00:00Na coluna Olhar Espacial de hoje, Marcelo Zurita vai nos contar a história de um piloto perdido no meio do
00:08Oceano Pacífico
00:09e que foi salvo pela ciência. Então, vamos com ele, contador de histórias, Marcelo Zurita, é com você.
00:26Olá pessoal, saudações aeronáuticas. No final dos anos 70, um pequeno avião monomotor sem instrumentos de navegação e com apenas
00:35um tripulante
00:36se perdeu no meio do Oceano Pacífico depois de mais de 14 horas de voo.
00:41Essa história tinha tudo para se tornar uma tragédia da aviação.
00:44Só não foi graças ao comandante de um avião de passageiros que passava próximo e resolveu gastar todo o tempo
00:50e toda a ciência que tinha disponível
00:51para encontrar e salvar a vida daquele piloto.
00:54Mas peraí, essa não era uma coluna de astronomia?
00:57É, eu sei que provavelmente você estava esperando mais um capítulo da nossa série de viagens espaciais,
01:03mas vou pedir licença para atrasar um pouco a nossa próxima viagem por um bom motivo.
01:07Na semana passada, ficamos sabendo que o Lito Souza, que todos conhecem do canal Aviões e Músicas,
01:13havia sido diagnosticado com uma enfermidade neurodegenerativa rara e atualmente sem cura.
01:19Enquanto ele busca uma oportunidade de participar de tratamentos experimentais
01:22que possam mudar esse prognóstico, ou ao menos lhe dar um mais tempo e qualidade de vida,
01:28eu resolvi lhe fazer uma homenagem contando essa história,
01:31que ele mesmo classificou como a melhor história da aviação de todos os tempos.
01:36Era dezembro de 1978.
01:39Um pequeno avião Cessna 188 voava sobre o Oceano Pacífico,
01:43entre Pago Pago, na Samoa Americana e Norfolk, uma pequena ilha australiana.
01:48A bordo estava apenas o piloto Jay Prokno.
01:51Aquele era o terceiro trecho de uma viagem que ele cruzaria o Oceano Pacífico,
01:55partindo de São Francisco, na Califórnia, para entregar dois Cessnas em Sydney, na Austrália.
02:00O problema é que o Cessna é um avião agrícola com uma autonomia de voo de duas horas e meia.
02:05Ele não era projetado para viagens tão longas e sequer possuía instrumentos de navegação.
02:10Para conseguir realizar entrega, Jay chamou um amigo para ir com ele,
02:14levando outro avião e voando em dupla, para que um ajudasse caso o outro tivesse o problema.
02:20Eles levaram um reservatório extra de combustível e planejaram paradas no Havaí, Pago Pago e Norfolk.
02:25Mas no meio da viagem, ao decolar de Pago Pago, o amigo sofreu um acidente e não pôde continuar.
02:32Jay decidiu então que voaria dali para frente, sozinho, até a Austrália.
02:36Só que deu ruim e ele acabou se perdendo.
02:38Na verdade, eles não sabiam exatamente onde estavam em grande parte da viagem.
02:42Eles até faziam uma ideia considerando a velocidade do avião, os ventos e a direção em que estavam seguindo.
02:47Mas para encontrar uma pequena ilha isolada no meio do oceano,
02:50eles precisaram improvisar um instrumento chamado ADF no painel do avião.
02:55E sintonizavam ele na frequência de uma rádio AM da ilha e esperavam se aproximar o suficiente para captar o
03:01sinal.
03:02Aí o ADF apontava a direção em que eles deveriam seguir para chegar ao destino.
03:07E naquele dia, 14 horas depois de decolar de Pago Pago, o ADF captou o sinal de Norfolk
03:13e apontava para frente, indicando que Jay estava no caminho certo.
03:17E como o alcance do ADF era de cerca de 200 quilômetros,
03:21ele estimou que em uns 30 minutos estaria pousando na ilha.
03:24Só que depois de quase uma hora voando na direção apontada, o ADF perdeu o sinal de Norfolk.
03:31Jay percebeu que o único instrumento de navegação que ele tinha havia falhado
03:35e tudo o que ele podia ver da janela do Cessna era a imensidão do oceano.
03:40A centenas de quilômetros dali, um DC-10 da Air New Zealand recebeu o pedido de socorro de Jay.
03:45O comandante Gordon Witt, após consultar a tripulação, perguntou aos 88 passageiros a bordo
03:51se eles não se incomodariam em atrasar um pouco a viagem para tentar encontrar e salvar a vida daquele piloto.
03:57Ninguém se opôs e isso transformaria aquele voo comercial em uma espetacular missão de salvamento.
04:04O contato com Jay foi feito através do rádio HF, usado para longas distâncias,
04:09mas pelo VHF, que tem alcance de cerca de 370 quilômetros, nada.
04:14Isso significava que o Cessna estava a mais de 370 quilômetros do DC-10.
04:19Mas como saber em que direção?
04:21Da mesma forma como os antigos nativos daquela região se localizavam em suas viagens pelo oceano,
04:27através da navegação astronômica.
04:29O único astro disponível naquele momento era o Sol, próximo do horizonte,
04:34o que oferecia uma referência comum aos dois aviões.
04:37Gordon pediu que Jay apontasse o Cessna diretamente para o Sol
04:41e olhasse na bússola que direção estava seguindo.
04:44No DC-10, Gordon fez a mesma coisa.
04:47O Cessna apontava para 274 graus, enquanto o DC-10 apontava para 270.
04:52E como a Terra é redonda, isso só poderia indicar que o pequeno avião estava ao sul do DC-10.
05:00Gordon então pediu que Jay estimasse a altura do Sol acima do horizonte.
05:04Como não havia nenhum cestante a bordo, usaram um instrumento para medir distâncias angulares,
05:10bem conhecido dos astrônomos amadores, as mãos.
05:13Com o braço esticado e apontado na direção do Sol,
05:17ambos contaram quantos dedos havia entre o horizonte e o Sol.
05:20No Cessna, cerca de quatro dedos, e no DC-10, aproximadamente dois dedos e meio acima do horizonte.
05:28Sabemos que o Sol nasce e se põe mais cedo para quem está mais a leste,
05:32então Gordon concluiu que o Cessna estava a sudoeste do DC-10.
05:36Ele então mudou o curso do avião e partiu para tentar localizar o pequeno Cessna,
05:41que já ficava perigosamente com pouco combustível.
05:44Ainda assim, Gordon pediu para que Jay permanecesse voando em círculos bem apertados,
05:48praticamente sem sair do lugar.
05:49A ideia era tentar triangular uma posição mais precisa do Cessna.
05:53Para isso, o DC-10 já estava indo aproximadamente na direção do monomotor,
05:58enquanto tentava contato pelo VHF, que tem o alcance curto.
06:02Quando conseguiu o contato, Gordon marcou a posição no mapa
06:05e seguiu em linha reta até perder o contato.
06:09Novamente, marcou a posição no mapa, se afastou e se reaproximou,
06:14entrando e saindo mais uma vez do alcance do VHS e marcando as posições.
06:18Esses quatro pontos marcados no mapa tinham algo muito importante em comum.
06:23Todos eles ficavam aproximadamente 370 quilômetros de distância de onde o Cessna estava.
06:30Com isso, eles conseguiram calcular sua posição aproximada
06:33e definir qual direção Jay teria que seguir para chegar a Norfolk.
06:37Além disso, eles fizeram uma última medição.
06:39Jay marcou o momento exato em que o sol desapareceu no horizonte.
06:43Os controladores do aeroporto de Norfolk fizeram o mesmo e lá o pôr do sol ocorreu 22 minutos e meio
06:49mais tarde.
06:50Considerando isso, a diferença de altitude dos dois observadores,
06:53eles calcularam que Jay estava aproximadamente 540 quilômetros a leste de Norfolk.
06:59Agora, a vida de Jay dependeria apenas da precisão dos cálculos.
07:02Mas Gordon não considerou sua missão cumprida e seguiu em direção em que esperava encontrar o Cessna.
07:08Das janelas do DC-10, os passageiros se revezavam procurando qualquer sinal do pequeno avião.
07:13A noite chegou, o combustível estava quase no fim.
07:17Jay já considerava pousar no oceano e esperar o resgate, o que provavelmente seria fatal.
07:22Foi então que viu uma luz na superfície do oceano.
07:25Não era ilha, e sim uma plataforma de exploração de petróleo.
07:29Gordon conseguiu as coordenadas da plataforma e, ao seguir naquela direção, encontrou o pequeno Cessna.
07:35Todos os eufóricos comemoraram aquele momento.
07:38Somente quando Jay pousou em segurança em Norfolk, sem nenhuma gota a mais de combustível,
07:43e depois de mais de 23 horas pilotando o Cessna 188, Gordon se despediu e seguiu seu voo para o
07:50destino final.
07:51Eu conheci o trabalho do Lito Souza através do episódio 149 do canal Aviões e Música,
07:57quando ele contou essa história do Cessna 188.
08:00Foi aquele vídeo que me fez conhecer, acompanhar e admirar seu trabalho.
08:05Lito, eu quero aproveitar esse espaço para agradecer pela dedicação, pela excelência
08:10e por tudo aquilo que você construiu ao longo desses anos.
08:13Para mim, você é mais do que um divulgador ou um influenciador.
08:16Você é uma verdadeira inspiração.
08:19Nós sabemos, Lito, que agora a vida lhe impôs um desafio dos mais complicados.
08:23Mas nós, assim como os passageiros daquele DC-10, estamos todos contigo,
08:29apoiando, torcendo e esperando que, com a ajuda da ciência,
08:33você encontre a direção certa e consiga pousar em segurança.
08:38Até a próxima!
08:39Tchau, tchau!
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