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O fator Lula e o fim do carlismo: como a Bahia trocou a devoção a ACM pela hegemonia petista

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Transcrição
00:00Na disputa ao governo da Bahia este ano, de um lado há um candidato que carrega no próprio nome parte
00:05significativa da história política do Estado.
00:08Do outro, um candidato à reeleição com índice de aprovação menor que seu antecessor e que chegou na política quase
00:15como um desconhecido.
00:16Este segundo, porém, divide o palanque com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atualmente o mais importante cabo eleitoral
00:23no Estado.
00:24O pleito de 2026 na Bahia revive a batalha travada em 2022.
00:28A C.M. Neto, do União Brasil, enfrenta Jerônimo Rodrigues, do PT.
00:32A disputa é acirrada e imprevisível, com as pesquisas de tensão de voto colocando-os como tecnicamente empatados.
00:40Naquele primeiro embate, Neto percebeu que não lhe bastará o nome do avô para chegar ao governo,
00:45e o PT conseguiu passar por sua maior prova de força desde sua chegada ao poder no Estado, em 2006,
00:51com Jax Wagner.
00:52Para entender melhor o xadrez político da Bahia, é preciso primeiro relembrar o carlismo.
00:57Eu disse o seguinte, que carlismo é uma expressão que pode ter três acepções.
01:03Você pode estar se referindo a carlismo se referindo a quê?
01:07A um grupo político comandado de maneira vertical por um chefe, um chefe e seus seguidores.
01:15Carlismo é o quê?
01:16É um conjunto de seguidores de Antônio Carlos Magalhães.
01:19E que, para entender isso, basta estudar a figura do Antônio Carlos, que você entende o resto.
01:24Você pode entender carlismo assim.
01:26Só que, na minha opinião, esse carlismo acabou, não foi em 2006 nem em 2010, acabou em 2001, na crise
01:33do painel.
01:33Depois dali, o Antônio Carlos deixou de ser esse chefe pleno e potenciário.
01:39E para você entender o grupo, você tinha que ir além de Antônio Carlos.
01:42Qual é a segunda acepção, a segunda possibilidade de você chamar carlismo?
01:48É você chamar carlismo de um grupo político mesmo, que tem uma dinâmica própria de grupo político,
01:54que tem suas relações partidárias, que tem suas alas internas.
01:59Você pode pensar o carlismo como sendo isso, em que o Antônio Carlos é uma personalidade central dentro dele,
02:05mas estudar o grupo como algo mais do que o senador Antônio Carlos Magalhães.
02:10Esse carlismo, grupo que transcende a figura do seu chefe, esse carlismo é que morreu em 2010.
02:18Esse grupo é que acabou em 2010.
02:21Ele foi maior, quer dizer, ele teve uma vida mais longa do que aquele primeiro, aquela primeira acepção de carlismo.
02:30Agora, há uma terceira.
02:32Aí é o empoderado.
02:34Você pode chamar o carlismo, carlismo, você pode usar esse nome para nomear uma política, um modo de fazer política.
02:42Aí você sai do território, das instituições concretas, dos grupos, dos partidos, das personalidades,
02:48e você entra para o campo da cultura política.
02:50O carlismo enquanto fenômeno de cultura política, de atitude, de gramática política.
02:56Aí é mais complicado, porque o papel do simbólico aí não pode ser dispensado.
03:03Você não pode dizer que o legado acaba com o espólio.
03:06Quando o espólio se dissolve, não acaba o legado, fica o legado.
03:11E esse legado está aí presente, pairando, como eu disse,
03:16que os diversos atores da política baiana estejam eles na oposição ou no governo atualmente.
03:23É um tipo de política que não morre porque o grupo político morreu.
03:29Nessa terceira acepção, se você entender carlismo como sendo isto,
03:34aí tem sentido você trazer o carlismo como uma variável a ser examinada na política baiana atual.
03:42Mas não como uma propriedade de um dos grupos da política baiana, entendeu?
03:47Como o nome do polo da oposição, mas como um fenômeno que está incrustado na cultura política da Bahia.
03:54E mesmo assim, é preciso saber distinguir o que é que é realmente uma particularidade da Bahia
04:03no meio dessa conversa toda, desse legado do Antônio Carlos.
04:07Eu não vou negar que existem algumas peculiaridades, mas eu não vi e não vejo o Antônio Carlos Magalhães nem
04:16o carlismo
04:16como sendo uma jabuticaba baiana, como sendo um fenômeno singular,
04:23como de um modo geral o senso comum popular e até da imprensa também, do jornalismo.
04:28Então trata, é um caso singular, é um caso desviante.
04:31Eu não acho que é isso.
04:34Eu acho que o carlismo, o Antônio Carlos foi, e o seu grupo foi também,
04:38um caso exemplar de algo mais amplo do que a política baiana.
04:44A sua gramática contém ingredientes e os elementos que são comuns
04:49a políticas que são praticadas nos mais diversos estados do país,
04:54em das várias regiões do país.
04:56A gramática política que eu me refiro, desta de você trabalhar com a cooptação política
05:02para criar grandes consensos que pulverizem a oposição,
05:08se trabalhar com a ideia de identificar o grupo ou a liderança com a própria noção de Bahia,
05:15ou seja, quem é contra nós é contra a Bahia.
05:19Quem não gosta de nós é porque não é baiano de verdade.
05:22O populismo transformou isso num esperanto.
05:25Líderes populistas pelo país afora se comportam dessa maneira.
05:30Não é um privilégio do Antônio Carlos.
05:32Então eu tenho uma certa prudência em dizer que isto é carlismo.
05:37Eu diria, isso é carlismo também, mas não é uma singularidade do carlismo.
05:43Eu acho que é isso.
05:45O carlismo, eu digo que o carlismo acabou, não acabou quando perdeu o governo em 2006,
05:50nem quando o Antônio Carlos Magalhães morreu em 2007.
05:52Mas perdeu em 2010, quando a operação, a estratégia política do PT,
05:59incorporando não apenas outros aliados, como principalmente o Alta Lencar,
06:05dizimou o grupo carlista.
06:06Então o carlismo se pulverizou de tal maneira que sobrou alguma coisa
06:11para o Ocmi Neto juntar depois.
06:15Depois que ele virou prefeito, se reelegeu prefeito, que passou a polarizar,
06:20mas isso houve um tempo aí de quase uma década entre isso que eu estou contando em 2010
06:25e isso que passou a acontecer.
06:26Mesmo o carlismo não existindo mais, como defende o professor Paulo Fábio,
06:31a Semi Neto ainda evoca a memória do avô de forma sutil.
06:35Uma parte sim, é uma herança ainda, e veja que a todo momento a Semi Neto resgata a imagem do
06:41avô.
06:42Ela nunca deixa de estar presente, ela pode até mudar o enfoque, né?
06:45Está mais, está menos, mas é importante destacar como é um referencial de memória,
06:51de recall, né?
06:52De como ele ainda reverencia a imagem do avô.
06:57Mas até a gente pode chamar de um pós-carlismo, né?
07:00De uma nova etapa na qual esse processo pós-carlista passa a ser liderado por a Semi Neto, né?
07:08Como uma nova liderança do grupo que existiu,
07:12mas centrado na imagem, né?
07:15De a Semi até 2007.
07:16Mas de qualquer maneira, a Semi Neto, ele usa isso com muita parcimônia.
07:23Ele também apela para a memória do avô, mas muito pontualmente.
07:28E certas coisas que ele quer lembrar, outras ele não quer lembrar.
07:33Algumas coisas ele quer lembrar, o administrador, o cara que modernizou a Bahia,
07:37ele usa prudentemente, mas ele não quer uma identificação política com o avô.
07:43Até tirou a Semi do nome, né?
07:45Ele só faz campanha agora com o Neto, Neto, Neto.
07:48Não é mais a Semi Neto.
07:49Isso é uma atualização e que eu acho, na minha opinião,
07:55isso tem a ver com a realidade.
07:57A realidade do político Semi Neto.
07:59Que foi construir a sua trajetória dentro de um ambiente político,
08:03de um conjunto de crenças e de estratégias muito distinta da do avô.
08:10Então, com isso ele amanheceu o prestígio em vários setores da sociedade baiana que não tinha nada de carlistos.
08:17Ele tem apoio, ele ganhou votos e apoio em Salvador, por exemplo, de pessoas de contradição de esquerda,
08:22por conta exatamente de ele ter feito uma política distinta de uma política tradicional do avô.
08:29Durante algumas décadas, eu entendo que ele passou a duelar, passou a brigar em torno da representação política da elite
08:39baiana,
08:39da elite política e econômica da Bahia.
08:42Eu entendo que ele promoveu uma modernização conservadora,
08:47então ele teve uma agenda de modernização muito forte em torno de algumas questões importantes,
08:54e, obviamente, que se destacando a todo momento no cenário nacional,
08:58como aquele representante dos interesses baianos.
09:03E penso que ele foi promovendo várias agendas em torno da economia,
09:08da modernização das grandes cidades, da expansão do ensino superior,
09:13várias agendas que foram ali praticamente construídas desde a década de 70.
09:17Mas eu acho que é esse o processo que caracteriza o carlismo como um processo de modernização,
09:24mas muito ancorado no autoritarismo.
09:27Sem dúvida, o passado de ACM foi, melhor dizendo, muito marcado por uma centralização política
09:35e uma perseguição aos adversários,
09:38uma situação que não permitia a liberdade de imprensa.
09:43Eu entendo que foi um processo de regressão democrática que o país já vivia,
09:47mas aqui ela se postergou mais, né?
09:49A eleição de Jax Wagner, em 2006, pode ser considerada a primeira grande quebra com o carlismo na Bahia.
09:56Desde 1991, quando a ACM foi eleita democraticamente pela primeira vez até então,
10:01apenas candidatos de sua base haviam chegado ao governo estadual.
10:04Mas para os cientistas políticos ouvidos pelo Terra,
10:07o feito não está na figura de Wagner em si, mas na figura de Gula.
10:10Grande crise do carlismo, né?
10:12Porque já tinha perdido o Salvador e depois tinha sido também o grupo derrotado na eleição estadual.
10:19E lembrando que o presidente era Lula, que foi reeleito.
10:22Então, pela primeira vez, dentro de um ciclo de poder,
10:25o carlismo ficou isolado nas eleições subsequentes.
10:29O governo, o PT, chegou ao governo federal antes de chegar ao poder estadual.
10:34E o Jax Wagner, em 2006, já foi um candidato que não teve mais que lutar contra duas máquinas.
10:41A máquina estadual e a máquina federal.
10:44Ele lutou, nas eleições de 2006, ele enfrentou uma máquina apoiada na outra, a do governo federal.
10:50E isso é uma coisa clara, muito... sem trocadilho.
10:54É uma coisa muito clara pela importância que o papel das máquinas governamentais
11:02sempre tiveram, tradicionalmente, em eleições para governador da Bahia.
11:07Eu vou lhe dar um dado que é sugestivo.
11:10Se a C.M. Neto vencer as eleições de 2006, esse fato será inédito, pelo menos desde 1958.
11:21E são 70 anos.
11:22São 70 anos, claro que você tem que tirar o desconto aí dos quase 20 anos que não houve eleição
11:28para governador, né?
11:29Mas é meio século de eleições na Bahia, em que nunca aconteceu um candidato vencer as eleições para governador
11:37sendo oposição nos dois níveis, simultaneamente.
11:40Nunca aconteceu isso.
11:42A coisa mais próxima disso, embora não tenha sido isso,
11:46a mais próxima disso foi a vitória do próprio Antônio Carlos Magalhães, em 1990,
11:51quando ele voltou ao governo.
11:52Porque, claro, ele era oposição no plano estadual, porque o governo estava na mão do MDB,
11:56ele era da oposição.
11:57E no plano nacional, digamos assim, ele tinha, assim como o PFL, o seu partido,
12:03ele tinha uma ligação com o governo Collor, mas o seu adversário do MDB já tinha também, né?
12:13Porque houve ali, o governador Nilo Coelho era, diferentemente do Valdir Pires,
12:18um político de posições mais da centro-direita, apesar do MDB.
12:23Então, eles, digamos assim, o Antônio Carlos disputava o apoio do governo federal com o seu adversário,
12:31mas ele não tinha o apoio do governo federal.
12:33Então, é o que é mais próximo dessa situação.
12:36Ele era oposição no Estado e tinha essa situação meeira no plano federal.
12:41Mas, ser oposição nos dois níveis, como o OCM Neto é, não há nenhum caso.
12:47As duas vezes que o carlismo perdeu o poder na Bahia, em 86 e em 2006,
12:54foi vencido por um adversário claramente alicerçado e amparado do governo federal.
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