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A vida de um fracassado - Continuação do testemunho
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AprendizadoTranscrição
00:13O que é o professor de matemática?
00:31Sabe quando você perde o chão? Quando seu mundo desmorona? Sabe quando acontece uma hecatombe na sua vida?
00:39Fiquei sem rumo, desorientado.
00:45Passei o resto do ano pensando naquelas coisas que poderiam estar acontecendo ali e sinceramente não sabia o que fazer
00:53da minha vida.
00:56Foi quando eu fui inserido no contexto rural, tinha vindo do seminário, um lugar onde tinha uma vida de rei,
01:05porque era muita fartura de tudo que se pode pensar, uma vida muito gostosa, com todo conforto.
01:13Era perfeito. E deixando aquela vida no seminário, agora ainda tinha que enfrentar o contexto rural.
01:23Eu detestava a Roça. Não nasci para trabalhar na Roça.
01:27Sempre fui chamado de ruim de serviço, sabe?
01:30Sempre fui o pior, sempre ficava para trás dos outros, nunca fazia nada direito.
01:35E eu me esforçava. Além de que eu não tinha resistência, eu não aguentava ficar o dia todo naquele sol,
01:42trabalhando no pesado.
01:44E também não tinha incentivo, porque a gente não tinha participação nos grupos.
01:48Essa é uma grande verdade.
01:49Então, quando eu fui inserido no contexto rural, eu passei a trabalhar de dia e passei a estudar à noite.
02:00Era um pouco mais difícil ainda, porque você ia para a escola cansado, sempre chegava tarde da Roça.
02:09Às vezes, a gente ia acolher laranja e levantava às 4h30, 5h da manhã.
02:15Aquele friozinho gostoso de você ficar na cama dormindo, você tinha que levantar.
02:20E você tinha que enfrentar um caminhão, não tinha ônibus, os caminhões não tinham todo.
02:24E você subia em cima de um caminhão e viajava 20, 30, 40, 50 quilômetros em cima de um caminhão.
02:32Aquele vento frio, cortante da madrugada, para você apanhar laranja.
02:38Trabalhava o dia todo, chegava em casa tarde, tomava banho correndo, ia para a escola sem janta.
02:46Não dava tempo, ainda perdia a primeira aula, às vezes.
02:49E sempre acabava cochilando nas últimas aulas, porque o trabalho da lavoura é muito cansativo.
02:56E alguns professores ainda murmuravam, não queriam entender a situação que a gente vivia.
03:01Mas eu fui lutando, fui me esforçando, sabe?
03:05Eu não queria desistir, eu queria fazer alguma coisa útil, alguma coisa importante.
03:11E às vezes eu lembrava da minha vida no seminário.
03:15O seminário ficava do lado do Jumbo Eletro, na época era outro nome, acho que era Eletro Radiobras.
03:24Era só atravessar a rua, a avenida, independência, e estava do outro lado.
03:29E quando saía para a cidade também, aquela vida na cidade era fascinante.
03:34E agora ali, naquela lavoura seca, dura, no sol quente, na poeira, aquela roupa suja.
03:41A gente trocava de roupa apenas duas vezes por semana.
03:44Você levantava de manhã, tinha aquela roupa suja, suada, e ia para a roça, levava uma marmita de comida.
03:52Não tinha marmita térmica, então você ia comer comida fria, por isso o nome de boia fria.
03:58E às vezes o trabalho era aqui perto da cidade, então você às vezes ia de carreta, puxada por trator.
04:04Passava o tratorzinho com a carreta, você subia na carreta, e você ia para a roça, ia apanhar algodão, ia
04:11chocar amendoim,
04:13e ia fazer outros tipos de tarefas que tinha na lavoura na ocasião.
04:18A cultura era muito diversificada na região naquela época.
04:21Hoje não, hoje é tudo cano, mas na época tinha milho, tinha feijão, tinha algodão, tinha amendoim, tinha arroz,
04:27tinha muita coisa, muito trabalho que se fazia na lavoura.
04:32Às vezes a gente subia naquela carreta, e saía pela cidade, e os amigos via a gente daquele jeito,
04:39com aquela roupa de roça, e era vergonhoso.
04:46Era vergonhoso.
04:47Eu lembro que às vezes eu abaixava a cabeça, com vergonha, porque depois teria que encarar meus amigos,
04:54e eles iam zoar bastante, atirar sarro, então eu abaixava a cabeça,
04:59e fingia que estava dormindo para não ter que encarar meus colegas de escola, que encontrasse pela rua.
05:06E uma vez um sujeito que estava comigo, também da minha idade,
05:12ele falou assim para mim, assim, por que toda vez que a gente vai sair da cidade,
05:15quando chega na cidade você abaixa a cabeça?
05:17Você está com vergonha?
05:19Eu não podia ter vergonha?
05:21Se eu que ia ser o alvo da chacota, da zombaria depois,
05:25quanta insensibilidade, né?
05:27Mas, enfim, era aquele, o meu destino tinha que ser cumprido.
05:34O tempo passou, 74, 75 e, mais ou menos no mês de outubro de 1975,
05:45um professor, que nunca foi professor na vida, aquele coitado,
05:51ele disse para mim, olha, se eu fosse você eu não vinha mais,
05:54você tem tanta falta que você não vai conseguir passar,
05:58se eu fosse você eu já parava agora.
06:00Eu desanimei, porque fazer aquela vida que eu fazia,
06:03aquele sofrimento, aquela angústia toda, e depois repetir,
06:07porque naquele tempo a matéria era assim,
06:09se você reprovasse numa matéria, você perdia tudo.
06:11Foi o que aconteceu comigo.
06:13Eu já tinha 15 anos, não tinha nenhuma perspectiva de vida,
06:17ensino médio era poucas pessoas que faziam,
06:20faculdade só quem tinha dinheiro mesmo.
06:23Eu não tinha nenhuma perspectiva de vida.
06:25E nunca tive alguém que me orientasse, que dissesse,
06:28Miguel, não vai em frente, depois você dá um jeito,
06:31você trabalha e guarda dinheiro, e isso também não poderia guardar dinheiro,
06:34porque naquele tempo a gente trabalhava,
06:36e o dinheiro ia todo para a mão do pai da gente.
06:38Não tinha essa de ficar com uma parte, ou pegar um tanto,
06:42ou ficar com tudo como a maioria faz hoje, não.
06:44Ia todo para a mão do pai da gente.
06:46Então, não era a gente que administraria o dinheiro.
06:51E o pessoal antigo não dava muito valor ao estudo,
06:53então você não podia nem sonhar que eu fosse estudar,
06:55que alguém pagaria uma faculdade para você,
06:57porque isso não ia acontecer mesmo.
07:00Eu desanimei, eu resolvi parar, era mês de outubro, parei.
07:05Mas no fim do ano, um fio de esperança me levou de volta ao ginásio,
07:10para ver como tinha ficado a minha situação,
07:12se eu tinha passado, se não tinha, se tinha passado alguma matéria.
07:15E eu descobri que eu poderia passar.
07:18Eu tinha ficado de exame de seis matérias,
07:21e cada matéria requeria um ponto e meio, dois pontos, três pontos, meio ponto.
07:27E na matéria de matemática, do professor que fez eu desistir, faltavam seis pontos.
07:33Quer dizer, se eu não tivesse parado, eu não teria perdido o ano.
07:37E quase dois meses parado.
07:39Aí eu fui estudar, eu me preparei, fui fazer a prova,
07:42fui fazer o exame final, na esperança de passar,
07:45e passei em todas as matérias, menos na matéria dele.
07:49Fiquei por um ponto e meio.
07:52Um ponto e meio.
07:53Ele me reprovou.
07:55Esse professor era o professor Eliristo.
07:57Ele me reprovou.
07:59E eu perdi o ano, porque quando você reprovasse em uma matéria,
08:02você reprovava em todas, então eu perdi o ano.
08:04E a partir dali, então, achei que não valia mesmo a pena.
08:09Achei que não valia a pena continuar insistindo naquilo, porque não daria em nada.
08:13Seria outro ano perdido, seria mais tempo perdido, mais noites de sono perdida.
08:18E eu não tinha muito juízo também, não tinha nenhum discernimento sobre a vida.
08:24Se naquele tempo eu soubesse o que eu sei hoje, eu teria ido à luta.
08:28Eu não teria desistido tão facilmente.
08:30Mas, Deus sabe de tudo, né?
08:32Eu acredito que tudo isso fazia parte de um plano para me conduzir ao que Deus tinha planejado para mim.
08:41Acredito muito no efeito borboleta.
08:44Se você toma uma determinada decisão hoje, amanhã a sua vida pode ser diferente do que seria se você não
08:50tivesse feito aquilo.
08:51E assim por diante.
08:53Então, tudo que me aconteceu foi concorrendo para o meu bem.
08:57Como está escrito na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, capítulo 8, versículo 28, onde diz assim.
09:04Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus.
09:09Aqueles que são chamados por seu decreto.
09:12Então, toda a tristeza, toda a angústia, as paixões da juventude, as ilusões, as desilusões, as opressões que eu sofri.
09:21E todo o problema que veio na minha vida, veio para me conduzir pelo caminho.
09:26É como se ele tivesse com o cajado, batendo de lado, para cá, vai para cá, não vai para lá,
09:32vem aqui, o caminho é esse, estou te conduzindo pelo caminho.
09:36Mesmo que eu não conhecia Deus, eu não conhecia.
09:38Eu não conhecia Jesus.
09:39Para mim, Deus era um carrasco.
09:40Eu tinha aprendido no catecismo que a gente tinha um monte de obrigações.
09:45Mas tinha dez mandamentos da lei de Deus, tinha cinco mandamentos da igreja, tinha uma série de coisas que você
09:51tinha que fazer para conseguir a salvação.
09:54Para mim, Deus era um carrasco.
09:56Um sargento que ficava atrás de uma nuvem, só esperando você cometer o primeiro deslize para te mandar para o
10:03inferno.
10:04Nunca imaginei um Deus de amor, um Deus de misericórdia, um Deus de bondade.
10:11Inclusive, eu lembro que quando eu trabalhava na lavoura, no ano de 1982, na irrigação, eu passeava o dia todo
10:20pelos canais de irrigação,
10:21ajeitando a água aqui e ali, com uma enxada na mão, e olhava para o céu e pensava,
10:27Puxa, será que um dia Deus não vai ter misericórdia?
10:30Ele vai falar, Puxa vida, você tentou, você se esforçou, eu não vou te mandar para o inferno.
10:34Eu ficava sonhando com uma graça que já existia e eu não sabia.
10:38Eu não sabia, eu não conhecia esse Deus de amor.
10:41Para mim, Deus era um carrasco.
10:43Para mim, Deus não amava ninguém, não tinha misericórdia de ninguém.
10:46Nunca me falaram no amor de Deus, nunca me citaram João 3,16,
10:50porque Deus amou o mundo de tal maneira que enviou o seu Filho unigênito
10:55para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
11:02Não conhecia esse versículo.
11:03Bom, o tempo passou, eu deixei de estudar e eu aceitei a ideia de que o meu destino seria a
11:11roça mesmo
11:11e não teria outro jeito, então, tinha que ser, tinha que aceitar,
11:18aceitar com resignação que o meu destino era a roça.
11:22Assim, eu acabei de me formar na roça, fui para 16, 17, 18 anos.
11:29Conheci algumas namoradinhas, nunca me interessei realmente por nenhuma delas,
11:34até que conheci minha esposa e por ela eu me apaixonei.
11:38E enfrentamos muita luta também, a família dela não aceitava o nosso namoro e...
11:44Foi muito difícil, eu tinha uma vida muito difícil em casa,
11:47minha família não me aceitava muito bem e não me entendiam,
11:52e a família dela também me rejeitou, e eu me senti rejeitado de todas as formas,
11:57pela família, pela sociedade, pelos amigos, por todas as pessoas de quem eu tentei me aproximar,
12:02e eles me rejeitaram.
12:04O mundo inteiro me rejeitou.
12:07Eu não sabia que Jesus me amava, se não teria me apegado a Ele.
12:13Mas, muito apegado à religião, cresci frequentando a igreja católica,
12:22congregação mariana, nunca conseguia pegar a fita, a fita estreita, a fita larga,
12:27porque alguma coisa acontecia e eles me rejeitavam, sabe?
12:31Nada dava certo e...
12:33Quer dizer, eu estava sendo reservado somente para o encontro com o Senhor.
12:40Quando acontecesse aquele momento, eu aceitaria.
12:45E Ele me receberia de braços abertos.
12:50O tempo passou, nunca mais pensei na escola,
12:54às vezes sonhava em voltar a estudar, mas sabia que era um sonho distante, impossível,
12:58e não aconteceria.
12:59Então, não me importei mais.
13:01Quando eu fiz 19 anos de idade, tirei carta de motorista,
13:05era uma tentativa de escapar da roça,
13:08sair da profissão de boia fria,
13:11fazer alguma coisa diferente, mais importante,
13:13gostava muito de dirigir, gosto até hoje,
13:16gosto de dirigir,
13:18e queria viajar, queria, sei lá, fazer qualquer coisa que não fosse roça,
13:22queria sair da roça.
13:24Mas ninguém me deu emprego.
13:26Ninguém me deu o menor emprego,
13:28ninguém me deixou dirigir nem jirico.
13:33E assim eu ia tentando, consegui emprego aqui e ali,
13:36mas trabalhar na roça era meu dever, eu tinha que cumprir o meu dever.
13:42Prestei concurso para a polícia militar,
13:44não consegui passar.
13:47E fora isso, não tinha mais nada para fazer,
13:49então continuei na roça.
13:50Quando eu fiz 21 anos de idade,
13:52eu me casei.
13:54Eu me casei porque a família dela não aceitava o nosso namoro,
13:58e a gente se gostava, queria ficar junto.
14:00Conversei com ela, aceitou, nós casamos.
14:02Fugimos e casamos.
14:06Nós casamos e eu continuei trabalhando na roça.
14:10Agora tinha mais motivos, tinha uma esposa, logo teria uma filha.
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