar estudando, seria meu terceiro ano, mas eu parei, eu simplesmente parei ali, porque eu não tinha
05:32condições.
05:33Fiquei lutando com aquela escola de informática por quase três anos.
05:38Alguém chamava para resolver um problema, eu ia na casa da pessoa, formatava um computador, instalava, batia um contrato.
05:45Uma pessoa que me ajudou muito nessa época também foi o Reinaldo, fotógrafo, me trazendo contrato de consórcio, de telefone.
05:53E, graças a Deus, foi o corvo da Bíblia, né?
05:56Aquele que traz o alimento para o profeta Elias, porque ajudou bastante também.
06:02Mas, um dia tudo se acaba.
06:03E o fato de correr para lá, correr para cá e ajudar um, ajudar outro, sabe?
06:08E, nesse meio de tempo, eu fui dar aula de computação para a Célia da Casinha do Papel, ela quase
06:12não parou, ela mais ficava o Júlio.
06:14Mas, pediu para mim, instalando os programas no computador que ela comprou, para ir melhorando.
06:20E eu fiquei conhecido, fui ficando conhecido na cidade.
06:24Mas, Deus tem uma benção preparada para aquele que nele espera.
06:27O sofrimento não é em vão.
06:28No final do ano de 99, o atual prefeito, o Totó, resolveu implantar um projeto de informática na escola,
06:37para ensinar as crianças de terceira e quarta série.
06:40E, também, para dar uma capacitação para os professores e funcionários da rede municipal.
06:46E eu fui contratado, tinha ficado conhecido na cidade, ele mandou o Andrés Apoloto vir atrás de mim.
06:52Fui eu, o Carlos e o Godô, nós fomos os três, trabalhar com ele, através do Andrés Apoloto, uma firma
07:00terceirizada.
07:03Então, no ano 2000, nós já começamos o mês de janeiro trabalhando nesse emprego aí.
07:09E fiquei oito anos nesse emprego, graças a Deus, me dei muito bem com o Carlos, com o Godô e
07:14também com o Andrés Apoloto.
07:17Aí, depois, o Totó saiu, mas entrou o Zé Lopes e ele continuou com o projeto.
07:22E, durante oito anos, eu fiquei num trabalho perfeito, morando cem metros longe do meu trabalho.
07:29E ganhei num salário razoável, numa coisa que eu gostava de fazer, registrei minha carteira como instrutor de informática.
07:36E eu não teria voltado jamais para a faculdade naquela circunstância, porque eu estava muito feliz.
07:41Eu saía quase toda noite com a minha esposa, minha filha mais nova, a gente ia para a sorveteria, para
07:47a lanchonete.
07:48Eu não queria nada com a bravesa, eu estava super tranquilo.
07:51Aí, aconteceu um incidente, que eu acredito que foi providência de Deus também.
07:59Eu prestei concurso para o Escrevão de Polícia no ano de 98, 99, em Barretos.
08:08Eu queria um trabalho fixo, um emprego, que eu pudesse me despreocupar.
08:13Então, fiz a inscrição, fui para Barretos, prestei a prova, não consegui passar, porque caiu uma matemática infernal.
08:20E eu sou péssimo em matemática.
08:23E fiquei bastante desanimado.
08:28Mas, comecei a me preparar, falei, se tiver uma outra oportunidade, eu vou.
08:33No ano 2000, tivemos a oportunidade, abriu o concurso novamente em Ribeirão Preto.
08:38Fiz a inscrição, estudei bastante, gravei sete CDs com a matéria, eu mesmo falando a matéria, para eu ficar ouvindo
08:46no carro.
08:46E fiquei estudando o tempo todo, me preparando.
08:50E eu fui para Ribeirão, só que não tinha mais matemática.
08:54A matéria que caía agora era informática.
08:57E na informática eu não tinha medo, eu era líder.
09:00Tanto que eu tirei dez em informática nessa prova que eu prestei.
09:04E eu só não entrei porque eu fiquei com 72,5 de nota.
09:09E tinham poucas vagas, eles aumentaram o critério.
09:15Diziam que tinha que ser 75, porque com 72,5 eu quase entrei.
09:19Na próxima eu entro, vou continuar estudando e continuei.
09:23Estudando e me preparando para o próximo concurso.
09:26Mas, no ano de 2002, um dos alunos que faziam computação comigo à noite, o Dennis,
09:33ele me falou, se você vai prestar concurso para a Escrivão, o ano que vem vai ter outro.
09:37Só que tem um probleminha, agora precisa ter faculdade.
09:41Meu Deus, eu quase terminei a minha faculdade.
09:45Faltou um ano.
09:46Aí eu corri em bebedouro, conversei com a secretária e falei, olha, eu queria voltar.
09:50Eu queria terminar.
09:51Ela falou, faz seis anos que você parou de estudar.
09:54Então você vai prestar o vestibular de novo.
09:57Se você passar, você continua no terceiro ano.
10:00Se você não passar, você tem que começar tudo de novo.
10:02Meu Deus, mais três anos de faculdade.
10:04Mas agora eu precisava fazer.
10:06Eu queria prestar esse concurso para a Escrivão.
10:10E aí eu fui prestar o vestibular, peguei 18º lugar.
10:13Ela falou, Miguel, pode continuar no terceiro ano.
10:15Mas você vai ter que voltar no outro ano para fazer duas matérias que aumentou na grade
10:20durante esse tempo que você ficou fora.
10:22Falei, tudo bem.
10:23Voltei para a faculdade em 2003, com 43 anos de idade.
10:27Só esse marmanjão aqui no meio daquelas mocinhas lá.
10:31No início, até com um pouco de vergonha, até desanimado, porque estava desacostumado de ir para a escola.
10:37Então eu chegava na faculdade, encostava no corredor, suspirava.
10:42E passava uma das colegas e ria.
10:44Nossa, que desânimo é esse?
10:46E eu querendo parar.
10:48Eu queria parar.
10:49Essa colega era a Viviane.
10:51Não sei se ainda mora em Bebedouro.
10:53Era uma pessoa muito simpática, muito legal.
10:55Que é isso, colega?
10:56Vamos lá, a gente vai terminar juntos e tal.
10:58E aí eu peguei firme, sabe?
11:00Acostumei de novo naquela rotina e peguei firme.
11:02E participando de todos os trabalhos.
11:05E teve um detalhezinho.
11:06Eu tinha um grupo de sete pessoas que faziam parte do meu grupo.
11:11E essas sete pessoas nunca achavam tempo para fazer o trabalho.
11:15Como o Miguel trabalhava com computação, então ele podia fazer tudo.
11:19Então eu ia fazer as pesquisas, arranjar o material, fazer seminário.
11:23Fazer todo tipo de trabalho que era apresentado, ficava tudo para mim.
11:25Mas eu não me importava não, sabe?
11:27Porque eu estava aprendendo.
11:29O mal das pessoas que estudam é que ele é um diploma.
11:32Você não deve se importar tanto com o diploma.
11:34Você tem que se importar com o conteúdo.
11:36Se você aprender o conteúdo, quando chegar lá na frente, você vai precisar do conteúdo.
11:40Não adianta ter um diploma bonito e não ter conhecimento.
11:44Por isso, estuda.
11:46Não perca tempo.
11:48Seja no sexto ano, seja no terceiro ano do ensino médio.
11:52Não importa onde você estiver, estuda.
11:54Dá o melhor de você.
11:55Se força para conhecer.
11:56Suga todo o conhecimento que o professor tiver, porque isso vai fazer a diferença depois.
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