00:00As pessoas imaginam que um repórter que cobre guerra está sempre no limite da vida,
00:05vive num ambiente de absoluto caos.
00:07Ele é quase um combatente, né?
00:09Ele é quase um cara que vive tantas aventuras contra um soldado.
00:12E a verdade é bem diferente dessa.
00:15Até porque quem vive batalha o tempo inteiro tem uma chance muito grande de morrer, né?
00:20E o objetivo da minha profissão não é morrer.
00:22O objetivo é ir lá, contar uma história e voltar para casa.
00:25Bom, meu nome é Ian Boixá, eu sou jornalista,
00:28sou especializado na cobertura de conflitos.
00:31E nos últimos 10 ou 12 anos eu tenho feito muita cobertura de guerra em diferentes partes do mundo.
00:39Eu ainda acho que a melhor maneira de se tornar um jornalista de guerra hoje é ir para a guerra,
00:44talvez por conta própria, começar uma carreira como freelancer.
00:47Porque ficar esperando que alguém vai te eleger como o cara que vai ser o próximo correspondente de guerra,
00:55eu acho que é cada vez mais uma ilusão.
00:58Eu acho que a grande dificuldade de falar sobre guerra é que guerra é sempre uma discussão entre o bem
01:03e o mal.
01:04Independentemente da guerra que você vá, o discurso é sempre o mesmo.
01:08Eu sou o bem, eles são o mal, eu preciso aniquilar o mal para o bem poder prosperar.
01:13É preciso fazer um exercício permanente de imaginar que do outro lado das linhas de combate as pessoas estão pensando
01:19da mesma forma que as pessoas pensam aqui desse lado.
01:23Mas a vida de um repórter de conflitos é muito mais tediosa e muito mais burocrática do que as pessoas
01:29imaginam.
01:29Meu papel não é ajudar as pessoas que estão lá, quando o repórter tem direito de levantar a mão e
01:35dizer
01:35Opa, acho que está muito perigoso que eu quero ir embora para casa, meus soldados não têm direito a isso.
01:41Acho que essa é a coisa mais impressionante da guerra, que a vida segue de alguma forma.
01:47É muito impressionante ver isso.
01:48Acho que talvez seja uma das coisas mais impressionantes, mais do que a esposa de Boon, ou seja, coisa desse
01:55sentido.
01:56Imagino que você tem que ter uma certa casca emocional.
01:59É uma coisa que você acha que tu já tem que ter para trabalhar?
02:02É uma coisa que você ganha na profissão?
02:04Como que você vê isso?
02:05Acho que ganha.
02:06Acho que tudo se aprende, né?
02:08Acho que tem que ter uma aceitação de que você está ali naquela situação porque você quer.
02:12Acho que tem marcas que são meio indeléveis, assim, que ficam em você e tal.
02:17Que não necessariamente são boas, né?
02:19Talvez ser mais esperançoso seja uma coisa legal, né?
02:22Acho que ter esperança é uma coisa boa.
02:24Eu acho que você meio que começa a perder, né?
02:27Depois você começa a fazer muito isso, um pouco, assim.
02:30Você é feliz com o que você faz?
02:31Eu sou muito feliz.
02:33Eu gosto muito do que eu faço.
02:34Me sinto meio Marco Polo, às vezes.
02:36Indo para um lugar que ninguém foi, que via aquilo, só com preconceito, e voltar e dizer, olha, a vida
02:43não é tão diferente lá que é daqui, né?
02:45Esse é o primeiro episódio da série Que Trampa Esse?
02:48Produzida pelo Folhetim.
02:49Que carreira a gente deve mostrar no próximo vídeo?
02:51Deixe sua sugestão nos comentários.
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