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Reportagem: Teté Ribeiro

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Transcrição
00:00É engraçado, as pessoas falam, e eu acho que elas imaginam,
00:05que já havia uma promessa de algo grandioso.
00:08E não havia.
00:10Raspar a cabeça era simplesmente fazer uma cena que o autor estava escrevendo
00:14e não tinha essa...
00:16O importante na história era o câncer dessa mulher
00:21que um dia roubou o namorado da mãe,
00:23e como essa mãe ia transformar a vida inteira para salvar essa filha depois.
00:28Essa era a grande história.
00:30Raspar a cabeça fazia parte do processo, era um detalhe do processo.
00:37E eu nunca perguntei sobre isso.
00:42Nunca foi uma questão para mim se eu iria ou não raspar a cabeça.
00:47Eu achava que aquilo fazia parte.
00:49Eu tinha 20 anos e aquilo ali era o meu entendimento sobre ser atriz.
00:56Não era alguma coisa extraordinária.
01:03Era apenas o ofício, era fazer o combinado.
01:08Então, parece que as pessoas falam assim,
01:10Nossa, mas quando você raspou a cabeça e como foi, não aconteceu nada.
01:13No dia seguinte, ninguém me tratou diferente, eu não ganhei dinheiro.
01:17Pelo contrário, eu perdi todas as campanhas publicitárias que eu tinha,
01:20porque eu fiquei careca.
01:22Então, assim, não houve uma promessa de um grande acontecimento.
01:26Mas quando eu olho para trás, o que eu sinto é, caramba, que bom que eu nem pensei.
01:35Que eu fiz o que eu achava que tinha que ser feito, porque seria uma marca horrorosa na minha vida
01:40se eu não tivesse feito, entendeu?
01:43Primeiro, que quando eu fiquei careca, foi a primeira vez que eu comecei a me achar bonita.
01:48Eu tinha uma visão distorcida da minha imagem, que era uma coisa assim,
01:56Ah, eu só tenho as coisas que eu tenho, eu só virei modelo, eu só virei atriz,
02:01porque eu sou lourinha de olho azul, tenho o nariz arrebitado.
02:03Eu tinha uma versão escutada, ouvida, do que os outros poderiam pensar de mim,
02:11muito diferente do que eu vi no espelho.
02:13Eu não me achava bonita, não me achava nada de especial,
02:17mas sabia que eu estava naquele lugar porque outras pessoas me achavam bonita
02:21por eu ser do padrão.
02:23Quando eu raspei a cabeça, eu me olhei no espelho e falei,
02:26Caramba, eu tenho uma cara, essa sou eu, sabe?
02:33Foi um rito de passagem para mim como mulher.
02:37Eu comecei a achar que eu tinha uma cara interessante, que eu tinha outras coisas,
02:40que eu não ia mais me colocar naquele lugar da menininha lourinha, bonitinha,
02:44que agora eu estava careca.
02:45E aí?
02:46E agora?
02:47O que as pessoas têm para me dizer?
02:49Não tem cabelo, não tem nada, tem uma magreza, tem uma olheira até aqui.
02:53E agora?
02:54Então foi um momento muito poderoso de eu me enxergar como alguém
03:02que não era o que as pessoas falavam de mim.
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