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  • há 10 horas
Após a morte de Gloria Menezes, aos 91 anos, o Paralelas resgata a conversa que recebeu, em janeiro, Tarcísio Filho e Mocita Fagundes. Em um bate-papo profundo e afetuoso, eles falaram sobre amor, arte, envelhecimento e legado, além de compartilharem histórias sobre Glória.

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Transcrição
00:00A Glória fez ginástica a vida inteira, né, claro que hoje é uma mulher mais velha, mais comedida, mas...
00:08Cara, até os 83, 84, a mãe tava fazendo teatro e tava fazendo ao mesmo tempo.
00:13Exatamente.
00:14Assim, né, assim não precisa também, né, dá um tempo.
00:17Que sempre se cuidou, né, que sempre se cuidou, né, não só na parte estética como com saúde.
00:25É, a mãe começou a malhar naquela época dos anos 80, lá da Olivia Newton-John, do physical, aqueles negócios,
00:30e não parou nunca mais.
00:32É, da época da Jane Fonda, né.
00:33Sim, aquela onda de Jane Fonda, e ela começou ali e seguiu, ela gostava do jogo.
00:38A mãe sempre foi uma mulher muito energética, muito forte, ela deu uma acalmada.
00:41Muito intensa, né.
00:43Muito intensa nas suas coisas.
00:44Ela deu uma acalmada, sabe, de vez em quando nos pitos aparece de novo aquela...
00:48Mas ela virou uma senhora mais tranquilinha, sabe, mais preguiçózinha.
00:53Doce, amorosa.
00:54Doce, amorosa, mas vovozinha, por assim dizer.
00:58É, e a mocita tava dizendo que ela tá mais gaúcha, cada vez mais gaúcha.
01:02Totalmente gaúcha.
01:03Não é um sotaque.
01:04É.
01:05É engraçado, porque eu me dou conta, porque ela está virando a minha avó, a mãe dela.
01:12Ela está falando como a mãe dela falava.
01:14É mesmo, e valorizando as coisas do Rio Grande do Sul, né.
01:18Quando ela encontra com a gaúcha, então...
01:19O que eu acho bonito, com a Ilana Caplan, que ela adora a Ilana.
01:25E eu levei um livro pra ela, né, um livro de fotos, um livro pós-enchente, que o governo
01:33do estado lançou, e o Eduardo fez uma dedicatória.
01:36Governador Eduardo Leite.
01:38É, o governador.
01:39Eu chamo de Eduardo, né, porque pra mim é meu amigo.
01:42E eu levei pra ela, ela adorou, gravou um videozinho pra ele, agradecendo, e ela ficou
01:49muito encantada com o livro, né.
01:51Ela sempre... ela tem orgulho, acho que eu tenho orgulho de ser gaúcha.
01:54Aí quando eu ouço isso, eu me derreto, né, João?
01:56Porque eu também tenho orgulho de ser gaúcha, né.
01:58Eu acho um amor que ela... aliás, toda mãe é igual, né.
02:03Ela, às vezes, para, a gente tá conversando, ela para, fica olhando o Tarcísio e fala
02:07assim...
02:07Como eu fiz bem feitinho.
02:11Aí eu digo...
02:12Tu nem imagina o quanto, Glória Menezes.
02:15É, homocida, e tu foi quase que adotada pela Glória, né?
02:19Completamente.
02:20E ela adotou teus filhos também.
02:23Completamente.
02:24Tem um, inclusive, assim, ó, que tem uma relação simbiótica com ela, que é um filho
02:29que ela me ajudou a... numa coisa de saúde grave que ele teve, né.
02:34Ele morou com ela em São Paulo durante uns quatro meses, e ela que levava ele no médico
02:40e fazia tudo, enquanto eu voltei pra Porto Alegre pra ficar com os outros dois filhos e trabalhar.
02:45Então, a Glória, eu brinco com ela, assim, ó, o que ela precisar de mim, e ela é uma
02:52pessoa que ela não gosta de precisar de ninguém, né, mas, assim, Glória, o que tu precisar
02:57de mim, tu sempre vai ter.
02:59E não é só uma questão de reciprocidade, é uma questão de amor, sabe, ela me recebeu
03:04de braços abertos, né, hoje ela é uma mãe pra mim, entendeu, Jô?
03:10E ela... tem uma história, quando o teu filho tava saindo do hospital, enfim, teve esse
03:14problema grave de saúde, que ela te recebeu com uma espumante, uma champanhe.
03:18Sim, ela me aparece lá no hospital, linda, com uma garrafa de velvo, clicou, com um cooler,
03:25na verdade, né, e o Bruno já tava ótimo, e aí, acho que assim, hoje nós vamos brindar
03:32a saúde do Bruno, e a gente disse, mas, Glória, será que a gente pode tomar champanhe aqui?
03:37A gente disse, sim, mas é claro que pode, e a gente abriu uma garrafa de champanhe aí dentro
03:40do quarto e tomamos uma taça de espumante.
03:44Uma taça não, algumas.
03:45Ou vou falar a verdade agora.
03:47O Tarcísio, que sogra, hein?
03:48Tá vendo?
03:49Ah, tem uma sogra dessas.
03:50Vai vendo.
03:51É, maravilhosa.
03:52E ela me estimula também, eu acho que ela gosta de saber da minha vida profissional,
03:58não só dos meus filhos, ela gosta, ela tá sempre me alimentando, né, e sempre com
04:03comentários, sabe, Jô?
04:04Eu sempre disse pra ela, Glória, tu seria uma excelente professora de artes dramáticas,
04:11porque ela tem uma veia de diretora, imagina, foi dirigida a vida inteira, né, eu disse
04:18assim, ou tu seria uma excelente professora de artes dramáticas, porque ela fez a escola
04:22de artes dramáticas, né, ou tu seria uma excelente diretora de arte, porque eu nunca
04:27vi uma mulher pra decorar a casa e ter um olhar de construtora como ela tem.
04:34Não, e foi uma geração de pioneiros da televisão que trabalhou demais, eles trabalhavam muito,
04:43eu levei um susto outro dia que eu comprei um livro de, esses livros de mesa de fotografia,
04:47que é sobre a televisão brasileira até os anos 60, tá?
04:50E naturalmente não existia o videoteipo, na época, as coisas que se faziam na televisão
04:56em dramaturgia, quer dizer, pré-novela, tá, ainda as novelas não tinham estreado, faziam
05:02os pequenos casos especiais, pequenos teatros, então teve teatro vanguarda, tinha vários
05:09programas de ficção em determinadas horas ou dias de semana, tá, ou seja, a pessoa ensaiava
05:15ao longo da semana, pra exibir num dia ao ar, ao vivo, em determinada data.
05:21Nossa!
05:21Cara, então tem fotos de programas, e como não existia direito autoral, as pessoas faziam
05:26de tudo, os filmes americanos que passavam na época, os caras iam, dizem que o Durst
05:31ia com um gravador pro cinema e gravava os filmes, e depois transcrevia pra eles fazerem
05:37na semana seguinte, era uma maluquice, faziam peças de teatro de tudo.
05:41Eu comecei a ver que até os anos 60, eu vi a cara de minha mãe, daqueles 20, tinha
05:49pelo menos uns 8 que ela fez, e aí eu não vi meu pai, eu falei assim, mas escuta, eu
05:55sei que ele trabalhou pra churro, só que ele começa em 1960, final de 60, e aí segue
06:01fazendo, entendeu?
06:02Mas de tudo, cara, de drama, de comédia, de absolutamente tudo.
06:08E outra coisa, as novelas naquela época, eu acho que eram diferentes também, eram
06:11menos personagens.
06:13Não tinha novela.
06:13Não, mas depois, quando surgiram.
06:15Ah, sim.
06:15Eram novelas com menos, hoje as novelas tem um monte de gente, vários núcleos.
06:20Eu acho que era uma adaptação mais radiofônica das coisas.
06:23Ah, pode ser.
06:23Tu sabe que o Tarcizão dizia uma coisa, Ju, sobre essas novelas, sobre isso que tu tá
06:27falando, que a gente gostava de assistir, o Tarcizão sempre gostou de assistir novela,
06:32né, então eu gostava de assistir com ele, novela, e aí ele dizia assim, engraçado,
06:39mas hoje em dia a gente não consegue criar vínculo com os personagens.
06:44Aí eu disse assim, mas por que que tu acha isso, Tarcizão?
06:47Ele disse assim, porque são muitos personagens, se atira pra tudo que é lado e tu não consegue
06:53acompanhar e nem torcer e nem gostar e odiar um personagem.
06:58Aí eu disse assim, cara, é verdade, né, hoje a gente, eu não consigo mais ter nenhuma
07:03relação, acostumar-se com uma novela, né, como a gente tinha antigamente, e a Maria
07:10Amélia lembra uma coisa muito importante, o Irmãos Coragem foi a primeira novela que
07:15angariou um público masculino.
07:18Maravilha e minha irmã, tá, não precisa de conhecer, você é minha irmã mais velha.
07:20Que pegou os homens pra ver novela, os homens viram o Irmãos Coragem, né, porque
07:24os homens viam, mas eles não admitiam que viam.
07:27Eles gostavam de vê-los, mas eu admitia.
07:30E a, uma outra coisa que eu ia perguntar também, mocita, a Glória, além de tudo, tá,
07:38ela tem 91 anos, mas ela aceitou muito bem, tu tem um filho trans, né?
07:43Tenho.
07:44E ela teve uma reação surpreendente, eu diria.
07:47Maravilhosa.
07:48Para uma senhora de 91 anos.
07:50Inesperada, inesperada não, porque a Glória sempre foi uma mulher muito moderna, né,
07:53mas na época, porque assim, ó, Lu, Ju, tu tem um filho transgênero, por mais liberal
08:03e afetiva que eu seja, e eu sou, né, tu passa por um luto, né?
08:09Tu precisa, eu precisei me desfazer daquela figura feminina que eu sempre tive até os 18
08:16anos de idade, para acolher, né, o meu filho, um novo filho, né?
08:23E a gente foi falar com a Glória sobre isso, mas eu fui cheia de dedos, né, amor?
08:28Eu fui assim, Glória, né, sabe aquela pessoa que tu sempre conheceu, parará, uma menina?
08:37Pois agora o nome dele é Tel.
08:41E aí ela olhou assim, legal, tudo bem.
08:44Demorou, assim, 5 segundos para ela processar, assim, tá bom.
08:48Tu acredita, nunca mais, Ju, ela nunca mais errou o nome do Tel.
08:54O Tel vai para lá, o Tel vai com a namorada para lá.
08:57Eu acho que tem que ser assim um pouco, não?
09:00Para ela, tanto faz.
09:01A gente está muito acostumado a chamar as pessoas que a gente gosta pelo nome,
09:05por vários nomes diferentes.
09:07Eu tenho vários amigos que eu já chamei por outros nomes, é a mesma coisa.
09:10Você quer ser chamado, ou precisa ser chamado de Tel, de Hugo, de Heitor,
09:14tá valendo, é o que você quiser.
09:15Foi um acolhimento, foi um acolhimento para mim.
09:18Eu achei que ia demorar mais tempo, eu achei que eu ia ter que ficar corrigindo, né,
09:23a questão do...
09:24Não houve julgamento, não houve nenhuma questão.
09:26Nada, nada.
09:26Não houve nenhuma questão.
09:27Aí, ah tá, ok, beleza.
09:29É uma lição e tanto, né?
09:31É uma lição imensa, né?
09:32A lição de amor, né?
09:34É amor, de respeito, de amor, de respeitar uma pessoa pelo que ela é.
09:38Exatamente.
09:39E ela poder ser o que ela é, exatamente.
09:40Você sabe o que é importante, o que é substancial naquele ser humano, né?
09:44Exatamente.
09:45Verdade.
09:45Verdade.
09:46Foi muito importante para mim.
09:48Foi, na verdade, assim, ó, para mim, a relação que a Glória teve,
09:52que era uma reação que para mim era super importante,
09:56ela me deu uma coragem, Ju,
09:59de botar um bloco na rua de uma forma, assim, desmedida.
10:03Eu digo, bom, se uma mulher de 90 anos, né,
10:07olha para mim e diz assim,
10:08Oi?
10:09Tá ok?
10:10Ok?
10:10Qual é o problema?
10:11Temos algum problema?
10:12Não, não temos nenhum problema.
10:14Isso traduz um pouco do que vocês estavam falando antes do grande ensinamento,
10:18tanto do Tarcísio quanto da Glória,
10:19que é essa coisa da família, do amor, do respeito.
10:21É.
10:22E tem uma vivência humana muito intensa, né?
10:24De humanidades.
10:25É.
10:25É.
10:26É.
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