A cantora, compositora e multi-instrumentista Julia Guedes é a convidada do Divirta-se para falar sobre o lançamento de seu primeiro disco, “Álbum Vermelho”, e sua trajetória na música.
Em entrevista aos repórteres Lucas Lanna Resende e Maria Lúcia Passos, do Estado de Minas, a artista mineira fala sobre o processo de criação do novo álbum, suas referências musicais e a construção de uma identidade própria como cantora e compositora.
Neta de Beto Guedes, um dos grandes nomes do Clube da Esquina, Julia Guedes também aborda a relação com a música mineira e com o legado artístico da família, além dos caminhos que pretende seguir nesta nova fase da carreira.
No Divirta-se, Julia apresenta ao público o universo de “Álbum Vermelho” e fala sobre música, composição, influências e os próximos passos de sua trajetória artística.
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Em entrevista aos repórteres Lucas Lanna Resende e Maria Lúcia Passos, do Estado de Minas, a artista mineira fala sobre o processo de criação do novo álbum, suas referências musicais e a construção de uma identidade própria como cantora e compositora.
Neta de Beto Guedes, um dos grandes nomes do Clube da Esquina, Julia Guedes também aborda a relação com a música mineira e com o legado artístico da família, além dos caminhos que pretende seguir nesta nova fase da carreira.
No Divirta-se, Julia apresenta ao público o universo de “Álbum Vermelho” e fala sobre música, composição, influências e os próximos passos de sua trajetória artística.
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NotíciasTranscrição
00:00Divirta-se, divirta-se, divirta-se, cultura, divirta-se.
00:04Minas Gerais tem uma relação quase íntima com a aviação.
00:08Foi aqui que nasceu Santos Dumont, o homem que transformou o sonho de voar em realidade.
00:13E curiosamente, a história de uma das famílias mais importantes da música mineira
00:18também é atravessada por essa paixão pelo voo.
00:23Beto Guedes, um dos expoentes da música mineira, sempre foi apaixonado por aviões.
00:28A paixão era tanta que ele chegou a construir um avião dentro da própria casa.
00:32O gosto por voar atravessou gerações, passou para os filhos, chegou aos netos
00:36e acabou se misturando a própria história da família.
00:39É o caso de Júlia Guedes, filha do músico Gabriel Guedes e neta de Beto.
00:44Ela praticamente cresceu entre instrumentos e aviões e talvez por isso não seja coincidência
00:50que uma de suas canções se chama Notas de Avião, uma homenagem ao seu avô
00:55que transforma essa história familiar em música.
00:58A música faz parte do álbum vermelho que ela está lançando agora.
01:03Seja bem-vinda, Júlia. Valeu demais por aceitar o convite, por chegar aqui, por estar aqui com a gente.
01:08Obrigadão, viu?
01:09Obrigada a eu pelo convite, pelos passos. É uma felicidade enorme.
01:13Que massa. Que história é essa de aviação, família Guedes, você passear de avião,
01:19o seu avô com o avião dentro de casa? Que loucura é essa?
01:22Ah, é uma loucura. Eu acho que é a palavra que eu acho para tentar verbalizar o sentimento.
01:28Mas, ao mesmo tempo, é a vida que eu cresci. É o parâmetro de vida que eu tenho, porque até
01:34então só tem uma vida, né?
01:36Mas terei outra.
01:36É, exatamente.
01:38Mas minha família é louca com a aviação. Meu avô Beto, ele tem um hangar numa pista perto de Belo
01:45Horizonte,
01:46perto da Serra do Cipó também.
01:48E lá tem tanto um ultraleve dele, que é um paulistinha, meu pai também já teve um ultraleve.
01:55E aí, na minha infância, a gente ia e voava. E também aeromodelo. Meu pai constrói aeromodelos.
02:02Quando eu era criança, ele arrancava a cabeça das minhas barbies e colocava na cabine do avião.
02:10Gente, que doideira. E você aprendeu a pilotar?
02:13Não, não. É um processo bem complexo. É tudo lícito, tá, gente?
02:18Júlia, notas de avião, tem essa relação mesmo? Ou isso é muito mais poético, metafórico, do que uma interpretação ao
02:30pé da letra, né?
02:31Não, é muito literal. É poético e é simbólico também, né?
02:36Eu sinto que esse álbum foi uma forma de eu elaborar várias coisas que eu já sentia, que já me
02:42atravessavam.
02:44E a música, ela tem esse poder. Às vezes eu escrevo algo sem saber o que eu tô escrevendo e,
02:49através da música, eu vou entender o tamanho da carga simbólica.
02:53E, realmente, não à toa, né? Essa história da aviação ser paralela à história da música, porque, pra mim, são
03:00duas histórias sobre liberdade, né?
03:03A aviação ultraleve, que é um avião que não tem parede, a possibilidade de você habitar o céu.
03:09Eu ter crescido habitando o céu e, ao mesmo tempo, existir meu avô, que é uma figura que voou de
03:17mãos claras pro Brasil inteiro, pro mundo inteiro,
03:20que, né, cuja música transformou sentimentos de milhares de pessoas.
03:24São duas histórias sobre se permitir buscar o céu.
03:30Que legal. E, assim, é nítido que, no seu trabalho, principalmente no seu álbum, você honra o seu legado, honra
03:37toda essa trajetória de céu que você veio,
03:40mas você tá querendo fazer algo novo, algo vermelho. E como é que é? Como é que é esse trabalho,
03:45assim, de criar algo novo,
03:47mas, ainda assim, está no passado, sabe?
03:56É muito natural. Pra mim, sempre foi muito claro que eu não tenho uma obrigação de ter que seguir com
04:03a música,
04:04ou levar a música de uma maneira, ou fazer algo que meu avô fazia, né?
04:09Eu entendo muito claramente que meu avô é um músico e eu sou outra musicista.
04:14E, obviamente, eu sou quem sou porque sou neta de quem sou.
04:19E tenho essa carga que eu herdei do meu voo do Clube da Esquina, né?
04:26Essa bagagem que tá entranhada em mim, desde que eu me entendo por gente que faz parte do meu caráter,
04:33muito além das minhas influências artísticas.
04:36E isso é inegável e eu nem teria por que negar, porque é uma honra, é um privilégio.
04:41Mas eu sou o que sou a partir disso, e não só isso.
04:46Você cresceu numa família toda ali, não só na música, mas poesia, na arte.
04:54Sua mãe escreve também, né? Sua mãe é poeta também.
04:58Então, eu imagino que isso seja muito natural pra você, né?
05:03Escrever e se expressar através da arte.
05:05Sim, transitar. Minha família é materna também.
05:08Tem muitos músicos, meu tio Deco Lima, meu tio Renato Carvalho, meu tio Grilo é artista visual, escultor.
05:16Então, sempre houveram muitas referências de muitas formas de se fazer e se expressar.
05:22E eu me sinto muito livre pra transitar em todos os ofícios que me interessam.
05:27Que legal.
05:28Agora, sobre o álbum Vermelho.
05:32Já te fizeram essa pergunta, você já respondeu também, mas eu vou repetir aqui pra quem não viu.
05:38Por que Vermelho? Por que álbum Vermelho, né?
05:41Sim. O nome chegou antes de eu entender o significado.
05:46Além de musicista, eu também sou artista visual, sou designer, estou me graduando na UFMG em design gráfico.
05:53E o pensamento multiartístico, ele é intrínseco.
05:58É o meu pensamento qualquer.
06:00Geralmente, as coisas se formam na minha cabeça a partir de imagens.
06:04E na composição não seria diferente.
06:06São vários processos de composição, às vezes partindo do piano, às vezes partindo do violão, da poesia.
06:11Mas tem uma coisa comum em todos esses processos, que são as imagens que acompanham todo o desenvolvimento de uma
06:17canção.
06:18E durante alguns anos, enquanto eu já estava ativamente maquinando o álbum, gestando ele, mesmo que de formas indiretas,
06:29eu sentia que existia uma energia vermelha, um semblante vermelho.
06:34Eu até estou fazendo o meu TCC sobre a identidade visual do álbum Vermelho.
06:38E no meu TCC eu criei o termo espaço anírico, para falar justamente sobre essa atmosfera que embala o sentimento
06:47dessas composições.
06:49E aí, à medida que eu ia compondo, eu entendi que as composições eram amarradas, não eram composições aleatórias.
06:58É algo muito colorido, são composições de vários estilos musicais.
07:02Mas, em algum momento, eu já cheguei a ter esse questionamento de pensar se minha identidade não estava muito difusa.
07:10Mas eu entendi que não, que realmente existe um raciocínio de uma linha vermelha,
07:16costurando este álbum, essas canções na minha própria trajetória, nos meus aprendizados de vida.
07:21E o vermelho é uma cor de paixão, de energia, de revolução, de rompante.
07:27É uma cor romântica.
07:29É a cor com maior comprimento de onda, a cor que chega e, quando ela chega, você não tem alternativa
07:36senão olhar para ela.
07:38Então, para mim, representa essa inércia que eu precisei quebrar para dar vida a esse álbum e, consequentemente, minha própria
07:44carreira.
07:45Você se identifica no vermelho?
07:47Porque, te vendo, você calma, você na sua, e o vermelho já chega com o pé na porta, né?
07:53É muita terapia.
07:55Eu sou assim, um monstrinho já ao lado.
07:58Agora, outra coisa que eu queria te perguntar, depois que eu te passo a bola, né?
08:04Mas, achei curioso você falar que o seu TCC é, analisando, seu objeto de estudo no TCC é o seu
08:11álbum, né?
08:12É uma outra visão, diferente da autora ali, você está com uma outra visão a respeito de algo que você
08:18fez.
08:19É uma visão mais crítica?
08:20Como é que você está passando por isso, assim?
08:23Sim.
08:24Pois é.
08:24Então, eu faço uma separação psíquica, simbólica, do meu CPF e do meu CNPJ, sabe?
08:31É óbvio que é uma separação meramente simbólica.
08:35No final, eu sou apenas uma Júlia.
08:37Mas, me ajuda a me organizar, porque realmente, a forma com a qual eu resolvi fazer esse álbum demandou de
08:46mim habilidades que não são habilidades estritamente musicais, né?
08:50Uma habilidade de tentar entender o mercado, uma habilidade de produzir, de articular, de comunicar, de também fazer minhas peças
08:59gráficas, de me comunicar visualmente,
09:01de marcar vários posicionamentos, que são as demandas que se tem de um artista hoje em dia, né?
09:08A gente está num momento que é difícil, porque o artista fica muito sobrecarregado com várias funções que não competem
09:17apenas a eles,
09:18mas, ao mesmo tempo, é alternativa para se fazer arte quando não existe uma grande estrutura, quando não existe dinheiro
09:25sendo investido.
09:27Então, eu sinto que tudo foi se costurando, todas essas histórias.
09:30E eu sinto que, em algum lugar, eu tento fazer uma separação das Júlias, que administram cada as áreas.
09:38A Júlia que está compondo, no instante que ela está compondo, ela jamais está se preocupando com o mercado,
09:45jamais está se preocupando com o design técnico, a qualidade.
09:49Não, a Júlia que está compondo, ela está compondo.
09:51Mas, ao mesmo tempo, a Júlia só está compondo porque existem todas essas Júlias fazendo e se atravessando.
09:56Sem a Júlia musicista não tem a designer, sem a designer não tem a articuladora, e é isso, né?
10:02A gente é uma grande miscelânea.
10:03Mas como que uma Júlia vê a outra?
10:06Porque, no caso, é a Júlia artista, visual, vendo a Júlia compositora, né?
10:12Você é muito crítica ou nem tanto? Como é que é?
10:18Eu sou muito exigente.
10:20Eu crio um parâmetro para mim mesma, eu busco referências, eu consumo muito de mundo, eu sou muito curiosa.
10:29E eu estabeleço esse parâmetro e eu tento ir em direção a ele.
10:35Claro que, numa composição, por exemplo, o que vai dizer se uma música é boa ou não é o tempo.
10:40Então, também existe um lugar de eu não ficar mais apegada do que precisa, né?
10:46Tem um momento de apegar, um momento de soltar.
10:48Mas, no meu TCC, eu sinto que o meu trabalho foi mais de conseguir trazer por palavras
10:55e organizar e embasar o que a Júlia artista já tinha feito.
11:02A Júlia artista vomitou uma visualidade já pronta e a Júlia, estudante de design,
11:09foi pegar isso tudo e linkar com as minhas referências e fazer essa tradução intersemiótica.
11:16Ok, mas aí você já me falou que você tem várias Júlias e não só.
11:21Gente, é simbólico, tá?
11:23É fragmentado, não é aquela pessoa que tem 18 personalidades.
11:27O que eu tô curiosa é que essas várias Júlias, além de assumir vários trabalhos em áreas diferentes,
11:35elas estão entregando...
11:37Como é que você consegue manter uma disciplina pra entregar tudo que você tá entregando?
11:42Porque você tá fazendo um trabalho de design, um trabalho de compondo as músicas, fazendo,
11:48e também você faz outras coisas, que também você poderia explicar as outras coisas também.
11:52Tipo, ganhar dinheiro pra sobreviver.
11:55Exatamente.
11:55A gente vai ir nisso tudo, você tá tentando ganhar dinheiro e conciliar com várias coisas.
11:59Como é que é?
12:00Como é que é a questão da disciplina, assim, tanto da Júlia artista visual, quanto da Júlia artista musical?
12:09Como que você lida no seu dia a dia com isso tudo?
12:12Pra construir um álbum vermelho, assim, pra gente focar.
12:15Então, eu vou contar uma coisa até um pouco aleatória.
12:18Eu não queria ser musicista.
12:20Justamente por ter tantas referências, eu sempre entendi que trabalhar com música era passar perrengue, sabe?
12:27E minha infância foi difícil.
12:29Eu tenho referências muito próximas mesmo do quanto é difícil ganhar dinheiro com música, né?
12:35Existe meu vô Beto, que é esse grande sol que conseguiu prosperar e ter uma capilaridade, permear meios,
12:41mas isso realmente é exceção.
12:44E aí, com 14 anos de idade, eu comecei a estudar pra medicina.
12:48Com 14 anos eu já trabalhava, era jovem aprendiz, fiz um técnico em administração,
12:54trabalhava numa mineradora, morava meio sozinha e já fazia pré-vestibular,
13:00porque eu tinha colocado na cabeça criança que eu ia ser médica.
13:04Eu também adoro, toda área da saúde sou muito curiosa, consumo muito e minhas notas sempre foram boas.
13:10E aí foi uma adolescência muito dedicada mesmo, e eu cheguei a ter nota pra passar em medicina.
13:16E aí, em algum momento, caiu uma ficha.
13:18Eu entendi, tipo, velho, não, sabe?
13:20Não é isso que eu vim fazer no mundo.
13:24Realmente, tem que existir uma forma de se estruturar uma carreira a ponto dela ser sustentável, né?
13:29Mas, todos esses anos que eu passei estudando pra medicina, me ensinou algo que não é óbvio,
13:36não é uma educação que é a mais valorizada na minha casa, na minha estrutura familiar, que é a disciplina.
13:43E aí, eu aprendi a me disciplinar mesmo, na terapia também, a entender que fazer as coisas,
13:51fazer o que tem que ser feito no momento que tem que ser feito, eu estou ganhando tempo livre.
13:55Inclusive, ganhando tempo pra compor.
13:58E a composição, pra mim, ela acontece ou quando eu tô em ósseo e ela vem,
14:04ou quando eu tô muito sobrecarregada e eu vomito.
14:07É um ou outro.
14:08Ou eu tô explodindo essa música, ou eu tô tranquila.
14:13Mas o espaço da inspiração é um espaço muito sagrado.
14:16Então, assim, eu posso estar no maior furdunzum do dia a dia,
14:20tendo que entregar projetos de design que eu faço pros outros,
14:24escrevendo TCC, lançando disco, coordenando equipe, banda, escrevendo arranjo.
14:30Se eu pego o violão e venho alguma coisa, tchau mundo, sabe?
14:35Eu vou entender quanto tempo eu tenho, né, pra dedicar.
14:40Mas o tempo que eu tiver é inteiramente eu e a minha música.
14:43Teria alguma dica pra falar pra alguma pessoa que tem pouca disciplina?
14:47Nossa!
14:48Achei pessoal, hein?
14:49Acho que...
14:51Precisa ser muito profundo pra descobrir.
14:54Ó, eu adoro lista.
14:55Lista me ajuda muito.
14:57Lista?
14:58Lista.
14:58Escrita?
14:59É, porque tem uma coisa que dá muito trabalho tomar pequenas decisões, sabe?
15:04Então, geralmente, quando eu tenho que fazer muita coisa num dia,
15:07eu tento destrinchar ao máximo.
15:09Tipo, ao invés de virar e falar, ah, postar vídeo falando sobre isso nas redes sociais,
15:16não.
15:16Pegar o vídeo que eu já disse, cortar o vídeo, editar a luz, editar a fala, editar o áudio,
15:21subir, escrever a legenda, sabe?
15:23Que aí eu já antecipei várias decisões, na hora fica muito mais fácil.
15:26Eu tento, assim, facilitar a vida da Júlia do futuro ao máximo.
15:30Legal.
15:30Legal.
15:31Júlia, eu queria te perguntar agora, você falou da...
15:34Primeiro, só uma observação do espaço sagrado de composição,
15:37e isso eu acho muito legal no artista, né?
15:39O Neruda, ele tinha um negócio assim que ele lavava a mão antes de escrever,
15:45e depois também, porque ele achava que aquilo era um ritual,
15:47como se fosse uma refeição, assim, né?
15:49É um negócio doido, legal.
15:51Mas, agora, você falou da carreira sustentável, né?
15:56Como conseguir uma carreira sustentável?
15:58Porque tem os perrengues e tem o caso do Beto, que são dois extremos, né?
16:05Mas dá pra fazer, caminhar ali no meio, né?
16:07Com certeza.
16:08Inclusive, eu tenho a obrigação e a responsabilidade de falar que,
16:12justamente pelo meu avô ser o Beto Guedes, ser famoso,
16:16mesmo passando perrengue, eu já começo de um lugar, né?
16:18De um privilégio, de uma recepção do mercado diferente, né?
16:24Eu acho importante trazer isso, porque...
16:27Eu acho difícil responder essa pergunta,
16:28porque a música, ela é muito diferente pra várias pessoas diferentes, né?
16:31Mas eu vou te só contrapor, porque,
16:34diferente de outros músicos que eu vejo que os filhos seguem e tal,
16:38eu nunca vi ninguém ali, o Beto te empurrando.
16:42Você construiu a sua base de fãs ali, de ouvintes, na cena e tal.
16:46Então, eu acho que eu te entendo, mas eu discordo em certo momento.
16:50Mas, enfim...
16:50Pelo que você contou pra gente agora, você também não queria seguir a música até...
16:56Inclusive, qual idade você tinha quando, tipo assim,
16:59desistiu da medicina e resolveu tentar construir uma carreira?
17:03Tá, eu vou responder ele depois.
17:04Eu ia te perguntar mais cedo e esqueci.
17:07Tá bem.
17:09Então, realmente, eu sou muito do corre.
17:12Muito, muito, muito do corre.
17:13Não à toa, é um álbum que eu levei quatro anos pra fazer,
17:16porque eu realmente tava tentando fazer da melhor forma,
17:19e viabilizar, inclusive, estruturalmente, né?
17:22Uma estrutura que, ela é, acima de tudo, muito financeira.
17:25E não só financeira, acesso também.
17:28E meu vô realmente não é uma pessoa que pega na minha mãozinha pra nada.
17:32Assim, meu vô é um querido, eu amo ele muito de paixão.
17:35E, de vez em quando, eu aciono ele.
17:37Eu falo, vô, deixa eu participar desse seu show.
17:40Vô, posta meu flyer no seu Instagram, sabe?
17:43Pontualmente, que eu também não quero ficar enchendo o saco dele.
17:47Mas, real, ele não é a pessoa que tá fazendo minha carreira.
17:51Eu sou.
17:52Mas, ainda assim, eu sinto que existe uma diferença da forma que eu sou recebida,
17:57né?
17:57Da expectativa das pessoas.
17:59De já existir um público que eu tô tentando converter pra ser meu público.
18:05E é isso.
18:05Isso não resolve minha vida.
18:08Continuo tendo que dar meu corre todo dia,
18:10entendendo fazer maneiras de ser viável mesmo.
18:14Não sei como eu vou fazer meu próximo álbum até então.
18:17Acho que várias portas vão se abrir a partir desse álbum.
18:20Mas, de toda forma, eu acho responsável, da minha parte, falar sobre isso.
18:27Eu entendo que, realmente, existe essa questão de já ter um privilégio.
18:31Mas, tem uma questão que eu acho muito complicada.
18:34Que eu acho que acaba repetindo com vários filhos, parentes de artistas.
18:38Que eu acho que você tá conseguindo fazer diferente.
18:40E eu queria saber como que você fez.
18:43Por você ser neta do Beto, às vezes as pessoas automaticamente falam assim,
18:47Ah, é a neta do Beto, como que você tá conseguindo construir uma Júlia que vai ser, tipo assim,
18:52além da neta do Beto?
18:54Não sei se deu pra entender.
18:55Posso complementar?
18:56Pode, claro.
18:56Porque eu percebi muito isso no disco, nas suas músicas.
19:01Porque, assim, até mesmo a página do Relâmpago Elétrico,
19:06que é uma música do Beto que você colocou lá,
19:07tem a sua cara, você coloca, assim...
19:10A gente vê claramente que tem uma influência, assim, do Clube da Esquina,
19:14mas vai além.
19:15Ele é uma das influências, né?
19:17Então, como é que é isso?
19:20Sim.
19:20Ah, eu sou muito sincera com quem eu sou, com o que eu quero fazer.
19:24Eu realmente me sinto livre pra conseguir propor coisas diferentes.
19:30E eu não sei porque eu acompanho como eu acompanho,
19:33mas o fato é que minhas composições são muito diversas.
19:37Tem composições que claramente você vê que é uma coisa muito mineira,
19:41que eu sou neta do meu vô, e aí você consegue fazer assimilações,
19:44mas tem um tango no disco.
19:46Exato, é.
19:49E eu acho que eu só não tô preocupada em parecer ser neta de ninguém.
19:52Eu acho que eu só tô fazendo o que eu tenho que fazer.
19:55E quem tiver que gostar, que goste.
19:58Quais são suas referências aí a partir disso?
20:01Assim, música mineira, tem tango, e imagino que o tango seja também,
20:05ele não tá lá à toa, né?
20:07Com certeza.
20:08São muitas referências.
20:10E eu acho que isso volta até numa coisa que eu tinha falado antes.
20:12Eu sou muito sensível ao mundo, eu sou muito curiosa,
20:17eu busco muito o mundo, eu busco as pessoas ativamente,
20:20eu sou muito atravessada.
20:23E isso tudo sai, né?
20:25Nas músicas, sabe?
20:26Isso tudo sai em tudo, na forma que eu falo, na forma que eu gesticulo.
20:30Eu sinto que a música realmente é um pedaço disso tudo, né?
20:36Mas, deixa eu tentar elencar aqui minhas referências pro álbum.
20:40Tem o tango, né?
20:41A Sor Piazzola, eu sou muito fã dele, adoro.
20:45É uma referência que veio do Paulinho Maravilha,
20:47que é um sanfoneiro que já namorou minha mãe,
20:50e aí a gente teve uma convivência muito próxima,
20:52eu tenho o maior carinho, ele participou do meu show.
20:54Que legal.
20:55O último show foi no dia 20 de agosto, né?
20:57Sim.
20:58E foi um sucesso, né?
20:59No Cine Teatro Brasil.
21:01Foi demais, totalmente.
21:02Aí tem, de América Latina tem várias coisas,
21:05tem a Mercedes Sousa, que eu adoro,
21:07tem lá a Cássica Trio.
21:09Muita coisa veio a partir do Clube da Esquina.
21:12A Mercedes Sousa mesmo, eu conheci ela por causa do Milton Nascimento,
21:16e Clube da Esquina, meu vô Beto, Milton Nascimento,
21:19o Loborges,
21:20de longe, disparado, é o que eu mais ouço na vida,
21:27semanalmente, cotidianamente,
21:28todos os álbuns de todos os artistas.
21:30É o universo que eu realmente me sinto encaixada
21:33quando eu estou ouvindo,
21:35e sempre vai ser minha maior referência.
21:37Mas, para além disso,
21:39eu ia falar Beatles,
21:40mas Beatles, para mim, está no universo do Clube da Esquina,
21:42não pergunte por quê.
21:44Eu nunca entendi isso também,
21:45sempre quando...
21:46Já fiz uma entrevista com o seu avô também, inclusive,
21:48e tal, sempre falando assim,
21:49não, o que a gente mais se inspirava era Beatles.
21:52Mas como?
21:53É completamente diferente o resultado que vocês fazem com Beatles.
21:56Mas é porque Beatles é muita coisa.
21:59Você acha diferente?
22:01Com certeza, com certeza.
22:04Do clube, assim?
22:05Não, absolutamente.
22:06Mas, para mim, tudo vem do mesmo lugar,
22:08que é minha parte.
22:08Eu acho, assim,
22:09eu também tinha uma empresa hoje,
22:10eu não conseguia entender,
22:11mas depois que comecei a conviver mais,
22:14eu percebo que dá para perceber
22:15que muita coisa do clube,
22:17vê que tem muita referência de música inglesa.
22:19Ah, para caramba.
22:20As composições.
22:21Não só Beatles,
22:22eu sou apaixonada por Gênesis,
22:24rock progressivo,
22:26eu acho que essa coisa do rock,
22:28eu acho muito incrível
22:29ter vindo de uma família
22:30que é muito roqueira,
22:31porque o rock não é só
22:33uma referência musical pontualmente,
22:35é uma atitude de mundo, sabe?
22:37Porra, o álbum vermelho...
22:38Desculpa.
22:38Pode falar, está tranquilo.
22:41Para mim, o álbum vermelho
22:42é completamente rock em rolo das ideias, sabe?
22:44A ideia é essa.
22:46Aí entra num negócio
22:47que a gente estava falando
22:48lá fora antes de começar,
22:50que é o quanto tem de carga política
22:56no seu trabalho, né?
22:58Música é político?
22:59Você acha que é alto político?
23:00Absolutamente.
23:01Por quê?
23:02Ah, não tem como não ser, né?
23:04Tudo é político,
23:05nossa existência é atravessada
23:08por de onde a gente vem,
23:10o que está à nossa volta,
23:11quem está à nossa volta.
23:14e não é o álbum mais literalmente político,
23:17não é o álbum que eu estou criticando
23:19várias coisas explicitamente revoltada,
23:21mas é um álbum cheio de críticas
23:24e nasce de um lugar também, né,
23:26de eu me revoltar de entender
23:29que eu estou num contexto
23:30e a música mineira,
23:31apesar de muito maravilhosa,
23:33muito incrível,
23:34personagens incríveis,
23:35é só homem.
23:37Eu ia te perguntar isso,
23:39como é que é?
23:40Como é que é criar
23:44num ambiente masculino
23:46e também tentar trazer
23:49novas inspirações para mulheres e tudo?
23:51Sim, então, é difícil,
23:53porque realmente quando você cresce
23:55e aí todos os seus tios que tocam
23:57são homens
23:58e você nunca vê uma mulher tocando,
23:59nunca vê uma mulher protagonizando,
24:02não que eu nunca vi,
24:04mas dentro de casa
24:05sempre teve essa estrutura.
24:07Minha mãe, por exemplo,
24:08ela é uma super compositora
24:10e ela teve que abdicar
24:11da carreira artística dela
24:12para nos criar e trabalhar,
24:14porque é um trabalho,
24:16criar filhos é um trabalho, né,
24:18um trabalho não remunerado.
24:22Mas, realmente,
24:24muita coisa partiu
24:25de eu querer ocupar espaços
24:27que não eram espaços
24:29que eram óbvios para eu ser ocupado,
24:31sabe?
24:31e eu tenho essa revolta
24:35de gênero gigantesca,
24:37está no álbum de diversas formas.
24:40Essa própria coisa, né,
24:41de mudar de cidade
24:43para tentar romper um pouco,
24:45entender outras estruturas
24:47e também ir buscar o próprio desejo
24:50e aí já tem todo um outro lugar
24:52de várias coisas muito sutis
24:54e subjetivas
24:55que são estruturalmente negadas
24:58das mulheres
24:58como correr atrás
25:00do próprio desejo,
25:01bancar a própria sexualidade.
25:03Isso é uma coisa
25:03que eu trago,
25:04o Gata do Mato
25:05fala sobre isso.
25:06Tango dos Homens
25:08é uma música
25:08completamente irônica
25:10onde eu crio
25:11um mundo invertido,
25:13onde as mulheres
25:13que agem como homens
25:15e criam todo um cenário
25:17e aí no final concluo
25:18que, né,
25:19infelizmente,
25:22o mundo é como é,
25:23as mulheres
25:24jamais vão conseguir
25:25ocupar esse papel
25:26e que bom, né,
25:28mas é um álbum
25:29que eu vou cutucando,
25:31não são cutucões
25:32tão explícitos
25:35e revoltados, né,
25:36eu acho que eu gosto
25:37muito de usar
25:38o humor,
25:40esse recurso literário
25:41para fazer minhas críticas.
25:43Humor sutil também,
25:45machidiano, às vezes.
25:47Pode ser.
25:49Como é que está agora, assim,
25:51sua agenda?
25:52Você falou que vai sair
25:53para shows
25:53ou que pretende entrar
25:55numa turnê, de fato,
25:56assim, do álbum vermelho?
25:58O que você está projetando?
26:00Sim, então,
26:01já tem alguns shows fechados,
26:03alguns com banda,
26:03alguns solos.
26:05Esse fim de semana,
26:06a gente,
26:06hoje é dia 24, né,
26:08de agosto?
26:09Sim.
26:09Esse fim de semana,
26:10dia 29.
26:10Minto,
26:11a gente está gravando
26:11dia 25.
26:13É dia 25.
26:14Hoje é 25.
26:16Esse fim de semana,
26:17dia 29,
26:18eu vou tocar no Fartura,
26:19em Tiradentes,
26:20com banda.
26:21no próximo fim de semana,
26:23dia 4 de setembro,
26:25eu vou para o Hacktown,
26:26em Santa Rita do Sapucaí,
26:28vou tocar meu álbum Indú lá.
26:30E logo depois,
26:31no dia 5,
26:32eu survo para a Conceição do Mato Dentro,
26:34minha cidade,
26:35e vou tocar no Projeto Matriz,
26:37com banda também.
26:39E aí,
26:39depois,
26:40volto para BH,
26:41vai ter o Cantal Tore,
26:42esse dia 9 de setembro.
26:43E aí,
26:44Rio de Janeiro,
26:45dia 23 de setembro,
26:46vou fazer uma apresentação
26:47na Firjan.
26:49justamente vou tocar Notas de Avião,
26:51que é a música que fala
26:54sobre a história da aviação.
26:55E essa música ganhou um clipe
26:57através de um edital da Firjan,
26:59o Leonardo Martinelli,
27:00que dirigiu o clipe,
27:02vai sair semana que vem,
27:03dia 1º de setembro.
27:05E aí,
27:05eu estou muito na expectativa
27:07de lotar essa agenda.
27:09Porque depois de tanto tempo
27:11fazendo o álbum acontecer,
27:13agora o álbum está no mundo,
27:14que as pessoas estão ouvindo,
27:15as pessoas estão gostando,
27:16o que eu mais quero,
27:18é construir esse show,
27:19sabe?
27:20Construir esse espetáculo mesmo,
27:23para o público,
27:24fazer isso de uma forma bonita,
27:26de uma forma interessante,
27:28pensar as várias coisinhas
27:30de um espetáculo,
27:31várias partes,
27:32e rodar, rodar, rodar.
27:34Eu estive no último show,
27:37e uma curiosidade,
27:39que você falou lá na hora,
27:40que você montou várias coisas ali,
27:43não ficou só...
27:45tem várias coisas,
27:46e você vê várias coisas
27:48que remetem à Júlia, né?
27:50Eu queria que você contasse um pouco
27:51sobre a produção,
27:52que você vai participar da produção
27:54também dos outros shows
27:57que você vai fazer?
27:59Eu não consigo não participar.
28:02Você pode explicar um pouco
28:03para a gente
28:04o que você participa?
28:06É, exatamente.
28:07Eu vi lá,
28:08mas é mais legal você contar.
28:10Então, porque é isso, né?
28:12Eu fiz a capa do álbum,
28:14fiz toda a identidade visual,
28:16todas as peças gráficas,
28:17o design,
28:18e aí, dessa capa do álbum,
28:20eu fiz uma direção de arte
28:22para o ensaio,
28:22e essa direção de arte,
28:24eu já fiz pensando nela
28:25ser o cenário dos shows também.
28:28Eu imprimi uma foto analógica
28:30que eu tirei,
28:30imprimi ela no tecido 3x3,
28:32gigante,
28:33comprei outros tecidos,
28:35e então,
28:36eu assino o cenário do show,
28:37tem as rosas também,
28:39ah, é tão lindo.
28:41E aí,
28:41tá tendo a iluminação também,
28:43que eu chamei minha amiga querida,
28:45Maria Drummond,
28:46para montar, né?
28:48Para pensar realmente,
28:50conceitualmente,
28:51a cada música,
28:51como que vai ser essa condução
28:53da iluminação.
28:54Eu assino o design gráfico,
28:59e nesse show,
29:00eu tive parceria com o Getúlio Amaral,
29:03ele é um estilista,
29:04ele é proprietário do ID Brechó,
29:07então ele me vestiu,
29:08e é muito legal fazer tudo,
29:11mas também é muito legal
29:13chamar gente massa, sabe?
29:15E delegar as funções,
29:16confiar no trabalho do outro.
29:19Mas eu com certeza vou assinar
29:20o cenário design de todos os shows,
29:22pelo menos.
29:23É porque tá dentro da sua área também, né?
29:25É, vai.
29:26Já tá pronta,
29:27só adaptar,
29:29deixar bonitinho.
29:30Tem espaço pra composição também,
29:32ao longo dessa agenda?
29:33Como é que você tá pra...
29:34fazendo novas coisas,
29:36assim,
29:37em termos de criação?
29:40Então,
29:42especificamente,
29:44nos últimos três meses,
29:46eu não compus nada,
29:47mas geralmente eu componho muito.
29:48eu já tenho música
29:49pra uns três,
29:50quatro álbuns,
29:51assim.
29:53Como é que foi,
29:55na questão do álbum vermelho em si,
29:57como é que...
29:59Você poderia contar pra gente
30:01quanto tempo demorou cada música?
30:04Se tem alguma que demorou mais?
30:06Como é que foi?
30:07Cada música tem seu processo.
30:09Eu até falei na entrevista
30:10com a Carol Braga,
30:11do Cultura do Rio,
30:12que eu acho que
30:14muitas pessoas falam
30:15que tá soando um álbum maduro
30:17pra ser um primeiro álbum.
30:18E eu realmente acho
30:19que a minha maturidade
30:20tá em respeitar as composições.
30:22Cada composição nasce de um jeito,
30:24vem de um lugar,
30:25de um instrumento.
30:25E, às vezes,
30:26a composição,
30:27ela te pede
30:27pra largar a mão dela,
30:29deixar ela quieta.
30:30E aí você deixa ela quieta.
30:32Tango dos Homens
30:33é uma que
30:33eu tinha feito
30:35só a primeira parte,
30:36e aí depois
30:37eu voltei meses depois
30:38e fiz o refrão.
30:39Contra o Medo também,
30:40eu só tinha feito
30:41uma parte no teclado.
30:43E aí depois eu peguei
30:44e fiz o resto no violão.
30:46Tango dos Homens
30:46eu comecei da poesia,
30:47sustentável também.
30:49Então,
30:51eu tenho, assim,
30:52sério,
30:53no meu celular,
30:56no gravador do celular,
30:57tem pelo menos
30:59uns mil motivos,
31:01que eu chamo de motivos.
31:02Que é tipo
31:03um fragmento musical,
31:05que aí a partir desse fragmento
31:06eu posso desenvolver
31:07pra vários lugares.
31:08Às vezes esse fragmento
31:09vira um meio de alguma coisa.
31:11Isso acontece
31:12porque eu realto
31:13em contato com a composição
31:15de uma forma
31:15muito séria
31:16e nada séria.
31:18Eu não me sinto
31:19realmente obrigada
31:20a ter que fazer nada bom,
31:21sabe?
31:22Pra mim,
31:22a composição é uma brincadeira,
31:24ela é uma forma
31:24de expressar
31:25que não necessariamente
31:26tem que dar em algo.
31:29Esse raciocínio
31:30de apenas
31:31produzir
31:32pra um consumo
31:33uma coisa final,
31:34uma coisa com o público,
31:36eu não acredito nisso.
31:37Eu faço
31:38o que eu tenho que fazer,
31:39não sei porquê,
31:40mas estou fazendo.
31:42E aí,
31:43se eu for fazer
31:43alguma coisa depois
31:44e virar uma coisa
31:46pro público,
31:46o público vai gostar ou não,
31:48ele vai decidir lá na frente.
31:50É interessante isso,
31:52esse desprendimento
31:53da vaidade até mesmo,
31:55de querer que o povo
31:57goste do que você faça.
31:58E, geralmente,
31:59quanto mais esquisito,
32:01quanto mais a coisa
32:02vai por meias
32:03meio sinuosas,
32:05mais a galera se conecta.
32:07É interessante.
32:08É porque, tipo assim,
32:09a gente também tem
32:09que ter uma visão,
32:10de que a gente está
32:11vivendo num mundo
32:12cada vez mais
32:14performatizado,
32:15com parâmetros
32:17hegemonizados
32:17de coisas perfeitas,
32:19feitas por I.A.
32:20A música,
32:21ela está em moldes
32:23que cada vez vão se apertando
32:24e vai se reduzindo
32:25o espaço
32:26para verdadeiramente
32:27ser criativo.
32:28Isso, inclusive,
32:29responde à pergunta
32:30da política,
32:31porque existe um
32:32traço político
32:33do álbum que é muito forte,
32:34que é um álbum
32:35que vai na contramão
32:36da forma que se fazem
32:38as coisas hoje em dia.
32:39É um álbum que
32:40eu estou passando
32:41uma mensagem com ele
32:42de galera,
32:43vamos dar tempo ao tempo,
32:45vamos entender
32:46que não só se produz,
32:48também se vive,
32:51vamos entender
32:52que existe uma forma
32:54que a gente
32:56está sendo condicionado
32:57coletivamente
32:58a viver hoje em dia
33:01e não precisa ser
33:03necessariamente assim,
33:04sabe?
33:05Que é uma forma
33:06que está nos adoecendo.
33:08Sim, total.
33:09Interessante.
33:10Surgiu uma questão aqui
33:12que engloba
33:13várias coisas
33:14que você já conversou
33:15com a gente.
33:18eu percebi
33:19que você
33:22tentou criar algo
33:23totalmente novo,
33:24algo que
33:25é contra
33:27o que está sendo
33:28performado hoje,
33:29algo que
33:30não quer,
33:31que quer mostrar,
33:33você quer se posicionar
33:35como mulher
33:35em um ambiente
33:36muito dominado
33:37por homens
33:38e o que que você,
33:40eu quero que você fale
33:41o que você
33:42tentou ao máximo
33:43não fazer,
33:44o que que às vezes
33:45foi,
33:47às vezes pessoas
33:48ou o mundo
33:49tentou,
33:52pediu para você fazer
33:53e você falou
33:53não, isso de jeito nenhum.
33:57Então,
33:57tem várias coisas
33:58que são muito
33:59automáticas,
34:00tipo a coisa
34:01de afinar voz,
34:03né?
34:04Todo mundo afina a voz,
34:05eu afinei voz
34:06em alguns momentos,
34:07mas eu já tinha
34:08bem claro para mim
34:09que o álbum
34:10é um retrato
34:10de quem eu sou
34:11hoje em dia
34:11e que a minha
34:13sinceridade
34:14está nessa pessoa
34:16que eu sou
34:16e não numa pessoa
34:17inventada.
34:18Então,
34:19eu tentei preservar
34:20ao máximo
34:20meus micro desafinos
34:22e justamente
34:24entender que existe
34:25uma beleza nisso,
34:26existe uma beleza
34:28às vezes
34:28quando o tempo
34:29acelera na música,
34:30quando a gente
34:31sai da quadratura
34:33perfeita
34:33e faz coisas
34:34diferentes.
34:36Eu acho que assim,
34:36ser mulher
34:37sempre vão ter
34:38muitos obstáculos,
34:39sempre
34:42vão ter
34:44homens
34:44invejosos
34:46tentando
34:46te lapidar,
34:48te cortar,
34:49cortar sua asa,
34:50isso é uma coisa
34:51que sempre
34:52acontece,
34:54sempre vão ter
34:55coisas sutis,
34:56situações sutis
34:57que você vai se sentir
34:58acuada
34:59e vai ler
34:59a situação
35:00e vai entender
35:01que não é
35:02para ocupar
35:03esse espaço
35:04e aí,
35:05assim,
35:05graças a Deus
35:06minha terapia
35:06está muito em dia
35:07e minha revolta
35:09política também,
35:10porque são
35:10nesses momentos
35:11que eu falo
35:11vou ocupar
35:12sim,
35:13senhora.
35:16Lulu,
35:16tem mais perguntas?
35:19Deixa eu ver...
35:20Ah,
35:21não,
35:21no momento não.
35:22Então,
35:22vou caminhar
35:23para o fim,
35:23que era,
35:24Júlia,
35:25mais uma vez,
35:25muito obrigado,
35:26as portas aqui
35:27do jornal,
35:29do Divirta-se,
35:29estarão sempre abertas
35:30para você,
35:31valeu demais,
35:32viu?
35:33Oi,
35:33gente,
35:33que legal,
35:34que papo bom,
35:35fiquei muito feliz
35:35com os lugares
35:36que essa entrevista foi,
35:38me tirou muito
35:39da minha zona de conforto,
35:40achei muito legal.
35:42Foi meio vermelho,
35:43está de acordo
35:44com a...
35:44Completamente.
35:46Eu queria só,
35:47a gente pode fazer
35:48aquele bate-bola aqui?
35:49Pode,
35:50fica à vontade.
35:50A gente faz um bate-bola
35:51no final do Divirta-se,
35:53é assim,
35:53pergunta bem
35:54entrevista da...
35:55Marília Gabriela,
35:57um pingue-pongue,
35:58um disco,
36:00um...
36:00Então,
36:01beleza,
36:01vamos fazer.
36:03Então,
36:03Júlia,
36:05uma música,
36:07uma página do Relâmpago Elétrico,
36:09legal,
36:10um artista,
36:12Jéssica Gaspar,
36:14um filme,
36:16Janelas Indiscretas,
36:17do Hitchcock,
36:19uma comida,
36:20sushi,
36:23um rolê em BH,
36:26piquenique na Praça do Papa,
36:28um livro,
36:31um livro,
36:33eu gosto do Claro Enigma,
36:35do Drummond,
36:36legal,
36:38é isso,
36:39é isso,
36:40eu não sei mais,
36:40quem quer te acompanhar,
36:43aonde que você está,
36:44nesse mundo virtual,
36:46sim,
36:46com certeza,
36:47gente,
36:48estou no Instagram,
36:49juliaguedes.musica,
36:51estou no Spotify,
36:52em todas as plataformas digitais de música,
36:54Julia Guedes,
36:55estou no YouTube também,
36:57lá,
36:57às vezes,
36:57eu posto algumas versões,
36:59uns covers,
37:00de outras composições,
37:03estou no TikTok também,
37:05dando minha vida,
37:06e pagando todas as línguas do mundo,
37:07porque eu sempre falei,
37:08jamais vou me render,
37:10e estou aqui me rendendo,
37:11sendo muito feliz,
37:11me divertindo.
37:13Que bom,
37:13que bom,
37:14pelo menos isso.
37:15Com certeza.
37:15Júlia,
37:16obrigadão mais uma vez,
37:17viu,
37:17um grande abraço,
37:19e dá um tchau coletivo para a turma.
37:21Tchau, galera,
37:21beijão,
37:22prazerão.
37:22Adiós.
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