00:00Bom, o Marcão, pra nós aqui em casa, é o Marquinho, o Marco Antônio, pra vocês, Marcão Raiz.
00:09Ele sofreu um acidente de moto no dia 22 do 4, um acidente bem grave.
00:17Ele bateu o abismo num micro-ônibus e, dali pra frente,
00:25por toda a tragédia que poderia ter acontecido, né?
00:30Porque foi um acidente muito grave, ele teve traumatismo crâniano,
00:36ele teve várias lesões cerebrais, ele teve fratura no fêmur, fratura no joelho.
00:44E, por tudo isso, ele tá vivo.
00:47Então, assim, foi terrível, sabe assim, se acorda pra sair pra trabalhar,
00:57ele acordou pra sair pra trabalhar e, infelizmente, ele não chegou no destino final dele,
01:02que era o serviço.
01:06Basicamente é isso.
01:07Assim, referente ao acidente, eu não posso entrar muito em detalhe como foi,
01:13até porque a gente tem suposições de como foi ali naquele pedaço,
01:18não tem câmera de segurança, então a gente não tem imagens.
01:25Nós estamos esperando a perícia técnica, né, da polícia,
01:29que foi lá no dia do acidente fazer toda a perícia,
01:32que ainda não ficou pronto.
01:34Mas a gente supõe o que aconteceu por conta de testemunhas
01:38que estavam no local e viram parte do acidente.
01:41Então, a gente junta todos os pedaços e monta um contexto.
01:49Mas só a perícia técnica hoje pra poder dar o parecer real pra nós.
01:55Eu tava na academia no dia do acidente.
01:59Eu falo que eu e o Marquinho, o Marcão,
02:03a gente tem um hábito muito...
02:06Eu acho que é um hábito bom.
02:08Então, a gente saía de casa, tchau, amor, te amo.
02:11Quando chegava, ou quando ele chegava no serviço,
02:14ou quando eu saía, eu falava pra ele,
02:16amor, ó, cheguei.
02:18Ó, amor, tô indo embora.
02:20Sabe, parece que a gente tá avisando, sabe?
02:26Eu não sei te explicar, mas sempre foi um hábito nosso.
02:29E naquele dia em específico, ele não me mandou.
02:32Avisando que tinha chego.
02:34E eu achei estranho.
02:36Mas eu falei assim, às vezes ele chegou atrasado, né?
02:39Porque já aconteceu dele chegar atrasado.
02:41E ele não me mandar.
02:43Depois, quando é oito, oito e pouquinho,
02:44ele me mandava.
02:45Ó, amor, cheguei, desculpa.
02:47Acabei esquecendo.
02:49Entrei correndo.
02:50E aí, naquele dia, eu peguei e mandei pra ele.
02:53Falei, nossa, falei, poxa vida.
02:55Chega e não avisa?
02:56E aí, quando foi oito e dez, eu recebi a ligação.
03:01Que ele tinha sofrido um acidente de moto.
03:05Que ele estava na UTI do HB.
03:09Só que até então, assim, eu não sabia.
03:11Não tinha dimensão da gravidade.
03:13Pra mim, assim, abriu um buraco, sabe?
03:18Abriu um buraco debaixo dos meus pés.
03:22Que eu perdi o chão, literalmente.
03:26Tive um casal de amigos nosso.
03:29Que a minha amiga ficou com as meninas.
03:32E o marido dela me levou até o hospital.
03:35Pra saber o que estava acontecendo.
03:37Aí, quando eu cheguei lá.
03:39Que eu descobri a gravidade de tudo.
03:42Aí, a gente foi ter uma real noção do que estava acontecendo.
03:46E que não tinha sido um simples acidente.
03:50Tinha sido o acidente.
03:52Entendeu?
03:54Pra mim, foi um baque muito grande.
03:58Nós nunca tivemos moto.
04:00A gente sempre teve muito medo.
04:02Porém, a Pietra começou a estudar à tarde.
04:06Começou a ficar muito puxado pra mim.
04:08Levar ele de manhã, voltar pra casa.
04:11Porque eu trabalho de home office.
04:12Voltar pra casa.
04:14Levar ela meio dia pra escola.
04:16Voltar pra casa.
04:17Ir buscar ele no serviço.
04:19Depois, a gente ficar mais de uma hora lá na frente da escola esperando ela.
04:24Foi quando ele falou assim.
04:25Não, eu vou comprar uma bis.
04:27Eu vou trabalhar.
04:28E depois eu busco a Pietra.
04:30E faziam só dois meses que a gente tinha comprado a bis.
04:34Eu acho que os 18 primeiros dias.
04:38Que quando ele tava em coma, eu acho que foram os dias mais difíceis.
04:44Foi o período que ele tava em coma.
04:47Que a gente não sabia se ele sobreviveria.
04:53Porque quando ele deu a entrada, os médicos falaram que ele poderia virar óbito a qualquer momento.
05:01E aí, quando ele fez as cirurgias, né, do abdômen, da perna, colocou o dreno na cabeça.
05:07Os médicos falaram.
05:09E os médicos foram falando por períodos.
05:12Então, olha, as 12 primeiras horas são as mais cruciais.
05:18Depois, as 24.
05:20Depois, as 36.
05:21Depois, as 42.
05:23Então, assim, a gente foi vivendo literalmente um dia de cada vez.
05:29A gente não sabia se no outro dia a gente chegaria lá e ele estaria vivo.
05:35Sabe assim?
05:36Então, o período do coma dele eu acho que foi o mais difícil.
05:41Porque depois que ele acordou do coma, as coisas foram evoluindo de uma forma mais...
05:48Não tranquila, mas foram mais suaves.
05:51Então, quando ele despertou, pra nós foi um ufa.
05:58Um passo a mais, uma evolução a mais.
06:01Mas tinha toda uma jornada pela frente que a gente não sabia se ele ia falar, se ele teria consciência,
06:09se ele reconheceria as pessoas, se ele conseguiria se mexer.
06:15Então, assim...
06:16Mas ali a gente tinha um riozinho de esperança, sabe?
06:21É gratificante, é satisfatório, mas é muito difícil.
06:28Porque, assim...
06:30Eu sou grata a Deus por ele ter voltado, por ele estar em casa.
06:37Mas...
06:37Sabe aquela coisa, assim, é um dia de cada vez?
06:40É um passinho por vez?
06:43Então, tem dia que ele tá super bem, tem dia que ele conversa, tem dia que ele tá super consciente.
06:49Mas tem dia que ele tá completamente desregulado.
06:52Então, ele não fala nada com nada.
06:54Ele fica nervoso.
06:57Ele não quer comer, ele não quer beber água.
07:00Então, assim...
07:03Ao mesmo tempo que é gratificante, é muito difícil.
07:06Eu tô tendo apoio.
07:10Eu contratei uma empresa pra me auxiliar, né?
07:14Com...
07:15Eles indicaram duas profissionais que...
07:19Eu brinco que hoje viraram minhas amigas.
07:21Porque elas estão dentro da minha casa, literalmente, vivendo a minha vida.
07:28Então, eu falo que, além de ser cuidadoras, elas viraram as minhas amigas.
07:33Porque elas me acolhem quando eu preciso chorar.
07:37Elas acolhem as meninas quando eu tô cansada.
07:41E o principal, que é o cuidado com ele.
07:44Então, assim...
07:45Eu tenho a ajuda delas, dessas duas profissionais.
07:50E tenho a família, né?
07:52Que todo mundo trabalha, todo mundo tem a sua vida.
07:56Mas chega no final de semana.
07:58O meu cunhado, que é irmão do Marquinho.
08:01Vem em casa pra poder me dar um suporte.
08:04Que é um dia que eu deito à noite pra dormir.
08:08Sem preocupação de ter que acordar pra medicar, pra pingar colírio.
08:13Então, ele faz todo esse cuidado dele à noite.
08:16Então, de sábado pra domingo, o irmão dele fica aqui pra poder me ajudar.
08:19Falo assim, a partir do momento que eu casei com ele, é na saúde e na doença.
08:25Fato.
08:27A maior responsabilidade, vamos falar assim, é minha.
08:30Porque ele é meu marido, ele tá dentro da minha casa.
08:33É pai das minhas filhas.
08:34Mas se todo mundo ajudar um pouquinho, o fardo fica um pouco mais leve pra todo mundo.
08:40Um pouco pra mim, um pouco pros irmãos.
08:43Então, vai todo mundo ajudando, todo mundo se ajuda e fica um pouco mais leve a situação pra todo mundo.
08:51Progresso.
08:53Fisioterapia.
08:55Ele já faz alguns movimentos com a perna que foi fraturada.
09:02Fala.
09:02Ele fala super bem, ele conversa, ele reconhece todo mundo.
09:08Quando ele tá fora, vamos falar assim, quando ele não tá consciente, ele lembra de pessoas que faz tempo que
09:21ele não vê.
09:21E ele comenta dessas pessoas, ele fala o nome dessas pessoas, ele chama por essas pessoas.
09:28Então, assim, ele tem muita consciência, ele reconhece todo mundo.
09:35Parte neurológica também, só que é o que eu falo, ele ainda flutua muito.
09:41Então, ele acorda bem, chega a tarde, ele tá um pouco mais nervoso, ele tá um pouco mais desconexo.
09:47No final do dia, ele regula de novo, ele volta a ser consciente, ele volta a estar mais calmo.
09:54À noite, tem dia que ele volta a desregular, tem dia que ele passa o dia todo tranquilo.
10:01Tem dia que ele passa o dia mais desconexo, falando coisas aleatórias.
10:09Então, assim, a parte neurológica e a visão são as duas questões que ainda pra nós é uma caixinha de
10:18surpresa.
10:19A gente não sabe como vai ficar.
10:20Na verdade, eu falo que eu postei nas redes sociais só a pontinha do iceberg, que pra baixo tem muito
10:33mais coisas que eu não expus.
10:37Mas, assim, uma das falas dos médicos era, se ele sobreviver, ele vai vegetar.
10:46Ponto.
10:48Era o que a gente tinha ali no começo de prognóstico.
10:54Se ele sobreviver, porque ele não vai sobreviver, era o que eles falavam.
11:01Se ele sobreviver, ele vai vegetar.
11:04E hoje ele tá aqui, ele conversa, ele dá risada.
11:11Tem hora que ele fala, tipo assim, tem hora que ele fala algumas coisas que eram dele mesmo, sabe?
11:18Falas que era ele que falava, eram coisas que ele fazia.
11:22E eu vejo que ele tá aqui.
11:25Só precisa tudo se encaixar.
11:29As pecinhas voltarem pro lugar.
11:31Eu falo que ele é realmente um milagre vivo.
11:36Literalmente.
11:36Eu falo pra todo mundo assim, ó.
11:38Você que é casado, tem filho...
11:44Sempre, quando você for sair, se despeça das pessoas que você ama como se fosse a última vez.
11:52Porque a gente nunca sabe quando vai ser a última vez.
11:55Mas aquele dia, por incrível que pareça, foi um dia que eu abracei, beijei.
12:02Mas sabe, aí eu tava cansada, tava irritada.
12:04E hoje eu olho pra trás, eu falo, meu, poderia ter sido a última vez que eu...
12:09Que eu teria visto ele.
12:13E eu carregaria essa culpa comigo.
12:15De não ter abraçado e não ter beijado ele direito.
12:19Porque eu tava cansada.
12:20Então, eu falo pra todo mundo, é...
12:24Abraça, beija.
12:26Porque a gente nunca sabe o dia de amanhã.
12:29E referente ao meu casamento, eu sou muito mais grata.
12:35Sou muito mais grata e...
12:38E vejo que, às vezes, a gente precisa relevar algumas situações...
12:42Que em outros momentos a gente não deixaria passar, sabe?
12:48E hoje eu percebo que até uma simples bagunça é de ser grata porque ele tá aqui.
12:56Eu tenho...
12:58É gratidão.
12:59É gratidão e ver que a rivalidade, ela fica só nas quatro linhas.
13:05Porque quando acontece esse tipo de situação, a gente percebe que vai muito além do esporte.
13:14Vai muito além do time.
13:16É a humanidade.
13:18Realmente, assim.
13:19É a humanidade, é o carinho que todo mundo tem por ele.
13:22Então, é...
13:23É realmente sentimento de gratidão, de...
13:27Felicidade.
13:28Porque é nessas horas que a gente percebe que ainda existem pessoas boas nesse mundo.
13:37De verdade.
13:38Se Deus quiser, é tudo que a gente mais quer.
13:41E eu tenho certeza que ele ainda vai...
13:45Vai voltar.
13:46Vai dar o testemunho dele.
13:48Vai contar tudo que ele viveu.
13:50E isso vai ficar lá atrás, numa lembrança.
13:55Mas só numa lembrança.
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