Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 7 horas
Denise Fraga relembra a morte da mãe ao refletir sobre conexões humanas no Encontro Futuro Vivo

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:01Bom, cá estou eu de novo, mais uma vez, Christian, Marina, toda a equipe da Vivo.
00:07Obrigada por isso.
00:09Pessoal da Mandala, Lourenço, Vitor, esse é o tipo de evento que dá esperança na gente.
00:15Toda apresentação no início, a gente precisa acordar a nossa esperança mesmo, todo dia,
00:21fazendo um esforço danado, mesmo os obstinados, os otimistas obstinados,
00:30como eu, otimistas realistas, utópicos, de estrela guia.
00:38Adoro a utopia do Galeano, que meu amigo Janete, que é o rei das citações, bem conhece,
00:45que a utopia está lá no horizonte.
00:49Eu dou dois passos, ela dá dois passos.
00:54Eu ando dez, ela anda dez.
00:57Eu nunca vou alcançar a utopia.
01:00Aí falo, para que serve a utopia?
01:03Para me fazer caminhar.
01:06E sem a utopia a gente não é nada, eu penso.
01:10Todas as vezes que eu acho que eu vou esmorecer, eu não esmoreço.
01:14Eu trouxe uma historinha para contar para vocês, que assim, é bem prosaica, bem pequenininha.
01:21Eu, a primeira vez que eu saí no jornal, foi em 8 de maio de 1965.
01:31Eu tinha seis meses.
01:35Tem a foto do jornal que eu dei para o pessoal.
01:38Pode pôr já, então, a foto do jornal.
01:43Olha aí.
01:46O que aconteceu foi o seguinte, o jornal Última Hora do Rio de Janeiro, a minha família é carioca,
01:53promoveu um concurso que levasse as cinco gerações do mesmo sexo no Dia das Mães, ganhava.
02:01Tinha que ser as cinco gerações do mesmo sexo.
02:03Nós ganhamos.
02:06E essa sou eu no colo da minha tataravó.
02:13E está aqui a capa do jornal, que a legenda é a neta da neta da vovó.
02:23E embaixo tem, minha neta, onde está sua neta?
02:27Essa história a gente contou na minha família sempre com muito carinho.
02:33Era uma anedota familiar.
02:35A gente falava que a gente era famoso, porque tinha saído no jornal e tal.
02:39E aí, quando a minha avó morreu, minha avó, minha tataravó, minha bisavó, minha avó, minha mãe e eu.
02:59Quando a minha avó morreu, ela tinha guardado a capa.
03:04E eu peguei e enquadrei essa capa e tenho na sala da minha casa há muitos anos, mostro, conto a
03:11história e provo.
03:14Sempre com muita alegria.
03:17A certa altura, eu comecei a olhar para essa capa e eu percebi o seguinte, que essa história só aconteceu
03:22porque, pelo menos, duas mulheres da minha família se casaram crianças.
03:29Uma com 15, outra com 16.
03:32Minha avó com 16 e a filha dela com 15.
03:37Tudo bem, era muito comum naquela época, vamos falar.
03:40Só que os homens eram muito mais velhos.
03:43E eu ficava bolada com essa história.
03:47Mas sempre fui, eu acho que hoje eu sou o arsenal, eu sou o depositário das histórias da minha família,
03:54porque eu sempre perguntei muito e falei muito.
03:58E só que elas se foram.
04:01E a última que se foi há muito pouco tempo, recentemente, recentemente, um ano e meio, tá?
04:13Mas é que morte da mãe da gente fica muito tempo recente, né?
04:18E quando a minha mãe morreu, eu...
04:24Aconteceu um negócio comigo.
04:26Primeiro, porque agora eu era a ponta da linha.
04:30Segundo, porque eu pude vivenciar a trajetória do fim da minha mãe.
04:35E que foi algo muito determinante na minha vida.
04:38Porque a minha mãe morreu muito lúcida.
04:41A minha mãe foi morrendo durante três anos.
04:44Até que chegou, digamos assim, uns seis meses.
04:47No ano que minha mãe morreu, ela foi internada nove vezes.
04:51Eu me despedi dela para nunca mais quatro.
04:54Na quinta, ela foi.
04:58Essa trajetória do fim foi vivida por mim com muito empenho.
05:04E eu fiz conversas e perguntas para minha mãe que eu nunca tinha feito.
05:09A gente fala sobre coisas tipo...
05:15Do que você se arrepende?
05:16Para quem você queria pedir perdão?
05:19Qual foi a maior emoção da sua vida?
05:22Do que você mais gosta?
05:24Do que você não gosta em fulano ou ciclano?
05:27Lembra aquela história?
05:28E a gente ria junto.
05:31E isso fez com que aqueles dias,
05:35daquela trajetória do fim, apesar da dor que eu estava sentindo,
05:39começassem a ser um show de vida.
05:44Ela quis morrer em casa.
05:46Eu botei a cama dela na sala da casa dela.
05:49Era uma casa pequena de vila.
05:51E eu fiquei morando na casa.
05:54Fiquei com ela o máximo que eu podia.
05:56E todos os dias eu acordava.
05:59E eu me lembro de eu abrir sempre a porta.
06:02Ela estava lá, tinha uma cuidadora.
06:04E eu falava para ela.
06:06O que temos para hoje?
06:09E eu, todos os dias, perguntava que comida ela queria comer.
06:14O que ela queria ver no vídeo.
06:16Ela estava mais mobilizada.
06:18Eu fazia muito carinho nela.
06:21Carinho mesmo de pegar, assim.
06:23Eu me jogava em cima da cama.
06:26Nesse que, pensando.
06:27Tudo que ela queria se despedir.
06:30E isso me moveu para um lugar que era...
06:34Todos os dias podem ser o último dia.
06:37Hoje podia ser o último dia.
06:38Então, o que a gente vai fazer nesse último dia?
06:41E no dia seguinte eu abri a porta e falava.
06:43Hoje pode ser o último dia.
06:45O que a gente vai fazer nesse último dia?
06:47Hoje a gente vai fazer o último dia.
06:49E isso.
06:51Um pouquinho antes dela morrer.
06:53Eu tinha ligado para o doutor Rafael.
06:57E falei que era um médico paliativista.
06:59E falei.
07:00Ela pode tomar uma cervejinha.
07:02Posso dar uma cervejinha para ela?
07:04E ele falou assim.
07:05Denise, você pode dar para ela tudo o que ela quiser.
07:08E eu falei.
07:08O que a senhora quer comer?
07:09Aí aqueles olhinhos.
07:11Ah, meio cansada.
07:13E ela falava assim.
07:15Risole de camarão.
07:16Aí é eu atrás do risole de camarão.
07:19E ela uma hora já estava assim.
07:22Cansei.
07:23Eu não quero.
07:24Falava para o doutor Rafael.
07:26Você não tem um remedinho?
07:28Eu cansei.
07:30Eu estou cansada.
07:30Eu vivi.
07:31E ela falava para mim.
07:33Eu vivi, minha filha.
07:34Eu fiz tudo o que eu quis.
07:37Mesmo quando eu era casada com o seu pai.
07:40E essa mulher.
07:42Toda.
07:44Cheia de vida.
07:45Com aquele corpo.
07:46Que não tinha mais possibilidade.
07:48De carregar tanta vida.
07:50Virou para mim uma escola.
07:52Em uns meses.
07:54Que quando ela se foi.
07:58Eu achava que ela não ia.
08:00Porque era uma fênix.
08:02Parecia uma imortal.
08:04Mas ela foi.
08:06E eu achei que pela consciência toda.
08:08Eu ia.
08:10Ela queria tanto ir.
08:11Ela pedia para ir.
08:14Aí veio um buraco.
08:16E esse buraco.
08:18Veio.
08:18E eu não sabia.
08:19Por que eu estava sofrendo tanto.
08:21Se era tudo o que ela queria.
08:24E aí eu percebi.
08:25Que esse buraco vinha muito.
08:27De ter acabado a minha brincadeira.
08:30Do.
08:31O que temos para hoje.
08:34Como é que a gente pode viver hoje.
08:35Como se fosse o último dia.
08:38E isso me ensinou muito.
08:41Porque isso me dava uma adrenalina.
08:44E eu fiquei pensando.
08:45Em como a gente vive.
08:47Como se não fosse morrer.
08:49E a gente deve viver.
08:50Como se fosse morrer.
08:51Amanhã.
08:53E a gente fala.
08:54Dessa urgência toda.
08:55Que falamos.
08:56Todas as manhãs.
08:58E.
08:59Não acontece nada.
09:02É impressionante.
09:04A.
09:05Lonjura.
09:05Da nossa consciência.
09:07Para a nossa ação.
09:09E aqui.
09:10Na última.
09:11No último.
09:12Futuro vivo.
09:13E tanta gente falou aqui de manhã.
09:15A Chay falou.
09:17O que que acontece.
09:18Se a gente sabe.
09:19Tanto.
09:20Se a gente tem essa consciência.
09:22O que que acontece.
09:24Então.
09:25Vamos nós.
09:26No nosso trabalho de formiguinha.
09:28Que é o que temos.
09:29Que é o que a gente pode.
09:31Realmente fazer.
09:32E isso mudou a minha vida.
09:34E eu passei a ter.
09:35Um trabalho de formiguinha.
09:37De não negar oportunidades.
09:40De vida.
09:41De crescimento.
09:42De viver.
09:43Vivendo.
09:45Viver.
09:45Acordar.
09:46Vivendo.
09:47Prestar atenção.
09:48Não deixar a letargia.
09:50Tomar conta.
09:51Que é o que tem feito a gente.
09:53Ficar desesperançado.
09:55Sem nem ter autorizado.
09:56Porque estamos letárgicos.
09:59Porque estamos com dificuldade.
10:03Da coragem de falar sim.
10:05Por que que você está falando isso?
10:08A gente finge entender todo mundo sem escutar.
10:12Escuta mais ou menos.
10:13Faz.
10:14Mas sabe o que que eu acho?
10:16E a sua opinião em cima.
10:18Tanta coisa que está me deixando de olho esbugalhado nesse mundo e nesse colapso.
10:23Essa palavra é muito boa, né, Lourenço, que vocês estão usando.
10:27É um colapso.
10:28Eu vejo que a gente está num nó.
10:30Num nó social.
10:31Mas aí eu volto a essa estrutura.
10:36Volto a olhar lá na minha sala para essa capa de jornal.
10:41E eu penso que todas essas mulheres que me ensinaram tanto, especialmente a minha Bisa e a minha mãe,
10:51elas foram muito oprimidas.
10:54Como eram oprimidas as mulheres.
10:57Aquela é que mulher não era oprimida.
10:59Mas olha que curioso.
11:01Elas também oprimiram.
11:04No seu pequeno poder, elas oprimiam.
11:09filhas, irmãs mais novas, filhos, empregadas domésticas.
11:16Então, nem se fala.
11:17Porque na casa da minha avó, hoje eu vejo, tinha uma senzalinha, praticamente.
11:22Era um quarto pequeno, onde dormiam as duas mais queridas figuras da minha infância.
11:28Que eram como se fossem da família.
11:32Mas não comiam na mesa com a gente?
11:34E como é que você, criança, vai assimilando isso?
11:38E isso vai de estrutura para estrutura.
11:41Essas mulheres maravilhosas que tanto me ensinaram eram racistas.
11:48Essas mulheres maravilhosas que tanto me ensinaram eram opressoras.
11:54E elas acreditavam que se a lógica, o opressor oprimido, não for implantada, a coisa não funciona.
12:05Ela acredita nessa verticalidade.
12:08Porque foi isso que foi ensinado para elas também.
12:11Mas não vamos passar pano, não.
12:14A minha mãe, talvez, ela sim.
12:17Minha mãe tinha uma alegria desesperada.
12:20Foi a primeira mulher desquitada da família.
12:23Tinha coragem de falar sobre a morte.
12:26Tinha coragem de falar.
12:27Eu vivi.
12:29Eu fiz tudo o que eu quis, mesmo quando eu era casada com seu pai.
12:36Então, quando elas se foram, e agora estou eu aqui sozinha,
12:43eu só posso pensar que herança é uma coisa seletiva.
12:50Que temos, sim, que louvar os nossos ancestrais.
12:55Mas que a gente precisa urgentemente dar uma guinada nesse projeto que não deu certo.
13:02Esse projeto que acredita na lógica do opressor e oprimido,
13:08na lógica capitalista, do dinheiro a qualquer custo.
13:13O dinheiro para minha avó, minha bisa, que eu chamava de avó e que me criou para minha mãe trabalhar,
13:21não era a qualquer custo, eu me lembro.
13:24Ela não ligava muito para o dinheiro.
13:26Abria a casa, dava comida para todo mundo.
13:29E tinha outras riquezas.
13:32Então, eu fico vendo que eu não quero herdar esse racismo.
13:39Eu não quero herdar essa lógica do opressor e oprimido.
13:44Mas tem uma coisa que essas mulheres me ensinaram,
13:47que eu acho que é o nosso grande motivo de adoecimento.
13:53Que é, nos tiraram, principalmente, a questão da rede social,
13:59em que parece todos nós conectados,
14:02mas nos foi roubada uma coisa essencial para viver,
14:05que é a noção de ter com quem contar.
14:12Na minha comunidade, eu sempre tinha a sensação de ter com quem contar.
14:18Eu tinha vizinho, eu tinha uma família grande, alguém ia por mim.
14:24Hoje em dia, você vai fazer uma endoscopia, o hospital te oferece um acompanhante pago.
14:32Eu falo, caramba, será que não tem um amigo disponível para te acompanhar num exame que você vai sair anestesiado?
14:41Quem aqui ainda tem coragem de quando falta açúcar?
14:46Açúcar não, que ninguém mais come açúcar.
14:50Falta sal.
14:52Fósforo, fósforo, vai.
14:54Não, que acende assim também o fogão.
14:57Alguma coisa essencial que falte, por favor.
15:03Gelo.
15:07Um iPhone.
15:08Isso é bom.
15:09Isso é bom.
15:10Wi-Fi.
15:11Wi-Fi é ótimo, Wi-Fi.
15:13Não sou ninguém sem Wi-Fi.
15:15Eu bato no meu vizinho.
15:17Será que você podia me emprestar sua senha que eu fiquei sem Wi-Fi?
15:22Quem é que faz isso?
15:24Olha, ainda tem, gente.
15:26Mesmo sem conhecer, pede xícara de sal.
15:33Mas é uma coisa em extinção.
15:35Essa sensação de que somos uma comunidade.
15:40Tem uma frase que eu amo do Paul Singer.
15:44Eu li uma entrevista do Paul Singer.
15:45Foi numa entrevista.
15:46Ele falava um negócio que nunca me saiu da cabeça.
15:49Ele falava, nosso grande desafio é nos equilibrar entre o nosso instinto de sobrevivência
15:57e o nosso instinto de solidariedade.
16:02E eu achei muito curioso ele falar instinto de solidariedade.
16:07Porque se a coisa que querem ensinar pra gente é que a gente não é mais instintivamente.
16:13solidário, né?
16:14Eu fiquei pensando, será que a gente é ainda instintivamente solidário?
16:20Aí eu pensei uma coisa.
16:22Ó, o teste da solidariedade.
16:26Não, do instinto de solidariedade.
16:29Eu tô aqui assistindo lá a palestra da Vivo.
16:32Não teve lugar pra mim, tô em pé.
16:35Tem uma pessoa aqui do meu lado, em pé.
16:39Essa pessoa passa mal e cai.
16:41O meu corpo faz assim, ó.
16:46Sem que eu queira.
16:48Sei lá, eu tô pra atravessar a rua.
16:51Tem uma pessoa do meu lado.
16:52Vem um ônibus.
16:53Essa pessoa põe o pé fora da calçada.
16:56Eu sou capaz de botar a mão no peito de um estranho.
17:00Ou seja, a solidariedade ainda está aqui.
17:05Ainda tá aqui.
17:07Ainda, né?
17:07Porque eu fico pensando, será que vai chegar o dia
17:09que uma pessoa vai cair aqui do meu lado e eu vou fazer...
17:14E filmar.
17:18Não duvido.
17:19No outro dia eu tava andando com uma amiga pela calçada,
17:22as gargalhadas e eu passei com o pé do lado de um nariz.
17:26O nariz era de uma pessoa que tava deitada na calçada.
17:30Ela podia estar tendo um ataque do coração.
17:33Mas não, eu já acho que aquele lugar é o dela.
17:36A única coisa que vai fazer eu falar pra essa pessoa
17:40se tá passando bem, é o meu preconceito.
17:43Se ela tiver com um figurino de shopping, um tênis importado, né?
17:47Eu vou virar pra ela e falar
17:49o senhor tá precisando de alguma coisa, né?
17:51Se não, o não.
17:53Ou seja, a gente se acostumou com o inacostumável.
17:58É verdade.
17:59A gente se acostumou com o que não dava pra acostumar.
18:03Sabe a historinha da rã na panela?
18:06Que você pra cozinhar rã...
18:07Não cozinha rã, não.
18:09Mas tem gente que cozinha rã.
18:11Pra cozinhar rã,
18:13você põe a rã na panela fria.
18:16Porque se você botar ela na quente, ela pula.
18:19Você põe a rã na panela fria.
18:22Aí a água vai ficando bem morninha.
18:25Aí a rã fala...
18:26Ai, que gostosinho.
18:29Tá gostoso.
18:30E ela vai ficando ali, a rã.
18:32Aí vai ficando um pouquinho mais quente.
18:34Aí ela fala...
18:34Ai, ela dá aquela relaxada, tipo spa.
18:38Daqui a pouco esquenta, começa a ferver.
18:41E ela quer sair.
18:42Ela não consegue mais.
18:45Já ferrou pra rã.
18:47Já ferrou pra rã porque ela foi se acostumando.
18:50E a gente se acostumou com o inacostumável.
18:53E é claro que tá dando ruim.
18:56É claro que é um colapso.
18:59É claro que a gente precisa uns dos outros.
19:01É claro que a gente tem que modificar o modus operandi.
19:06Sair do protocolo.
19:08Falar desculpa.
19:09Eu não escutei o que você falou.
19:14Como você chama?
19:15Alex.
19:16O Alex tá falando, né?
19:18Vocês não estão assim?
19:20O Alex tá falando.
19:21Ele é meu chefe.
19:22Alex falando comigo.
19:24Aí eu tô lá.
19:25Daqui a pouco prestando atenção no Alex.
19:27Ele tá me dando informações importantes.
19:29Daqui a pouco ele começa...
19:31A minha cabeça começa.
19:32Não passei aquele e-mail.
19:34Ai, não finalizei a planilha.
19:36Ai, não fiz o pix.
19:37Não mandei a foto.
19:38E o Alex vai entrando em tecla mute.
19:42E eu faço...
19:43Denise, presta atenção no Alex.
19:45Presta atenção no Alex.
19:46Presta atenção no Alex.
19:48Aí minha cabeça...
19:49Daqui a pouco eu escuto duas frases.
19:51Minha cabeça vai de novo.
19:52Não liguei pra minha mãe.
19:53Não dei comida pro cachorro.
19:56E ele volta pra tecla mute.
19:59Eu ao invés de virar pra ele e falar assim...
20:01Ai, Alex, desculpa.
20:02Minha cabeça tá tão louca.
20:04Eu tô avoada aqui.
20:06Será que você pode repetir o que você falou?
20:09A gente faz isso?
20:11Não.
20:12A gente faz...
20:14E a gente fica com 30% do Alex, 40% do Rodrigo, 40% da Fernanda, 30% do
20:23Fernando.
20:24E a gente vai vivendo nessa torre de Babel onde todo mundo finge que não é que é com o
20:31outro, que não é consigo.
20:32Que estamos todos com o mesmo problema.
20:37Mas tem uma coisa que é um grande legado da rede social e que eu acho que a gente precisa
20:43entender.
20:45Vozes que nunca foram ouvidas passaram a ser ouvidas.
20:49Então, a gente nunca teve um movimento de liderança feminina tão ferrado.
20:55A gente nunca teve um movimento negro, ativista, antirracista.
21:00Só que não basta.
21:02Precisa a gente entender o tempo que a gente tá vivendo.
21:06Não basta.
21:06Mas você ser um homem não machista.
21:11Você precisa ser um homem feminista.
21:14Feminino e feminista.
21:17Né, Daniel?
21:18Quem me agregou esse feminino agora numa conversa.
21:22Tem que ser um homem feminino e feminista.
21:25Você não pode mais ser uma pessoa branca não racista.
21:30Você tem que ser uma pessoa branca antirracista.
21:34Faça o teste do pescoço.
21:36Entre com o seu filho branco.
21:38Você branca.
21:39Ele branco.
21:40Nos lugares que você frequenta.
21:43E fala, vamos fazer um teste do pescoço, filho?
21:45E gira a cabeça.
21:50Por que será que a gente vive num país de maioria negros e pardos
21:55e eles não frequentam os lugares que a gente está, filho?
21:59E conta pro seu filho essa história que não foi contada pra gente.
22:06Essa história da minha família portuguesa, que acreditou o tempo inteiro no opressor e no oprimido,
22:12apesar de todo o senso de solidariedade e cuidado que tenham me dado.
22:17E a gente precisa escolher quem, pra que a gente quer levar.
22:24Conta pro seu filho, que é um país fundado no espólio, na opressão.
22:29Assim como a gente tem tratado a Amazônia.
22:33Chega lá e tira.
22:34Chega lá e tira.
22:35E destrói.
22:37Ainda dá tempo, eu sinto.
22:40O trabalho é de formiguinha, mas eu fico pensando,
22:43se cada um de nós fizer esse trabalho de formiguinha,
22:47acordar a esperança todo dia lá na escovinha,
22:51dar uma lustrada, pensar na utopia como estrela-guia do Galeano,
22:55Eu acho que a gente vai estar falando de uma coisa que é o que salvaria muita gente.
23:02Que é felicidade.
23:04Felicidade.
23:05Alegria dentro do caos.
23:07É possível.
23:09Eu adoro ver bombeiro quando tem catástrofe.
23:15Porque no meio daquela tragédia toda, você vê um cara assim,
23:18Consegui! Consegui!
23:20E ele sai com aquela criança que ele conseguiu resgatar com um sorriso desse tamanho.
23:27E está todo mundo morrendo em volta.
23:30Eu acho que dá para ter alegria no meio do caos.
23:33Ainda.
23:33Mas você tem que ter sempre essa imagem do resgate cotidiano,
23:38de olho no olho, de uma palavra aqui, outra ali.
23:43Alguma coisa que faça acordar essa letargia,
23:47é ser o país legal.
23:50Como disse o Janete,
23:51que Sérgio Buarque de Holanda falava.
23:54Gente, como é que pode nós,
23:57como pode a gente estar sucumbindo?
24:02Com nossa pluralidade,
24:06com nosso jogo de cintura.
24:09Eu vou ser uma otimista constante.
24:13Eu prometo ser uma utopia,
24:16uma utópica realista,
24:18na medida que eu puder,
24:20porque se não for assim, eu não vivo.
24:22E isso me dá alegria.
24:24E eu tenho uma promessa com a minha mãe,
24:27que é viver vivendo.
24:29Viver como se fosse morrer.
24:31Obrigada, gente.
24:37Obrigada.
24:38Obrigada.
24:39Obrigada.
24:39Obrigado.
Comentários

Recomendado