Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 2 dias
- Testemunho
Transcrição
00:00Alô meus amigos, para quem não me conhece, eu sou o professor Miguel.
00:06Tenho gravado alguns vídeos para transmitir algum conhecimento da Palavra de Deus,
00:11de acordo com a instrução do Evangelho que diz,
00:13de graça recebestes, de graça dava.
00:17Então eu procuro fazer isso dessa forma,
00:21porque todos têm o direito de adquirir o conhecimento da graça de Deus.
00:29E gostaria também de contar o que Deus fez na minha vida.
00:35Gostaria de dizer para você que você está olhando para a pessoa mais fracassada
00:39que você já conheceu em toda a sua vida, o pior derrotado, o pior fracassado,
00:45alguém para quem nada dava certo.
00:48Muito sonhador desde criança, fiz planos, tinha lição, desejava ser alguma coisa,
00:55desejava poder fazer alguma coisa, mas nada dava certo.
01:00Dos meus cinco irmãos, eu fui o único que teve vontade de estudar.
01:05Mas não foi permitido, porque eu teria que trabalhar na lavoura.
01:10Não era uma lavoura nossa, era a lavoura dos outros.
01:13Meu pai era boia fria e me levou com ele para trabalhar na lavoura dos outros,
01:19com boia fria, fazendo todo tipo de trabalho que aparece na roça,
01:23até que com esterco de galinha eu cheguei a trabalhar.
01:26Com veneno, com ferramentas pesadas, diversas vezes,
01:31mesmo na mais tenra adolescência.
01:36E a opção que foi dada a mim foi essa, trabalhar durante o dia,
01:41e se quisesse, estudar à noite.
01:44Teria que ajudar a manter a família como todos os demais, muito justo.
01:51Mas foi muito difícil para mim.
01:53Quando eu era criança, aos oito anos de idade, minha família veio do sítio da cidade.
02:00Eu era uma pessoa muito complicada, muito problemática, eu era muito tímido.
02:06Tinha um complexo de inferioridade incrível, como eu nunca vi ninguém, jamais.
02:13Me sentia o último em tudo, me sentia o menorzinho.
02:16Não tinha coragem nem de fazer amizade com os meninos da minha turma.
02:22Mas um espírito religioso despertou dentro de mim
02:25e me fez sentir vontade de ser padre.
02:29Começamos a frequentar a casa paroquial, eu e meus irmãos,
02:33mas eu levado pelos meus irmãos, porque era muito tímido.
02:39Comecei a sentir desejo de ser padre.
02:42Eu comecei a frequentar a casa do catecismo, tinha nove anos de idade.
02:48E eu comecei logo a sentir toda essa religiosidade tomando conta de mim.
02:53E eu disse para minha mãe, eu quero ser padre.
02:55E ela foi conversar com o padre, ele mandou falar com uma mulher que era encarregada desses assuntos,
03:01e ela foi encaminhando.
03:03E quando eu menos esperava, recebi na minha casa, a visita do padre Jacó,
03:08que era o diretor do seminário de Ribeirão Preto.
03:12E ele veio falar comigo e perguntou para mim se era verdade, que eu queria ser padre.
03:16Eu disse que sim.
03:18Eu não sabia o que eu queria.
03:19Eu queria apenas a religião.
03:22Tinha um espírito religioso muito forte.
03:25E ele disse para mim que eu não poderia ir,
03:27porque eu tinha apenas onze anos de idade.
03:31Eu estava terminando a quarta série,
03:33e ele disse para mim, quando você terminar a sexta série,
03:37então eu venho te buscar.
03:40Eu disse, está bem.
03:42Continuei estudando.
03:43Se eu tivesse ido naquela época, talvez eu fosse um padre até hoje.
03:48Não sei, talvez fosse.
03:51Mas o fato de não ter ido naquela ocasião,
03:54criou uma nova circunstância na minha vida.
03:58Fui para a quinta série, que hoje é sexto ano.
04:01Fui para a quinta série com muita esperança,
04:04com muita vontade de vencer, de viver, de me tornar um padre.
04:10Eu já rezava toda a missa, só com a ajuda do Catecismo.
04:15Sozinho.
04:16Eu fiz a quinta série,
04:19e eu fui para a sexta série,
04:22e quando cheguei na sexta série,
04:24eu tive alguma dificuldade.
04:27em matemática.
04:28Comecei a ter dificuldade,
04:30comecei a achar muito difícil,
04:32e não fazia os exercícios,
04:34que era tarefa de casa.
04:36E a professora me chamou um dia e perguntou,
04:38por que você não está fazendo essas tarefas que eu estou passando?
04:42E eu disse, olha, eu não sei o que fazer.
04:45Ela disse, então você precisa de alguém para estudar em casa com você.
04:49Com quem você pode estudar?
04:51Eu não tinha amizade com ninguém.
04:52E eu disse, eu não sei.
04:54Ela falou, nossa, eu vou arranjar alguém, espera aí.
04:55Pode ir? Você pode?
04:57José, você pode?
04:58Marcos, você pode?
05:00Marlene, você pode?
05:01Ninguém podia, ninguém queria, porque ninguém tinha amizade comigo,
05:03ninguém queria se aproximar de mim.
05:07Eu era muito tímido, muito fechado, muito calado.
05:10Então ela disse, olha, então faz o seguinte, amanhã você vai na minha casa e eu vou te dar aula.
05:16Até a bondade dela, mas eu morria de vergonha e eu não iria.
05:19E ela mandou, eu tinha um espírito tão subserviente que eu, no outro dia de manhã,
05:24eu peguei o meu caderno, o meu lápis, e eu fui até a casa dela,
05:28mas eu não chamei, porque eu fiquei com vergonha.
05:30Então eu dei a volta pelo quarteirão e voltei para casa.
05:33E à tarde, na sala de aula, ela perguntou para mim,
05:36por que você não foi?
05:38Eu disse, ah, eu não sei onde a senhora mora.
05:41Eu sabia, sim.
05:43Aquela professora tinha sido minha professora de catecismo,
05:46quando eu tinha oito, nove anos de idade.
05:53Ela era gêmea como a outra, que dava aula de desenho na época,
06:03e agora era professora de matemática.
06:07Então, quando foi no outro dia, eu saí de manhã para fazer a minha parte de novo,
06:11saí da volta pelo quarteirão da casa dela e voltar para casa.
06:14Eu encontrei o Marcos na rua, o Marcos falou, você tem na Cacim?
06:19E falou, então eu vou te levar lá.
06:21Então não teve como eu fugir dele, não teve como escapar.
06:23E eu fui com ele, chegou lá, ele chamou ela, ela saiu,
06:27ela vinha trazer o Miguel aqui.
06:28Ela falou, ah, muito obrigado.
06:29Levou eu para dentro, tinha um quartinho lá no fundo da casa dela,
06:33onde ela guardava o material dela,
06:35e me pôs ali em volta da mesa, passou alguns exercícios,
06:38foi a fazer, foi buscar uma xícara de leite, um passo de pão,
06:42e eu morri de vergonha, tinha tudo isso.
06:44Então eu disse que não queria, porque eu não podia comer.
06:47E eu disse, inventei mil histórias, porque eu tinha vergonha.
06:51Mas ali eu comecei a perceber que todo dia de manhã eu teria alguém para me dar atenção,
06:56alguém, uma coisa que eu não tinha em casa,
06:58alguém que ia conversar comigo, ia saber da minha vida,
07:01alguém que tinha vontade de me ensinar,
07:05alguém que tinha vontade de ensinar.
07:07E eu não tinha nada disso em casa,
07:09então aquilo despertou minha atenção.
07:11Eu tinha apenas 12 anos de idade,
07:13uma tremenda carência afetiva,
07:15e um complexo de inferioridade muito grande,
07:18e uma grande admiração pelos meus professores.
07:22Apesar de muitos deles dar bronca na gente,
07:26e alguns até bater naquele tempo,
07:27a gente apanhava de professor,
07:29por qualquer motivo.
07:32Eu me acostumei com aquilo,
07:33e quando chegou as férias de julho,
07:35eu estava tão acostumado a sair todo dia de manhã,
07:38ir lá na casa dela, receber aquela aula de matemática,
07:40que eu ia todo dia, sabe?
07:42Acho que ela ficava pensando,
07:44como é que eu vou me livrar desse quarta-feira agora?
07:45Não tem jeito, né?
07:46Todo dia de manhã ele vem aqui.
07:48Aí quando chegou as férias, eu fui assim mesmo, sabe?
07:51Eu me encontrei com ela no meio do caminho.
07:53A minha irmã dela vinha com uma mala a cada uma,
07:56porque elas iam viajar, não sei para onde.
07:59E eu escondi atrás do poste,
08:01acredito que elas não me viram.
08:04Fui esgueirando atrás do poste enquanto elas passavam,
08:06e elas seguiram o caminho delas,
08:08tomaram o ônibus e foram embora.
08:09E eu voltei para casa,
08:11imaginando as férias chegaram.
08:14Então agora, nada mais de tudo, vou me divertir.
08:17Voltei para casa, guardei o caderno,
08:19peguei as bolinhas de gude,
08:20saí para a rua para jogar com as crianças,
08:22mas alguma coisa não estava bem.
08:26Eu não me sentia bem.
08:28Eu estava triste, o coração pesado, angustiado,
08:31e pensando, meu Deus, o que está acontecendo?
08:34Aí de repente eu percebi
08:35que eu estava gostando daquela professora,
08:37eu estava sentindo saudade dela.
08:40Então eu voltei para dentro de casa
08:42e eu não fui mais brincar com as crianças.
08:45Fiquei esperando acabar as férias
08:46para voltar às aulas e voltar a ver aquela professora.
08:50E quando chegou o mês de agosto,
08:52as aulas começaram,
08:53eu voltei para a escola
08:54e toda tarde eu estava lá assistindo a aula dela
08:57e eu nem sabia mais
08:59o que tinha sido feito da minha vocação.
09:02Eu só sabia que eu queria desfrutar
09:04aqueles momentos que eu tinha ali,
09:05só que eu não percebi que o ano passou tão rápido.
09:09E o fim do ano chegou e acabaram as aulas
09:12e eu tive novas férias
09:14que eu terei que esperar
09:15para depois começar as aulas de novo
09:17para tornar a ver ela no outro ano.
09:19E todo domingo eu ia na missa de manhã,
09:22ia à noite,
09:23porque se ela não fosse manhã,
09:25ela ia à noite.
09:25Eu ia no sábado à noite também
09:27e eu não queria estar sempre em contato com ela
09:30de alguma forma.
09:32Mas quando começou o novo ano,
09:35em 1973,
09:38uma coisa que eu tinha esquecido
09:41aconteceu.
09:42O padre veio me buscar.
09:45O padre Jacob veio me buscar
09:47para levar para o seminário
09:48e eu gostaria de dizer não,
09:50mas eu tinha medo demais do meu pai
09:52para falar não.
09:53Então eu fui.
09:54Eu fui para Ribeirão com as minhas coisas,
09:57eu fui com o coração pesado,
09:59mas eu tinha que ir.
10:00E acho que interiormente eu pensava
10:02vou esquecer disso, vai passar.
10:06E quando eu cheguei no seminário,
10:07nossa, que vida boa que a gente tinha ali.
10:10Muita fartura,
10:11muita abundância de tudo.
10:12Tinha bibliotecas,
10:13tinha instrumentos de música,
10:16violão, piano,
10:16tanta coisa.
10:17Tinha uma capela,
10:18a gente rezava todo dia de manhã
10:19naquela capela,
10:20antes do café da manhã.
10:22Tinha uma piscina,
10:23tinha várias quadras de futebol,
10:25basquete, vôlei.
10:27Tinha uma quitanda,
10:28tinha um lavador de carro,
10:29tinha tanta coisa naquele seminário.
10:32Eu fui me adaptando.
10:35Começaram as aulas
10:36e eu estudaria à noite
10:39na, então,
10:40escola estadual
10:42Alcides Correia.
10:47Ficava coisa de
10:48dois ou três quilômetros
10:50longe do seminário,
10:51eu ia sempre sozinho.
10:54Só que eu não estava sozinho
10:55no seminário,
10:56de viradouro,
10:57tinha ido dois amigos meus,
10:58o Zé Assis
10:59e o Paulo César Zanatta.
11:01Os dois eram primos
11:02e eram da minha idade,
11:05eram conhecidos
11:06e eu contei para o Zé Assis
11:08que eu gostava da professora.
11:12E os meninos,
11:13eles são muito insensíveis,
11:15eles zombam das pessoas,
11:16eles riem,
11:17eles não se preocupam
11:18com o sentimento das pessoas,
11:20eles são muito insensíveis.
11:22E nós chegamos no seminário
11:24e começamos a nossa vida
11:26e quando começou as aulas
11:27eu senti um baque no coração
11:29porque o meu professor
11:30de matemática
11:31era um sujeito enorme
11:32com um baita bigodão
11:34que não tinha nada a ver
11:35com a professorinha
11:36que eu deixei para trás.
11:37E a saudade doeu.
11:39Doeu muito.
11:40Eu não sabia o que fazer,
11:42eu não tinha como voltar.
11:44Então, quando a gente
11:45não tinha aula
11:46nos fins de semana,
11:47sábado e domingo,
11:48à noite,
11:48eles iam para a sala de televisão,
11:51se reuniam ali
11:51para assistir televisão
11:52e eu ia para a sala
11:53de recriação
11:54ficar ouvindo um toca-disco,
11:56ali tinha umas músicas
11:57muito, muito triste ali.
12:00Eu ficava ouvindo,
12:01curtindo a minha solidão,
12:02minha tristeza ali.
12:04E tinha uma música
12:07orquestrada,
12:08Concerto para o Verão.
12:10Eu ouvia aquilo
12:11e lembrava constantemente dela.
12:13Tinha uma música
12:14do Moacir Franco,
12:15Cartas na Mesa.
12:16Tinha, era tudo música triste,
12:18música de fossa.
12:19Eu ficava ali curtinho,
12:20aquela ali,
12:22naquela solidão.
12:23E numa noite daquelas,
12:24eu estava ali sozinho,
12:25no escuro,
12:26ouvindo música
12:27e o Zé Assis
12:28estava lá,
12:28assim, na televisão.
12:29Ele veio correndo
12:30onde eu estava
12:30e falou,
12:30Miguel, vamos lá.
12:32Vamos lá na sala
12:33da televisão
12:34que você vai ver
12:35a professora que você gosta
12:37está na televisão,
12:38está numa novela.
12:40E eu, muito bobo,
12:42muito ingênuo,
12:42corri atrás dele
12:43para ver se era verdade.
12:44Quando cheguei lá,
12:45estava começando a passar
12:46a primeira versão
12:48da novela Mulheres de Areia.
12:50Quem contracenava
12:51era a Vavilma.
12:53E tinha o papel das gêmeas,
12:54Ruth e Raquel,
12:55e eu vi as duas ali
12:56e comecei a pensar que,
12:57porque elas tinham
12:58uma certa semelhança.
12:59Falei,
13:00meu Deus,
13:00como parece,
13:01deve ser ela mesmo.
13:02Será que é ela?
13:03E voltou aquela lembrança,
13:04eu comecei a ficar desesperado,
13:06e triste,
13:07angustiado de novo,
13:09me isolei mais ainda.
13:11E, além disso,
13:11alguns colegas de seminário
13:12que criavam problema
13:14toda hora,
13:15alguns encrenqueiros,
13:16inclusive um do Paraná,
13:17ele começou a criar
13:18problema comigo,
13:19o Padre Jacob
13:20me chamou a atenção,
13:21eu não sabia me defender,
13:24e aí,
13:24quando foi um dia,
13:25eu fui falar com ele,
13:27falei,
13:28Padre,
13:28eu quero voltar
13:29para a minha casa.
13:32ele disse assim,
13:33por quê?
13:34Falei,
13:34eu não estou me adaptando.
13:35Ele falou,
13:35eu acho que você é muito criança,
13:37e você precisa realmente voltar,
13:40terminar o oitava série,
13:41depois,
13:41então,
13:42você vem,
13:43e aí você fica com a gente.
13:44Eu disse,
13:44tudo bem,
13:45foi uma beleza,
13:46acho que ele já estava esperando mesmo
13:47que eu pedisse para ir embora,
13:48para ele me despachar.
13:50E eu,
13:50eu fui embora.
13:53Ele arrumou a piruacombi dele,
13:54pôs minhas coisas dentro,
13:55ele veio me trazer em casa,
13:56eu vim,
13:57eu vim ansioso
13:59para estudar com a minha professora,
14:01e cheguei,
14:02e corri lá à tarde,
14:03no ginásio,
14:05e levei os papéis
14:06para fazer a matrícula,
14:08e peguei o horário,
14:09e no outro dia,
14:10a aula de matemática
14:12seria a terceira aula.
14:13Então,
14:13eu fui de manhã,
14:14sete horas da manhã,
14:15entrei numa turma
14:16de pessoas mais velhas,
14:17repetentes,
14:18e bagunçavam muito,
14:21o professor,
14:21saia da sala,
14:22eles levantavam,
14:22andavam,
14:23e quando o professor chegava,
14:25era o máximo do respeito,
14:26não era que nem hoje,
14:27né,
14:27que essa bagunça,
14:28essa falta de cação,
14:30respeito,
14:30então,
14:31mesmo os bagunceiros,
14:32eu respeitava,
14:32o professor chegava,
14:34eles silenciavam,
14:35ficavam quietinhos,
14:36e passou a primeira aula,
14:38a segunda,
14:38os professores perguntaram
14:39por que eu voltei,
14:40eu timidamente respondi
14:42alguma coisa,
14:43fiquei esperando a terceira aula.
14:47Quando terminou a segunda aula,
14:49o pessoal levantou
14:49e começou a bagunçar,
14:50eu falei,
14:51daqui a pouco ela deve estar chegando,
14:52vou esperar que eu veja ela já.
14:58E aí,
14:59eu falei,
14:59eu falei,
14:59O que é isso?
Comentários

Recomendado