00:00Chegou a hora da nossa coluna Olhar do Amanhã.
00:15E vamos receber doutor Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp,
00:21neurocientista futurista e colunista do Olhar Digital. Vamos lá?
00:26Olá, muitíssimo boa noite, doutor Álvaro Machado Dias. Bem-vindo.
00:32Boa noite, Marisa.
00:33Doutor Álvaro, vamos falar um pouco sobre a Apple.
00:38Pela primeira vez em décadas, não é?
00:41A Apple tem no comando um engenheiro que passou a carreira desenhando produtos,
00:47não vendendo nem financiando eles.
00:49Isso pode dar à empresa uma vantagem sobre os rivais
00:53que ainda são tocados por executivos, por exemplo, de marketing ou finanças
00:57ou não tem relação alguma.
01:01Essa é uma boa pergunta, Marisa, mas eu acho que a gente precisa fazer um pequeno ajuste.
01:06É o seguinte, vamos pegar as empresas que realmente estão na fronteira,
01:12tanto do ponto de vista da tecnologia, quanto do ponto de vista dos mercados.
01:16Então, por exemplo, NVIDIA, o Jenson Huang, que é o fundador e até hoje CEO e guru da empresa,
01:25ele é engenheiro.
01:27Vamos pensar no Google, que agora está um pouquinho atrás na corrida da inteligência artificial,
01:32mas definitivamente é de onde saiu a Tension Is All Limits,
01:35que é o paper seminal que cria tudo isso que a gente está vendo aí com os LLMs.
01:40O Sandar Pichai é engenheiro.
01:43Vamos para Microsoft, Microsoft tem o Satya Nadella, o Satya Nadella é engenheiro.
01:50Mesmo se a gente pensar no Mark Zuckerberg, ele não é engenheiro,
01:54mas antes de ser um administrador, ele programava.
01:58Quer dizer, na verdade, a exceção mesmo era a própria Apple lá com o Steve Jobs,
02:04que era um sujeito de produtos, que desenhava, fazia engenharia de uma maneira maravilhosa
02:11e sobretudo com o Tim Cook, que é um sujeito de operações.
02:16Então, ou seja, é um sujeito que está pensando muito em eficiência.
02:20Qual é a grande diferença?
02:22O que a gente tem que eu acho que dá para dizer assim,
02:25olha, aqui é sinal de uma mudança.
02:28A minha leitura, que claro, pode estar errado,
02:32é que um sujeito como o Ternus, por ser engenheiro e ter esse perfil muito ligado
02:38na construção de coisas importantes como o iPod,
02:42ele tem maior chance de suportar como gestor um período de baixas vendas
02:51de um produto no qual ele acredita,
02:55quando a gente compara com alguém, por exemplo, como o Tim Cook de operações.
02:59O sujeito de operações é aquele que quer maximizar o valor do que já existe.
03:05É o sujeito que quer fazer a empresa ter um valuation 10 vezes maior e ponto final.
03:10O sujeito mais ligado à própria engenharia, naturalmente,
03:14tem uma atração pela invenção em si maior.
03:17Eu acho que o pulo do gato está aí.
03:20Eu acho que a Apple está voltando a essa lógica do produto premium,
03:26do ponto de vista conceitual.
03:27O celular dobrável, ele não é novidade no mercado de modo algum.
03:32Então, assumir isso seria uma ingenuidade.
03:35Agora, do outro lado, é fato que eles têm a tela mais fina da história,
03:40tem o lance em titânio, tem esse processador A20 Pro,
03:46que realmente é muito poderoso do ponto de vista da inteligência artificial.
03:50Ele tem uma capacidade de resfriamento que permite você usar os chips
03:55para rodar modelo dentro do aparelho.
03:58Então, ou seja, tem um componente de inovação forte
04:01e eu acho que não é por acaso que é o primeiro lançamento do Ternos.
04:05Agora, doutora Álvaro, a Apple está dobrando a aposta no iPhone,
04:11enquanto a concorrência, a gente enxerga os óculos inteligentes,
04:15por exemplo, como o próximo computador pessoal.
04:18Se essa mudança realmente vier, o cérebro do ser humano,
04:23ele é capaz de largar um objeto,
04:26que já virou quase que uma extensão do nosso corpo,
04:29para algo realmente diferente?
04:32Eu gosto dessa ideia de objetos como extensão do corpo.
04:36Em última análise, a escrita é uma grande extensão
04:39da nossa memória de longo prazo,
04:41do nosso hipocampo registrando tudo.
04:42A máquina de calcular é uma grande extensão
04:46da combinação da memória de trabalho
04:48com alguns algoritmos de processamento de linguagem
04:51que estão no número, estão no córtex parietal e assim por diante.
04:55O celular é esse tijolinho de vidro
04:58que é uma extensão de muita coisa ao mesmo tempo.
05:01E a inteligência artificial é a própria extensão do ato de pensar
05:05e muitas vezes do ato de imaginar e sonhar,
05:07que são coisas muito parecidas.
05:09O cérebro, em todos os casos,
05:12ele sempre se adapta muito rapidamente.
05:15Eu acho que tem um experimento clássico que é bem legal,
05:19que é o seguinte,
05:20macacos foram treinados a usarem um rastelo
05:24para puxar comida,
05:25aquelas ferramentas de limpa chão, de terra.
05:29E rapidamente eles começaram a incorporar isso.
05:33Com a incorporação do rastelo,
05:35a neuroimagem mostrou ativação em áreas de membros no cérebro
05:42quando ele estava usando a tal da ferramenta.
05:44Ou seja, foi uma coisa,
05:46do ponto de vista de plasticidade neural,
05:48muito eficiente e muito rápida.
05:50E não é um caso isolado, é sempre assim.
05:53Agora, tem a contrapartida.
05:56A gente também perde rapidamente essas coisas.
05:59O que traz a tese muito na direção
06:03do que você está sugerindo.
06:04Então, a gente tem essa capacidade,
06:07do ponto de vista cerebral,
06:09de aprender a usar uma outra estratégia
06:12de conexão com o mundo digital,
06:15com a realidade informacional,
06:17esse grande ecossistema de troca de informações
06:21que é a internet.
06:23Sim, a gente tem.
06:24E, aliás, do ponto de vista da plasticidade neural,
06:27não há também grandes questões
06:29sobre o abandono do celular.
06:31Muito pelo contrário.
06:33Essas questões estão muito mais no domínio da recompensa.
06:35A gente põe a mão no bolso
06:37e sente que pode pegar aquele objeto
06:39quando a gente está angustiado
06:40para ler alguma coisa.
06:42A gente está numa situação meio estranha socialmente.
06:45A gente olha para o celular.
06:46Ele é sempre esse objeto
06:48que permite uma fuga do momento.
06:51Então, tem isso aí.
06:52Conta demais.
06:53Agora, a questão que eu coloco
06:56é muito clara, muito simples.
06:59Não acredito que exista um convencimento social
07:03de que essa próxima interface são os óculos.
07:06Por quê?
07:07Porque se a gente for ver as reações
07:08que os óculos da Meta estão gerando,
07:11a gente pode ter dúvida a isso.
07:13Porque as pessoas que não estão usando esses óculos
07:16estão se sentindo profundamente incomodadas.
07:19Por quê?
07:20Porque existe uma questão de privacidade inegável.
07:22O sujeito te filma com aquilo
07:24e as pessoas estão tentando disfarçar o sinalzinho
07:27e a Meta entende que tem que botar esse sinalzinho visível
07:30porque senão o negócio não decola.
07:32Ou seja, é uma espécie de disputa de gato e rato.
07:34E o que a gente tem por trás dessa disputa
07:36é um histórico de insucesso
07:38que começa lá no Google Glasses,
07:41que também não decolou
07:42por causa de uma questão de privacidade,
07:45de incômodo social.
07:46Então, sim, eu acho que substituir o celular
07:48não é a grande questão.
07:50A grande questão é o objeto substitutivo
07:53que claramente se mostra melhor
07:54e que eu acho que ainda não surgiu com essas características.
07:58Com certeza.
07:59Agora, doutora Avra, a Apple,
08:00ela também está apostando pesado
08:03em arrodando direto no aparelho,
08:05como você até comentou sobre o processador.
08:07Sem depender da nuvem, por exemplo,
08:10enquanto boa parte da indústria
08:11caminha para o lado contrário,
08:13para modelos hospedados em data centers gigantes.
08:17Na hora de decidir a compra,
08:18você acredita que essas promessas,
08:21tanto de uma quanto de outra,
08:23vão fazer a diferença?
08:26Olha, Marisa,
08:27eu sou um sujeito que bota muita fé na Apple.
08:32Sempre botei, tá?
08:32Eu gosto de inovação.
08:34Não tem problema nenhum com empresas
08:36ganhando trilhões de dólares,
08:38valendo trilhões, nada.
08:39Mas, no ano passado,
08:42a gente estava aqui discutindo
08:43a mesma coisa que o iPhone 17 Pro,
08:47sobretudo esse Pro Max,
08:48que tinha uma bateria maior,
08:49um processador com um pouco mais de espaço,
08:51traria uma capacidade de processamento
08:53de inteligência artificial de ponta.
08:56Passado um ano, nada mudou.
08:59A única inteligência artificial pior do que o Siri
09:06é a Alexa.
09:07Ou seja, a inteligência artificial que a Apple nos prometeu
09:12há um ano, ela não chegou.
09:15Então, eu prefiro pagar para ver dessa vez.
09:17Eu acho que a gente discutir se eu ter um boarding
09:21nos chips da capacidade de processamento
09:24em um modelo pequeno de linguagem é vantajoso,
09:27é uma coisa.
09:29A gente discutir isso no contexto desse lançamento da Apple,
09:34para mim, já é outra.
09:35Porque nesse contexto,
09:36eu estou, dessa vez, querendo pagar para ver,
09:39porque ainda não vi nada.
09:40Pelo contrário, eu estou vendo tijolinhos de vidro
09:44cuja bateria se torna um pouquinho mais eficiente
09:47a cada nova geração.
09:48E agora, um formato que já existe na Samsung
09:52e outras mais, e está bastante consolidado,
09:56sendo incorporado com inovações efetivas de engenharia.
10:01Ou seja, celular mais bem feito,
10:03ainda não botei a mão nele para saber se é mesmo,
10:05se a sensação é essa,
10:06mas potencialmente mais bem feito,
10:08carrega mais rápido,
10:09a bateria supostamente dura mais,
10:11o titânio dá uma maior resistência material,
10:16que é uma coisa super importante,
10:17quando a tela custa muito, tudo custa muito,
10:20mas ainda não vi inteligência artificial nenhuma.
10:21Agora eu vou voltar para a primeira questão
10:23para a gente fechar.
10:23Bom, eu acho que ter o chip
10:27com capacidade de rodar modelo local no celular
10:31é vantajoso,
10:32não simplesmente por uma questão econômica
10:34que se contraponha ao modelo
10:36de quem está processando em nuvem.
10:37Não é isso, não.
10:38A grande questão é latência.
10:42É muito importante,
10:43quando você está buscando alguma coisa no celular,
10:45que a resposta seja imediata,
10:48que ela aconteça em frações de segundos.
10:50E isso daí só é possível
10:52quando você tem uma estrutura operando ali local,
10:56um IoT efetivamente.
10:58Então, é necessário sim,
11:00eu tendo a achar que a tendência vai ser totalmente essa,
11:05aliás, nos óculos da meta,
11:07a tendência é parcialmente essa,
11:08parte do processamento é local,
11:11nos celulares da Samsung,
11:13nos próprios celulares da Apple,
11:14a lógica não é que o processamento vai ser inteiro onboarding,
11:18ele vai ter processamento básico aqui
11:20e também vai mandar para a nuvem
11:22nas circunstâncias em que isso for mais necessário.
11:24Resumo da obra, eu acho que é uma tendência,
11:26mas no caso de Apple,
11:27vamos parar aqui com a confiança
11:30e dessa vez pagar para ver.
11:32Pois é, agora só aguardando mesmo
11:34os produtos começarem a surgir aí no mercado.
11:36Doutor Álvaro Machado Dias,
11:39muitíssimo obrigada pela sua presença aqui hoje novamente,
11:41e na semana que vem temos mais assuntos para conversar.
11:44Um beijo para você, uma excelente semana.
11:47Outro também para todo mundo que nos acompanhou,
11:49até semana que vem.
11:50Até.
11:51Está aí, doutor Álvaro Machado Dias,
11:54mais uma vez na nossa coluna Olhar do Amanhã,
11:56falando sobre outros aspectos do dia da Apple.
12:00E, como vocês já sabem,
12:02semana que vem tem mais coluna Olhar do Amanhã para você.
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