00:00Não é bem isso, Dona Eleonor.
00:02Eu disse que ela tá com o moço da polícia, com a Délma e com a Adriana.
00:07Todos juntos no quarto? Fazendo o quê?
00:09Pelo que eu pude entender, eles estão vendo um filme.
00:12Tem certeza de que vocês não querem uma pipoquinha pra começar a sessão?
00:15Não, Regina, por favor.
00:18Ok, vamos lá.
00:28Espere um instante, eu já vou.
00:33Deus, Adriana, por que você tragou essa porta?
00:35Pra não entrar alguém, de repente, ver que você não tava aqui.
00:39Que franquia, que cara é essa?
00:42Pô, você temido, me dá uma coisa pra eu tomar, pelo amor de Deus.
00:44O que você tomou, Adriana?
00:46O que foi que houve, irmão?
00:50Preciso respirar, Adriana, calma.
00:53Deixa eu relaxar um pouco.
01:02Por que eu tava nervoso?
01:03Eu não sei nem como é que eu consegui me dirigindo até aqui.
01:06Só tem um jeito de você se acalmar, Ivan, antes da barra.
01:12Eu não quero falar sobre isso, Adriana.
01:14Eu não quero falar sobre isso.
01:16Mas você não confia em mim, Ivan.
01:17Esquece que nós estamos no mesmo barco.
01:21Que barco, né?
01:22Então, eu não sei o que aconteceu, mas pela sua cara não deve ter sido nada de agradável.
01:28E se você não me contar, eu vou pensar as piores coisas, Ivan.
01:31Sem falar que querendo ou não querendo, eu me sinto meio cúmplice de você e eu acho que eu tenho
01:37o direito de saber, não é?
01:39Eu vou sentar aqui na sua frente.
01:42E você vai me contar tudo.
01:45Eu não vou te julgar, Ivan.
01:46Eu só vou te ouvir, tá bom?
01:49Agora me diz, o que foi que aconteceu?
01:52Você foi até a tal metalúrgica, Tóquio?
01:56Foi sim.
02:00Eu fui o primeiro a chegar lá.
02:02Não tinha ninguém.
02:04Mas eu me escondi.
02:05Um pouquinho depois a Clarice chegou.
02:07E aí?
02:09Eu tinha que tomar uma providência, minha Adriana.
02:11Eu não podia deixar aquela bastardinha se meter na minha vida, roubar dinheiro da minha mulher.
02:16É o dinheiro que você acha?
02:17É meu, é meu, sim.
02:19Eu batalei duro durante anos pra conseguir isso.
02:22Eu não vou permitir que ninguém, nem você, nem Clarice interfiram na minha vida, você tá entendendo?
02:27Tudo bem, Ivan, se você acha que tem o poder de fazer as coisas acontecerem.
02:30Me tenho, sim.
02:33Tudo bem, Ivan, o que é que você fez com a Clarice?
02:36Por que você precisava que eu te servisse de Alive?
02:39Será que eu preciso mesmo te dizer?
02:42Eu quero que você fale, Ivan.
02:45Eu quero ter certeza...
02:46Eu matei a Clarice!
02:48Era isso que você queria me ouvir?
02:49Matei!
02:55Você matou mesmo a Clarice?
02:58Matei.
02:59Matei, sim.
03:01Como?
03:04Eu atirei, eu atirei nela.
03:05Espera aí, onde é que você vai, Ivan?
03:06Eu quero pegar uma coisa por favor.
03:07Eu pego pra você, você não tá bem, você vai derramar tudo.
03:10Fica aí, calma, tá?
03:16Agora me conta, Ivan, há quanto tempo você já vinha planejando isso?
03:24Adriana, desde que eu soube dessa partilha, eu achei que a Regina fosse tomar uma atitude, mas aquele imbecil não
03:31fez nada.
03:32Meu Deus do céu, eu fiquei pensando, eu tô dando uma ideia pra ver se eu tirava duas pernas do
03:36meu caminho de uma vez só.
03:39Foi quando eu descobri aquela paranoica da Regina.
03:42Ela sempre levava uma arma dentro do porta-luva do carro.
03:45E pra mim foi dificuldade de um dia ir até o estacionamento e tirar a arma de lá.
03:49E como foi, Ivan, você a atirou nas costas da Clarice?
03:54Era pra ser, mas...
03:56Ela ouviu um barulho, se virou, veio comigo, ela me reconheceu, ela tentou até falar uma coisa, mas eu já
04:03tava contando a arma pra ela.
04:05Escuta aqui, se você veio aqui pra...
04:19Eu já tava com as nuvens cansadas e...
04:22Foi só apertar o gatilho.
04:50Foi um tiro.
04:52Um tiro só.
04:55Ela caiu.
04:58E eu joguei a arma perto do corpo dela e foi bom, porque nesse momento eu vi um barulho que
05:02tinha vem chegando e eu me escondi.
05:06Eu não podia estar daquele dinheiro que eu passou de mim.
05:09Rua Delmo?
05:13Você sabe o que aquele idiota fez?
05:16A primeira coisa que ele fez, ele ficou desesperado, ele ficou tão atordoado de ver aquela...
05:21Aquela de agonizando na frente dele que...
05:24Ele foi e pegou a arma, não é?
05:29Sem luva, o imerceu, ele foi e pegou a arma.
05:35Que coisa mais engraçada foi do que isso?
05:47Mas e aí, Ivan?
05:49O que mais?
05:50E aí, mais nada, Adriana.
05:52Eu pulei uma janela que tava quebrada.
05:54Ninguém me viu.
05:55Ninguém percebeu que eu tava ali.
05:57Eu acho que eu estava invisível, Adriana.
05:58Tava todo mundo preocupado com a bastardinha que tava com a desistência.
06:03Você matou a Clarice, Ivan.
06:05Agora eu vou ser um assassino.
06:08Assassino, não.
06:09Eu fiz o que eu devia.
06:10Eu fiz o que eu precisava.
06:13Não.
06:13Você não se tem louco, não.
06:15Eu sei direitinho o que eu fiz.
06:16Eu...
06:17Isso é pra você ter noção das coisas que eu sou capaz de fazer.
06:20Das pessoas que cruzam o meu caminho.
06:21Você tá entendendo, Adriana?
06:22Tá bom, Ivan.
06:24Mas você tem certeza de que a polícia não tem como descobrir que foi você?
06:30Claro que não.
06:33As digitais que estão na arma são do Adelmo.
06:37O revólver da Regina.
06:39Amante dele.
06:40A cúmplice no crime.
06:43Olha, nem que ele negue pro resto da vida.
06:46Ninguém vai acreditar.
06:46Os dois vão entrar pelo carro.
06:49Parece por um acaso.
06:50A polícia conseguiu chegar.
06:53Eu sei direitinho quem eu vou responsabilizar.
06:57Adriana, eu cometi o crime perfeito.
07:02Só existe um erro fraco nessa corrente.
07:06Eu?
07:08É.
07:09Você.
07:11Fica de bico calado, Adriana.
07:15Porque senão você vai ter o mesmo fim que Clarice teve.
07:19Eu te mato.
07:24Pode desligar, Regina.
07:26Já chega.
07:28Nós não voltamos mais a tocar nesse assunto.
07:31Nem nessa noite, nem nunca mais.
07:34A não ser nas vezes em que ele me ameaçava de morte.
07:38Você deve ter mandado rezar uma missa quando esse vagabundo morreu.
07:42Eu fiquei livre das ameaças dele.
07:46E finalmente eu pude tirar esse peso da minha consciência.
07:51Que peso?
07:53A senhora estava aí?
07:55Do que é que você está falando, menina?
07:57Eu não podia revelar o que eu sabia.
07:59Só agora que o Ivan morreu é que eu pude aliviar a minha consciência.
08:03A troca de quê?
08:05Pelo que eu vi e ouvi aqui, você sabia que estava servindo de álibi para o Ivan.
08:09E sabia que ele ia fazer alguma coisa contra a Clarice.
08:12Por que você fez isso?
08:13Por que você se prestou esse papel?
08:15Mas eu não sabia.
08:17Quer dizer, eu não tinha certeza que ele ia matar a Clarice.
08:19Não, você confessou que era cúmplice.
08:21Só para acalmar o Ivan, para fazer ele confessar.
08:23E você poder gravar.
08:24Essa pita é minha defesa.
08:25Eu precisava de uma arma contra ele.
08:28E quem começou a me envolver nessa história, eu não conseguia mais sair.
08:32Se ele me pressionasse muito, eu estava disposta a fazer uma chantagem.
08:35Ou então, se acontecesse alguma coisa comigo,
08:37essa pita ia ser a prova de que ele é que...
08:39Mas espera aí, por que esse clima de interrogatório?
08:43Eu vim entregar a prova de um crime.
08:45Eu não sou a criminosa.
08:47O Ivan é que é.
08:48Você é cúmplice, é cúmplice, sim.
08:50É cúmplice daquele desgraçado.
08:53Você sabia que a Clarice podia morrer e não fez nada para evitar?
08:56Você sabia que era assassino e não disse nada?
08:59Calma, calma, calma, calma.
09:00Não fique nervoso, não, porque ela já está muito enrolada, tá?
09:03Eu?
09:04Mas eu não fiz de nada, eu sou inocente.
09:06Olha aí, moça.
09:07Eu vou ter o maior prazer em investigar a sua vida.
09:10E lhe indiciar na coautoria desse crime.
09:13Eu?
09:27O simples fato dessa moça aí não ter denunciado o Ivan não é passível de punição, não.
09:32Ela não pode ser acusada nem de obstrução na justiça, detetive.
09:37Bom, ela tinha o dever moral de denunciar, né?
09:43Mas esse tipo de omissão de informação, infelizmente, por si só, não é punível.
09:51E quanto à obstrução da justiça, bom, também não procede não, viu, dona Regina?
09:57Porque durante todo o transcorrer do inquérito, ela jamais foi citada a prestar depoimento.
10:03Mas o que eu vou fazer é o seguinte.
10:05Eu vou reabrir o inquérito e acrescentar essa fita aqui aos autos.
10:10E aí vou atascar em cima de você, minha filha,
10:13uma acusação de participação ou coautoria no homicídio da Clarice, viu?
10:17Bom, mas isso é muito injusto.
10:19Mas foi você mesmo que disse aqui na fita que era a cúmplice do Ivan, não foi?
10:23Mas eu já expliquei, eu estava mentindo pra ele não me matar também.
10:26Vamos ver se o promotor concorda com você.
10:29De qualquer maneira, a sorte dela só vai se resolver quando o inquérito for reaberto face aos novos fatos, não
10:35é?
10:35Regina, faz alguma coisa, você disse que ia me apoiar.
10:38Bom, ela não teria me entregado essa fita se eu não tivesse prometido uma série de garantias a ela.
10:45Vamos raciocinar da seguinte forma.
10:48Essa pobre coitada agiu sobre o coação do Augusto de Ivan, mas não tinha intenção de acobertar nenhum homicídio.
10:54Então, além do que, ela é primária, não tem antecedentes.
11:00Que tal esse raciocínio, detetive?
11:03A gente faz o seguinte, dona Regina.
11:04A senhora raciocina como a senhora quiser, que o promotor lá raciocina como ele quiser.
11:09Estamos entendidos?
11:13Eu tentei, meu bem.
11:15E quanto ao meu caso, essa intimação que o senhor veio trazer caducou, né?
11:20Ah, de hoje, sim.
11:22Mas a senhora se prepare que a senhora vai receber o atalho.
11:24Pra responder por falso testemunho, viu?
11:26Por falso testemunho, meu advogado tira de letra, detetive.
11:30Bom, agora que o cinco acabou, vamos circulando, circulando.
11:35Boa noite, sim.
11:43Agora vamos ter uma conversinha.
11:45Só nós duas.
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