- há 18 horas
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TecnologiaTranscrição
00:00E mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro
00:05revelaram conversas com o ministro do STF, Alexandre de Moraes,
00:10antes que o dono do Banco Master fosse preso.
00:14Além disso, elas voltaram a colocar em evidência
00:17algo que pode passar despercebido no dia a dia.
00:22O quanto um único aparelho concentra o registro mais completo
00:27e involuntário da vida de uma pessoa.
00:30Mas o que exatamente é possível reconstruir tecnicamente
00:35a partir de um celular apreendido?
00:38Esse é o assunto de hoje da nossa coluna Olhar do Amanhã.
00:54E vamos falar com o doutor Álvaro Machado Dias,
00:59professor da Unifesp, neurocientista futurista e colunista aqui do Olhar Digital.
01:04Vamos lá?
01:06Olá, boa noite, doutor Álvaro Machado Dias.
01:09Opa, deixa eu colocá-lo em tela cheia.
01:11Boa noite, seja muito bem-vindo.
01:14Boa noite, Marisa.
01:15Bom, doutor Álvaro Machado, vamos falar um pouco sobre esse caso Vorcaro, não é?
01:21Que é um exemplo real de até onde esse tipo de perícia consegue chegar.
01:26Como que funciona tecnicamente essa extração forense de um celular apreendido, doutor Álvaro?
01:32O que é possível recuperar e o que ainda escapa dessa tecnologia?
01:39A primeira coisa para a gente entender, Marisa, é que a perícia não lê o celular, tá?
01:44Ela copia.
01:46O aparelho é isolado da rede para que ninguém apague nada à distância, tá bom?
01:51Porque ele está fora da internet.
01:52E aí é passado uma ferramenta.
01:54Tem algumas, tá?
01:55Uma das mais conhecidas é chamada Celebrite.
01:58Ou Celebrite.
01:59E ela faz uma cópia integral dos arquivos.
02:02Aí entra um software, no caso específico do Vorcaro, que é um software próprio da Polícia Federal, IPED, tá bom?
02:10Ele indexa esse volume gigantesco, ou seja, ele organiza esses arquivos e ele permite cruzar os horários, cruzar os registros
02:18com os arquivos que estão ali dentro.
02:20Ou seja, o sujeito entrou e enviou uma mensagem no WhatsApp.
02:24Pum, tal horário.
02:26Existe tal arquivo guardado numa pasta temporária.
02:30As duas coisas dão match, tá bom?
02:32No caso do Vorcaro, por exemplo, o relatório mostra mais de 30 mil logs e mais de 40 mil registros.
02:39Ele usava bastante o celular, tá?
02:41De uso de aplicativo.
02:42E é esse cruzamento, e não uma mensagem ou outra específica, que determina ou orienta as conclusões, tá?
02:50O ponto que eu acho que é interessante para a nossa audiência é que o smartphone, a gente tende a
02:58achar que ele é um sistema que funciona simplesmente pela anotação, tá bom?
03:04Aquilo que a gente registra é o que fica nele.
03:07Aquilo que não está mais registrado não está nele.
03:10Isso não está correto, não é dessa maneira que funciona.
03:13Tem, abaixo dessa camada visível para o usuário, muitas outras camadas que servem para que a tecnologia funcione direito.
03:23Por exemplo, serve para que exista uma memória rápida e o aplicativo possa te oferecer uma informação que você está
03:29buscando de primeira.
03:31Com a inteligência artificial, cada vez mais, serve para te oferecer alguma coisa antes mesmo de você pedir.
03:37Porque contextualmente ela faz sentido.
03:39Portanto, registros de aplicativos abertos, registros de quando você fechou um aplicativo, quanto tempo você ficou, telas capturadas,
03:46tudo isso é absolutamente fundamental para esse funcionamento, ou pelo menos é importante, vamos dizer assim.
03:53E é fundamental quando você quer performance e faz parte do pacote que você leva, que está distante dos seus
04:02olhos.
04:03Para fechar, o caso do Vorcaro aqui, ele é a própria ironia contemporânea, eu diria que ele traduz muito bem
04:09o desconhecimento disso.
04:11Apesar de ele ser um sujeito claramente inteligente e maquiavélico, ele montou um esquema para driblar o WhatsApp e ele
04:18errou no básico.
04:19Porque olha só, ele escrevia no aplicativo de notas, tirava print e mandava imagem em visualização única.
04:26A ideia dele era, não pode ficar nada lá no WhatsApp.
04:29E o WhatsApp a gente sabe que tem essa criptografia ponta a ponta.
04:33Então é só se o contato dele do outro lado revelasse alguma coisa que aquilo estaria na mão de alguém,
04:38da polícia.
04:39Só que ele não contava com o próprio iPhone, ele tinha um iPhone e ele não contava que a cada
04:45nota que ele gerava
04:46era produzido um PDF temporário com o mesmo texto, numa pasta chamada Temp, de temporária, TMP, e ela ficava lá.
04:54Então ele se protegeu contra o aplicativo e ele acabou caindo nas garras do próprio celular.
05:00Que coisa, não, doutor Alvaro?
05:02Agora, como se garante...
05:04Pois é.
05:05Agora, como garantir essa...
05:08Você até explicou essa mecânica de que é feita uma cópia, mas como garante a autenticidade de mensagens extraídas de
05:15um celular?
05:16Isso pensando em algum outro caso.
05:17As mensagens que são extraídas de um celular, como que se garante a autenticidade se ela não foi alterada ali?
05:23A primeira coisa que eu quero te dizer é o seguinte, existem muitas discussões aqui, muitos pontos em aberto.
05:30Um que não existe é o da autenticidade, é o mais bem resolvido de todos.
05:34Eu vou te explicar como que ela é garantida, mas antes de mais nada, a autenticidade, eu posso dizer com
05:40toda segurança,
05:41que é tema resolvido, não há debate.
05:43O que acontece?
05:45Quando você faz uma cópia, surge um hash, que é igual no blockchain, que a gente tem um código único.
05:51E quando existe uma modificação de um único bit, o hash muda.
05:56Aliás, a gente já discutiu aqui há muito tempo como funciona, qual que é a lógica fundamental dos blockchains.
06:03Como que um bloco está encadeado com outro?
06:07Como que, por exemplo, eu sei que ninguém foi lá e usurpou a cadeia do blockchain e levou um bloco
06:13embora com um monte de tokens dentro.
06:15Como isso é feito?
06:17Porque existe um hash que funciona como uma chavezinha e se você mudar um único bit, no caso na tabela
06:23de valores do blockchain,
06:24ele é mudado e todo mundo vai saber e ele já não se encaixa mais na cadeia.
06:28Aqui é a mesma coisa.
06:29Se você mudar um único caractere, muda o hash e, consequentemente, há uma divergência e todo mundo sabe que aquele
06:37arquivo não é mais o autêntico.
06:38Então, essa é a maneira como isso é feito.
06:41A custódia está baseada não simplesmente na manutenção dos arquivos, mas na manutenção desses logs, dessa impressão digital matemática.
06:51Acho que essa é uma boa expressão.
06:52É uma impressão digital matemática.
06:55Agora, Marisa, para mim, a pergunta que importa é um pouco diferente.
07:00É o seguinte, a PF sabe isso, sabe que tem essa coisa que é autêntico o arquivo, não há discussão.
07:07Tanto que o relatório admite que nenhum documento foi mexido, não tem nada.
07:13O ponto é, sendo autêntico, como que a perícia, no fundo, vai sair de um conjunto de dados para uma
07:25orientação conclusiva?
07:26Não necessariamente nesse caso, mas em geral.
07:30Como é que você vai do dado que é frio, entende?
07:34Ele não está explicitamente dizendo alguma coisa, ele está simplesmente sugerindo para conclusões explícitas.
07:42A resposta é que, em quase todos os casos, o caminho é comportamental.
07:47Isso que é interessante.
07:48Inclusive, a maior parte dos casos, se a gente olhar do ponto de vista estatístico, envolvem crimes sexuais.
07:53Por exemplo, crimes de pedofilia e outros mais.
07:55Como é que essas pessoas são presas?
07:58O que acontece?
07:59São as pistas comportamentais que vão determinar.
08:01Então, olha essa sequência aqui, que eu acho que ela é muito reveladora.
08:05Fábio Faria manda ao Vorcaro quatro contatos com o mesmo número.
08:09Alexandre de Moraes, Brasília, Novo, algum com STF, sei lá.
08:15STF, TSE, Novo e STF.
08:2013 segundos depois, alguma coisa assim, tá bom?
08:23O contato está salvo na agenda do Vorcaro.
08:26Isso é um mano fazendo exatamente o que o mano faz quando recebe uma informação ou um telefone de alguém
08:32importante.
08:32Depois o Faria pede o endereço da casa do Vorcaro para ele repassar ao Alex.
08:37E avisa que vai apagar na sequência.
08:39Entende?
08:40É esse tipo de coisa que vai gerando as conexões, mais do que simplesmente a informação nu e cru.
08:47Eu acho que quando a gente vai discutir perícia, esse tipo de coisa, é importante ter em mente que raramente
08:53é a descoberta de uma informação pura que está escondida no celular.
08:57É o contexto que gera algo numa linha mais conclusiva ou menos.
09:02E esse caso aqui, para deixar bem claro, ele ainda segue em aberto.
09:06Tá, é, que realmente é essa questão do comportamento, não é?
09:09Agora, falando um pouco de nós, né?
09:11Todo mundo, praticamente tudo que a gente faz hoje passa pelo celular.
09:16Isso muda a natureza, doutor Álvaro, da privacidade na era digital mesmo?
09:21Para quem nunca, por exemplo, se imaginou ser investigado?
09:25Muda porque o celular não é mais só um instrumento de comunicação, ele é um sistema de registros.
09:31Ele é um sistema, é um system of records, como falam os americanos, tá?
09:36Ou seja, ele é uma espécie de inventário de tudo que você faz digitalmente.
09:42Quase tudo, né?
09:42A gente usa muito mais celular do que computador.
09:44Então, conforme ele vai funcionando como esse diário e essas coisas vão sendo registradas em pastas profundas
09:53que não estão à nossa vista, o que vai acontecendo é que a gente vai assumindo que elas não existem.
09:58Então você aceita os termos de um aplicativo, enfim, você faz uma série de coisas sem ler
10:05e ao mesmo tempo você vai deixando marcas nesses arquivos temporários.
10:10Inclusive é assim, é por esse caminho, que é muito mais comportamental de novo,
10:14que é o das coisas que se tornam invisíveis, que muitos dos vírus contemporâneos,
10:21das invasões contemporâneas acontecem.
10:25Fica um negócio lá escondido por muito tempo.
10:27Você nem lembra mais que um dia clicou em qualquer coisa, acha que como não aconteceu nada,
10:32está tudo resolvido.
10:33Meses depois, aquilo registra o seu comportamento de clique na tela do banco
10:38e aos poucos vai drenando recursos.
10:42Esse é o mecanismo mais eficiente, tá?
10:44Muito mais do que lá e distrair uma grana e aquilo evidentemente ser percebido
10:48e você não só fechar a conta como denunciar, enfim.
10:51É esse outro caminho que é mais forte.
10:56E o que está por trás disso?
10:58A privacidade tradicional e toda a lógica desse raciocínio
11:04que nos torna mais vulneráveis aos hackeamentos,
11:06se apoiava no esquecimento.
11:08A ideia é que as coisas se perdiam, se esqueciam.
11:12É o papel, né?
11:12O papel amarelava, depois o papel rasgava e acabou.
11:16Hoje não.
11:17Não, hoje existe uma temporalidade diferente que está acontecendo nessas camadas
11:22que estão acumulando dados dos seus aplicativos digitais
11:26e do celular como um todo, do hardware.
11:29E era justamente isso até que eu ia comentar, né?
11:32Que se qualquer um de nós tivesse o celular aprendido hoje, né?
11:36E fizessem essa técnica de perícia digital moderna,
11:40o que ele conseguiria fazer reconstruir da nossa vida?
11:44Isso até já superou a nossa capacidade de memória?
11:48Olha, com certeza superou.
11:50Eu acho que reconstruiria muito mais do que a gente imagina e até gostaria, tá?
11:55Por exemplo, reconstruiria onde você estava,
11:58com uma precisão de metros, tá?
12:00Mês a mês.
12:01Com quem você falou?
12:02Por quanto tempo?
12:03Com que frequência?
12:04Quem você não respondeu?
12:06Essa é boa.
12:07Quem que você deixou no vácuo?
12:09A que horas você foi dormir?
12:11A que horas você acordou?
12:13O quanto você é obsessivo por celular?
12:16Como você usa?
12:16O Vorcaro é um heavy user do celular, né?
12:20O que você procurou no Google naquela sua noite de insônia?
12:24As mensagens que você escreveu e não enviou?
12:27E assim vai, né?
12:28E o caso do Vorcaro é justamente essa coreografia de gestos,
12:32aplicativo por aplicativo,
12:34esperteza por esperteza,
12:36que gera o filme,
12:37que é muito mais do que um retrato, né?
12:39Gera a narrativa.
12:41Uma coisa que eu acho que,
12:42pra fechar aqui,
12:43vale a pena a gente considerar, Marisa,
12:45tudo isso que a gente discutiu até agora
12:48é muito 2025.
12:52Hoje a gente tem uma tendência muito forte
12:54de usar a inteligência artificial
12:56pra discutir os assuntos mais complexos da vida.
12:59E eu diria que isso não é exceção pra ninguém.
13:01E tal como tem gente que usa o modo anônimo do Google
13:06ou, em menor grau, do Bing,
13:07achando que, claro,
13:08aqui eu tô totalmente protegido na minha caixinha oculta.
13:14Tem gente que vai lá e faz a mesma coisa
13:15no chat APT ou no cloud.
13:19Mas a realidade é que as inteligências artificial
13:22também registram as suas informações.
13:25E a gente vem acompanhando casos
13:27em que essas informações são repassadas pra polícia.
13:29No caso, a gente discutiu já aqui no programa
13:33a situação em que o pai,
13:36que planejou matar o filho,
13:37uma coisa horrível,
13:38e isso foi repassado pro FBI.
13:40O FBI repassou pro Ministério da Justiça
13:42e Polícia Federal Brasileiras.
13:44E, enfim,
13:45com essas empresas mais sedimentadas,
13:48estruturadas no país,
13:49com escritórios mais bem equipados
13:53pra cumprir a lei brasileira,
13:54que exige tudo isso,
13:57essa transmissão vai ser muito mais em linha direta
14:00e tende a acontecer de maneira muito mais frequente e forte.
14:03Então, eu agrego a essa reflexão
14:06o fator de transformação,
14:08que é cada vez mais as informações críticas
14:12para casos desses bem, assim,
14:16de tirar, de fazer cair os cabelos,
14:19virão da inteligência artificial,
14:22trabalhando junto com os celulares.
14:24Porque uma das tendências de hoje em dia
14:27é a gente ter os chamados pequenos modelos
14:29dentro do celular.
14:30Então, eventualmente, o sujeito fala
14:32ah, mas eu não vou falar
14:33uma coisa dessa, sensível,
14:35com o Gemini.
14:37Porque eu não quero que ela tenha
14:38qualquer relação com o Google.
14:40Só que você fala com o mini modelo
14:41do seu celular,
14:42que daqui a um ano, dois anos,
14:44vai estar com uma potência
14:45bem razoável de discussão.
14:47E essa coisa termina registrada
14:49do mesmo jeito
14:50que os arquivos em TXT,
14:53que depois viraram PDF do Vorkar,
14:55e agora estão dando esse susto na nação.
14:58Pois é, e no fim das contas,
15:00elas acabem ensinando todo mundo
15:02o que não fazer no final das contas também.
15:06Eu quero mais é que façam, né?
15:07Para a gente ter o registro, né?
15:09Chato é quando fazem isso,
15:11ninguém percebe,
15:12e é, enfim, não há um desmascaramento.
15:16Aí é pior.
15:17Com certeza.
15:17Mas sim, é isso aí.
15:18Com certeza.
15:19Com certeza.
15:20Melhora a transparência,
15:22que já que não existe,
15:23vamos achá-la, não é?
15:25Tá aí, doutor Álvaro Machado Dias,
15:27mais um excelente tema
15:29para a gente falar aqui hoje,
15:30nesse olhar do amanhã,
15:31que nem é tanto amanhã,
15:32porque isso aconteceu hoje,
15:34semana que vem.
15:35A gente tem mais assuntos por aqui,
15:37doutor Álvaro.
15:38Muito obrigada, viu?
15:39E tenha uma excelente semana.
15:41Eu que agradeço,
15:42agradeço todo mundo que nos acompanha,
15:43até semana que vem.
15:44Até, doutor Álvaro.
15:46Tá aí mais uma coluna
15:47Olhar do Amanhã
15:49para vocês aqui
15:50com o doutor Álvaro Machado Dias,
15:52que é professor da Unifesp,
15:53neurocientista e futurista,
15:55e colunista aqui do Olhar Digital.
15:58Semana que vem,
15:59vocês já sabem,
15:59toda quarta-feira tem mais
16:01Olhar do Amanhã para você.
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